quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O HOMEM MORIBUNDO

A sociedade mercantil consome os cidadãos com trabalho e isola-os através do medo. Estou na confeitaria, as pessoas ainda falam mas não discutem o essencial, a condição humana, perdem-se em futilidades. As pessoas aceitam o patrão, o governo, a União Europeia, as grandes corporações, a máfia financeira. Não questionam. Parece que apenas se preocupam com os seus problemas particulares, com o futebol, com as vedetas. Não vivem a polis. 
Felizmente, ainda ouço pessoas revoltadas com isto. Pessoas que se insurgem contra a desumanização e a escravização. Contudo, ainda não estamos suficientemente unidos para fazer a revolução. A revolução que instaure uma nova forma de vida sem dominação nem trocas monetárias. A liberdade que rejeita qualquer força que possa interferir com as nossas vontades ou desejos. Isto não é nenhuma quimera. Está tudo na mente e no coração. É uma questão de nos libertarmos desta sociedade odiosa e castradora. Em vez de falarmos de banalidades e de coisas estúpidas, discutamos a vida e o sentido da vida. É uma questão de filosofia. Em vez de ouvirmos esses patetas a fazer-nos a cabeça e a falar economês na TV, discutamos nós a polis e a vida. É o começo. Depois partiremos para a acção. Isto atingiu um estado miserável. Não sei como ainda riem. O homem está moribundo.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

POR QUE RAIO TEMOS QUE NOS SUBMETER?

"Os homens não podem evitar as suas determinações físicas e psicológicas, tal como não podem evitar os desastres naturais, mas podem, em contrapartida, recusar-se a obedecer como escravos às instituições ou a outros seres humanos", afirma George Woodcock. Com efeito, pode não parecer, mas muitas das imposições que a sociedade determina são meras convenções, são tigres de papel. Por que raio tenho que aceitar que o Américo Amorim, o Soares dos Santos ou o Belmiro de Azevedo sejam superiores a mim ou sejam milionários? Por que raio tenho que aceitar o Cavaco ou o Marcelo se nunca votei neles? Por que raio tenho de aceitar o reinado destes e de outros imbecis? Não nasci livre e único? Não ouvi e li os mestres? Por que raio temos medo? Por que raio temos que nos submeter?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O LADO MÁGICO DA VIDA

Ontem, à porta do "Candelabro", um bêbado veio ter comigo e elogiou as minhas performances no Teatro Campo Alegre de há uns anos atrás. De facto, às vezes um gajo sente-se só e, afinal, há uma data de gente que nos conhece na cidade. Cidade onde vou aprofundando amizades, discutindo a polis e novos projectos, onde não mando nem obedeço. 
"Os homens passaram a ser desiguais não só por aquilo que eram mas também por aquilo que tinham", afirma Fernando Savater. Os filhos dos reis eram reis ou príncipes, os filhos dos ricos tendem a ser ricos, os filhos dos pobres tendiam a ser pobres. No entanto, os gregos antigos inventaram a polis, a comunidade de cidadania em cujo espaço não reina a necessidade da natureza nem a vontade dos deuses mas a liberdade dos homens, ou seja, a sua capacidade de raciocinarem, de discutirem, de escolherem e revogarem os dirigentes, de construirem a democracia. Isto, entretanto, deu muitas voltas. A democracia de hoje não é a democracia de Atenas, que era directa. A democracia de hoje é completamente manipulada pelos media, pelos seus opinadores vendidos, pelas grandes corporações e pela alta finança. Contudo, apesar de tudo, há uns bêbados que nos vêm abraçar pois recordam-se da nossa actuação de há cinco ou seis anos no Campo Alegre, apesar de tudo há amigos e amigas com quem estreitamos laços e compartilhamos estórias. Sim, ainda há um lado mágico na vida que eles não conseguiram derrotar. Por isso prosseguimos viagem.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O CAPITALISMO É O CONTRÁRIO DO AMOR

Aqui chegados. Apoiamos o governo de António Costa, suportado pelo PCP e pelo BE, mas apenas como uma solução transitória. Apoiamos as suas medidas sociais e condenamos a ingerência de Bruxelas e das agências de "rating" no Orçamento. Somos um país soberano, não uma colónia da Comissão Europeia. Posto isto, declaramos que, numa segunda fase, não aceitamos ser governados por ninguém nem aceitamos que ninguém esteja acima de nós. O capitalismo é o contrário do amor. Amor que é divino, amor que une e não separa, amor que é dar e receber, sem preço nem moeda. Acreditamos também em todos aqueles que, ao longo dos séculos, lutaram pela liberdade e pela justiça. Em todos os que quiseram instaurar o Paraíso na Terra. Em todos os que transmitiram a sua sabedoria. Há algo de bom no ser humano. Contudo, esta sociedade mercantil tende a castrá-lo. Alguns elevam-se, ultrapassam-se na bondade, na criação, na sabedoria. Mesmo que sejam insultados, perseguidos, presos. Outros limitam-se a escrever umas coisitas engraçadas. É a sociedade do consumo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

COOPERAÇÃO EM VEZ DE COMPETIÇÃO

"O Homem não é um ser cujos únicos objectivos na vida são comer, beber e encontrar um refúgio para se abrigar. Uma vez satisfeitas as necessidades materiais, outras necessidades se fazem sentir que, de uma maneira geral, se podem definir como sendo de natureza artística." (Kropotkine)
O homem necessita da arte, da criação, da filosofia. Não se pode satisfazer com o comer, beber, com o ganhar a vida. O homem precisa de elevação, de altura, de desenvolver a sua vida interior. Daí a urgência da hybris, da festa, da loucura mas também do conhecimento, da descoberta.
No mundo capitalista o trabalho é quase sempre desagradável e penoso mas, segundo Kropotkine, se o trabalho fosse livre o homem ficaria satisfeito. Por outro lado, contrariamente ao que se possa pensar, tem sido a cooperação e o trabalho comum e não a competição e a luta pela vida que têm feito progredir as espécies e, consequentemente, o ser humano. Portanto, é falsa a ideia de que a competição e a luta pela existência sejam factores positivos. Antes pelo contrário, têm destruído o ser humano, transformando a vida numa guerra, numa corrida onde uns se atropelam aos outros.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

URGE A REVOLUÇÃO!

Aqui chegados. Vejo esta gente a eleger o papagaio Marcelo. De facto, para que servem as eleições com tanta gente ignorante? A Marisa é um fenómeno muito interessante mas não é revolucionária, nem sei qual é a ideologia do Bloco, eles até falaram em revolução no comício do Porto, mas que revolução? Não é certamente a subversão da ordem estabelecida, não é certamente o derrube do capitalismo. O Bloco aceita as instituições burguesas, aceita a União Europeia. Creio que, quanto a nós, estamos bem nesta linha de provocação do instituído, de permanente desafio à sociedade mercantil. Faltam-nos aliados, companheiros. Ao nível da escrita, temos feito o que há a fazer, temos colocado o dedo na ferida. Pensamos até que o problema não está tanto no dinheiro mas sim na riqueza e até na posse. Quanto mais se tem mais se quer. As pessoas agarram-se aos bens, à riqueza, competem por eles. É uma sociedade desumana esta controlada pelos apostadores das bolsas e dos mercados, pelos "investidores", pelo casino, é uma sociedade de abutres, por muito que a Ana da confeitaria seja simpática comigo todos os dias. É uma sociedade de chacais por muito que as crianças brinquem. E não é com eleições nem com deputados que se vai lá. A lavagem ao cérebro mantém-se. A imbecilidade da "Quinta" e afins mantém-se. O tédio mantém-se. Nada há de espantoso, de maravilhoso no quotidiano. As pessoas repetem-se. É mesmo necessário recomeçar do zero. Regressar à Idade do Ouro. Isto tornou-se insuportável, abominável. Urge, mais do que nunca, a revolução.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A CONFISSÃO

Nestes dias têm-me dito coisas bonitas. Mas vejo as minhas amigas controladas pelo trabalho. Ficam stressadas, não têm tempo, pouco saem. De facto, a máquina vai matando a vida. Eu, por mim, sigo o meu percurso, ouço os tais elogios e também as críticas e os insultos. Tanta coisa já se disse de mim, tanta coisa, meu pai, mas eu prossigo viagem. Não tenho Deus nem amos. Posso dizê-lo hoje. Vou aos sítios dizer poesia. Umas vezes sou mais aplaudido do que outras. Observo os outros. Estudo os livros. Às vezes sou agressivo nas discussões. Gosto de trocar ideias com pessoas que as têm. Sou acusado de ser narcisista mas também se não o fosse minimamente já teria dado um tiro nos cornos. O meu pai transmitiu-me o sentido da justiça. Por isso odeio essa corja de moedeiros, de vendilhões que controlam e decidem. Odeio mesmo. Nem sequer os considero humanos. Vou votar na Marisa porque é inteligente, rebelde, bela e afectuosa. E, de facto, meus amigos, cheguei a um ponto onde já nada há a perder. Time is on my side. Se não apanhar uma cirrose continuarei aqui por uns anos. Há livros a publicar, mensagens a passar. Eu sei que às vezes sou um mau rapaz, um arruaceiro até mas não poderia ser sempre o rapaz dos 17 anos. E fica dito isto em jeito de confissão. Como o fariam Rousseau, Nietzsche ou Voltaire, sem me querer equiparar a eles. Julgo que posso vir a ser um filósofo. Tenho a paixão das ideias, do conhecimento, da sabedoria. Não em todas as áreas, claro. No entanto, efectivamente, vim para isto. Não vim atrás de riquezas. Sou um homem de pensamento. Não que não seja também um homem de acção, em certas circunstâncias. 
Neste momento apoio o governo de António Costa, suportado pelo Bloco e pelo PCP, apoio as medidas sociais que tem adoptado mas é evidente que o vejo como uma solução transitória, especialmente agora que me reconverti ao anarquismo e que vejo a democracia burguesa como uma farsa. Aliás, hoje, 22 de janeiro de 2016, proclamo que nem deveria existir governo nenhum, nem deveríamos delegar os nossos poderes em deputados, governantes ou seja lá quem for. Que os parlamentos, quando muito, servem para propagandear as nossas ideias, como defendia Rosa Luxemburgo. Que as pessoas se deveriam organizar em comunidades livres e autónomas sem Estado. Que a vontade da maioria muitas vezes não é a mais esclarecida, que não é o número que deve decidir mas a razão ou o saber. E aqui estou eu em Vilar do Pinheiro, na confeitaria, a escrever para alguns que me conhecem, para outros que me desconhecem. Alguns vão elogiar este texto, outros o criticarão. Mas mais genuíno não poderia ser.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O INFERNO

Segundo o filósofo Herbert Marcuse, urge a liberdade económica, ou seja, a libertação da luta quotidiana pela existência, da necessidade de ganhar a vida. Urge também a liberdade intelectual, isto é, a reafirmação do pensamento individual, o que significa a abolição da "opinião pública", da doutrinação da comunicação de massas e dos seus fabricantes. A livre empresa e a concorrência, enquanto "liberdade de escolha" entre trabalhar e morrer à fome, impuseram o trabalho penoso, a insegurança e o medo à grande maioria da população. O ser humano é reduzido ao estado de coisa. A escolha entre uma variedade de bens e serviços representa a alienação. Efectivamente, este mundo dos gestos mecânicos, da simpatia de plástico, onde tudo está à venda e "ninguém dá nada a ninguém" não presta e conduz à servidão esgotante, embrutecedora, inumana. A lei do número, do cálculo prevalece matando sentimentos, amizades, paixões. Alguns dominam essa linguagem entediante, a da finança, que a grande maioria não entende. Grande maioria da população que aceita, ou é levada a aceitar, a sociedade mercantil, o que não torna esta nem menos irracional, nem menos condenável. Porque é, de facto, condenável. Porque mata à fome e de tédio. Porque castra o desenvolvimento do homem. Porque é inimiga do amor, da liberdade e da criação. A própria tecnologia funciona de modo a instaurar novas formas mais eficazes e mais agradáveis de controlo social. É, com efeito, um inferno que uns poucos instauraram. Um inferno que urge destruir.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

VIDA SEM SENTIDO


"Andamos simplesmente a cirandar por aí, à espera de morrer e a fazer coisas entretanto para preencher o tempo. Alguns de nós nem sequer umas coisinhas fazem. Somos vegetais." (Charles Bukowski, "Pulp")


Eis a vida de muito boa gente. Limitam-se a preencher o tempo. O capitalismo transformou isto numa prisão sem sentido. Boa parte das pessoas não faz nada que lhes dê gozo. Cumprem os dias de um lado para o outro. Ainda se saúdam, comunicam mas é tudo cada vez mais mecânico. Há cada vez mais depressões, doenças mentais, suicídios. As pessoas atropelam-se na corrida, aldrabam-se pelo lugar, pelo cargo. O medo impera. A honestidade começa a rarear. Rareia também a explosão, a libertação. As pessoas nem sequer são capazes de extrair os tesouros que possuem dentro de si próprias. Deuses, anjos, demónios, fantasmas. Daí que só algumas sejam capazes de criar, de libertar a mente.
Por outro lado, há muita gente só. Cada vez mais. Só, mesmo no meio de muita gente. O capitalismo isola e promove grupos fechados. O álcool e as drogas ainda disfarçam. Mas, de facto, a grande questão é: como preencher o tempo? Claro, muitos são escravos do tempo de trabalho e da ordem, depois vão para casa olhar para a TV. Não. Esta "vida" não serve. Esta "vida" mata o ser humano. Não chega mudar de governo. Não vamos lá com eleições. A democracia burguesa não serve. Urge a revolução.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A DITADURA PERFEITA

"A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros nem sequer sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." (Aldous Huxley)

É precisamente isto que se passa nos nossos dias. As pessoas iludem-se com o consumo e com o divertimento mas, no fundo, são escravas. Falam, vêem TV, utilizam o computador mas, no fundo, têm pouca liberdade. No emprego não podem dizer o que querem, mesmo em locais públicos, como no café, têm medo de dizer certas coisas. Só alguns de nós somos livres e conscientes da situação. Toda a atmosfera que rodeia o cidadão comum o afasta do conhecimento, da arte, do pensamento crítico. O discurso político dominante impõe a linguagem económica, bem como o jargão cru e castrador da finança: os números e percentagens dos mercados e das bolsas, os apetites vorazes dos "investidores". Os media fazem a cabeça das pessoas com comentadores vendidos, com telenovelas que promovem o mal e a manha, com programas de e para atrasados mentais, com um bombardeamento sem critério de notícias. O divertimento que existe ou é completamente forçado ou então tem sempre um corta-unhas no fim. E depois a "democracia" que vigora é sempre burguesa com dirigentes e dirigidos, com exploradores e explorados, com gente de primeira e de segunda.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O JOGO

Há pessoas que aparentemente funcionam bem, que se adaptaram a este sistema. Mas não deixam de ter os seus tiques mecânicos, robóticos. Nós, pelo contrário, já tivemos grandes depressões e, não raras vezes, andamos entediados. Porque, de facto, poucas coisas nos entusiasmam. E, no fundo, achamos absurdo jogar este jogo, preferimos atirar a bola para fora. No fundo, é uma questão de safanço, de luta ridícula pelo lugar, pela existência. Um homem nobre não se sujeita a essas coisas, um homem ou uma mulher nobre busca as alturas. É, de facto, absurdo ver o pessoal a atropelar-se na escola, no trabalho, ver o pessoal a sacrificar-se em troca de mais uns trocos. Isso não é vida, é sub-vida. É o mundo do negócio e da compra e venda. As pessoas, em vez de procurarem o amor, a liberdade e a poesia, sujeitam-se ao controle da tecnologia, à lavagem cerebral dos media, ao império da finança e da linguagem vazia da finança. Os próprios políticos utilizam uma linguagem quase exclusivamente económica, deixando de lado as novas formas de exploração e alienação. Sabendo que há cada vez mais depressões, doenças mentais e suicídios, não percebemos como não há mais explosões anticapitalistas. As pessoas estão muito sós ou divididas em grupos fechados, já não há movimentos significativos e os partidos falam uma linguagem distante. É necessária uma nova linguagem que fale dos problemas do homem e da vida, ou seja, destas questões que temos levantado. É necessário que o homem seja senhor de si mesmo, sem deuses nem chefes. Porque não faz sentido este medo, este andar alinhadinho, esta falta de liberdade. Não há aquele golpe de asa. Não há aquele murro na mesa. Há os tablets e os smartphones. Não há a ágora. Não há Sócrates nem Platão. Não há Atenas. Poucos discutem verdadeiramente a vida.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O AMOR EM NIETZSCHE

Para Nietzsche, o amor é um pássaro rebelde, um filho da boémia, que nunca soube o que era a lei. O amor é, portanto, liberdade, não deve ser aprisionado por convenções ou casamentos. Mas o amor é também carniceiro, quer possuir por inteiro o seu objecto, reinar sem partilha, de corpo e alma, no coração da sua alma, dominá-la, devorá-la até. Para o filósofo alemão, a mulher dá vida e "a vida é mulher". "Todo o desprezo pela vida sexual, todo o opróbrio lançado sobre ela por meio da ideia de que é "impura" é em si mesmo um atentado contra a vida, é o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo da Vida". Temos de viver intensamente o amor e a vida, fugir ao homem pequeno, burguês, "sensato", do bom senso, das meias-medidas. Temos de perseguir a embriaguez, a criação e as alturas. Somos a minoria que procura a luz, que se afasta do materialismo e da mercearia, combatemos a maioria perdida que empurra para o abismo. Segundo Nietzsche, os espíritos livres, em geral, não querem compromissos, são como os pássaros proféticos da Antiguidade, preferem voar sozinhos. "O vosso casamento põe um ponto final nas muitas loucuras breves, a troco de uma longa asneira", assim falava Zaratustra. Foi uma artimanha da religião cristã fazer crer que o amor se poderia encerrar numa instituição. Se amamos a vida, diz Nietzsche, fazendo do amor o centro criador de todas as coisas, "não é pelo hábito de viver, mas pelo hábito de amar".

domingo, 3 de janeiro de 2016

A MANADA

De facto, eles falam, sorriem, comunicam. Mas só a moral judaico-cristã os mantêm unidos e faz com que se respeitem uns aos outros. Senão era a barbárie completa. Há, por vezes, uns professores na universidade ou no liceu, podem existir os nossos pais, os colegas, os amigos, as bandas que ouvimos, os filmes, a dedicação aos livros, tudo isso nos pode incentivar. Todavia, a maioria, ou não tem essa sorte ou não a procura, ou pura e simplesmente segue a manada. E depois, claro,seguem uma vida pré-determinada de trabalho certo, de horas certas, sem criatividade, sem liberdade. Não que nós não experimentemos o deserto, o inferno, não que não nos sintamos muitas vezes sós. Mas esse será o preço que estamos a pagar por termos rejeitado esse tal pão. Olhamos as mulheres belas e vêmo-las com outros gajos e perguntamos: o que é que elas vêem neles? É a tal história da segurança, do conforto, do dinheiro. Por outro lado, olhamos para as crianças, para a eliminação do tempo nas crianças e ficamos com alguma esperança. Contudo, as crianças crescem e, muitas vezes, estragam-se. É a escola, a família, os media, a sociedade, o trabalho. Se não aparecerem os tais pais, professores, amigos, colegas, bandas, intérpretes, filmes, livros. 
Nem sei como não há mais gente deprimida ou com outras doenças mentais ou a cometer suicídio. Provavelmente será graças ao álcool e a outras drogas. Deus meu, isto é tão artificial! Deus meu, porque é que elas não falam comigo? Falais, falais, mas dais-me enfado. E assim vai vivendo esta pobre gente. Sem arte nem grandeza. Com as suas pequenas alegrias. Com as suas meias-medidas. Nunca sairão da caverna. Algumas destas meninas, sim. Se isto não for pelos ares entretanto.
Penso, questiono, e por isso sou diferente. Está a chegar a hora de escrever um livro de filosofia. As crianças choram, gritam. Eu escrevo. Vim ao mundo para isso. Ainda resta alguma ternura na D. Maria José. As crianças parecem macaquinhos. Penso e puxo pela cabeça. Não deixo de olhar o gingar das mulheres atraentes. Ah! Que mulher bonita!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A VIDA ÚNICA

Cada um de nós veio para o mundo para viver a sua vida que é única. Contudo, segundo Agostinho da Silva, o nosso sistema educacional e o sistema capitalista global impedem-no, empurrando-nos para um trabalhinho que garante o salário mensal mas que não nos proporciona a missão de criadores, de tomarmos a iniciativa, de vivermos livremente a vida. A própria universidade serve para tirar cursos, para alcançar canudos, não para formar homens e mulheres. Forma, sim, essencialmente técnicos, especialistas, homens cuja linguagem deixa de ser inteligível para outros homens. Na escola as humanidades, a filosofia, são relegadas para segundo plano, desprezando-se o questionamento e o verdadeiro debate de ideias. Reinam o caos e a confusão, apenas refreados pela moral judaico-cristã. A ignorância, a manha e o chico-espertismo são premiados. A coesão é meramente artificial. Vivemos na civilização da concorrência, do combate, da mera luta pela vida, da batalha pela sobrevivência, como na selva. Poucos mantêm a dignidade. Poucos estão conscientes. Poucos mantêm em si a criança que faz o milagre de conseguir que o tempo desapareça.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A NOVA LINGUAGEM

Não falarei mais a linguagem dos partidos. Não falarei mais a linguagem da economia. Falarei como Jesus, Sócrates ou Nietzsche. Chegou a minha vez de me dirigir aos homens e às mulheres. Venho combater os mercadores e os vendilhões do templo. Mas também o homem pequeno que trepa e inveja. Amo as mulheres belas, mesmo que elas amem o ouro. Amo a liberdade e a justiça. Procuro o ser e não o ter. Todavia, vejo as pessoas separadas, fechadas em grupos, muitas isoladas. As próprias conversas normalmente não são elevadas, são triviais, corriqueiras. Está tudo cheio de medo do papão. De perder o emprego, de perder o cargo, de perder o dinheiro. As pessoas não se movimentam à vontade. Andam controladas. Só alguns escapam. E mesmo esses, algumas vezes, têm problemas de solidão ou de dinheiro. Ainda assim são homens e mulheres livres. Não obedecem a ordens nem têm patrões. Nem sequer têm nada a perder. É aqui que cheguei. Posso dizer e escrever tudo o que me apetece. Posso insultar o governo, o Presidente, os banqueiros, os empresários, os especuladores, a Merkel, o Obama. Posso gozar com esta merda toda. Posso dizer que o caos está próximo, como disse na RTP. É claro que preciso de um pouco mais de atenção, é claro que preciso de mais companheiros. No entanto, sei que digo o que poucos dizem. No entanto, sei que há forças suficientes para formar, quiçá, um novo partido ou um novo movimento. Porque sei que há gente descontente, gente que também põe em causa a linguagem dos partidos. Gente que pensa mais ou menos como eu.