terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ROSAS E CAVACO

Fernando Rosas (BE) diz que BPN é "subproduto" do "cavaquismo" e que Cavaco está a "derrapar"
***Serviço áudio disponível em www.lusa.pt *** Vila Real, 17 jan (Lusa) - O dirigente do BE Fernando Rosas fez hoje um violento ataque a Cavaco Silva,...



BE

Fernando Rosas (BE) diz que BPN é "subproduto" do "cavaquismo" e que Cavaco está a "derrapar"
***Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***

Vila Real, 17 jan (Lusa) - O dirigente do BE Fernando Rosas fez hoje um violento ataque a Cavaco Silva, considerando que este candidato está a "derrapar" para o descontrolo verbal e que o Banco Português de Negócios (BPN) é um "subproduto" do "cavaquismo".

No Teatro de Vila Real, que se encontrava cheio, o docente universitário e dirigente do Bloco de Esquerda fez um dos discursos mais aplaudidos da noite.

E nem mesmo a "gaffe" que cometeu a meio do discurso, dizendo que o campo de Cavaco Silva era o do PSD e PS - um tique de linguagem, como disse um dirigente socialista à agência Lusa -, impediu que Fernando Rosas fosse longamente aplaudido no final da sua intervenção.

"Não é preciso ter nascido duas vezes, como disse Cavaco Silva, para perceber que a sua campanha está a derrapar na inquietação, com perda de controlo verbal, ataques insultuosos aos seus adversários, usando expressões como vil, baixeza ou campanha suja", disse.

Segundo o historiador e ex-deputado, na presente campanha eleitoral tem de colocar-se a seguinte pergunta: "Estamos ou não perante uma questão política, quando queremos saber em que condições um homem que é Presidente da República vendeu ações que não estão cotadas na bolsa, com lucro de 140 por cento, a um banco que é formado pelos seus amigos políticos, em que grande parte deles estão a responder criminalmente por atentado contra a economia e as finanças públicas".

Na sua intervenção, o professor universitário provocou risos na plateia quando reintroduziu a expressão de Cavaco Silva de que é necessário nascer duas vezes para se ser tão sério como ele.

"Ainda bem que ninguém nasceu duas ou três vezes, caso contrário tínhamos o país povoado de cavacozinhos autoritários a envenenar-nos todos os dias", contrapôs, num discurso em que atual chefe de Estado também foi acusado de populismo.

"Populismo significa fingir que se é amigo dos pobres. Ser amigo dos pobres não é criar as sopas do Cavaco iguais às sopas do Sidónio [Pais] algumas décadas atrás", apontou Fernando Rosas, condenando depois "a caridadezinha de sopas para os pobres".



PMF

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

Lusa/fim

ODISSEIA NO PIOLHO


Estou no Piolho e bebo
o Piolho está quase vazio
estive a falar com o Simões
e os empregados
falam de futebol
não fui correcto com a Gotucha
e agora estou a beber
e a olhar para as gajas
da televisão

Não me espetes os mercados nos cornos!
Os mercados são a negação da vida
os mercados castram a potência
e a alegria
não me atires os poetas da emenda
quero escrever o que me vem à cabeça
não estou à venda nos mercados

Chega o anão
desta vez não torce pela selecção
dirige-se à casa de banho
e eu escrevo
a minha arma é a caneta
a Fátima Lopes olha para mim
realmente antes andar bêbado
do que gramar esta merda

Sou o poeta dos cafés e dos bares
tusso
a Gotucha já não me liga
não deveria tê-la tratado assim
mas agora estou aqui
tenho a vida toda à minha frente
não sou um gajo consagrado
mas já tenho aparecido nos jornais
estou contra Deus
não suporto o Presidente
ainda assim vou votar
mas sou de mim
não pertenço a nenhuma corte
por isso ando sozinho
não sou de ninguém
deixei o partido
sigo o caminho
que conduz a mim mesmo

Morte aos mercados!
Os mercados não comandam
a minha vida
o Presidente e o Governo
não me dizem o que tenho de fazer
sou completamente livre
olhai!
Sou completamente livre
não estou nos gráficos
nem nas estatísticas
teria vergonha
de usar gravata
não procuro emprego
nem o caralho que seja
estou vivo
hoje, no Piolho, às 19:51
não dependo de nada
a não ser da cerveja, do papel
e da caneta
sinto-me iluminado
sou de mim
vivo
mando foder os mercados
e a castração social
não me deis a mão
estou bêbado
embriagado da vida
não sou o intelectual sisudo
não sou o ser respeitável
sou meu
metei os mercados pelo cu acima!
Não estou ao serviço de seita nenhuma
não tenho que prestar contas a ninguém
rio
gozo
cuspo nas caras mercantis
tenho uma fé inquebrantável no homem novo
mostro-me ao mundo
mas não estou à venda na praça
não me atireis pecentagens
não me coloqueis na bolsa
sou completamente livre
escrevo o que me apetece
não quero compromissos
nem conversas mansas
sou sobretudo vontade
permaneço aqui no Piolho
os mercados não me entram
pelos cornos acima
olho para o cu da gaja
sou completamente eu
não há aqui leis
só a cerveja que vem
às vezes vejo a bola
mas também não sou dela
estou bêbado
não tenho vergonha de estar bêbado
continuo a escrever
a minha vida é escrever
sou egocêntrico
mas, ao menos, não me deixo converter
alguém há-de ler-me
não tenho que estar
preocupado com isso
sou ébrio
não estou a competir
em nenhum campeonato
não ando atrás de ninguém
não sigo os fazedores de opinião
existo aqui e agora
há alturas como esta
em que não tenho quaisquer regras
a barriga incha
que se foda!
Enquanto estiver vivo
derramarei palavras
no papel
enquanto estiver vivo
berrarei essas palavras
porque não sou dos mercados
porque não suporto o Presidente
porque amo a mulher ausente

Iluminações
é o que tenho
iluminações
no Piolho às 20:23
não me peçam para obedecer
a uma qualquer bandeira
a Pátria que vá
para a puta que a pariu!
Estou hoje mais vivo do que nunca
pouso os óculos
hoje sou Quixote
hoje enfrento os moínhos
grito como o Do Vale
faço discursos à nação
poderia ser candidato
não devo mesmo nada a ninguém
remo contra a maré
não sou niilista
não sou derrotista
tenho fé no homem que aí vem
espeto a caneta na folha
sou do bem mas tenho maldade
sou o homem que escreve à mesa~do Piolho
não sou o Lobo Antunes
nem o José Luís Peixoto
escrevo livremente
o que vem da veia
não tenho grandes preocupações
com a forma
e depois vou berrar
estas coisas ao Pinguim
era lá que estava o Joaquim
e eu sou uma espécie de sucessor
deliro-dizem
vou até ao fim
Odisseia no Piolho
morte aos mercados
e aos seus profetas!
Dai-me poetas,
àcidos, profetas
dai-me para a veia
que eu já não vou cair
olho para a gaja
sou Hamlet
príncipe da Dinamarca
ouço vozes
delírios
dou-me ao mundo
não espereis de mim lirismos
versos bonitos
sou aquele que regressa.

Porto, Piolho, 17.1.2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DA VIDA

E veio o poema. Tenho, de facto, o direito de passar o dia a pensar e de passar alguma coisa do que penso para o papel. A Constituição não me obriga a procurar emprego nem a andar atrás do dinheiro. Aliás, acho essas actividades absolutamente mesquinhas e primárias. O que importa é a vida por si mesma. Não as patranhas que nos impõem. A partir da adolescência começam a impor-nos o mundo do trabalho e da norma. Castram-nos com a economia. O que vale é que comecei a interessar-me pela literatura e pela filosofia.
Desde a infância que sou do pensamento e da vida interior. Esse pensamento e essa vida interior têm-se refinado. Quando estou perfeitamente lúcido acho os pressupostos da "vida prática" absolutamente ridículos. Sempre em busca do safar-se, do andar sofregamente atrás de uma tábua de salvação. A vida não pode ser andar permanentemente de calças na mão, permanentemente com medo disto e daquilo. A vida é ousar. A vida é desafiar o instituído. A vida não pode ser o tem que ser, nem o que está determinado por fora. A vida é mandar os deuses à merda. A vida é ser dono do seu próprio destino. A vida é andar à solta. A vida é certamente rir, gozar com os poderes e, se possível, acabar com eles. É claro que a vida também é poder, vontade de poder. Mas um poder interior que clama por liberdade. Um poder que rasga a timidez e as castrações. Um poder sem limites, dionisíaco, uma potência que quer saltar cá para fora, que, no artista, no criador, tem uma força impressionante. É da vida que tenho que viver, não do dinheiro, não do emprego, não do mercado. É da vida que venho. Não há que ter medo. Por isso, às vezes, rebento.

NÃO ME ATIRES...


Não me atires mercados, leilões, dívidas
não sou desse mundo
nem quero ser
sou da palavra que fere,
que mata
ando por aqui à solta
não tenho obrigações nem negócios
estou simplesmente aqui
a agarrar o dia
não me atires empregos, horários,
preocupações
não me contamines
tenho o direito
de passar o dia a pensar
não me atires relógios, televisões
não me faças correr
atrás do dinheiro
ou do que quer que seja
tenho o direito
de permanecer aqui sentado
não tenho que dar-te explicações.


Porto, Piolho, 15.1.2011

Estou a desabituar-me de escrever poesia. Começa a ser preocupante. Se bem que, por exemplo, este texto pudesse vir na forma de verso. Mas parece que estou a perder o jeito. É preciso ter cuidado. Não posso deixar de ser o poeta. O poeta que escreve no Piolho, que já dedicou um livro ao Piolho. O poeta que quer dizer algo ao mundo, que está aqui porque quer estar aqui. Há muita gente aqui hoje no Piolho, mas ninguém conhecido. Hoje tenho uma performance no Hard Club. Tenho de me precaver. Há algum tempo que não subo ao palco. Tenho de ser brilhante hoje. Queria escrever algo de novo mas corro o risco de ser redundante.

domingo, 16 de janeiro de 2011

PCTP/MRPP

PARTIDO COMUNISTA DOS TRABALHADORES PORTUGUESES PCTP/MRPP)

VOTAR EM MANUEL ALEGRE
PARA DERROTAR CAVACO SILVA!


O objectivo principal dos trabalhadores e do povo português nas próximas eleições presidenciais é derrotar Cavaco Silva.

Cavaco Silva é, com José Sócrates, o principal responsável pela gravíssima crise em que o país se encontra, não apenas pelos dez anos em que foi primeiro-ministro, mas também pela cobertura e incentivo que, enquanto Presidente da República, prestou às medidas celeradas do governo Sócrates contra os trabalhadores e o povo português.

É preferencialmente em torno de Cavaco Silva que a direita hoje se organiza para, ultrapassando a solução reaccionária mas pífia de Passos Coelho, preparar uma alternativa musculada e de cariz fascista ao governo Sócrates, antes que este seja derrubado, como se impõe, pela força e combatividade da luta popular.

Cavaco Silva é, além disso, um encobridor activo e um beneficiário directo de uma das maiores fraudes financeiras que alguma vez ocorreu em Portugal (centrada no banco BPN), a qual, contando com o apoio e cumplicidade do actual primeiro-ministro, originou um enorme buraco negro que engoliu já cerca de 5 mil milhões de euros retirados dos impostos pagos pelo povo português.

Manuel Alegre é o único candidato em condições de impor uma derrota a Cavaco Silva na segunda volta das eleições presidenciais. O apoio oportunista, envergonhado e equívoco do PS a esta candidatura não deverá desmobilizar o voto dos democratas e patriotas à candidatura de Manuel Alegre. Esse voto deve ser dado maciçamente já no dia 23, para impedir uma eventual vitória de Cavaco Silva à primeira volta e para criar a mobilização necessária para derrotar o candidato da direita na segunda volta.

A eleição de Manuel Alegre para a Presidência da República não resolverá os problemas que estão a mergulhar as famílias trabalhadoras em Portugal nas mais iníquas condições de desemprego, de fome e de miséria. Sobre isto não deve existir qualquer espécie de ilusão. Só a luta revolucionária das massas trabalhadoras poderá impor uma solução de governo do povo e para o povo. Mas a mobilização maciça do eleitorado de esquerda e democrata para eleger Manuel Alegre, derrotando Cavaco Silva, é, nas condições presentes, um passo de extraordinária importância para que os objectivos daquela luta possam vir a ser alcançados.

NO PRÓXIMO DIA 23, VOTA MANUEL ALEGRE!

Lisboa, 16 de Janeiro de 2011.

O Comité Central do PCTP/MRPP


www.pctpmrpp.org pctp@pctpmrpp.org

REVOLUÇÃO NA TUNÍSIA


É com esta frase que milhares tunisinos vieram para a rua rejubilarem-se pela fuga do seu antigo presidente Ben Ali.
Depois de semanas de enormes manifestações contra os aumentos dos bens da primeira necessidade e contra o brutal desemprego, Ben Ali foge para a Arábia Saudita, sendo empossado o chefe do Parlamento tunisino, Foued Mebazaa, como Presidente interino da Tunísia.
M ais de 40 mortos entre os manifestantes, depois de confrontos com as forças policias que se sentiram impotentes em controlar a revolta do povo tunisino trabalhador, onde os jovens foram a vanguarda desses combates. Tunísia é possível…mas sob o nosso ponto de vista, a luta não está ganha, mesmo que os preços dos bens da primeira necessidade não tenham aumentado, como previsto, a clique burguesa do regime continua no poder e as massas não o controlam, portanto ganha uma batalha, é necessário avançar para outros combates, contra as causas do desemprego e do desenvolvimento estagnado da economia tunisina. Em suma o sistema capitalista vigente.

http://lutapopularonline.blogspot.com

COELHO E CAVACO

Coelho acusa Cavaco de sofrer de “amnésia” por não se lembrar como comprou a casa de férias
15.01.2011 - 17:32 Por Idálio Revez

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« anteriorseguinte »O candidato da ilha da Madeira puxou dos galões de deputado para que a GNR o deixasse fazer campanha, frente à casa Gaivota Azul, na praia da Coelha, em Albufeira.
O candidato Cavaco Silva “sofre de amnésia” quando se trata de explicar como adquiriu o seu património pessoal. A acusação parte do candidato José Manuel Coelho que se deslocou ao Algarve para conhecer a casa de férias do adversário, junto à praia da Coelha, em Albufeira. “Há coisas que ele devia explicar aos portugueses”, disse, sublinhando que o que transpira para a opinião pública é que a casa Gaivota Azul foi obtida de uma “forma muito nebulosa”, e o assunto, sublinhou, não deve ser ignorado.

José Manuel Coelho diz que casa algarvia da família Cavaco Silva é “uma vivenda grande, mas também não é assim uma vivenda descomunal”. A propriedade – uma moradia de três pisos (seis quartos, piscina e um quintal com 1600 metros quadrados, “não está em causa, o que está em causa a maneira suspeita como a adquiriu”. O que levou a chamar a atenção para este facto, acrescentou, “foram as dúvidas que se levantaram, e aquilo que as pessoas comentam”. No local, viu-se confrontado com as reticências colocadas pelo guarda a GNR, a prestar serviço de segurança à vivenda. O agente da autoridade lembrou que a zona é reservada só a moradores e “pessoal autorizado”, mas quando o candidato puxou pelos galões de deputado da Assembleia Legislativa da Madeira, não levantou obstáculos

A revista Vião, na última edição, relata que o candidato apoiado pelo PSD e CDS tem por vizinhos Oliveira e Costa e Fernando Fantasia, destacadas figuras da Sociedade Lusa de Negócios (SLN). No que diz respeito à forma como comprou a casa, o Presidente da República disse não se recordar em que cartório assinou a escritura, quando foi confrontado com o facto da propriedade não figurar nos registos da Conservatória do Registo Predial de Albufeira, nem cartório notarial. “As pessoas dizem aqui, no Algarve, que a casa foi oferecida pela SLN, e isso deve ser esclarecido”, insiste o adversário. “As pessoas falam, mas o senhor professor não esclarece, lança a dúvida nos portugueses”.

O candidato da ilha da Madeira, aludindo ao facto de Oliveira e Costa, ex-presidente do BPN, ser seu “vizinho e amigo”, socorreu-se de um aforismo para lançar suspeitas: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. As dúvidas, acrescentou, não devem ficar para esclarecer só depois das eleições. José Manuel Coelho pretende que os “portugueses reflictam sobre a corrupção” essa foi a razão que deu, em declarações ao PÚBLICO, para ir conhecer a casa Gaivota Azul.

O elemento da GNR, de serviço no local, num primeiro momento, procurou impedi-lo de fazer campanha, mas depois acabou por não colocar quaisquer obstáculos. “O senhor disse – você não está autorizado a andar aqui”, contou. José Manuel Coelho contrapôs: “Oh meu amigo, você mostre-me onde é que isso está escrito, eu como deputado até posso circular em lugares condicionados, sou deputado à Assembleia Legislativa da Madeira. Diga ao seu superior hierárquico que houve uma página do livrinho que ele não leu, porque não me pode impedir de estar aqui”. O elemento da autoridade “compreendeu” e o candidato debitou a sua mensagem.

www.publico.clix.pt

CAVACO


Onde pára a coerência?
15.01.2011 - 18:28 Por São José Almeida

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A coerência é uma característica humana tida como louvável. E na política ela é mesmo apontada como imprescindível. Pelo menos, era assim de acordo com as características e as regras da vida política e democrática, antes da cedência dos políticos à facilidade do mediatismo e da política consumista conduzida por critério publicitários de manipulação das pessoas. Cedência essa que potenciou o populismo e a demagogia e que leva os políticos a dizerem não importa o quê, o mesmo e o seu contrário, desde que isso renda votos.Nuno Ferreira Santos

Cavaco Silva em campanha em Valpaços

E é lamentável ver como Cavaco Silva, que é um dos mais preparados e experientes políticos portugueses da democracia, que determina a vida política há 25 anos, ceder como tem cedido ao populismo nesta campanha eleitoral em que tenta a sua reeleição. Depois de ter cavalgado a onda dos protestos dos professores, depois de se ter juntado à causa dos agricultores – ele que negociou a formatação da agricultura portuguesa à Comunidade Europeia -, depois de ter acenado com o fantasma da crise política – quando desempenhou um primeiro mandato a distanciar-se de dramatizações políticas -, decidiu agora criticar os cortes salariais da função pública e considerá-los injustos. Injustos porque há “largos milhares” de pessoas que não sofrem a medida, isto é, os trabalhadores do sector privado. Além de que “não foram pedidos sacrifícios a outras pessoas com rendimentos muito maiores”.

Ora o que é espantoso é que o Cavaco Silva candidato é o mesmo que há cerca de um mês se vangloriou de ter promovido o acordo entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho, mediado pelo seu amigo Fernando Catroga, que possibilitou a aprovação do Orçamento do Estado para 2011 em que esses cortes salariais são decretados. De facto é lamentável ver um político com história e um estadista ceder ao facilitismo pela caça ao voto

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

DO SABER E DA POTÊNCIA


Continua tudo nas mãos dos mercados e agora dos leilões da dívida. O absurdo a que estes dias nos conduzem. Por isso há Presidentes como Cavaco, primeiros-ministros como Sócrates. A vida reduzida a isto, às flutuações de números que só uns iluminados entendem, às vontades de especuladores sem rosto. Não, não vou por aí. Os mercados não me podem pôr deprimido, a bolsa não me entra pelas entranhas. Não fui eu que endividei o país. Não fui eu que estive no Governo ou na Presidência. Acredito num homem que não mercadeja, que não está no mercado. Acredito num homem pleno, livre, que afirma a vida, que não se deixa levar pelas patranhas que nos espetam nos cornos todos os dias. Sim, tenho de seguir a minha via, uma via quase religiosa, como a do padre Mário de Oliveira. Há sempre o homem que cai e se levanta. Que até se pode servir dos media. Mas que não pode estar preso ao que quer que seja por demasiado tempo. Não, não falarei a linguagem dos mercados. Há, de novo, uma revolta interior. Não me venderei na praça. Aqui, na "Motina", a 12 de Janeiro de 2011, redescubro o mundo. Sou o homem sem fronteiras. Sempre tive uma vida interior rica. É do contacto, do casamento da vida interior com a vida exterior que se faz a vida. E como ela é superior aos mercados e aos políticos ao serviço dos mercados, aos carros que passam. Como me sinto pujante aqui na confeitaria. Como nasço de novo, uma vez mais. Com "Viver Para Te Ver", dos UHF na rádio. Não, não tenho de andar a auto-censurar-me. Não fui eu quem pôs o mundo assim. Nada tenho a ver com a economia. Sou da vida. Nem sempre a consigo viver mas fujo sempre para ela. Não me levais, ó profetas da morte. Não me levas, ó "Pingo Doce". Não me levais com conversas mansas. Sou doido e por isso me safo. Ficai com os vossos bancos, com as vossas bolsas, metei-as pelo cu acima. Hoje nasço outra vez. Estava em baixo mas agora já estou em cima. O país arde e eu assisto. Sou doido como Nero mas sou anarquista. Preocupo-me com as pessoas. Agarro-me ao texto como Moisés às tábuas, como Camões aos "Lusíadas". Sou completamente doido. Por isso amo a vida, o instante, o aqui e agora. Não façais de mim o homem da família. Nada tenho a ver com as vossas contas. Não sou da crise nem da economia. Nem sequer tenho conta no banco. Não tenho qualquer responsabilidade na dívida pública. Sou uma voz delirante. Sou o homem que nasce aqui, hoje, agora, na "Motina". Não quero negócios nem compromissos. Sou do ócio. Sou da vida. Não sou aquele que quereis. Não sou aquele que venceis. Nada tenho a temer. Não gosto de empresas nem de capitalistas. Não me toqueis. Não me deis acções nem cotações. Não sou desses. Teria vergonha. Nasço outra vez. Não tenho quaisquer responsabilidades. Não me toqueis. Estou farto das vossas conversas. As vossas conversas e as vossas notícias dão cabo de mim, matam-me. Prefiro ser doido. Prefiro não ter obrigações. Prefiro gritar em plena praça. Estou na graça, estou de graça. Ninguém me tira daqui. Sou ébrio. Sou ébrio, mesmo sem álcool. Acredito num novo mundo, num novo homem. Num homem sem dinheiro, sem economia. Chamai-me utópico, chamai-me irrealista, eu estou para lá. Escrevo e o que escrevo fica aqui cravado, mesmo que nunca seja publicado, mesmo que não vá para o blog. Não, sou daqui e sou daqui mais do que nunca. Nasço e falo com a D. Rosa. A D. Rosa é uma espécie de anjo que me visita de vez em quando, de anjo sem economia que fala da vida e das doenças. Não, não me posso prender. Tenho iluminações na confeitaria. Nada tenho a perder. Nasço outra vez. Esta é a verdade. A única verdade. Não há aqui cavacos. Não há aqui castração social. Sou do homem que nasce outra vez. Sou do homem que se torna naquele que é. Há um mundo novo. Há uma nova vida no coração do homem. Não me atireis bancos, dívidas, notícias. Sou o homem que se completa. Sou o homem do eterno retorno. Não me dou a todos, não me mostro a todos mas sou o homem. Posso até ser desajeitado, desastrado nas tarefas manuais mas sou o homem que fica. Não há aqui corte e costura, não há aqui censura. Sou o que escrevo, nada está acima de mim, nem Deus nem os mercados. Estou farto da linguagem mesquinha das percentagens. Estou farto de estatísticas. Rompi com a economia. Não me peçam para ser outro que não sou. Não sou esse ser que está a meio, que não se assume, sou da vida, da potência. Vou atrás da emoção. Não espereis de mim condescendência. Sou da potência. Da vontade de potência. O que acontece é que a economia por vezes parece vencer-me, faz de mim um Dionisos efeminado, mas depois há dias como hoje em que a potência regressa, vinda não sei de onde. E volto a ser aquele que amo, aquele que diz a palavra, aquele que enfrenta o inimigo mas mais sabedor, mais puro. Sou do saber e da potência.

UM HOMEM DE DOMINGO


Manhã de domingo em Braga. Um bracarense, de novo. Um bracarense, como nunca. Manhã de sol em Janeiro. O escritor escreve. É essa a sua missão. Mesmo que não chegue às luzes da ribalta, essa é a sua missão. À sua frente, a capela. Os carros passam na estrada. O escritor já esteve em muitos lados. Já viu o bom e o pior. Já esteve mergulhado na depressão. Tinha medo das pessoas. Não conseguia comunicar. Felizmente, esses tempos estão longe. Há uma luz que brilha em si. Acredita no homem, num certo tipo de homem, num homem a construir. Um homem que até pode ser amável com os comerciantes mas que desconfia do comércio e da circulação da moeda. Um homem que é do espírito e da emoção, que rejeita os cavacos e a economia. Um homem que é da vida interior, que procura a beleza e a poesia. Um homem que sabe que o tempo joga a seu favor, que não gosta de pressões nem de pressas. Um homem de domingo, que não se preocupa com o avançar dos ponteiros do relógio, que observa os católicos a sair da missa. Um homem no domingo. Que até poderia vender livros na praça. Um homem que não se maça. Um homem que se preocupa com a Gotucha. Um homem do mundo, que pertence ao mundo e que tem à sua frente a chávena de café, como Pessoa. Não vai receber 1500 euros por esta crónica mas vai cantar Braga como poucos o fizeram. Sim, é desta cidade. É aqui que se sente em casa, no café snack-bar "S. Cristóvão", na Ponte. Já não tem o sectarismo e a intolerância de outros tempos. Já não pensa que a extrema-esquerda é a dona da verdade. Acredita fundamentalmente na vida. Na vida que também corre nesta folha de papel. Na vida que vale por si mesma. Na vida que tentam domesticar. O homem, ao fim destes anos, não se deixou domesticar. Várias vezes o têm tentado mas ele regressa sempre a si mesmo. É egocêntrico. Talvez se devesse dar mais ao mundo. Mas também é uma forma de defesa. O mundo não o satisfaz. Mas não há dúvida que é melhor que o céu esteja azul.

TRIP NA ARCADA


Trip na Arcada. O poeta da Arcada. Agora sou mesmo. Não estou na Arcada mas a menina é bela e traz a torrada. O nome dela é Sónia. E eu sou um escritor profissional. Esqueço-me das horas. A Gotucha foi ao Porto mas volta. Acho que só dormi à hora do almoço. Hoje acredito. Acredito verdadeiramente em mim. Afinal, consigo mobilizar gente sem precisar de qualquer partido, de qualquer organização atrás. Sou capaz de, em parte, convencer as pessoas de certas coisas. A escrita flui. Precisava mesmo de estar só, Gotucha. À mesa do homem só. Não me posso prender demasiado. O artista precisa da solidão. Ama-a. Vê mulheres a beijarem-se no espelho mas ama-a. É, de novo, dono da palavra. Não pode ter horários nem compromissos. É. Existe. Está só no mundo mas conhece o homem. Aprofunda-o. Não vai na conversa. Sabe que a criação é livre, espontânea. Com umas emendas aqui e ali, mas sem que a emenda suplante a criação. Porque o essencial é a criação e o homem livre. Há alturas em que o poeta é absolutamente livre, mesmo dentro desta sociedade. Tudo depende do estado de espírito, tudo depende de o artista se soltar ou não. Não, não é o poeta da corte nem o poeta do corte. Não se reduz á exibição do ego. É da noite. Percorre a noite. Olha a menina e deseja-a. Fá-la compreender isso mas não se baba. é da noite. Ama-a.

O HOMEM DO MUNDO

Mesmo quase teso
mesmo quase mudo
as mulheres preferem
o homem do mundo
ele compreende
ele conhece o jogo
as mulheres querem
o homem do mundo
já publicou livros
já foi ao fundo
as mulheres preferem
o homem do mundo
vai aos bares
já não tem medo
elas preferem
o homem do mundo
pode parecer doido
pode ser profundo
elas preferem
o homem do mundo
pode ser tímido
torna-se menino
elas preferem
o homem do mundo
pode parecer atado
pode parecer inseguro
mas elas preferem
o homem do mundo
já esteve no inferno
já conhece tudo
elas preferem
o homem do mundo.


Braga, Janeiro 2011.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

LIVRARIA LELLO

Secções PÚBLICO Edição Impressa:

Suplementos PÚBLICO: PÚBLICA, ÍPSILON, FUGAS,

A arquitectura do livro, capítulo 104

Foi considerada pela Lonely Planet como a terceira melhor livraria do mundo. A Lello é uma instituição no Porto e visita obrigatória para quem vem de fora. Faz 104 anos para a semana. Susana Cruto (texto) folheia algumas páginas das suas histórias. ?Nelson Garrido assina as fotografias

Entra-se e há livros... muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na Rua das Carmelitas, no Porto, a Livraria Lello & Irmão faz na próxima quinta-feira 104 anos e já mostrou a quem por lá passa que é mais do que uma loja de instrumentos de leitura.

Perto da ala nocturna da Rua das Galerias de Paris, onde os mais jovens acolhem a noite com risadas e euforia, está a requintada e histórica livraria - uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.

Tacos de madeira, organizados, compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.

Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. "É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres ejam maus para o negócio dos livros", partilha. Mas também tem uma qualidade. "Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto...E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista."

A Lello é um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da Rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.

Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares, distinguem-se os ilustres homens das letras, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme O Xangô de Baker Street recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.

Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. "A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro, do convite à leitura e do convívio entre leitores", qualifica.

O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello & Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu que ficou encantado. E comenta, sem rodeios, as virtudes desta obra. "É um espaço bonito, muito bem feito, que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo, como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço", refere.

A Lello & Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. "A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com..." - é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. "Os turistas, além de ficarem espantados à entrada - embora a conheçam de fotografias, querem conhecer o espaço ao vivo -, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, azulejos, guias turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria - brochura com a história, postais, etc.", conta.

Há quem diga ao ouvido que, se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: "Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais." E deixa correr a imaginação: "Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais." Mas põe um travão na fantasia e termina: "Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos."

E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: "Nasceu neo-gótica como era a grande moda do século XIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello."Livraria Lello

Rua das Carmelitas, 144

4050-161 Porto

Tel.: 222002037

lelloprologolivreiro.com.sapo.pt

Horário de funcionamento: das 10h00 às 19h30 (sábados até às 19h00). Fecha aos domingos.





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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011