segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

ROMPENDO AS AMARRAS


TERRORISMO POÉTICO
Hakim Bey

DANÇAR BIZARRAMENTE A NOITE INTEIRA em caixas eletrônicos de bancos. Apresentações pirotécnicas não autorizadas. Land-art*, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alienígenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-terroristas. Seqüestre alguém & o faça feliz. Escolha alguém ao acaso & o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna - digamos, cinco mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia. Mais tarde, essa pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário & talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existência.

Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível etc.

Fique nu para simbolizar algo.

Organize uma greve na escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência & beleza espiritual.

A arte do grafite emprestou alguma graça aos horríveis vagões de metrô & sóbrios monumentos públicos - a arte - TP também pode ser criada para lugares públicos: poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques & restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal), transmissões de rádio pirata, cimento fresco...

A reação do público ou o choque-estético produzido pelo TP tem que ser uma emoção pelo menos tão forte quanto o terror - profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia dadaísta - não importa se o TP é dirigido a apenas uma pessoa ou várias pessoas, se é "assinado" ou anônimo: se não mudar a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.

O TP é um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem ingressos ou paredes. Para que funcione, o TP deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia). Mesmo as táticas de guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez tenham agora se tornado muito conhecidas & previsíveis.

Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um ato consciente por uma vida deliberadamente mais bela - deve ser o TP definitivo. O Terrorista Poético comporta-se como um trapaceiro barato cuja meta não é dinheiro, mas MUDANÇA.

Não faça TP para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite a política, não fique por perto para discutir, não seja sentimental; seja impiedoso, corra riscos, vandalize apenas o que precisa ser desfigurado, faça algo que as crianças lembrarão pelo resto da vida — mas só seja espontâneo quando a Musa do TP o tenha possuído.

Fantasie-se. Deixe um nome falso. Seja lendário. O melhor TP é contra a lei, mas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.

* Tipo de arte que usa a paisagem, normalmente natural, como objeto artístico, sendo a própria natureza (e seus fenômenos, chuva, vnto, etc.) elementos constitutivos da obra.

in http://rompendoasamarras.blogspot.com

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

UHF


"Violenta Violência" é o nova (velha, de 1979) canção forte dos UHF que pode ser ouvida em www.myspace.com/uhfrock. Os UHF acabam de editar o II Volume das Raridades- Canções Prometidas. Um abraço, António.
www.uhfrock.com

GOTUCHA

Faz hoje 15 anos que nos conhecemos.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

MARX E NIETZSCHE


Marx e Nietzsche
discutem no meu cérebro
e as mulheres
vêm à confeitaria
falar de doenças.

MANIFESTO ANTI-TELES OU EPOPEIA EM ROCHA MAIOR


O Teles estuda com método
O Teles é um aluno aplicado
O Teles tem horas certas
para se levantar, para se deitar
e para estudar
O Teles é um caso de sucesso
Morra o Teles! Morra! Pim!

O Teles tem uma carreira
O TEles trabalha com método
O Teles não apanha bebedeiras
O Teles não sai dos trilhos
O Teles está nos antípodas
do Rocha e do Ribeiro
O Teles é um antílope
O Teles anda sempre controlado
O TEles é disciplinado
O Teles nunca falta ao trabalho
O Teles é um caso de sucesso
Morra o Teles! Morra! Pim!

O Teles está feito com o sistema
O Teles nunca tem um problema
O Teles é um dilema
O Teles está no poema
O Teles é uma borboleta
O TEles é uma marioneta
O TEles é uma avioneta
O Teles vai lá das canetas
O Teles é um maneta
O Teles bate uma punheta
O TEles é um esteta
O Teles é um personagem
de opereta
O Teles é um caso de sucesso
Morra o Teles! Morra! Pim!

O Teles é um burguês
O TEles é um gato maltês
O Teles anda sempre direitinho
O TEles está feito com o povinho
O TEles subiu a pulso
O TEles é eunuco
O TEles suou atrás do canudo
O TEles enganou meio mundo
O Teles nunca vai ao fundo
O TEles é politicamente correcto
O Teles nunca foi insurrecto
O Teles é um matreco
O Teles fala em dialecto
o Teles é o aluno predilecto
O TEles acende a tocha
O Teles nunca se deu com o Rocha
O TEles é o maior
O TEles não conhece a dor
O Teles foi ao cu ao professor
O TEles não escreve poemas
O Teles nunca esteve em Atenas
O TEles é um chato
O Teles é um pato
O TEles tem óptimas notas
O Teles anda de fatiota
O TEles não tem sexo
O TEles é um abcesso
O Teles é um sucesso
Morra o Teles! Morra! Pim!

O TEles não dança
O TEles não tem pança
O TEles nunca se cansa
O TEles é um carreirista
O TEles é um oportunista
O TEles dá-se bem com
os capitalistas
O TEles saúda-me
O TEles tem bom coração
O TEles é um cabrão
O TEles anda de pastinha na mão
O TEles obedece ao Estado
O Teles está em todo o lado
O TEles preenche-me o cérebro
O Teles não gosta dos Doors
O TEles torna o poema interminável
O Teles é reciclável
O Teles é um bom sacana
O Teles é um banana
O TEles nem imagina
o que escrevo acerca dele
O Teles desfila na passerelle
O TEles é um caso de mobilidade
e de ascensão social
o Teles não aparece no Telejornal
O Teles nunca vai às putas
O Teles não participa nas lutas
O Teles não tem depressões
O TEles está ao serviço
dos senhores dos milhões
O Teles é um pateta
Õ Teles não me sai da cabeça
O TEles não vai à bola
O TEles não fala da bola
O TEles é um estratega
O TEles é racional
O Teles tem moral
O Teles nunca se expõe
O Teles põe e dispõe
O Teles tem uma vida mesquinha
O teles come galinha
O Teles acredita no Pai Natal
O Teles nunca esteve num bacanal
O TEles vê o Telejornal
O Teles comenta o Telejornal
O TEles acredita nas notícias
O Teles nunca esteve no Jardim das DElícias
O Teles é o senso comum
O Teles faz pum
O Teles não nos deixa sair daqui hoje
O Teles ilumina-me
O Teles abençoa-me
O TEles não gosta de rock n' roll
O Teles só se envolve
quando lhe interessa
O Teles é uma peça
O TEles não tem pica
O Teles não tem piça
O Teles dá-me pica
O Teles é infinito
O Teles não vai ao pito
O Teles é adorado pelo Sócrates
O TEles está entre os deuses
O TEles é funcional
O TEles é capital cultural
O Teles nunca mais acaba
O TEles nunca se gaba
O Teles é comedido
O TEles nunca foi fodido
O Teles adora o Sócrates
O teles masca chiclete
O Teles vai à Rosete
O TEles é um cidadão empreendedor
O Teles é um cidadão cumpridor
e o poema nunca mais acaba
e o Teles nunca mais se enraba
talvez me ponha em Tribunal
talvez se queixe ao Comité Central
Que se foda!
Afinal de contas, não tenho nada a perder
não sou o Teles
talvez seja também burguês,
aristocrata talvez
não tenho de me identificar
com os explorados
não tenho de ser marxista-leninista
nem anarquista-moralista
não tenho de andar a enaltecer o povo
nem o polvo
afinal de contas, é mais propaganda
para o PSSL
precisamos de 5000 filiados
Morra o Teles! Morra! Pim!


Vilar do Pinheiro, 27.12.2007

CEUTA


4 poetas e 1 guitarrista almoçaram juntos no "Ceuta"
1 vocalista, 2 guitarristas, 1 baixista e 1 baterista almoçaram juntos no "Ceuta"
3 desempregados, 1 professor e 1 publicitário almoçaram juntos no "Ceuta"
4 poetas, 3 guitarristas, 1 vocalista, 1 baixista, 1 baterista, 3 desempregados, 1 professor e 1 publicitário almoçaram juntos no "Ceuta"
40 poetas, 30 guitarristas, 10 vocalistas, 10 baixistas, 10 bateristas, 30 desempregados, 15 professores, 12 publicitários, 5 contabilistas, 3 futebolistas, 2 chulos e 1 vendedor de vassouras almoçaram juntos no "Ceuta"
400 poetas, 321 guitarristas, 105 vocalistas, 97 baixistas, 120 bateristas, 314 desempregados, 137 professores, 117 publicitários, 17 contabilistas, 7 futebolistas, 5 chulos, 3 putas, 2 lixeiros e 1 vendedor de vassouras almoçaram juntos no "Ceuta"
4327 poetas, 3221 guitarristas, 1014 vocalistas, 999 baixistas, 1255 bateristas, 3417 desempregados, 1527 professores, 1884 publicitários, 115 contabilistas, 98 futebolistas, 54 chulos, 37 putas, 16 toxicodependentes, 9 homossexuais, 7 lixeiros e 1 vendedor de vassouras almoçaram juntos no "Ceuta"
40211 poetas, 30007 guitarristas, 11014 vocalistas, 11917 baixistas, 12323 bateristas, 31223 desempregados, 15616 professores, 18114 publicitários, 15007 cineastas, 8047 ginastas, 1015 contabilistas, 887 futebolistas, 535 empregados de mesa, 429 chulos, 357 putas, 127 toxicodependentes, 91 homossexuais, 73 lixeiros e 1 vendedor de vassouras almoçaram juntos no "Ceuta"

O "Ceuta" rebentou.

MRPP


Ninguém há-de calar a voz da classe operária!
Depois de dezenas de anos de tentativas frustadas e de enganos, e de cinco anos de luta tenaz empreendida pelo MRPP a classe operária portuguesa fundou o seu partido comunista em 26 de Dezembro de 1976. Hoje comemoramos os 31 anos do PCTP/MRPP. Também hoje o estado da ditadura da burguesia nos confronta com exigências para a continuação da nossa existência legal. Não foi a PIDE que nos calou, não foi o PCP nem o COPCON que nos conseguiu calar, não será o bloco central do PS/PSD, com a conivência dos restantes partidos parlamentares, que nos calará.

As tentativas têm sido muitas: primeiramente a negação de um tratamento igual a todas as outras candidaturas, das candidaturas eleitorais do partido, ao arrepio de qualquer princípio democrático, negando, simultaneamente, a liberdade da expressão das opiniões dos comunistas; não chegou! Juntaram umas multas sobre as contas, em que o que é exigido não é que as contas estejam certas mas que sejam organizadas como a contabilidade de uma empresa, quando é sabido que tal não é possível a um partido como o nosso; também não chegou! Agora põem uma condição que, se fossem sérios, levaria à auto-extinção dos partidos actualmente do arco do poder (nenhum deles manteve durante toda a sua existência 5.000 filiados, logo deviam auto-extinguir-se nesse momento e agora não existiriam), mas também não vai chegar.



NINGUÉM HÁ-DE CALAR A VOZ DA CLASSE OPERÁRIA!

FILIA-TE NO PCTP/MRPP! (envia para SEDE NACIONAL, Rua da Palma, 159, 2º dtº, 1100-391 LISBOA)

O POVO VENCERÁ!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

CÂNTICO A NIETZSCHE


Não peças!
Nunca mais te ponhas de joelhos!
Não fales. Canta! Dança!
Ri-te na cara dos imbecis
na cara dos bancos
das multinacionais
dos senhores do dinheiro
ri-te na cara de todos
os que te votam ao desprezo
ri-te loucamente demoradamente
dança! Canta! Voa!
Meu mago doido, meu poeta!

Ri-te cinicamente sarcasticamente
na cara dos patetas
dos Estados
dos governos
dos moedeiros
ri-te longamente satanicamente
na cara de Deus
na cara do dinheiro
esborracha-lhes a cara no chão
ri-te até que caiam
até que fiquem sem nada
ri-te até ao fim
e deixa-os tremer
ri-te
e deixa-os gemer de medo, sida, frio
fá-los sentir completamente na merda
fá-los sentir
o que os teus companheiros e tu próprio
já passaram
ri-te loucamente demoradamente
e dança
dança na cara deles
dança loucamente
dança até ao fim
e fá-los cair
meu rei, meu único rei,
my king, my only king,
meu mago doido, meu poeta.

Vilar do Pinheiro/Braga, 22/23.12.2007.

VOZES


Deixai-me, vozes!
Enlouqueço!

Deus em mim
esfaqueado
em sangue

Nietzsche! Nietzsche!
Meu canto ébrio!

Vozes que me perseguis
há milénios
deixai-me a sós
com os meus brinquedos

Flautistas de Holderlin
só vós me enfeitiçais
só vós dais cabo de mim

Deus...sangue de mim...
e os personagens multiplicam-se
Cristo ébrio
poema louco
Jim à beira do fim

Braços abertos
raciocínios libertos
a explodir
a transbordar
cálice Graal
para lá do bem e do mal

Deus em mim...doido
olha os cavaleiros
que ele tem
são sete
sete sóis sete luas
a caminho do infinito

Deus em mim...doido
Deus em mim...canto
Deus em mim...saqueio

Nietzsche em mim...a rir
com as Bacantes
cânticos dionisíacos
em redor da fogueira

Filho da mulher,
quem te quer?

Hei-de acabar entre destroços
e garrafas de whisky

To write all night long
to sing all my song
for you...just for you,
my queen
where have you been,
my only queen, my siren?

Exércitos que me perseguem
exércitos que me protegem
Deus...em sangue
Dyonisos, where is my queen?

Deixai-me vozes,
que enlouqueço!
Não quero mais o vosso jogo
não quero acabar no hospício
no precipício
a vegetar, postiço
inchado, medicamentado

Mas, por outro lado,
a luz chama-me chama-me ama-me
I'm beggining to see the light
Deus Satã Nietzsche Rimbaud
Dyonisos, my king,
where is my queen?

MANIFESTO ANTI-RIO


MANIFESTO DO PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO PELA CANDIDATURA DE ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO À CÂMARA DO PORTO
UM POETA A MIJAR-3

O poeta mijou na àrvore de Natal do Rio
o poeta plantou uma árvore mais alta da Europa
em todas as esquinas da cidade do Rio
o Rio prostitui-se na esquina

O Rio e o La Féria ocuparam o Rivoli
o poeta vomitou, em fúria,
as peças do La Féria
O Rio engoliu o vomitado
e masturbou-se no túnel
o poeta mijou no Rio
o Pai Natal e as renas
enrabaram o La Féria
As renas voaram com o poeta
o Pai Natal comeu o BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista

O espírito do Natal mantém-nos juntos
o espírito do Natal está nos bancos
o Rio é o Pai Natal
a àrvore mais alta da Europa
é patrocinada pelo BCP
o poeta mija na árvore, na Europa e no BCP
o PCP mantém-se marxista-leninista
o poeta mantém-se surrealista
o Rio faz uma pirueta
e cai ao rio Douro
o La Féria enforca-se
na árvore mais alta da Europa
O PSSL ocupa a Câmara.

Porto, 24. Dez.2007

António Pedro Ribeiro e o Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL) apresentam o manifesto e a candidatura à Câmara Municipal do Porto na próxima quarta, dia 26, pelas 23,30 horas no Bar Púcaros no Porto (à Alfândega). António Pedro Ribeiro ou A. Pedro Ribeiro acaba de lançar o livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) e tem publicados "Saloon" (Edições Mortas, Março 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Pirata, 2004) e "À Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001). Nasceu no Porto em Maio de 1968, tendo sido pré-candidato à Presidência da República em 2005. Foi acusado de derrubar a estátua do Major Mota na Póvoa de Varzim em 2003 por motivos políticos e há 20 anos que diz regularmente poesia. É vocalista das bandas Mana Calórica (www.myspace.com.manacalorica) e Las Tequillas e é sociólogo. Disse poesia ao lado de Adolfo Luxúria Canibal no Festival de Paredes de Coura de 2006. O PSSL está em vias de legalização.

Com os melhores cumprimentos,
António Pedro Ribeiro
Maria Joana
tel. 229270069
http://partido-surrealista.blogspot.com
http://tripnaarcada.blogspot.com

OBRIGADO, DINO



Poema dedicada ao meu amigo António Pedro Ribeiro.


Vinte e dois de Dezembro de dois mil e oito.





Alguns minutos antes ou depois de um Natal qualquer!





De onde te avistei logo senti Deuses de canto e de luta,

homens nus no meio de um palco,

assassinos,

E porque tens esse dom de sangue e de palavra,

de livre pensamento e de catarse,

de ofegante sentimento e de extâse

pedra tua universal e pura.

Há em nós palavras não ditas, ideias perdidas ao longe,

E porque tens a vingança temente na língua pronta e audaz,

Como se fosses ceifar uma colheita urbana de gente, e morresses para a colher toda. Cessando logo

de seguida a empreitada, farto.

E para que um teu imperativo não seja ainda e só Kantiano nem Kafkiano, nem Guevarista nem

louco, nem Pessoano nem Camiliano

Nem Queirosiano...

Nem fiel a nenhuma pátria, nem dono de nenhum império,

Nem somente uno, nem teu,

Nem simplesmente tua posse ou tu seu feitor,

Pelo Natal me lembrei de dizer,

que senti no teu navio o canto de Deuses em luta.

Dino Almeida.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

UM POETA A MIJAR


LANÇAMENTO DO LIVRO "UM POETA A MIJAR" DE A. PEDRO RIBEIRO

O livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) de A. Pedro Ribeiro vai ser lançado no próximo dia 21, sexta, pelas 22,30 h, no bar Real Feytoria, no Porto (à Ribeira). "Um Poeta a Mijar" sucede a "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (2004), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e a "Gritos. Murmúrios" (com Rui Soares, Grémio Lusíada, 1988). "Um Poeta a Mijar" combina o surrealismo e o Dada com o beatnick, a mulher e a noite com o palco e a loucura.
A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 1968, viveu em Braga, no Porto e na Trofa e actualmente reside em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde). Diz regularmente poesia no norte do país, tendo actuado no Festival de Paredes de Coura de 2006 ao lado de Adolfo Luxúria Canibal e de Isaque Ferreira e no Festival de Poesia do Condado em Salvaterra do Minho em Setembro de 2007. Em 2005 alguns órgãos de comunicação social noticiaram uma candidatura sua à Presidência da República. Integra as bandas Mana Calórica- www.myspace.com/manacalorica- e Las Tequillas. Foi fundador e é colaborador da revista Aguasfurtadas.

ALEXANDRE O' NEILL


Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

in http://porosidade-eterea.blogspot.com

PARABÉNS, JOANA

Poetisa Joana Serrado venceu prémio na Holanda

Joana Serrado, uma poetisa portuguesa que está desde 2005 na Holanda a fazer um doutoramento, venceu o Prémio Hendrik de Vries — do município holandês de Groningen, no valor de 6.000 euros —, com o projecto poético bilingue (português/neerlandês) «Emparedada/ Uit de Muur».
O seu primeiro livro, «O Tratado de Botânica» foi editado pela Quasi, ganhou uma menção honrosa no Prémio Daniel Faria (2006), instituído pela Câmara Municipal de Penafiel e está a ser traduzido para neerlandês.
Joana Serrado, especialista em mística feminina medieval, licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra, onde trabalhou como assistente de investigação sobre escolástica conimbricense.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007


A mulher sofre na mesa do lado
e eu não consigo ler Holderlin
os clientes entram na confeitaria
e eu não consigo ler
os clientes conversam
e eu não consigo ler
os clientes saem
e eu não consigo ler
os clientes sorriem
e eu não consigo ler
os clientes olham
e eu não consigo ler
os clientes fazem acrobacias
e eu não consigo ler
os clientes fazem malabarismos
e eu não consigo ler
os clientes esvoaçam
e eu não consigo ler
os clientes saúdam-se
e eu não consigo ler
os clientes fazem amor
e eu não consigo ler
os clientes enlouquecem
e eu não consigo ler
os clientes mijam
e eu não consigo ler
os clientes lêem
e eu vou mijar.

Motina, 18.12.2007

VENHO AO CAFÉ


Venho ao café ler e escrever poemas
e as pessoas conversam
venho ao café ter ideias sublimes
e passá-las para o papel
e as pessoas conversam
venho ao café ter explosões
e as pessoas conversam
venho ao café dialogar
com os grandes poetas
e as pessoas conversam
venho ao café tomar café
e as pessoas conversam
venho ao café combater
a solidão e a loucura
e as pessoas conversam.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MAMAS


MAMAS 2

Vem-se à cidade
E vêem-se mamas
Só mamas mamas mamas
Vens-te na cidade
E gritas
Ó mana, mana, mana…

Olhas para a TV
E mamas mamas mamas
Curtes o piercing
E queres
Dama dama dama
Dá-ma dá-ma dá-ma
Bebes o príncipe
E gramas gramas gramas
Curtes a branca
Ao grama grama grama
Gramas?

Chegas à idade
E chamas chamas chamas
Amas?
Vens à cidade
E mamas mamas mamas…

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

OLHOS


olho-te do palco
sorris para mim
olho-te à mesa
és toda luz

olhas olho-te
acendes-me
renasço em ti

olhas olho-te
o mundo fica melhor

e a ternura não tem fim

DO AMARAL


O diseur

É um homem como os outros. Está sentado num café a beber cerveja. De repente, levanta-se e começa a recitar versos em voz alta. Um cliente aproxima-se e dá-lhe uma vigorosa bofetada. O homem, parecendo não se incomodar, redobra o tom de voz e insiste nos versos.
Uma velha, muito irritada com a pouca vergonha, ergue o punho e aplica, por sua vez, um soco rápido e seco na cara do impassível diseur, com uma agilidade e determinação surpreendentes para a sua idade. O homem, no entanto, cerra os olhos e esforça-se por elevar ainda mais a voz. Os empregados do café e os outros clientes caem-lhe então em cima, numa fúria avassaladora. Murros e pontapés seguem-se uns aos outros com uma constância assinalável. O homem muda de cor, perde o nariz, estilhaça as rótulas, mas não se deixa vergar pelo evoluir dos acontecimentos.
- Ah!, pudesse eu ser presa de um fogo cruel ou engolido pelo mar tempestuoso! – grita o homem, quase sem dentes, debaixo de uma nuvem de socos e bofetadas.
Ora, dadas as circunstâncias, é fácil prever o que se segue. O dono do café, que é uma alma justa e boa, segura um revólver e alveja o homem no peito. Em consequência, o homem morre. É muito bem feito. Ninguém recita versos nos cafés.
publicado por Rui Manuel Amaral às 1:18 PM 1 comentários

http://last-tapes.blogspot.com

O TRATADO DE LISBOA

O TRATADO DE LISBOA

António Pedro Ribeiro

Os 27 assinaram o Tratado de Lisboa. Sócrates, inchado, continua insuportavelmente arrogante. A TV imbeciliza. O povo come.
A Europa continua a ser construída nas costas dos cidadãos. Os cidadãos coçam as costas da Europa. Os cidadãos dão à costa na Europa. Os cidadãos comem. Sócrates, inchado, irrita-se. O povo come. Sócrates engole sapos e incha. Sócrates irrita. Sócrates imbeciliza.
A TV dá cultura aos cidadãos. Os cidadãos comem TV. Sócrates come TV. A cultura vai ter com os cidadãos. Os cidadãos comem cultura. Sócrates come cultura. A TV é uma benção de Deus. Deus vê TV. Deus fala com Sócrates. Sócrates é Deus.
Os 27 assinaram o Tratado Reformador. Durão Barroso está nas nuvens. Mais um passo de gigante na construção da Europa. Durão Barroso tem a Europa a seus pés. Durão Barroso é Deus.
Os programas da tarde da TV entretêm e educam. Os programas da tarde combatem o suicídio e a depressão. Os programas da tarde deprimem-se e suicidam-se. Sócrates e Durão Barroso vêm os programas da tarde. Sócrates e Durão deprimem, entretêm e educam. Sócrates e Durão são palhaços. O povo come.

PÁTIO


Venho ao "Pátio"
e as pessoas conversam
agarram-se ao computador
lêem jornais

Um dos futeboleiros entra
- o Rocha também é um futeboleiro
mas discorre sobre qualquer tema-

as gajas são boas mas inacessíveis

O que conta é o trabalhinho
e o dinheirinho ao fim do mês.

Puta de vida imbecil!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O líder do PSD
pede ao primeiro-ministro
para pedir desculpa
ao país
o líder do PSD
pede ao primeiro-ministro
mais polícia para o país
o líder do PSD
pede um polícia
para cada português
o líder do PSD
faz um broche ao país.

A dona do café
é uma perigosa revolucionária
a dona do café
manda todos os políticos
para a prisão
a dona do café
manda todos os malandros
trabalhar
a dona do café
resolve todos os problemas
do país
a dona do café
faz um broche ao país.

domingo, 9 de dezembro de 2007

UM POETA A MIJAR


LANÇAMENTO DO LIVRO "UM POETA A MIJAR" DE A. PEDRO RIBEIRO

O livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) de A. Pedro Ribeiro vai ser lançado no próximo dia 21, sexta, pelas 22,30 h, no bar Real Feytoria, no Porto (à Ribeira). "Um Poeta a Mijar" sucede a "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário" (Objecto Cardíaco, 2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (2004), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001) e a "Gritos. Murmúrios" (com Rui Soares, Grémio Lusíada, 1988). "Um Poeta a Mijar" combina o surrealismo e o Dada com o beatnick, a mulher e a noite com o palco e a loucura.
A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 1968, viveu em Braga, no Porto e na Trofa e actualmente reside em Vilar do Pinheiro (Vila do Conde). Diz regularmente poesia no norte do país, tendo actuado no Festival de Paredes de Coura de 2006 ao lado de Adolfo Luxúria Canibal e de Isaque Ferreira. Em 2005 alguns órgãos de comunicação social noticiaram uma candidatura sua à Presidência da República. Integra as bandas Mana Calórica- www.myspace.com/manacalorica- e Las Tequillas. Foi fundador e é colaborador da revista Aguasfurtadas.

tel. 229270069.

UM POETA


Um poeta vem ao café
passa despercebido
apesar de aparecer nos jornais
e de ser lido em Lisboa

um poeta vem ao café
vem de um longo interregno
não pára de olhar para a menina

um poeta vem ao café
pouco mais sabe fazer
está longe do Rocha

um poeta vem ao café
escuta as conversas
esta vida é uma merda.

POESIA NO PALÁCIO

RECITAL DE POESIA DE 2006 E JANTAR COM POESIA A MOTE
14 DE DEZEMBRO, SEXTA, PALÁCIO FRONTEIRA-LISBOA

19,00 h- Recital de poemas publicados em 2006 de autores com menos de 50 anos

Leitura: Antónia Brandão, Fernando Mascarenhas e Pedro Sena-Lino.

Poemas de: Afonso de Melo, Alexandre Nave, A. Pedro Ribeiro, Catarina Nunes de Almeida, Fernando de Castro Branco, Frederico Mira George, HEnrique Dinis da Gama, Joana Serrado, João Habitualmente, João Pedro Mésseder, João Rios, Jorge Melícias, JOrge Reis-Sá, José Félix Duque, JOsé Rui Teixeira, Luís Adriano Carlos, Manuel de Freitas, Paula Gândara, Pedro Sena-Lino, Pedro Teixeira Neves, Rui Lage e valter hugo mãe.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

OBRIGADO, JOANA


Dos Líquidos

Devo dizer com orgulho que ja tive este poeta a dormir (e ressonar) na minha sala (sim, sala) depois de uma magnifica discussão politica, terminada com uma francesinha no Café novo, e que tivemos até de chamar a policia porque esta senhora que vos escreve esqueceu-se das chaves dentro de casa.
O A. Pedro dizia - calma, calma. Devia ser dos efeitos do molho picante das francesinhas...Este poema deu um grande salto, Pedro. Parabéns.


"Um Poeta a Mijar" é o título do novo livro de A. Pedro Ribeiro, publicado pela Corpos Editora. O livro vai ser lançado dia 21 de Dezembro, sexta, pelas 22, 30 horas no bar Real Feytoria, no Porto (à Ribeira). "Um Poeta a Mijar" situa-se entre o surrealismo, o dadá e o beatnick, entre a mulher e os bares, entre o palco e a loucura. "Um Poeta a Mijar" sucede a "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (2006), "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (2004), "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (2001) e a "Gritos. Murmúrios" (1988).


BORBOLETAS


PEDRO RIBEIRO + FERNANDA PEREIRA


Borboletas na Internet disquete cassete sai e mete na Rosete que nos submete e promete ceias de Natal à entrada do centro comercial à saída do Telejornal cacetete tête-à-tête confidencial dá-me a tua morada a tua namorada o teu portal envia-me um postal uma queca no matagal uma mulher fatal e diz aos putos para parar com o cagaçal não me trates mal não me ponhas mole, ó Amaral.
Chiclete na net orgia na retrete revista coquete croquetes amor de trotinete atómica supersónica harmónica filarmónica filantrópica psicotrópica Mónica, volta aos meus braços aos meus cansaços aos meus bagaços aos meus palhaços em pedaços laços estilhaços calhamaços caracóis duquesa de Góis rouxinóis prato de rissóis cachecóis em Cascais aos casais jornais informais ais aias saias sais minerais saque no cais de embarque um traque no Iraque tic-tac xeque-mate Camarate serrote garrote pote pichote Senhora do Ó tende piedade do Tó que anda metido no pó Aniki-bobó às quartas-feiras dentro das eiras dentro das freiras dentro das frieiras na àgua das torneiras no universo dos Pereiras das colmeias e das onomatopeias ah já dá cá cara de amenduá meu xará vem cá saravá em Dakar junto ao mar
recomeçar dar as cartas cavalgar inventar assassinar penar pinar reinar alcatroar albatroz fêmea feroz fêmea atroz fêmea atrás fêmea com gás que leva e traz prazeres em ruínas suíças preguiças tesão que não sobe mulher que fode mulher que pede e escraviza e sodomiza Torre de Pisa rio Tamisa camisa falsa alça alce alface vegetal tribunal Cabral ao comité central ministros no bacanal com o teu soutien acampado na Lousã no comício do Louçã na casca da maçã a anciã masturba-se turva-se lava-se conserva-se foda-se! Latas de sardinhas minhas campainhas picuinhas lingrinhas xoninhas xanax pentax de alcoolemia cloreto de Eufémia mezinhas da Roménia Ofélia à janela Hamlet dentro dela omelete de cabidela cidadela sitiada aguarela sentinela ao relento rebento em movimento sedento sebento sardento sargento lá dentro whisky alento talento.

http://tratadodebotanica.blogspot.com

DO PARAÍSO


1

O empregado do "Piolho"
traz-me a torrada
e simpatiza comigo
O pintor
simpatiza comigo
e aprecia a minha poesia
O Rocha
simpatiza comigo
e chama-me pelo telefone
A Maria do "Nova Europa"
simpatiza comigo
e entrega-me as chaves

O paraíso está à vista.


2

Vou às sessões de poesia
dizer poesia
e as pessoas batem palmas
Vou à confeitaria
e a empregada felicita-me
por não fumar
Saio à rua
e as pessoas saúdam-me
Escrevo poemas
e olho para as gajas

Decididamente
o paraíso está à vista.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

MANA CALÓRICA

www.myspace.com/manacalorica

O FUTEBOL E O PAÍS


O FUTEBOL E O PAÍS



O futebol pára o país

O país e o futebol jantaram juntos

O país, o futebol e o jantar

Reuniram-se na Junta de Freguesia



A água é o sangue da Terra



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O país janta frango

O frango e o país foram ao futebol

O país deu um frango



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O futebol encanta multidões

As multidões e o futebol comem frango

O futebol, o frango e as multidões

Comem o país



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor



O Rocha é um analista reputado

O futebol, o frango e o Rocha

Banharam-se na Praia da Rocha

O futebol e o país foram às putas



O que importa é que seja um bom jogo

E que ganhe o melhor.



1.12.2007

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

MANIFESTO ANTI-TRABALHO


Estou farto dos velhos
que mandam os malandros trabalhar
estou farto do paleio imbecil
do Governo e da televisão
estou farto das Finanças
e da Segurança Social!

Que se foda o dinheiro!
O Sócrates que vá trabalhar!

Quero passar passar o dia
a escrever poemas
e a olhar para as gajas.

Estou farto de défices,
de percentagens e de economistas!
Estou farto de racionalistas,
de ponderações e de analistas!
Estou farto de santas, de seitas
e da moral!
Estou farto dos políticos
e das directivas do comité central!
Estou farto do Rocha, do Makukula
e do país!

Que se foda o dinheiro!
Não quero trabalhar!

Quero passar o dia
a escrever poemas
e a olhar para as gajas.

PARTIDO SURREALISTA SITUACIONISTA LIBERTÁRIO

DOIS POETAS


AO RUI LAGE

Dois poetas marcaram encontro
no café "Ceuta"
um poeta espera pelo outro
que nunca mais chega
um poeta bebe café e pensa
um poeta enlouquece à mesa

Dois poetas conversam no café "Ceuta"
dois poetas bebem café
e falam de poesia
dois poetas abandonam o café
e percorrem as ruas
dois poetas conversam na rua
dois poetas conversam
dois poetas.

QUOTIDIANO

Os deuses dançam a meus pés
mas o quotidiano não se altera

Mantenho diálogos absurdos com o Rocha
mas o quotidiano não se altera

Tenho pensamentos sublimes
mas o quotidiano não se altera

Tenho explosões constantes
mas o quotidiano não se altera

O doutor persegue-me por todo o lado
mas o quotidiano não se altera

O país ama o futebol
e o quotidiano não se altera

O país, o Rocha e o doutor
vão ao futebol
e o quotidiano não se altera

O país, o Rocha, o futebol e o quotidiano
andam metidos na heroína
e o quotidiano não se altera

A heroína vai ao futebol
e o quotidiano não se altera.

2.12.2007
mais em http://partido-surrealista.blogspot.com

sábado, 1 de dezembro de 2007

CABELOS BRANCOS

CABELOS BRANCOS

Os cabelos
Vão ficando brancos
As amigas morrem
Ao telefone

Conversas
Que se repetem

A cidade
perde o encanto.

Set. 2004.

LUZ


Luz! Luz! Faça-se luz!
Possuído por um deus
celebro festins interiores

Luz! luz! Faça-se luz!
Em busca de iluminações
atiro-me contra as paredes

Luz! Luz!
Pedaços de mim
esvoaçam sublimes

Luz! Luz!
Meu canto doido
para lá dos homens!

Luz! Luz!
Para lá das montanhas
para lá das cidades!

Luz! Luz!
À mesa do café
percorro eternidades

Luz! Luz!
Ao poeta das trevas
ao vagabundo das eras!

Luz! Luz!
Dá-me vinhos, licores
mostra-me a saída!

Luz! Luz!
Ilha dos amores,
minha rainha!

Luz! Luz!
Meu canto doido
e um deus
que dança
a meus pés.

A. Pedro Ribeiro, Motina/Clássico Real, 1.12.2007.

sábado, 24 de novembro de 2007

RETRATOS DA VIDA EM VILAR DO PINHEIRO-5


Para escrever poesia
não preciso sair da aldeia

Bastam as tuas cuecas
os Pink Floyd
e a antevisão do cu.

RETRATOS DA VIDA EM VILAR DO PINHEIRO-4

Venho ao café
e mantenho as distâncias

Não é conveniente
sair da pele do cidadão respeitável
apesar das saudações constantes
das explosões
e do riso das gajas.

24.11.2007

RETRATOS DA VIDA EM VILAR DO PINHEIRO-3


As mulheres inacessíveis
acenam-me ao balcão

Visões
tremores
Breton
e um deus
que não me larga.

RETRATOS DA VIDA EM VILAR DO PINHEIRO-2

O barbeiro corta-me as barbas
dialoga comigo
e faz-me feliz

já não preciso
de noitadas nem de rockadas
o barbeiro corta-me as barbas
e faz-me feliz.

24.11.2007

RETRATOS DA VIDA EM VILAR DO PINHEIRO-1

Volto ao café
dois anos depois
e está tudo na mesma

as mesmas personagens
a ausência de mulheres
a mesma cerveja

Volto ao café
tremo das mãos
exilado na aldeia

Volto ao café
conto as moedas
e está tudo na mesma.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

PIOLHO


O anão ao balcão puxa pela selecção
os praxistas cantam
o poeta Do Vale está murcho
e não canta
o barbudo fuma
estou no "Piolho"
e não sou feliz.

ASTÓRIA


No regresso a Braga, sob as arcadas, no "Astória", recordo os dias em que as empregadas vinham de minissaia e me serviram de inspiração a alguns dos poemas mais emblemáticos. Agora não há minissaias mas este lugar e esta cidade exercem em mim um fascínio irresistível. Não sei explicar, mas só em Braga, e particularmente no seu centro histórico, é que sinto esta sensação de pertença, de familiaridade, de comunhão. Esta visão da esplanada do "Astória", sob as arcadas, é magnífica. As gentes que passam, umas apressadas, outras lentamente, o movimento, a vida. A esta terra pertenço.

António Pedro Ribeiro

CHÁVEZ NO SE CALLA


CHÁVEZ NO SE CALLA



António Pedro Ribeiro



Hugo Chávez não se vai calar. Hugo Chávez não é um rei de pacotilha. Hugo Chávez não é um lacaio do imperialismo. Hugo Chávez foi sujeito a diversas eleições e referendos e venceu-os a todos. Hugo Chávez foi sujeito a duas tentativas de golpe de Estado, com o apoio dos EUA, e resistiu.

A maioria clara do povo venezuelano está do lado de Chávez. A maioria do povo venezuelano sabe que Chávez fornece petróleo mais barato aos países subdesenvolvidos. A maioria do povo venezuelano sabe que Chávez tem políticas efectivas de apoio às populações empobrecidas. A maioria do povo venezuelano sabe que Chávez faz frente a Bush, ameaçando subir o preço do petróleo caso Bush mande atacar o Irão ou promova novo golpe na Venezuela.

Chávez representa, juntamente com Fidel em Cuba, Ortega na Nicarágua e Morales na Bolívia um foco de resistência contra a globalização capitalista. Chávez não se cala.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

RUA


Braga poeta e revolucionária
A. Pedro Ribeiro
(Saloon, Edições Mortas)

A Rua
A rua é sempre a mesma
Acima abaixo abaixo acima
Entras nas casas nos bares
Nas camas
Falas
Calas
Encontras este e aquela
Entras neste e naquela
Fornicas a solidão
Facas guerras guitarras
Ilhas descobertas
A coisa arde queima
Cais
Levantas-te
E depois sais
Como se fosse nada

É sempre a mesma rua
O mesmo copo
A mesma canção
E tu gostas.

in http://isabelgomes.blogspot.com

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

CHUVA A BATER NA PEDRA


Chuva a bater na pedra
pedrada que Deus dá
guitarra ao fundo
e o teu andar gingão
prometes mas não dás

Chuva a bater na pedra
ritmo a acelerar
a lâmpada acesa
sujeita-se a ser fundida
a menina não passa recibo
sujeita-se a ser fodida

Chuva a bater nos cornos
TV a martelar
tantos minutos, tantos segundos
sem ver o programa
sem gramar o grama
sem espremer a gema
sem entrar em coma
sem entrar na cona

Chuva a bater no cérebro
pedrada que Deus dá

VIP, 19.11.2007
A. Pedro RIBEIRO, Saloon.


"Na merda
a cair
enclausurada


Queimo as cartas
as palavras
os retratos


E o deserto dói
o deserto mata


Ao telefone
os amigos falham


E nada sai
nada vem
desse lado do espelho.

(Na Merda, P. 34)

in www.amputaciones.blogspot.com

domingo, 18 de novembro de 2007

SALOON NA PULGA

http://www.youtube.com/watch?v=dQvedusXtao

sábado, 17 de novembro de 2007

PARA IAN CURTIS E KURT COBAIN


CURTIS COBAIN

Estou cheio de speed
O néon fala comigo
Deus está xoné
E há vozes no precipício

curtis cobain
and we all go insane

FACADAS NA MORAL



Vêm ao rio
carregadas de bebés

Gin puro
beijam os putos
enchem-nos de tesão
e rock n' roll

cravos vermelhos
na Junta de Freguesia
bacantes em guerra
antónio
dionisos
na imagem
no papel
no BI

hei-de morrer de tédio
ao quarto dia
num quarto de hotel

mães que choram
cães danados
irmãos irmãs
partilhas pastilhas
fantasias

em Braga sem nada
sem mulheres

no cu na cona
da Flávia
10 da noite
nada na roleta
bate a punheta
primeiro-ministro
Jesus na cruz

aulas
professoras
aguas das pedras
pedrada salgada
Carla em Braga
em Bragança
nos Passos da dança
nos paços da Sé
Che ébrio
luz de morte
coca cola cao
cão cabrão
equilibrista, não!
Saloon exibicionista
estoirar
bar aberto canção
tiro aos bonecos
aos mortos
aos matrecos
badamecos
noitadas
gargantas secas

TER O MUNDO NA MÃO
E ANDAR AOS TROCOS
aos rotos
às facadas na moral!

A. Pedro Ribeiro, Braga, 2010.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

PARIS, TEXAS

ALGUNS VERSOS DE ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO


Ultra-Sociáveis

Sempre odiei os ultra-sociáveis
os que se dão com toda a gente
como se toda a gente fosse igual
e o mundo fosse uma irmandade.

*
vem-se à cidade
e vêem-se mamas
só mamas, mamas, mamas
............................................

*
O poeta, à mesa,
ouve as conversas do mundo
se não fosse poeta
também as ouviria
mas não lhes daria
a mesma importância

in http://paristexas2.blogspot.com

PARA O RUI GONÇALVES


Estou hoje
como tu
a beber ao balcão
e lembro-me de ti
das conversas desconexas
que mantínhamos
da partilha da escrita
e da loucura

Estou hoje como tu
a beber ao balcão
tu que partiste
e eu que fiquei
se calhar
já deveria ter partido
não fui feito
para a eficácia
para a norma social
tal como tu
a diferença é essa:
tu partiste e eu fiquei
a brindar à tua saúde
a beber por beber
sem banda nem palco
sem aplausos nem fãs
o relógio roda
e eu sempre igual
à beira do tédio
longe do Graal.

Ao balcão
a beber como tu
sou o que sobra
na rapina global.

Vila do Conde, Bom Pastor, 14.11.2007.

PROJECTO

PROJECTO

acessos de ternura
em torno de mim

gente que me saúda
como nos dias gloriosos

ter o nome nos jornais
ou nas capas dos livros
de uma qualquer livraria da Baixa
a isto se resumem
os meus projectos

depois vir até ao café
e tomar café anonimamente
como um cidadão comum
e dirigir-me cordialmente
aos empregados de mesa.

SEXO, NOITADAS & ROCK N' ROLL


Sexo, Noitadas e Rock n´Roll"


"Emborcar seis cerjevas e cambalear só por causa de uma conversa, de uma gaja e de uma foto do Che. Telefonar-te a dizer que estou vivo e que, finalmente, voltei a devorar um livro, que curiosamente se chama "Memórias de um Alcoólico", de Jack London. Entrar nas conversas e deixar escapar a deixa. Escrever declarações de amor a gajas de gosto duvidoso. Trair-te em Vilar de Mouros ao som dos Led Zeppelin. Estoirar em sonhos alucinatórios a meio de uma existência pacata. Voltar ao computador e à concha do lar familiar. Confundir vozes delirantes com masturbações mentais. Mas há uma foto do Che no quarto a quem apelo contra todas as injustiças, todos os imperialismos, todas as tiranias. Mas há uma foto do Che e a boina, o olhar, a estrela e volto a acreditar que a revolução é possível. Apesar de todas as normas, de todas as rotinas, de todos os filhos da puta."
Pedro Ribeiro apresentou ontem à noite, no Púcaros, mais um volume, revisto e aumentado, da contundente obra "Sexo, Noitadas e Rock n´Roll", da qual tomei a liberdade de extrair o supracitado poema intitulado de "Che". Com o fantasma de Morrison sobre presente, no Porto poetas, boémios e outros inconformados foram reis e heróis, pelo menos por uma noite. Vida longa e inspirada ao "Imperador da Cinco da Manhã" e às edições Pirata...
"A serpente continua à espreita"

in http://oviciodaarte.blogspot.com

terça-feira, 13 de novembro de 2007

UM POETA A MIJAR

O livro "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora) de A. Pedro Ribeiro vai ser lançado no dia 7 de Dezembro, sexta, pelas 22,30 horas no "Blá Blá" em Matosinhos (Rua Brito Capelo, 1085).

NIETZSCHE


E voltei as costas aos governantes quando vi o que eles chamam hoje governar: traficar e mercadejar o poder- com a gentalha!
(F. Nietzsche)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

JOANA TENS UM


JOANA TENS UM

Joana
António
Amores algures
Viagens
Dentro do T1
Bonecas de porcelana
Corridas de F1

Joana
À porta do Centro de Emprego
Ofertas de caramelos
Desertos camelos
Minka a linkar

Ébrio 29
Cristo
Nietzsche
Sade
A gemer de sede
Maria Modivas Vila do Conde
Torpedo portento a rebentar

Joana
Pedro
16,30 H
Porteiro ponteiro a controlar
Na pastelaria onde o César come
Onde o César dorme Augusto
De caneta em punho
Punhos no nariz que sangra
Jesus na cruz
Madalenas à solta
Margaridas às voltas
Na Ribeira na Sé
No site nas quintas do Ribeiro
Nos Autos de Fé
Á porrada com os máfias
Puta madre sierra madre sierra maestra
Com o Che com Chávez na Venezuela
Na Colômbia na Argentina no galo no Peru

Dar-te flores cravos Abril
Orquídea selvagem
Na minha garagem
Cocktail molotov no armazém
Maio de 68
Paris Roma Funchal
Quartel infernal
Direcção regional
Comité central
Mistério ministério
Armada professora em Almada
Maria, foge já
Com o António
Irmão camarada Lisboa Rua do Carmo
Mães de Maio na praça
Na TV nos jornais em Mombaça
No alto da torre de controle
Sincero-canta
Tu em mim
No Auto da Barca
No alto da arca
Sexo na praia na arca frigorífica
Braga Cátia S. Marcos
Hospital
Entrar na foto
Sair do esgoto
Rato roto na rata
Apanhar o susto
Busto mamas mini-saia
Encherto de porrada
Rui rei da imagem
Na Avenida dos Banhos
Satanás à solta
A jogar à lerpa com Deus e Alá
A caminho de Meca tanto dá
A comer suecas
Copas dinamarquesas
IVA a 21%
Um clic em Copenhaga
Parafusos na tola
Que rola e enrola
Como a pasta a circular
Ana Maria sem trabalho
Mais um puto para o caralho
Bilhetes na central ao preço do carvalho
Braga Porto Póvoa
Gonçalo Cristóvão
Putas travestis marinheiros
Roubos de igreja
Extravio de telemóvel
A PT dentro do cu do conde
Anarca alucinado
Um broche ao Estado!
266 Câmara Municipal
O vigilante controla o andante
Mão na coima
António Ribeiro no Chiado
A descer a rua do Carmo
Internet Minka mocada
Basta! Diz o Senhor do Vale
A caminho do Carnaval

Morte aos bancos!
Apesar da simpatia
Apesar da fantasia Sapataria
Bárbara Fernanda
Caminho de néon…bom…bom…
Amazonas…boazonas…
Come…come…come, baby…
UH, baby, baby, baby,
Canta o Plant
Rega a planta
Estórias da noite

Maria Carvalho na serra
À cata de papéis
Rata que mata
Rostos de álcool
0% para os pensionistas rotos
E a Alexandra Bento bebe água benta
Em S. Bento

Anda
Joana
Vem comigo
Até ao inferno
Terno fogo

Anda
Rosa
Amar o artista
Que vem do norte
Do burgo
De S. Petersburgo
Do frio do gelo da fonte
Dos icebergs dos vikings dos géisers
Da Islândia da Gronelândia

Vem,
Mulher,
Em Maio em Abril
Ao Gerês
À cena que vês
Acabar de vez
Com este fado!
Vilar do Pinheiro, “Motina”, 24/25 Abril 2006

domingo, 11 de novembro de 2007

ASTÓRIA

ASTÓRIA

O Astória
Voltou ao Astória
Os velhos passam
Os bancos chulam

Os jornais circulam
Como as mamas
Os bebés mamam
Os bancos também

Os polícias controlam
Vêm de vez
Como as águias
Outros
Apreciam
A natureza.

sábado, 10 de novembro de 2007


O CIDADÃO CUMPRIDOR VOLTA A ATACAR

O meu sonho é ser competitivo, ser um cidadão de sucesso. Quero submeter-me voluntariamente às directivas do primeiro-ministro, sacrificar-me em prol do país. Quero lançar uma OPA, investir na bolsa, adaptar-me ao mercado.
Quero tornar-me um executivo e não ficar pensativo. Quero ser empreendedor, um democrata cumpridor. Quero ser responsável, credível, prudente e racional, seguir uma lógica empresarial. Quero suicidar-me, em directo, à porta do Telejornal.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

VENHO


VENHO

Venho para junto das mulheres
Porque as amo
A elas pertenço
Por elas caio
Por elas danço
Por elas estremeço
Venho ao recanto
Onde elas falam e falam

Venho por elas
Para olhar para elas
Para amá-las com os olhos
Mesmo sem saber se elas me amam

São as mulheres que me dão a poesia
A fantasia no meio da merda
São elas que me dão a àgua
O canto
A doçura que traz o encanto
Os lábios
A magia
A alegria

Amo-as só de as olhar
Quero ficar
Petrificado a ouvi-las falar
E esquecer o mundo
Que vai ao fundo

Quero ficar em silêncio
A ouvi-las falar
Até que me reconheçam
E falem comigo
A brincar
A sorrir
A provocar
A falar das tranças e das crianças

Venho para junto das mulheres
Para me acalmar
E deixar-me levar
Até ao céu.

Vila do Conde, 10.0ut.2006

segunda-feira, 5 de novembro de 2007


Na cidade das mulheres
A chupar rebuçados
Na cidade das mulheres
Perdes-te onde queres
Na cidade das mulheres
Hablas castellano
Na cidade as mulheres
Passeiam bulldogues
Na cidade as mulheres
Aguardam a folga
Na cidade, às colheres,
Bebes a fada
Na cidade as mulheres
Servem-se às colheres
Na cidade que tu queres
Colhem-se malmequeres
Na cidade que te fere
As tuas mulheres
Na cidade que te fere
Estoiras os trocos.
BEBO CERVEJA

Bebo cerveja
E as meninas falam de cabelos
Bebo cerveja
Num bar repleto de camelos
Bebo cerveja
E enlouqueço
Com o balançar das tuas ancas
Bebo cerveja
A ela pertenço
As meninas falam
E eu, há meses, sem conversa.

sábado, 3 de novembro de 2007

RIBEIRO NO JORNAL DIGITAL

JORNAL DIGITAL

Braga - O politicamente incorrecto poeta portuense António Pedro Ribeiro veio a Braga, quinta-feira, apresentar a sua «Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro e Outras Pérolas - Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário», obra surrealista e directa que não poupa nas palavras fortes para fazer uso da liberdade de expressão.«Ele tem um modo de estar arrogante, intolerante e mecânico, um modo de falar robótico, tecnológico», diz Pedro Ribeiro sobre José Sócrates, actual chefe do Governo português, a quem dedica o poema que dá nome ao seu mais recente livro. Mas além do primeiro-ministro, que o autor, rebelde assumido, pretende ver «num filme porno», há outros visados. «Este livro não é apenas uma dedicatória a José Sócrates, é um livro assumidamente anarquista, guevarista. Todos os poderes estão em causa, não é só o primeiro-ministro», explicou o próprio ao Jornal Digital aquando do lançamento na Livraria Centésima Página, em Braga, cidade onde viveu muitos anos.«Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro», título cuja escolha «não foi inocente», reconhece o autor, é também um manifesto contra o que se passa actualmente nos partidos políticos em Portugal. Os três primeiros textos são dedicados à Póvoa de Varzim, Porto e Vila do Conde «e respectivos presidentes de Câmara», refere o poeta. Com a primeira autarquia diz ter «uma especial relação de amor. Mais até do que com Sócrates». E nem a Igreja nem os jornalistas escapam à visceral «paixão» de Pedro Ribeiro.A obra, editada no início do ano pela objecto cardíaco, do escritor valter hugo mãe, que esteve presente na apresentação, é «muito influenciada» por leituras que o autor fez no Verão passado. Admirador dos situacionistas e dos surrealistas, o poeta utiliza algumas técnicas que estes usaram, nomeadamente a colagem. Em muitos dos seus textos mistura, por exemplo, excertos de notícias de jornais com frases suas ou de outros autores.Fundador da revista «aguasfurtadas», A. Pedro Ribeiro, que nasceu no Porto no famoso ano de 1968, publicou já outros livros e manifestos. «Eu também escrevo poemas de amor melancólicos», lembra o escritor que é também autor do blog «trip na arcada» e membro da banda Mana Calorica. Alguém que acredita «que a criatividade é o último reduto da rebelião».
Madalena Sampaio

COLT 45


a pele a lata


o poema


que se oferece


em flor


a pose do assassino


que controla


e o saloon é teu


a cidade é tua


gingando de pistola


no coldre


colt 45




A. Pedro Ribeiro in "Saloon" (Edições Mortas)

A. PEDRO RIBEIRO NA RUA DE BAIXO



Por vezes, ao observarmos uma fotografia antiga de Oscar Wilde, de Ernest Hemingway ou um qualquer outro mestre da literatura, somos invadidos por uma vaga de nostalgia; a da figura romântica do escritor, despreocupado pelos pormenores secundários de uma vida passada nas boémias tertúlias de café, por entre o tabaco, o ópio e o álcool, em viagem recreativa por entre as paisagens paradisíacas de países estrangeiros ou em comunhão telúrica com a terra em qualquer esconderijo pessoal no meio da Natureza.
Quem nunca teve um secreto ensejo de ser um Fernando Pessoa a escrever na esplanada d’A Brasileira, um Sebastião da Gama a colocar por palavras a beleza da Serra da Arrábida ou um Almeida Garrett a inspirar-se nas paisagens verdejantes do Douro, que atire a primeira pedra.
Claro que estou a exagerar, esta é apenas uma visão romântica do escritor. No entanto, é uma imagem que já não colamos aos autores contemporâneos. A culpa é da sociedade moderna e de conceitos como o capitalismo ou a globalização. Actualmente, existem demasiadas coisas com que nos preocuparmos, demasiada informação para assimilarmos e bastante pouco tempo livre para desfrutarmos.
O poeta portuense António Pedro Ribeiro parece não querer acreditar nisso e poderá vir a ser o último poeta romântico português. Isto apesar de “Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro e Outras Pérolas – Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário”, o livro que acaba de editar pela Objecto Cardíaco, ser uma obra política, irónica, satírica e algo surrealista, directa e quase panfletária.
“Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro…” é ainda uma obra influenciada pelos situacionistas, que não se furta a utilizar a técnica da colagem, ao utitilizar machetes ou excertos de notícias da comunicação social escrita misturadas com palavras suas.
A Rua de Baixo decidiu dar a conhecer um pouco mais sobre o poeta (e músico) António Pedro Ribeiro, que fez furor na recente edição do festival Paredes de Coura com as suas declamações. Foi sobre isto, sobre o seu inusitado amor pelo primeiro-ministro, sobre os The Doors e sobre muitas outras coisas que conversámos. Para conferir nas linhas seguintes.
Confessou-se apaixonado pelo primeiro-ministro. Pelo actual em particular?
A "Declaração de Amor…" não se aplica só a um primeiro-ministro, aplica-se a todos os poderes que estão podres, como dizem os surrealistas, os situacionistas, os anarquistas e outros esquerdistas. É claro que José Sócrates merece uma menção especial pela sua postura mecânica, robótica, arrogante e intolerante. Julga-se um super-homem, um homem-providência, cheio de rigor e competência como Salazar, mas é uma grande treta. Aliás, tal como a maior parte dos dirigentes dos partidos portugueses. Além disso, faz o jogo do imperialismo e do capitalismo mundial. Nada faz para combater a pobreza ou o desemprego. Os únicos primeiros-ministros portugueses que estimo são Afonso Costa, Vasco Gonçalves e Maria de Lourdes Pintassilgo.
Depois de algumas edições de autor, “Declaração De Amor Ao Primeiro-Ministro…” é o seu primeiro livro publicado por uma editora. Como surgiu o encontro com a Objecto Cardíaco?
A “Declaração de Amor" não é o primeiro livro publicado por uma editora. Em 2001 publiquei "À Mesa do Homem Só. Estórias" através da Silêncio da Gaveta, uma pequena editora sedeada em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim, dirigida pelo João Rios e pelo José Peixoto. Ainda assim, em Maio desse ano, surgiu uma boa crítica na revista do "Diário de Notícias" [DNA] que já falava numa certa "descida aos infernos do álcool", só que como nem eu nem a editora éramos conhecidos, a coisa caiu no esquecimento. Eu e o Valter Hugo Mãe, da Objecto Cardíaco, já nos conhecíamos das andanças dos bares e da poesia. Contudo, no ano passado o Valter ouviu-me recitar no café Pátio, em Vila do Conde, o "Poema do Défice" e o texto "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro". Perguntou-me se eu tinha mais coisas do género e eu disse que tinha quatro ou cinco coisas antigas e inéditas. Depois, de Julho a Setembro, escrevi o resto, até porque encontrei na casa da minha avó em Braga uma antologia do surrealismo francês e a "Arte de Viver para a Geração Nova" do situacionista Vaneigem. Foi mais uma volta à cabeça. O livro, no fundo, é um manifesto surrealista situacionista libertário em linguagem poética.
É o A. Pedro Ribeiro um autor exclusivamente político, de intervenção, ou o seu próximo livro poderá muito bem ser sobre outra coisa qualquer?
Não me considero um autor exclusivamente político. Até porque, na senda de Breton, a política não existe separada da vida. O amor, o sexo, a liberdade e a revolução são todas uma coisa só que as máquinas castradoras do sistema sempre tentaram dividir. Mas, ao fim e ao cabo, felizmente nunca o conseguiram no que respeita a alguns homens e mulheres. Nietzsche fala no espírito livre e em Dionisos e eu acredito.
Eu tenho um livro para sair há um ano chamado "Saloon", através das Edições Mortas. O problema é que o editor - António Oliveira, mentor da livraria "Pulga" no Porto - anda teso e eu também. Esse livro é diferente. Tem a ver com a atmosfera dos bares, com as mulheres que estão do lado de cá e de lá, com o sexo que espreita mas raramente vem, com o engate, com as mulheres que amamos e com as outras que passam, com a noite e com os copos até cair, com o pistoleiro que entra no saloon a gingar e que assusta toda a gente, ou então é ostracizado. O meu próximo livro talvez se chame "Um Poeta a Mijar" e terá talvez duas partes ou dois livros: uma das partes vai ser estilo Dada e humorística com textos já conhecidos mas nunca editados em livro, como "Borboletas", "Futebol Dada" ou "Mamas2". A segunda parte ou livro poderá conter as tais iluminações, delírios ou alucinações - a fronteira é ténue -, estilo "Eu vi a morte nos olhos de Deus", os tais textos que não sabemos de onde vêm. Contudo, não deixarei nunca de tomar posições políticas, talvez até funde uma coisa nova, mas não um partido, não suporto mais ver a coisa dividida entre dirigentes e dirigidos.
Não teme que não o levem a sério? Eu já fiz muitos disparates. Mas se não tivesse feito alguns deles teria apodrecido de tédio ou de depressão. Mesmo quando estou a brincar ou com os copos, penso que as pessoas inteligentes entendem que já escolhi o meu lado da barricada. Há quem me ame e quem me odeie. Isso é natural quando dizemos ou cantamos determinados textos ou tomamos determinadas posições. É claro que custa não reagir às provocações quando insultam aqueles que amamos.
Sente-se um “poeta maldito”, como o eram Rimbaud, Baudelaire ou Sade?
Não me coloco ao nível de Rimbaud, Baudelaire ou Sade. No entanto, tenho a certeza que sou deles, que venho dessa linha de malditos onde incluo também Blake, Lautreamont, Jim Morrison, Nietzsche, Henry Miller, Bob Dylan, Allen Gingsberg, Péret e tantos outros. Não nasci para os empregos das 9 às 5 - dou-me mal neles, a rotina mata-me. Léo Ferré disse que o artista aprende a profissão no inferno. Eu vou lá muitas vezes e gosto, porque o céu, muitas vezes, é uma seca, com todos aos beijinhos, aos abracinhos, aos boatos, aos mexericos, às panelinhas e eu detesto. Serei um poeta maldito, mas isso não significa que não ame a Humanidade, as mulheres bonitas, o sol, as crianças. Esta merda que nos querem impingir é que eu não aceito. De qualquer modo, não sou, não quero ser, o versejador da corte.

Mais em http://www.ruadebaixo.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

BORBOLETAS

BORBOLETAS

A.PEDRO RIBEIRO + FERNANDA PEREIRA


Borboletas na Internet disquete cassete sai e mete na Rosete que nos submete e promete ceias de Natal à entrada do centro comercial à saída do Telejornal cacetete tête-à-tête confidencial dá-me a tua morada a tua namorada o teu portal envia-me um postal uma queca no matagal uma mulher fatal e diz aos putos para parar com o cagaçal não me trates mal não me ponhas mole, ó Amaral.
Chiclete na net orgia na retrete revista coquete croquetes amor de trotinete atómica supersónica harmónica filarmónica filantrópica psicotrópica Mónica, volta aos meus braços aos meus cansaços aos meus bagaços aos meus palhaços em pedaços laços estilhaços calhamaços caracóis duquesa de Góis rouxinóis prato de rissóis cachecóis em Cascais aos casais jornais informais ais aias saias sais minerais saque no cais de embarque um traque no Iraque tic-tac xeque-mate Camarate serrote garrote pote pichote Senhora do Ó tende piedade do Tó que anda metido no pó Aniki-bobó às quartas-feiras dentro das eiras dentro das freiras dentro das frieiras na àgua das torneiras no universo dos Pereiras das colmeias e das onomatopeias ah já dá cá cara de amenduá meu xará vem cá saravá em Dakar junto ao mar recomeçar dar as cartas cavalgar inventar assassinar penar pinar reinar alcatroar albatroz fêmea feroz fêmea atroz fêmea atrás fêmea com gás que leva e traz prazeres em ruínas suíças preguiças tesão que não sobe mulher que fode mulher que pede e escraviza e sodomiza Torre de Pisa rio Tamisa camisa falsa alça alce alface vegetal tribunal Cabral ao comité central ministros no bacanal com o teu soutien acampado na Lousã no comício do Louçã na casca da maçã a anciã masturba-se turva-se lava-se conserva-se foda-se! Latas de sardinhas minhas campainhas picuinhas lingrinhas xoninhas xanax pentax de alcoolemia cloreto de Eufémia mezinhas da Roménia Ofélia à janela Hamlet dentro dela omelete de cabidela cidadela sitiada aguarela sentinela ao relento rebento em movimento sedento sebento sardento sargento lá dentro whisky alento talento.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O POETA É LOUCO


O poeta é louco
e a TV dispara hipocrisias
o poeta é louco
e naufraga no café a meio da tarde
o poeta é louco
e vocifera contra os cidadãos de sucesso
o poeta é louco
e cai na ribanceira
o poeta é louco
e está longe da menina
o poeta é louco
e a vida é um tédio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

CASA VIVA


From: Projecto Casa-Viva viva a casa < casaviva167@gmail.com >
Date: Oct 28, 2007 11:44 PM
Subject: CONVITE
To:


CONVITE

Para contrariarmos a esperteza da raposa no galinheiro e não ficarmos cada um a seu canto a esgravatar terra


Às vezes acorda-se sorridente, bem disposto, radioso. Noutras manhãs, tudo é cinzento, triste, irritante. A malta da CasaViva também experimenta estes dois acordares e toda a variedade de outros amanheceres que estão entre um extremo e o outro. Mas incomodamos-nos sempre. Todos os dias.

Sempre que paramos este permanente bulir que nos ensinaram que é o verdadeiro viver. Nesses momentos, ficamos frequentemente cabreados. Existiriam, decerto, formas mais eruditas de colocar a questão, mas o que está dito dito está e pareceu-nos mais simples fazer este acrescento do que procurar um sinónimo para uma palavra cuja abrangência de conteúdo só é permitida por ter a sua origem na sabedoria popular.


Chateia-nos viver num planeta com tanto para partilhar e que apenas é explorado em proveito da espécie dominante, tornando a usurpação e o abuso nos conceitos por onde se começa a definição de ser humano.

Aborrece-nos que nos tomem por parvos quando nos tiram direitos e nos dizem que é para nosso bem, como se os direitos que nos tiram se evaporassem e não fossem, como dizia Lavoisier, apenas transformados em direitos de outros.

Apoquenta-nos que nos controlem, nos vigiem, nos fichem, nos transformem em conteúdos de bases de dados, nos gravem, nos chantageiem, nos cortem o direito a contestar, nos façam a todos bufos e polícias.

Indigna-nos que tudo seja mercadoria. Negociável, transaccionável, passível de ser transformado em lucro.

Não pode ser.

O capitalismo, já todos o sabemos, é apenas esta liberdade da raposa no galinheiro. Também não é segredo que a força do predador aumenta na proporção directa da desunião entre as presas. No entanto, mesmo possuindo o diagnóstico, nunca tratamos da maleita. E a responsabilidade de tentar a aproximação entre todos os que acreditam numa mudança organizacional radical é nossa, dos suficientemente vivos para darem umas bicadas na besta, de forma a que, de dispersas e curáveis, se tornem mais eficazes, provoquem gangrenas e acelerem a morte do carcereiro. De outro modo, continuaremos cada um no seu canto, a esgravatar terra como quem se deixa paralisar pelo medo, e a sair esporadicamente, aplicar uma bicada e recolher.

Já houve várias tentativas de união de esforços. Redundaram quase sempre em grandes exercícios de retórica sobre a maior validade da minha forma de luta em relação à tua. Na melhor das hipóteses, acabaram numa lista electrónica de discussão também electrónica que se foi silenciando com o tempo.

Mas a desistência não pode fazer parte do vocabulário de nenhum de nós. Se a coisa não tem funcionado, talvez seja hora de procurar métodos diferentes para a fazer progredir. E, a nós, parece-nos que não é na conversa formal que a união verdadeira cresce. É nas acções que nos sentimos mais próximos. É em ambientes mais descontraídos que nos sentimos mais preparados para falar uns com os outros. É na rua e na festa que se criam laços e se constroem afinidades, onde se forjam verdadeiras redes de interesses e participação.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

PARABÉNS, VALTER

Valter Hugo Mãe venceu Prémio Literário José Saramago 2007

O poeta e editor Valter Hugo Mãe venceu hoje a edição de 2007 do Prémio Literário José Saramago com a obra “O Remorso de Baltazar Serapião”.

O POETA DO VALE


O poeta Do Vale ri sarcasticamente
no "Piolho" e contagia
os que o rodeiam
a menina é bonita
e veste de azul

O poeta Do Vale recoloca
os óculos de sol
a menina é bonita
e vem ao fim da tarde

O poeta Do Vale canta
a menina é bonita
e traz a palavra.

Porto, Piolho, 25. Out. 2007

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Poema último


O meu cérebro
a fugir
pelo quarto

e eu,
apavorado,
a correr
atrás dele.

A. Pedro Ribeiro, "Saloon" (Edições Mortas, 2007).

CHAMA O XAMÃ


Na montanha, no deserto, no tribunal
chama, chama, chama o xamã
na multidão, no bordel, no bacanal
chama, chama, chama o xamã
no rock, no punk, no carnaval
chama, chama, chama o xamã
no México, na América, em Portugal
chama, chama, chama o xamã
na alegria, na festa, no ritual
chama, chama, chama o xamã
na vida, na morte, na redenção
chama, chama, chama o xamã
e ela vem de azul.

"Padeirinha", 1.4. 2007

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A SAUDAÇÃO TRIUNFAL DO GERENTE

O gerente do café saúda-me calorosamente
e tudo se ergue triunfal à minha volta
os vidros estalam as cadeiras rangem
os empregados de mesa
fazem malabarismos com as bandejas

o gerente do café saúda-me
faz trocadilhos com as minhas barbas
e o mundo renasce
num copo de cerveja.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

SALOON


Segundo apontamento biobibliográfico reproduzido na sua mais recente recolha poética, A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 68. Pode tratar-se de falsificação biográfica, mas não deixaria de ser congruente com a atitude do autor ter este nascido na data que marca as agitações revolucionárias francesas no período do governo de Charles de Gaulle. De facto, a poesia de A. Pedro Ribeiro ecoa, desses tempos, certos gestos e atitudes que, sem grande esforço, conseguimos entrosar na encruzilhada das esferas social e política. Saloon, o seu quinto título publicado, depois de Gritos. Murmúrios (1988), À Mesa do Homem Só. Estórias (2001), Sexo, Noitadas e Rock n’ Roll (2004) e Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro (2006), compõe-se de elementos onde nessa encruzilhada cabe ainda uma outra esfera, muito mais subjectiva, onde reconhecemos um erotismo de pendor lascivo e a ameaça permanente de uma loucura com contornos tão íntimos quão sociais. De resto, sendo o autor licenciado em sociologia, não admira que seja o corpo social, nomeadamente urbano, aquele que mais se reflecte nestes poemas. Saloon, como nos westerns antigos, é apenas o ponto de encontro, muitas vezes o cruzamento onde os acidentes acontecem, dessas esferas, aqui disparadas umas contra as outras, em versos que lembram a arte de grafitar. Frases curtas, incisivas, raramente dão lugar, nesta poesia, a outra coisa que não seja o grito, o berro, a vontade de partir pedra, de atirar certeiro contra uma paisagem devastadora e repugnantemente adúltera. Essa paisagem é a paisagem de um tempo, de uma sociedade, de um país, percorrido nos seus casebres de Vilar de Mouros a Braga, do Porto a Castro Daire, de Vila do conde ao Gerês, da Póvoa a Lagos. Por estes lugares, o poeta vai deixando um rastro de pó, facilmente reconhecível, aqui e acolá, nas evocações dos saloons do nosso tempo, ou seja, dos cafés e das esplanadas, mas também na invocação de personagens, que tanto podem ser o revisor da CP no poema que dá título ao livro, as mulheres que se cruzam com o salteador como a gente anónima de todos os dias: «A noite morre / Mas ainda há gente que ri / gente que se cruza e encontra e desencontra / E freaks a entoar cânticos futebolísticos» (p. 27). O Luso e o Piolho, históricos pontos de encontro na vida nocturna portuense, são apenas dois exemplos dos balcões onde foram bebidos e vomitados alguns dos versos desta colectânea de A. Pedro Ribeiro. É pois esta uma poesia nocturna, da rua, da deambulação, que não enjeita a gíria comum - «em cascos de rolha» (p. 9), «fechas-te em copas» (p. 35) – e o chavão popular - «meio mundo fode outro meio» (p. 12) – na sua réproba demanda. A ideia de poema como anátema talvez não seja descabida de todo para uma possível caracterização desta poesia, conquanto o anátema seja aqui entendido no plano de tal subjectividade que há pouco evocava. As palavras de ordem, o ímpeto político, sofrem no nosso tempo o isolamento das testemunhas. O poeta, em posição voyeurista, acaba transformando-se num mero observador, acusador, denunciante, de um mundo do qual se sente deslocado, no qual se sente desintegrado. A loucura, seja ela consequência do que for, é já solução para essa desintegração, como solução parecem ser os paraísos artificiais de que falavam Thomas de Quincey e Baudelaire. “Cicatrizar as angústias que induzem o espírito à rebelião”, parece ser também um fim último destes poemas arrumados sob o título Saloon, um título que anuncia a entrada num universo delirante, alucinatório, esquizofrénico, como era o universo dos saloons do Old West. É o nosso universo, não é outro, é o universo que todos poderão constatar caso queiram assumir os olhos do poeta, caso queriam arriscar a loucura, o delírio, que é o de estar do outro lado da barricada, do lado oposto àquele onde a esquizofrenia acontece como uma valor que se promove e dissemina sem que alguém se dê conta:

OCEANO

No café “Oceano”
os pensionistas protestam contra
os fracos aumentos das pensões
decretados pelo Governo
mas misturam o tema
com a toxicodependência
e com a pedofilia na Casa Pia

Definitivamente os pensionistas
Não constituem uma classe revolucionária.

Lagos, “Oceano”, dez. 2003.

A. Pedro Ribeiro, Saloon, Edições Mortas, 2007 (?).

in http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

sábado, 20 de outubro de 2007

TRATADO REFORMADOR

O primeiro-ministro saiu vitorioso da cimeira. O primeiro-ministro teve um ataque de ciumeira à saída da cimeira. O primeiro-ministro apanhou uma bebedeira à saída da cimeira. O primeiro-ministro teve um ataque de caganeira à saída da cimeira.
Os 27 assinaram o Tratado. O Tratado foi assassinado à porta do hipermercado. Os 27 foram alvejados 27 vezes. Os 27 e o Tratado foram ao circo. Os 27 e o Tratado tiveram um ataque de caganeira.

AS BACANTES E O AMOR LOUCO


AS BACANTES E O AMOR LOUCO

António Pedro Ribeiro

"Não fazemos mais do que amar a terra e, através da mulher, a terra retribui esse amor amando-nos", escreveu o fundador do movimento surrealista, André Breton. E, de facto, ao amarmos a terra amamos também a mulher, porque a mulher está muito mais próxima da terra, da natureza, do "Uno Primordial" do que o homem. E não é só a questão da maternidade a marcar a diferença. Basta observar os cabelos, os gritos e o riso das mulheres: são muito mais loucos, mais primitivos, mais selvagens, mais libertos. F. Nietzsche ("Para Além do Bem e do Mal") descreve magistralmente as mulheres: "o que na mulher inspira o respeito e, com frequência, o receio é a sua natureza mais natural do que a do homem, a sua leveza felina e astuta, a sua garra de tigre-fêmea, sob a luva de veludo, a ingenuidade do seu egoísmo, a sua irredutibilidade e a sua selvajaria intrínseca, o carácter incompreensível, desmesurado e volúvel dos seus desejos e virtudes". E Breton acrescenta em "O Amor Louco": "A dama de espadas é mais bela que a dama de copas".
Apesar de a sociedade mercantilista de hoje nos arrastar para o calculismo, para o cinismo, para a competição, para a eficácia, para a submissão, continuam a existir comportamentos predominantemente instintivos e intuitivos nas mulheres (ou, pelo menos, na maioria delas) que para nós, homens, parecem incompreensíveis mas que, ao mesmo tempo, nos fascinam e enfeitiçam. Só alguns homens- os artistas/criadores dionisíacos e os xamãs/feiticeiros índios conseguem ser instintivos, "irracionais" e primitivos como as mulheres e os animais. Aliás, é essa a sua benção e a sua tragédia. O próprio Dionisos se fazia passar por mulher para atrair as mulheres da cidade para a montanha, onde se convertiam em Bacantes que bebiam, dançavam, cantavam e dançavam e celebravam o deus do prazer e da embriaguez. Há muitos pontos de contacto entre os bacanais, os rituais xamânicos e alguns concertos rock dos nossos dias. Há uma atmosfera de celebração, de transe, de ritual mítico e primitivo comum às preces das bacantes, ao transe desmesurado do xamã que entra em contacto com os deuses e com os espíritos e ao vocalista/"frontman"/actor/ animal de palco que veste a pele do xamã e do próprio Dionisos- Jim Morrison, Robert Plant, Ian Curtis, Mick Jagger, Iggy Pop, David Bowie, Peter Murphy, são alguns dos melhores exemplos. Essa postura libertária/libertina pressupõe a ultrapassagem dos limites e da moral dominante, numa viagem que vai até à loucura e sempre que surge, através dos séculos, incomoda os poderes vigente que tentam, a todo o custo, afastá-la do cidadão comum ou abafá-la, o que já tem conseguido, mas nunca totalmente, já que a tensão dionisíaca e o "uno primordial" são intemporais e acabam sempre por libertar-se graças a algumas almas livres e malditas e às novas bacantes que despontam.
Para os filhos de Dionisos e para as mulheres não reprimidas, a liberdade e o amor só podem ser loucos. É por isso que Breton proclama: "Desejo-vos que sejais loucamente amada!" ("O Amor louco"). Léo Ferré acrescenta: "o amor é um dos aspectos que a divindade assume...tal como a música!" e Bizet, na sua "Carmen" corrobora: "O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar". Os grandes poetas: Homero, Shakespeare, Camões, Nietzsche, Sófocles, Rimbaud, Baudelaire, Breton, Walt Whitman, William Blake, John Milton, Holderlin, Artaud, Aragon, Sade, Cesariny, Herberto Hélder, Pessoa, Mário de Sá-Carneiro- têm de ser também magos e, portanto, loucos, naturais e primitivos, daí que se sintam mais próximos das mulheres.