segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A VITÓRIA HISTÓRICA DO SYRIZA

A vitória histórica do Syriza nas eleições gregas significa o princípio do fim desta União Europeia financeira e capitalista. O Syriza vai acabar com a austeridade e vai romper com a Troika e com o imperialismo alemão. Acabou o medo. A ditadura dos mercados está posta em causa. As bolsas tremem. Os partidos do centrão são derrotados e a extrema-esquerda sobe e ganha, como pode também acontecer com o Podemos em Espanha. Há muitos anos que a extrema-esquerda não subia ao poder na Europa. Há, de facto, algo de novo, um novo espectro. A dignidade, a verdadeira democracia, a justiça social, a fraternidade e a igualdade são finalmente reconquistados. Haja esperança. Da terra de Sócrates, Platão e Aristóteles vem o verdadeiro socialismo, o socialismo de rosto humano, o reinício do homem novo de Che Guevara. A revolução mundial está à espreita.

sábado, 24 de janeiro de 2015

BÁRBARA

A Bárbara apanhou porrada do Carrilho
a mana do Ronaldo insultou o Figo
eis o grande show das nossas vidas
o "reality-show"
a "Casa dos Segredos"
as vedetas digladiam-se na praça pública
e nós assistimos
eles vivem por nós
nós não vivemos
sobrevivemos
com o nosso trabalhinho
e as nossas prisões
o Sócrates está preso
faltam os outros
puta de novela imbecil
cegos que se deixam levar por imbecis
tudo se vende na arena
o pai e a mãe, se for preciso
onde está Atenas?
Sócrates, Platão
onde está o meu irmão?
Vale tudo
nestes dias sombrios
há uns palhaços pagos
para nos fazer rir
e há os outros patetas
a acumular dinheiro e poder
há os vendilhões
e o país a arder
há o poeta sentado à mesa
há o poeta cada vez mais só
até recebe ameaças pelo telefone
incomoda
era preciso que fôssemos mais
muitos mais.
Guardeiras, "Veracruz", 20.1.15

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O POETA LIVRE

António Pedro Ribeiro - O Escritor Livre em submarinoamarelo25.blogspot.pt


 Chama-se António Pedro Ribeiro e assume-se como um escritor completamente livre. Seguidor da arte em estado puro, o poeta permitiu que o SubamarinoAmarelo esmiuçasse um pouco de si e da sua visão do mundo. Segue, a sua entrevista







SA - De onde lhe surgiu o gosto pela escrita?

António Pedro Ribeiro -  Escrevi os primeiros versos aos 14/15 anos quando frequentava o Liceu Sá de Miranda em Braga. Eram daqueles versos ingénuos e imaturos mas um deles, sobre a guerra, ganhou um prémio num concurso literário organizado pelo liceu. Aos 16 anos escrevia umas letras em inglês para uma banda imaginária chamada "The Vikings", que tinha como mentor o Peter Owne, o poeta das barbas, meio hippie, meio freak, que se sentava, contemplativo, à esplanada do Café Central. Aos 18 terei escrito os meus primeiros bons poemas como "Mulher Ausente", "Anjo em Chamas", "Representação" ou "Ébrio 29". Comecei a escrever graças ao meu professor de Português do 10º ano, José Miguel Braga, que tinha uma forma muito original e inovadora de dar as aulas, incentivando-nos para a escrita e para a leitura. Também devo muito aos meus colegas Rui Soares e Jorge Pereira.



SA - O António Pedro é um escritor com uma obra vasta, como define essa sua obra?

António Pedro Ribeiro - Publiquei 13 livros. Alguns são muito diferentes entre si. O "Á Mesa do Homem Só" de 2001 é lírico, vertiginoso e praticamente não fala de política, como disse o crítico do "Diário de Notícias", enquanto que a "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro", publicada pelo Valter Hugo Mãe, e que foi o livro com mais êxito, e o "Queimai o Dinheiro" são satíricos, hedonistas e muito politizados. "Nietzsche, Jim Morrison, Henry Miller, os Mercados e Outras Conversas" é em prosa e entra nos campos da filosofia e da sociologia, com algum misticismo à mistura, tal como a segunda parte de "O Caos às Portas da Ilha". A minha escrita foi-se tornando mais cortante e mais crua. Tenho também livros dedicados aos cafés e à vida de café, sobretudo "Café Paraíso", mas também "Á Mesa do Homem Só" ou "Saloon". Creio que, ao longo destes anos, tenho cantado a liberdade, como em "Fora da Lei", a revolta e a loucura mas também a mulher bela, a vida nocturna, o álcool, os bares e as noitadas, o poeta à mesa e os seus filmes, o animal de palco, o rock, o concerto.



SA - Em que autores se inspira?

António Pedro Ribeiro - Antes de todos, Nietzsche e Jim Morrison. Deram-me a volta à cabeça várias vezes. Morrison exigia o mundo aqui e agora, era um animal de palco, um profeta, dizia que esta vida não se resume a uma fórmula única e irreversível, que todos podemos ser deuses. Nietzsche alertou-me para o homem pequeno, para o macaco que trepa para cima dos outros em busca do poder, do dinheiro, do estatuto. Fala do espírito livre, do criador, da liberdade absoluta que se opõem ao rebanho e à "felicidade" da maioria. Foi um período da minha vida, entre os 16 e os 20 anos, em que ouvia os Pink Floyd e as letras anti-sistema do Roger Waters, em que ouvia os Doors e li "Assim Falava Zaratustra", livro que já li sete vezes, além de ter visto o "Apocalypse Now" de Coppola, com o Marlon Brando naquele papel genial de xamã. Foi um cocktail molotov na minha cabeça. Agora leio mais livros de filosofia ou de sociologia do que literatura. Tenho lido Platão, Aristóteles, Max Stirner, Karl Marx, Kropotkine, Sartre, Marcuse, Bertrand Russell, Erich Fromm, Zizek, Edgar Morin, Raoul Vaneigem, Guy Debord, Hannah Arendt, Agostinho da Silva mas continuo a ouvir Lou Reed, Led Zeppelin, Doors, Joy Division, UHF, Mão Morta e sou influenciado pelos escritores e poetas Shakespeare, Henry Miller, Dostoievski, Anais Nin, Rimbaud, Sade, Bukowski, William Burroughs, Allen Ginsberg, George Orwell, Walt Whitman, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Luiz Pacheco, os surrealistas, Sebastião Alba, Mário Cesariny e Alberto Pimenta.




SA - É muito crítico para com a Sociedade actual… Que fragilidades lhe aponta? Como melhorá-la?

António Pedro Ribeiro - Eu penso que é terrível estarmos numa sociedade dominada pelo medo, onde as pessoas se atropelam, onde competem umas com as outras, onde quase se limitam a lutar pela sobrevivência. O novo deus- o outro está morto como proclamou Nietzsche- é o dinheiro, por ele vende-se pai e mãe, a ele quase nada escapa. Nascer, trabalhar, morrer. É para o sacrifício, para a culpa que parece que estamos aqui na Terra. Quando não se morre de fome, morre-se de tédio. Assim a vida não é vida. Os políticos ao serviço dos mercados, dos banqueiros, dos especuladores e dos capitalistas, os pregadores da morte, os inimigos da vida, como dizia Nietzsche, são corruptos e vigaristas e roubam-nos os salários, as pensões, o tempo, a própria vida. Os media fazem-nos lavagens ao cérebro com programas imbecis, com comentadores vendidos, com notícias manipuladas. Perante este cenário há duas saídas: a revolução das mentalidades e a revolução política. Penso que, apesar de tudo, há alguma esperança com o Syriza na Grécia, com o Podemos em Espanha e com os avanços da esquerda na América Latina. A revolução das mentalidades passa pela consciencialização das pessoas de que esta "vida" não serve, passa pelas leituras, pela arte, pela música, passa pela filosofia, pela discussão destes problemas na praça pública. Passa também pela transmissão de conhecimentos, pelas escolas, pelos ensinamentos dos pais, dos professores, dos livres pensadores, daqueles que não estão rendidos à máquina, já que neste momento, na grande maioria dos casos, as crianças e os jovens são encaminhados para a competição, para o mercado, para a manha. De qualquer forma, penso que nos próximos 10, 20, 30 anos haverá uma grande revolução, nem que seja por causa das catástrofes naturais que aí vêm. Teremos que chegar à conclusão que não é justo que andemos a contar os trocos ou a morrer de fome enquanto estes bandidos fascistas nadam em milhões e acumulam. Teremos de nos revoltar mais tarde ou mais cedo.



SA - A Literatura é uma ferramenta de transformação do mundo?

António Pedro Ribeiro - Sim. Houve poetas e escritores que, com as suas obras e ideias, mudaram o mundo. Pode não ser logo, pode não ser em vida mas acabam por mudar, por influenciar. Eu, modestamente, tento fazer a minha parte, quer na escrita, quer no palco, quer na apresentação pública.






SA - Um escritor tem um estilo de vida próprio?

António Pedro Ribeiro - Há escritores e escritores. Há os versejadores da corte, aqueles que se colam aos poderes, aqueles que se vendem e há aqueles que vivem como poetas, os malditos, os homens livres como Henry Miller, Bukowski, Allen Ginsberg, Léo Ferré, Nietzsche, Sade, Céline, Jim Morrison, Rimbaud, Luiz Pacheco, Cesariny, Sebastião Alba, Jaime Lousa, Joaquim Castro Caldas. Há aqueles que desafiam o instituído e gritam "nem Deus, nem amos!".



SA - Quais os seus projectos para o futuro?

António Pedro Ribeiro Nos últimos oito anos publiquei 10 livros. Há que fazer uma pausa. Até porque há textos que publiquei em livro que agora não publicaria. Tenho de gastar mais tempo a corrigir, a depurar os textos. De qualquer forma, estou a preparar um livro que fala dos filmes da minha vida. Além disso, gostaria de fazer um espectáculo com textos dos poetas do rock misturados com poemas meus e, claro, quero participar na revolução vindoura.



SA - A maior parte dos leitores do nosso blog são jovens, que mensagem gostaria de lhes transmitir?

António Pedro Ribeiro Aconselho-os a ler muito, a estudar muito os mestres, a compreender o mundo. Aconselho-os a criar no papel, no computador, na tela, no palco, a descobrir que há outro mundo de amor, liberdade e poesia, que o capitalismo não é eterno. Aconselho-os a discutir estas questões, a duvidar, a não se deixarem levar por esta máquina terrível. A ouvir aqueles que me influenciaram e me ajudaram a fazer a ruptura: Doors, Lou Reed, Pink Floyd, Led Zeppelin, Nirvana, Joy Division, Bob Dylan, John Lennon, José Afonso, UHF, Mão Morta. A buscarem a vida gratuita, de que falava Agostinho da Silva.
        

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

AS COMUNAS LIVRES E O MUNDO NOSSO


Havia comunas livres na Europa, durante a Idade Média e no sec. XVI. Eram os movimentos hussistas e anabaptistas que, segundo Kropotkine, além de constituirem uma revolta contra os senhores, assumiam a rebelião completa contra o Estado e contra a Igreja, contra o direito romano e canónico em nome do cristianismo primitivo. Pregava-se a liberdade absoluta do indivíduo, que não deveria obedecer senão aos ditames da sua consciência, o anarquismo e o comunismo. Negava-se ao senhor a posse das terras e ao Estado o tributo pessoal ou em dinheiro. 
Sim, somos utópicos. Mas aquilo que defendemos já existiu. Há que actuar na educação e na cultura. Levar até às crianças, aos jovens e aos outros cidadãos o gosto de ler, de aprender, a sabedoria. As almas de escravos não podem contemplar a beleza, diz Agostinho da Silva. "O escravo é aquele (...) que não se pode libertar da miséria dos dias iguais", do tédio. Enquanto não nos emanciparmos, enquanto não fizermos uso do direito de pensar, de questionar, de sermos dignos, seremos escravos ao serviço da máquina do dinheiro, da castração e do mercado. Enquanto assistirmos a programas pimba e imbecis na TV, enquanto o futebol for uma religião, enquanto as telenovelas e as vedetas cor-de-rosa reinarem, nunca seremos livres e autónomos. Muitos de nós reduzem-se a macacos que comem, bebem, consomem e trabalham. Teremos de ser audazes, teremos de ir ao encontro das pessoas como Sócrates ou Jesus, teremos de provocar a discussão, teremos de transmitir os nossos conhecimentos. Interviremos no domínio da arte, da criação, da literatura, interviremos na política e na cultura, todos seremos filósofos no sentido de trazer as pessoas para a luz em vez das trevas, da banditagem e da corrupção capitalistas. Transmitiremos o amor e a virtude. Mostraremos como somos livres, como só dependemos da nossa consciência. Mostraremos que queremos o mundo de uma vez por todas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

MENDIGO

Quando eu for mendigo
As meninas vão-me expulsar
D’ “A Brasileira”
Ainda assim a louca
Vem ter comigo
Fala-me do Papa e da Igreja
Pergunta-me se estou nervoso
E eu aqui com a cerveja
Sou um homem do mundo
Mesmo que não saia de Braga.



Braga, “A Brasileira”, 29.7.2013

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

MULHERES QUE ME QUEREM

Há mulheres que me querem, que são amigas, companheiras. Há outras que não me entendem porque sou o poeta maldito, porque ando teso, porque sou diferente, porque digo e escrevo coisas que os outros não dizem. Não sou homem de casamentos, de família. Sou o poeta dos cafés e da rua. Às vezes estou mesmo à margem da sociedade. Daí que muitas mulheres não me entendam, mesmo que sejam simpáticas comigo. Eu procuro um mundo novo. Um mundo sem castrações, sem opressão, sem manipulação. Não tenho modelos a propor. Sei que não quero andar cabisbaixo, que não quero as pessoas a atropelarem-se umas às outras, que não quero a exploração do homem pelo homem. Sei que quero a revolução. Sim, há mulheres que debatem comigo, que me respeitam, mesmo sendo eu um boémio. Sim, quero gozar, divertir-me, beber a valer. Queria aproximar-me dos jovens e das crianças. Contar-lhes o que sei. Sim, quero ser um filósofo. Não um pregador da morte mas um pregador da vida. Quero falar do que poderia ser.

sábado, 10 de janeiro de 2015

VIVER PARA CONHECER

Viver para conhecer. Estudar os mestres e conhecer os deuses e os demónios interiores. Sim, viver para a curiosidade e para a descoberta, puxar pelo pensamento e pelo coração. Entender o homem. Porque se move e se levanta da cama. Porque ri e chora. Porque se deixa controlar por outros homens e pela máquina. Porque alguns se adaptam ao sistema dinheiro/trabalho e outros não. Porque somos possuídos pela loucura. Porque criamos grandes obras. Quem somos nós, afinal? Nascemos com a bênção da vida, brincamos, vamos à escola. Dependemos dos pais, dos professores, dos amigos, dos colegas. Uns (poucos) mostram-nos a via livre, a vida do conhecimento, da diversão, do belo, outros empurram-nos para o mercado, para a prisão, para a ordem. E assim nos vamos distinguindo uns dos outros, alguns de nós pintamos, fazemos teatro, escrevemos poemas e continuamos nesse caminho. Alguns de nós, mesmo ficando sós, reflectimos sobre as grandes obras, procuramos o sentido da vida. Alguns de nós, mesmo sendo rejeitados, malditos, questionamos Deus, o Estado, o Mercado. Alguns de nós sabemos que a vida é uma bênção, que a vida é muito mais do que nos mostram. Que a vida é gozo, criação, sabedoria. Alguns de nós sabemos que a vida é embriaguez, vertigem, que não pode ser trabalho, imposição, escravatura. Alguns de nós sabemos que a vida é liberdade, amor, poesia. Alguns de nós sabemos que viemos para reinar, não para fazer o que nos mandam. Alguns de nós conhecemos a nova sabedoria, a nova ideia, a nova alegria como preconizava Rimbaud. Alguns de nós sabemos que o pensamento é infinito, que nada é impossível. Alguns de nós, mesmo renegados, reprovados, atirados para um canto ou para as ruas, sabemos que podemos escrever a grande obra, que casando os mestres com a vida interior alcançaremos o paraíso.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

MENSAGEM

A miúda lê um livro na confeitaria. Talvez um romance. Novidade absoluta. Esta gente não é apegada à leitura. Desconhece os benefícios da leitura. Ler é saber, é descobrir o mundo. Não seria este que sou hoje se não tivesse lido os mestres, se alguns não mos tivessem mostrado. Eis o caminho que passei a seguir aos 17/18 anos. Tive excelentes notas no 12º. Era um jovem promissor. Mas os livros, os discos e os filmes deram-me a volta à cabeça. Sobretudo Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Saramago, Nietzsche, Jim Morrison, o "Apocalypse Now" de Coppola. Nunca mais fui o mesmo. Comecei a pôr em causa o capitalismo, a via única, o pensamento único. E é esta a mensagem que deixo aos jovens e aos adolescentes. Pensem por vocês próprios, leiam poesia, romances, filosofia. Procurai o vosso caminho também na música: Doors, Led Zeppelin, Lou Reed, Joy Division. Não acrediteis na linguagem dos políticos do sistema, dos empresários, dos economistas. Tal é a linguagem da predação, da manha, da corrupção. Daquele que se safa e passa à frente. Discuti entre vós quem é o homem, o que veio fazer à Terra. Contai uns aos outros as vossas aventuras interiores e exteriores. Partilhai os vossos conhecimentos, escutai os mestres, procurai o céu na Terra. Sede únicos e gozai, gozai muito.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A OCUPAÇÃO DE REFLECTIR

O homem deve dedicar o menor tempo possível ao trabalho, que não é honra nem virtude mas antes necessidade e condenação, segundo Agostinho da Silva. O homem deve dedicar-se à ocupação de reflectir, filosofar e discutir as doutrinas dos sábios e os interesses da cidade. Deve também entregar-se à arte e à criação. Daí que o homem deva sentir desprezo pelo dinheiro e pela acumulação de riquezas, pela pequena intriga e pela inveja, daí que o homem não deva perder a criança em si, que escolha o caminho da liberdade em vez de se deixar levar pelas patranhas capitalistas do negócio, do empreendorismo, da competividade, de tudo o que o oprime interior e exteriormente. O homem deve ser também capaz de se governar a si próprio, de prescindir do Estado e da governação. O homem deve atravessar a aventura da vida como um príncipe das ideias e como um criador.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

OS VENDILHÕES

A sociedade actual, apesar dos grandes avanços científicos e tecnológicos, conduz cada vez mais à doença mental e ao suicídio e "tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a (própria) capacidade de amar", nas palavras de Erich Fromm. Os vendilhões da política e da economia não fazem qualquer esforço no sentido de educarem as massas, a fim de que estas se preparem para se governarem a si próprias, contentando-se com a manipulação e a exploração delas, acrescenta Aldous Huxley. Habituado à televisão e à Internet, o homem comum não é capaz de se concentrar ou de fazer um esforço intelectual prolongado. O seu ofício não é pensar, mas simplesmente trabalhar. Vítima da manipulação do espírito, o homem comum não tem a noção de que é vítima, nem se apercebe da prisão onde vive, julgando-se livre. Mesmo os jovens parecem totalmente indiferentes à ideia de se governarem a si próprios e parecem não se interessar pela liberdade de pensamento e pelo direito de discordar. E a "liberdade e a independência só existem quando o indivíduo pensa, sente e decide por si", ainda Fromm. De facto, na televisão reinam o baixo nível cultural, a infantilização dos telespectadores, o futebol, as telenovelas, a "Casa dos Segredos", os cantores pimba. Dão-nos lixo, em suma. As pessoas ficam atrofiadas, não aprofundam os pensamentos e as ideias, não lêem os grandes livros, não dão importância à cultura, vivendo no mundo do dinheiro e da falta dele, vivendo de modas e aparências, de coisas sem qualquer importância.

domingo, 28 de dezembro de 2014

VAGABUNDO DAS ERAS


Devo ser bom

para estes débeis mentais?

Ou devo foder, foder, amar, amar

as damas de espadas?

Não há pachorra para tanta merda...

só falam da peste e de doenças...

da pele que queima

à flor da pele

à flor da Eva

rosa negra


merda para as ratas de sacristia!


com a canção a ferida sara

a coisa melhora

mas ainda não te percebem

vagabundo das eras.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

BEBE

Beber só te faz bem
não ouças a psicóloga
nem a mamã
a bebida liberta-te
solta-te o espírito
e a palavra
és mais tu
és algo mais
é Natal
e até nem ligas
são superstições
nada mais
o menino Jesus
morreu na cruz
e tu és doido
tu és livre
mais do que ele
e permaneces aqui vivo
celebras com Borges,
Swedenborg e Stirner
bebe, filho, bebe
de que te vale esforçares-te
como estes animais?
A glória vem ter contigo
tal como os livros
tal como o Graal
bebe, filho, bebe
não vais morrer hoje
nem tens de aturar imbecis
bebe, bebe
e caga no Natal.

BRAGA, MEU AMOR

Finalmente em Braga, na minha terra, na "Brasileira". Se pudesse viria viver para aqui. A cerveja dá-me alma. A cidade também. Vivi aqui momentos mágicos, outros piores, naturalmente. Vivi a noite e vivi a vida. Agora já poucos me reconhecem. Houve a história do hipermercado, as candidaturas a deputado pelo PSR. Houve e há, claro, a Gotucha. Hoje a "Brasileira" está a abarrotar. É Natal. O Natal nada me diz. Há a empregada bonita que traz as cervejas. Estou melhor. Tremo pouco. Houve também o Álvaro, o Alexandre, a Natércia. Dizem que sou o poeta da revolta, o último dos beats, o último dos poetas de café. Desejo o cu da empregada. Há quem elogie as minhas crónicas e os meus poemas. Há quem diga que sou único, original. Falta um maior reconhecimento dos media. No entanto, estou no bom caminho. "O Caos às Portas da Ilha" teve um bom arranque no Olimpo com a Maria Tomé a cantar, com a Albertina e a Georgina a dizer poemas do livro. E eu que não as conhecia de lado nenhum...o "Fora da Lei" vendeu mais de 100. As coisas rolam. O poeta está vivo. Aqui em Braga, na "Brasileira". As pessoas entram e saem. Lêem, conversam. O poeta arde. Sente a glória próxima. Aparenta ser um bom cidadão mas é louco, único, maldito. As barbas crescem. Até que ficam bem as brancas. Dão um ar de respeitabilidade. De senhor, de pensador. Ainda está por escrever a obra filosófica. Queria estar aqui em Braga todos os dias. Vir aqui à "Brasileira" ler e escrever. Ser o poeta reconhecido pelas pessoas. O poeta que fica irritado quando perde uma discussão. O poeta que debate e rebate. O poeta que conheceu o Jaime Lousa. Que o ouvia, que com ele aprendeu muitas coisas, tal como com o Artur Queiroz. Não, ainda não sou a estrela. Por norma sou simpático com as pessoas. Aprendi com os meus pais. Contudo, sei que me posso tornar agressivo. Em certas noites, em certos dias. Já andei a apedrejar carros e vidros da Câmara e da Junta de Freguesia. Não tenho a erudição do Rocha mas sei umas coisas. Agora sinto-me rei, soberano, com Max Stirner. A vida é minha. A cidade é minha. Danço com Diógenes e Luíz Pacheco. Tenho lido pouco autores portugueses, com a excepção de Agostinho da Silva. Talvez isso seja mau, não sei. Sou o último dos poetas ébrios. Sou guevarista, socialista utópico, anarquista. Sou utópico, assumo-o. Odeio a economia e a linguagem da economia. Conto os trocos, é certo. Tenho de sobreviver. Mas coloco a vida acima da sobrevivência. No poder, com algumas excepções, só vejo corruptos e vigaristas. O Estado está em causa. Talvez venha a anarquia. Finalmente, a anarquia. Esta merda a rebentar, o povo na rua a partir os bancos, a partir as montras. Desprezas o meu poder, ó Rocha. Sou dono de mim e da vida. Acredito num mundo de senhores. Senhores sem escravos. Desprezais o poeta, ó mundanos. Não sabeis até onde ele pode ir. O que é certo é que ele nada tem a perder. O que é certo é que ele é dono da palavra. O que é certo é que ele influencia as pessoas. Vai influenciando. Aos poucos, sem pressa. E a Gotucha nunca mais vem. E o poeta continua a escrever. Há outras gajas, outras miúdas. As pessoas ouvem-me, ó imbecil. Se eu disser o que é certo no local certo. Se eu publicar ou for às noites de poesia. Há quem me admire, quem me exalte, ó dono da verdade. A ti ninguém te ouve. Estás com todo esse paleio capitalista e economicista mas falas para as paredes e a mim não me convences, ó Rocha. O meu ego é superior ao teu, ó ginasta. Prepara-te para a próxima discussão. Virei armado.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O ÚNICO

Torna-te único, livre, singular. Afasta os dogmas da Igreja, do Estado, do capital. Mata-os na tua mente. Passeia-te pelas ruas como um senhor. Escreve, vive, cria. Não aceites o trabalho como uma fatalidade. Vieste para te ultrapassar, para desafiar os poderes, para voar. Nada está acima de ti. És Deus. A tua mente pode tudo. Mereces o paraíso que o outro Deus te roubou. Chama a tua Eva. Vive como poeta, como vadio. Reclama o que é teu. Chama os outros. Constrói uma comunidade. Dispensa a "verdade" do dinheiro. Vive plenamente. Estuda o homem e a mulher. Vive na pureza. Vive dentro de ti. Procura o bem, o belo e a verdade. Bebe. Brinda. Celebra. Os dias são teus. Goza-os. Fala aos homens e às mulheres. Diz-lhes que vivem enganados. Que há outra via, outra vida. Diz-lhes que o novo homem está a nascer. Que o paraíso está à vista. Que os poderosos vão cair.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014


Recuso-me a renunciar a mim mesmo
Recuso-me a obedecer ao que quer que seja
A Deus, ao Estado, aos patrões
Prefiro ser um vadio, um vagabundo
E dizer o que realmente penso
Não alinho na vossa lei,
Na vossa tranquilidade, ó burgueses,
Nasci diferente
Fui-me fazendo
Ouvi este e aquela
Li os mestres
Ouvi os discos
Tornei-me naquele que sou
Nada está acima de mim
Desprezo-vos, ó comentadores
Desprezo-vos, ó vedetas televisivas
Desprezo-vos, ó pregadores da morte
Eu vivo
Eu bebo
Eu brindo
Eu não me vendo
Eu venho dos sóis
Das estrelas
Nasci para passar a mensagem
A vida que levais é absurda
Sempre a correr atrás do dinheiro
Em vez de desfrutar da vida
Dos prazeres
Da sabedoria
Revoltei-me contra os números
E a economia
Não falo sequer a vossa linguagem
Vim para me completar
E para me dar
Ainda que esteja só
Ainda que poucos me sigam
Ainda que me queiram destruir
Matar-me à fome ou de tédio
Sou um homem livre
Um pensador
Um poeta
Escrevo para todos e para ninguém.