sábado, 21 de janeiro de 2017

REI

Cada palavra tua é uma cidade que arde. É o álcool maldito, os paraísos. Como Miller, como Bukowski, como Jim Morrison. Bebo até cair. De nada me importam as aparências. Putas de Deus. Putas do inferno. "Há poetas heróis e poetas somente/ buscando prazeres, quebrando correntes" (AMR). Hoje vou incendiar a Vila ou, talvez, a Póvoa. As mulheres excitam-me, fazem-me beber. E eu sou o rei. Reino sobre estas terras. Reino contigo, V. Estou a caminho dos céus. E a gaja ri. A grande puta. Puta de Deus. Sois tão imbecis, tão tapados. Não compreendestes Nietzsche, nem Sócrates, nem Jesus. Imbecis, tão imbecis. I love women/ I think they are great/ they're a blessing to the eyes/ a balm to the soul (Lou Reed). Estou demasiado acelerado para o mundo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

REINO

O apocalipse é, simultaneamente, a chegada do reino. Estamos às portas do apocalipse e às portas do reino. Os sinais do reino- Jesus, Bakunine, a sua mensagem, estão entre nós. O reino pode vir a qualquer momento. "Não vos preocupeis mais com a vossa vida, com aquilo que comeis. Não vos preocupeis com o dia de amanhã; o dia de amanhã preocupar-se-à consigo mesmo". "Não junteis tesouros na Terra. (...) Juntai antes tesouros no Céu". Assim falou Jesus. Não discutais números, não façais contas. A vida virá ter convosco. Desprezai os moedeiros, os acumuladores. Não é essa a vossa riqueza. Olhai os sinais do reino. O mundo corre a nosso favor.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

SÓCRATES

É no pensamento que nós atingimos a nossa mais elevada possibilidade. Eis a grande lição de Sócrates, segundo Karl Jaspers. O pensamento é bem, é verdade, é a eternidade do Ser, ultrapassa-se a si mesmo, de acordo com Sócrates e Platão. Sócrates aproxima-se de Jesus, na medida em que entende "que unicamente com um espírito puro, imaculado de paixões terrestres, é que o homem poderia aproximar-se do divino". Sócrates é o homem auto-consciente da razão e da liberdade. Representa também a genialidade da personalidade sobre-humana. Sócrates é o diálogo, o deambular pela cidade, a interrogação, a curiosidade, o espanto. Sócrates é a filosofia.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

REVOLUÇÃO

Manhã cedo no café da Vera. A Vera não está. Levantei-me às 4 com ideias revolucionárias. Saí de casa às 7. Provavelmente vou dar uma volta pela aldeia. Assim o recomendam as médicas. E tu, L., em que mundos paras? Um grande escritor deve começar a trabalhar logo pela manhã. Ainda não fui capaz de criar personagens, além de mim próprio. Olha, uma coisa boa. Cada vez estou menos toxicodependente da televisão. Hoje até prometi sangue, incêndios. Dinheiro não me falta. Houve uma tentativa de infiltração de revolucionários no BE. É tempo de endurecer o discurso. É tempo de cerrar fileiras. A extrema-esquerda e os anarquistas têm que ser duros. Vamos meter medo a esta gente que só sabe trabalhar e ver passar as horas. Coitados, não evoluíram. Contudo, apesar de tudo, com um esforço dá para entrar em diálogo com eles. Como o Che na Bolívia, como Fidel em Cuba, como Chávez na Venezuela. Tenho eternidades à minha frente. Posso ainda ser o grande xamã. Vera, o teu café faz lembrar os filmes do Vasco Santana e do António Silva. Há cenas hilariantes, piadas, brincadeiras. Agora chegaste e volto a ser o poeta solitário que escreve versos à mesa do café. Haja amor, haja alegria, haja crianças. Temos de proteger os nossos, L. e V. A grande batalha aproxima-se. Eles matam-nos de guerra, fome e tédio. Nós temos que atacar. No centenário da Revolução de Outubro temos que atacar. "Anjos de Deus, tende cuidado, e vós, juízes, tende cuidado, com os por vós rejeitados" (Ian Curtis). Nada de negociações ou parlamentarismos. Catarina, Mariana, Marisa, nada de esquerda caviar. É tempo de combater. Olho por olho, dente por dente. Nada temos a ver com os fanáticos de Alá mas temos que fazer a guerrilha. Olha, que mulher linda entrou. A mão treme a segurar o café. Problemas iguais aos meus? Retiro os óculos. Tenho que ser forte. Superdragões, Jorge Jesus, guerras na bola e o povo a ver. Imbecis. Onde estão os meus exércitos? Já cá deveriam estar. Dai-me tempo de antena na rádio, nos jornais, na televisão. Mulheres, minha perdição. As notícias não dão bombas, incêndios em Lisboa. Paz na Terra. Morrerias por mim? Não quero qualquer cargo oficial, só lugares clandestinos. Quero pôr a minha inteligência ao serviço da revolução. Na Póvoa marquei terreno, consegui algumas vitórias. Com a candidatura à Presidência também. Todavia, é preciso mais. Muito mais. Tenho de conquistar novos reinos. Temos de derrotá-los, a todos esses imbecis, como Artur com Lancelot. Filhos da puta. A maldizer os meus comandantes. Não deixo. Não permito. Não sou. Reino aqui como no inferno. Não tenhas medo. Não tenhas medo. Não te faço mal. Nunca te farei mal. Só a esses bandidos. Vingarei o meu pai, os meus camaradas, os meus companheiros. Estou às portas do céu. A mente abre. Loucuras tantas. Amo-vos, meus irmãos, minhas irmãs.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

MEU AMOR

Chamaste-me "meu amor". Ainda assim sinto a tua falta. Sinto a falta daquela noite, daquele dia em demos as mãos e nos beijámos e em que o tempo foi nosso. Sinto a falta dos teus risos, dos teus sorrisos e das tuas histórias. Como concordávamos em quase tudo, como me fizeste soltar as ideias. És linda, L. És linda. Fizeste-me rejuvesnescer 20 anos, regressar àquele rapaz que enfrentava as feras. Ontem estive no Pinguim a gritar "O País a Arder" e o Jim Morrison. Consegui provocar e surpreender como um animal de palco. No entanto, sinto a tua falta. A falta da tua bondade, da tua verdade, da tua ternura. Apetece-me ir imediatamente ter contigo onde quer que estejas. Amo-te, querida.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O JOGO

Segundo Buda, o conquistar o mundo não corresponde à vontade soberana do homem. Essa vontade integral encontra-se onde o homem se supera a si mesmo, onde não se deixa aprisionar nem por si mesmo nem pelas tarefas do mundo. Ser livre, abandonar as leis do lar, da família, da sociedade, eis o caminho a seguir. De facto, é o homem que não entra no jogo, que atira a bola fora, que diz: "isto não passa da merda de um jogo, para que me hei-de andar a mata?!", que é livre e soberano. É aquele que cresce na criação e na sabedoria. Porque, efectivamente, desde a nascença que nos impõem um jogo com as suas regras absurdas: um jogo que nos encaminha para o dinheiro, para a conquista, para o mercado, para a competição, para a manha. Um jogo que nos impede de ser livres e crianças sábias. Um jogo que nos destrói e nos mata.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

TRANQUILIDADE

Apoderou-se de mim uma certa tranquilidade. Não que tenha alterado as minhas ideias políticas, não que tenha deixado de desejar as mulheres. Talvez o facto de me relacionar melhor com as gentes da aldeia, nomeadamente com o sr. Filipe, o farmacêutico, que professa ideias comunistas e é um homem culto. O que é certo é que hoje não estou virado para lançar o caos nem para gestos incendiários. Sou apenas o homem à mesa, sem pressas, antes de ir ao café da Vera beber uns copos.

domingo, 1 de janeiro de 2017

BRAGA, MEU AMOR

Há gajos que me atacam, que vociferam contra mim. Talvez já me temam. Talvez eu represente tudo quanto eles receiam. Incomodo tanto essa ralé. Miúdos e graúdos. Insisto, continuo a provocar. Fui humilhado, crucificado. Ai, o que eu passei. Não me conseguia expressar. Agora chegou a hora do caos, do meu grito, do meu reino, da vingança. Ah, como me sinto poderoso. E vós aí, a chapinhar na lama, a disputar o lugar, o cargo, a carreira. Ainda por cima estou na minha cidade. Braga, meu amor. Presentemente no "Chave d' Ouro" a dar dinheiro aos mendigos e a receber pulseiras com sorrisos. Ah, como eu tenho resistido. Como combati os dragões que dizem "tu deves!". Como passei aos leões que rugem "eu quero!". Ah, não passais de macacos vendilhões. Julgais que me feris mais, que me atingis, mas eu tenho companheiros, companheiras, tenho a águia e a serpente de Zaratustra. Ah, como reino. Como vislumbro o super-homem. Como o álcool desliza, como brilha a beleza. Ah, como este é o meu tempo. O tempo do caos e da anarquia. Ah, como gozo. Como sou soberbo. Como danço em cima de Deus.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LUTEMOS PELA VIDA

Terrorismo, guerras, capitalismo, extrema-direita. O caos e a barbárie reinam sobre a Terra. Trump, Marine Le Pen e outros nazis mostram os dentes na Europa. O capitalismo é cada vez mais feroz, rouba-nos o tempo, rouba-nos a vida. As pessoas atropelam-se na corrida do empreendedorismo, da competição cega. Esquecem o amor, a liberdade, a poesia, perdidas na vidinha das compras e das contas. São controladas e castradas pelos ecrãs, pelas imagens onde se passeiam vedetas inacessíveis que vivem por elas. O natal sabe a hipocrisia. Fanáticos matam em nome de Alá e o Ocidente em nome do deus-dinheiro. Milhões morrem de fome. A pobreza grassa. Tal como a pobreza intelectual e espiritual. O cidadão comum não questiona a máquina. As forças moderadas perdem terreno a olhos vistos. Porque se corromperam, porque se afastaram dos homens. É tempo de caos. Mas do caos também vem a luz. É tempo de combate. Lutemos pela liberdade, pelo amor, pela Vida. Com Jesus, com Marx, com Bakunine, com Nietzsche, com Che Guevara. Lutemos porque estão a destruir o Homem. Lutemos pelas crianças, pelo presente, pelo futuro. Lutemos porque só assim a vida faz sentido.

domingo, 25 de dezembro de 2016

POSSESSO

Estou possesso
a mente arde
soltam-se demónios
criações
mãe, tenho sede
tenho poderes
ouço vozes
gaitas de foles
o coração bate
dá sinais
abarca o mundo
em Sócrates 
em Nietzsche
em Jesus 
mãe, que querem de mim?
Que significam as minhas visões,
as palavras que vêm dos céus?
Mãe, devo unir ou devo combater?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EM TRANSE

Ouço os anjos. Estou em transe. Há gritos de borboleta. Há barcos no mar. E tu danças, danças para mim. Já não há limites, companheira. Provo o vinho do paraíso. Canto. Voo sobre os homens. Há ouro, muito ouro na caverna. Medito. Elevo-me. Atinjo estados de iluminação. Jesus, Buda, Zaratustra. Vim conquistar o mundo. Leões, dragões, serpentes. Estou ás portas do céu. Quem me ama? Quem me vem dar amor? Estou possesso. Deliro. Tenho milénios em mim. Atravesso desertos. Sou tentado por Satã. Ainda assim acredito no homem. Incêndios. Guerras. Pilhagens. Primeiro virá o caos. Companheira, tenho visões. Vejo Camelot próspera novamente. Vejo William Blake e a Fêmea Eterna. Vejo o sacrifício e a dor. Em transe. Gritos ébrios. Como sois normais, como vos repetis. Jesus, Jesus. Busco o super-homem. Jesus, Jim, vou explodir. Trago mensagens dos céus. Leonor, Leonor, estou em êxtase, no gozo da sabedoria. Leonor, Leonor, cheguei aos meus dias.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

UM HOMEM DE VISÕES

Desde miúdo que penso muito, já o meu pai o dizia. Claro que nem sempre esses pensamentos são produtivos. Muitas vezes ando às voltas e voltas. Não estou sempre a fazer arte e filosofia. Poderia ter talvez seguido uma carreira brilhante nos estudos. Mas vieram os desencaminhadores, os malditos e, além do mais, terei tido depressões e certamente crises e dolorosas solidões já na adolescência. Sei que não nasci para a sociedade do dinheiro, do sucesso, da competição. Vim gozar, experimentar, buscar a sabedoria. Vim também criar, transformar, fazer poesia. Sou um homem de visões, de iluminações. Tenho o lado "demens" muito desenvolvido. Falta-me chegar a mais gente, ser mais divulgado e reconhecido. Puxo, puxo muito pela mente. E vejo muita idiotice à minha volta. Idiotice e medo. Seres humanos assim nunca serão plenos, integrais, nunca serão super-homens mas sim sub-homens. Também são cegos que se deixam governar por imbecis, como dizia Shakespeare. Porque, de facto, os poderosos não passam de psicopatas imbecis agarrados aos seus milhões, aos seus brinquedos. É a demência do ter. Bastava um abanão, um sopro cósmico e tudo cairia.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A MINHA HORA

Mais um caderno que se inicia. A patroa ri, abana as ancas. Realmente nesta profissão é preciso puxar muito pela cabeça, como dizia Ezra Pound. É preciso ler muito, investigar muito. Não é brincadeira. Claro que depois há as coisas que nos saem de jorro, a escrita automática. Mas é preciso percorrer um longo caminho até chegar aqui e ir mais além. Comecei aos 14 anos com aqueles versos ingénuos no liceu Sá de Miranda ou até terei começado com as redacções da escola primária. Agora convenço-me de que tudo está ao meu alcance, até as gajas da televisão. Convenço-me de que sou um profeta libertador. Estive em três partidos: no Bloco, no MRPP, no PSR. Em todos eles tinha chefes acima de mim. Fartei-me. Vim para criar um novo movimento sem dirigidos nem dirigentes, embora com profetas e ideólogos. A patroa, ao longe, excita-me. Está a chegar a minha hora.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

QUIXOTE

Dizem que me passo para lá de changrilá. Se não me passasse já teria dado um tiro nos cornos. Não que as pessoas não sejam amáveis comigo. Só que me parece que estou noutra dimensão. A dimensão dadá, cubista, surrealista. A dimensão de Artaud. Por que raio não posso auto-proclamar-me Deus, Jesus e Satã? O que é que me impede? Qual é o limite? Não há impossíveis. Dentro da minha mente tudo é possível e mesmo fora dela. O que me impede de incendiar, de fazer a revolução? Afastai-vos, ó castradores. Agora reino aqui. Liberto o meu fogo, a minha mente, como um grande dragão. Os dias são meus, Dulcineia. Sou Quixote.

sábado, 10 de dezembro de 2016

O MAIO DE 68 E AS "VERDADES" CAPITALISTAS

O senso comum capitalista, nomeadamente o de origem norte-americana, impôs uma série de "verdades":
- É impossível que as pessoas governem a sua própria vida.
- As pessoas querem apenas ter poder e privilégios umas sobre as outras. Nesse sentido, para Fredy Perlman, os estudantes estudam apenas com o objectivo de obter boas notas, já que com boas notas podem alcançar empregos bem remunerados, o que representa "a capacidade de dirigirem e manipularem outras pessoas", bem como a capacidade de consumirem mais bens do que os outros. A aprendizagem por si só é desprezada.
- Todos parecem satisfeitos e os que não estão podem expressar-se através do voto ou do consumo.
- Mesmo que alguns tentem mudar a situação, a união é impossível. Os revoltosos iriam lutar entre si.
- Ainda que se unissem, seria impossível destruir o Estado e o aparelho policial e militar dos EUA.
A revolução de Maio de 68 desmente estas teses. Os estudantes começaram a gerir as suas universidades. Não para terem melhores notas, pois acabaram com os testes. Não para terem altos salários mas para discutir a abolição dos empregos privilegiados e com salários elevados. Discutia-se o fim de uma sociedade alienante e escravizadora. Os trabalhadores deixaram de respeitar a "lei e a ordem", ocupando fábricas e percebendo que "os polícias existem para garantir que as fábricas continuem a "pertencer" aos proprietários capitalistas". Estudantes e trabalhadores compreenderam que a "lei e a ordem" deve ser destruída para que a nova sociedade, autónoma, anarquista, seja edificada.