sexta-feira, 19 de setembro de 2008

CAOS


voltei a interessar-me pelos jornais
por causa da grande crise financeira
confesso que me dá um gozo tremendo
ver os bancos a fechar
a bolsa a arder
o capital a saque
é o caos,
meu caro Hakim Bey,
grande profeta anarquista,
é o caos
que tenho de cantar.

BAUDELAIRE


PERDA DE AURÉOLA

«Eia! quê! tu aqui, meu caro? Tu, num lugar reles! tu, o bebedor de quintas-essências! tu, o saboreador da ambrósia! Na verdade, há nisto qualquer coisa que me surpreende.
— Meu caro, conheces o meu pavor dos cavalos e das viaturas. Há pouco, ao atravessar o boulevard a toda a pressa, e ao saltar na lama através desse caos movimentado onde a morte avança a galope de todos os lados ao mesmo tempo, a minha auréola, num movimento brusco, caiu-me da cabeça no lodo do macadame. Não tive coragem para a apanhar. Julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que partir os ossos. E depois, disse comigo mesmo, há males que vêm por bem. Agora posso passear incógnito, fazer más acções, e entregar-me à crápula, como os simples mortais. E eis-me aqui, semelhante a ti, como vês!
— Devias ao menos mandar anunciar essa auréola, ou fazê-la reclamar pelo comissário.
— Por coisa alguma! Acho-me bem aqui. Só tu me reconheceste. Para mais, a dignidade aborrece-me. E também penso com satisfação que algum poetastro a vai apanhar e cobrir-se com ela impudentemente. Fazer alguém feliz, que alegria! e sobretudo um feliz que me fará rir! Ora pensa em X ou em Z! como será divertido!»

Charles Baudelaire, in O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa), trad. António Pinheiro Guimarães, pp. 131-132, Relógio D’Água, 1991.

Fonte: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

AMOR LOUCO


Amor Louco (AL)
O amor louco não é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo - seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.

Naturalmente, ele caga para os professores e para a polícia. Mas também despreza os liberais e os ideólogos - não é um quarto limpo e bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores e e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos e vermelhos maníacos membranosos.

Cada um de nós possui metade do mapa - como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos - as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.

O anarquismo antológico nunca retornou de sua última viagem de pecas. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o Caos não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente - seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.

Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (``Amplie o seu Eu'', ``Toda pessoas é um Faraó'') - Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - e na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.

As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo - a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, e nisso foram seguidores de Sade (que queria ``liberdade'' apenas para que homens brancos e adultos pudessem estripar mulheres e crianças).

O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.

O amor louco pede uma sexualidade incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade e divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos e ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota e nunca paga impostos.

O AL gostaria de ver todo bastardo (``filho natural'') chagar ao fim de sua gestão e nascer - o AL vive de aparelhos antientrópicos - o AL adora ser molestado por crianças - o AL é melhor que sensimilla1.3 - o AL leva para onde for sua próprias palmeiras e sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla e Majnun1.4, o cheiro de pólvora e de esperma.

O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros - sempre embriagados do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose - não é o resultados da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.

HAKIM BEY

CAOS


Se estamos no caos tenho de cantar o caos.

TERRORISMO POÉTICO?


Estudantes defecam e vomitam para protestar


Enviado por Jornalismo em Qui, 04/08/2005 - 01:56.

Um protesto atípico de estudantes encerrou de forma inesperada a audiência do reitor da Unesp, Marcos Macari, no final da manhã de ontem, no salão nobre do câmpus de Franca.

Durante o evento que reuniu o reitor, o diretor da unidade de Franca, Hélio Borgui, professores e alunos para discutir aspectos administrativos da universidade, alunos, supostamente do curso de História, que não quiseram se identificar, aproximaram-se da mesa em que estavam o reitor e o diretor para protestar contra a presença de Macari.

A manifestação abreviou a passagem do reitor por Franca e irritou alunos e professores. A causa da irritação estava na forma como o confronto ocorreu.

Por volta das 11h, um aluno sem camisa e com uma meia fina na cabeça, no estilo “punk”, invadiu o salão com um balde na mão. No mesmo instante, dois outros alunos que estavam na platéia, levantaram-se e se aproximaram da mesa. Uma aluna colocou garrafas com urina muito perto do reitor e do diretor. Um segundo aluno estendeu folhas de jornal no chão, baixou as calças e defecou sobre elas. Em seguida, enrolou-as e as colocou sobre a mesa. O terceiro, o “punk”, vomitou dentro de um balde, que também foi colocado sobre a mesa.

Aos poucos, perto de dez estudantes foram se levantando, enquanto diziam que não agüentavam mais “essa palhaçada”. Visivelmente irritado, Marcos Macari saiu do plenário sem falar com ninguém.

Enquanto diretores e professores procuravam identificar os alunos, uma parte destes seguiu a reportagem para perguntar se as imagens seriam usadas no jornal. Apesar de reiterar que haviam promovido um ato de “terrorismo poético”, os estudantes estavam preocupados com as punições que poderão sofrer.

E pela disposição e rapidez da diretoria, eles devem mesmo ficar preocupados. Ontem à tarde, quando o grupo já estava parcialmente identificado, a congregação, reunida, decidiu registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil e instaurar um processo administrativo que pode determinar até a expulsão dos estudantes.

À reportagem, os alunos disseram que a manifestação foi promovida para que a direção do câmpus e a reitoria não mais os vissem como idiotas. “Queremos ser vistos de outra forma, não assim”, falou um deles, sem muito sentido. A princípio, não aconteceu nem uma coisa nem outra.



Novo câmpus não tem data para sair

do papel

O projeto de construção do câmpus da Unesp em Franca poderá atrasar mais uma vez. A afirmação é do diretor da unidade, professor Hélio Borghi, e confronta outra, dada pelo vice-reitor Hermann Voorwald ao Comércio no mês passado, esfriando as expectativas da comunidade local em relação ao início das obras, anunciadas para outubro.

Na dependência de uma lei que deve ser votada pela Assembléia Legislativa de São Paulo, a Unesp não sabe quando poderá começar a construção do câmpus, orçada em R$ 14,3 milhões. Segundo Borghi, o atraso é inevitável e tem a ver com a demora da votação na Assembléia.

Durante o evento da manhã de ontem, um dos assuntos mais recorrentes foi a situação financeira da Unesp, que não consegue equalizar receita e despesa. A instituição deverá fechar 2005 no vermelho com um déficit de mais de R$ 68 milhões. “A situação não é das mais favoráveis”, respondeu Macari quando foi questionado sobre investimentos em Franca e em outros campi.

Segundo o reitor, algumas unidades estão passando por readequações visando diminuir os gastos com seu custeio. A crise financeira da universidade já ameaça o pagamento do décimo-terceiro salário de professores e funcionários.

NADA MAIS

Macari não falou com a imprensa. Ao final do encontro em Franca, saiu sem dar declarações, após a manifestação contra ele realizada por alunos do curso de História. A escritura de doação da área de 200.250 metros quadrados, e não 10 mil metros como afirmou a Unesp, foi feita à universidade em 1981 pela Infacape, Instituição Família Cavalheiro Caetano Petráglia.

Pelo termo, a Unesp teria cinco anos para começar as obras, caso contrário a área seria devolvida. “Para evitar a devolução do terreno, foi construída uma casa para caseiro e o terreno cercado com alambrado”, disse o médico Reinaldo Sérgio Afonso, 60, presidente da Infacape. “Com isso, justificava-se a existência de obras no local, mas hoje, mais de vinte anos depois, a casa está destruída e o cercado foi quase todo furtado”.

O administrador disse que a entidade não tem competência para exigir a devolução do terreno doado à Unesp, nem mesmo judicialmente. “Quem teria que fazer isso, agora, é a Prefeitura de Franca”.



Fonte: Paulo Godoy




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NERO


É noite e escrevo. Não tenho sono. Dois dias consecutivos a dizer poesia levam-me a concluir que devo continuar a dizer essencialmente as minhas coisas. Há coisas que resultam melhor aqui, outras que resultam melhor ali, mas concluo que estou mais virado para a juventude.



Os bancos fecham. O capitalismo está a arder. Não deixo de estar contente. Bebo a isso. A minha revolução é caótica, morrisoniana. Não tenho de ser racional. Dinamitemos a bolsa!- os velhos slogans estão de volta. De qualquer modo, não tenho nada a perder. Não sou obrigado a gramar com o capitalismo todos os dias. Há que fazer a guerrilha. Mostrar o desprezo pelo dinheiro e pelo mercado. Há que ser um terrorista poético.


Agora chove lá fora. As ideias do bem e do mal guerreiam no meu cérebro. Tenho medo de me deixar levar pelas ideias demoníacas. Pareço um Nero. Roma arde. Já não sei quem ateou o fogo. Agarro-me aos poemas e canto. As pessoas correm desesperadas, tentando por-se a salvo. É o caos. Roma em chamas. O fogo consome tudo. E eu danço com a minha amada. É a imagem que vem. Tenho medo.

PABLO NERUDA



Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Pablo Neruda

Imagem retirada do Google

Fonte: http://wind9.blogspot.com/2008/09/ode-poesia.html
http://agostinhodasilva.blogtok.com

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

JIM MORRISON


Depois destes anos todos chego à conclusão que é com o Jim Morrison que me identifico mais. Sucessor e leitor dos beatnicks, Morrison já dizia que "se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que sentem". Jim foi um revolucionário mas não um revolucionário tradicional. O poeta dos Doors apelou para o caos, não tinha uma cartilha pré-definida, não tinha de estar sempre lúcido nem de se portar sempre bem. Apelou para o caos porque entendia que era esse o caminho para a luz, para a liberdade. Deu ao rock a dimensão teatral. Era um xamã, aquele que entrava em contacto com os deuses e com a loucura. Não se contentava em cantar a paz e o amor como os hippies. Achava-os ingénuos. Queria chegar lá mas achava que tínhamos de atravessar o caos, "atravessar para o outro lado". Percorreu a estrada do excesso para alcançar a sabedoria, como indicou William Blake. Quis ultrapassar os limites. Entendia que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível, ao ganhar dinheiro. Revoltou-se contra a autoridade, contra a polícia. Foi um espírito livre, um menino e um bailarino no sentido nietzscheano.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

E O MERCADO SEM CONTROLE


Ministro das Finanças comenta falência da Lehman Brothers
Teixeira dos Santos surpreendido com duração da instabilidade nos mercados financeiros
15.09.2008 - 18h53
Por Lusa
Pedro Cunha (arquivo)

Teixeira dos Santos diz que a evolução da falência do Lehman Brothers deve ser acompanhada atentamente
O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, manifestou-se surpreendido com a duração da instabilidade que tem afectado os mercados financeiros, hoje agravada com o anúncio da falência do Lehman Brothers, o quarto maior banco norte-americano, reconhecendo o impacto negativo que esta crise tem nos agentes económicos.

"Creio que há uma ano atrás todos esperávamos que esta situação e a incerteza que daí decorria se pudesse desvanecer mais rapidamente", declarou Teixeira dos Santos à margem do fórum dos empresários e gestores portugueses e luso descendentes de França, em Paris, quando confrontado com as consequências da falência do Lehman Brothers.

O ministro português afirma que a crise "está a ter uma duração que está a surpreender todos". "Ninguém há um ano atrás esperaria que se demorasse tanto tempo a ultrapassar esta situação nos mercados financeiros", acrescentou.

Teixeira Santos defendeu que é "importante" que as autoridades europeias e nacionais, incluindo as portuguesas, "sigam atentamente" a evolução da situação em consequência da falência do Lehman Brothers, "preservando a solidez e a estabilidade das suas instituições financeiras".

O membro do Governo sublinhou que "o próprio Banco Central Europeu já teve o cuidado de intervir no mercado, injectando liquidez, concertando-se com as autoridades nacionais, com outras autoridades de outras regiões, como os EUA, procurando manter a normalidade do funcionamento dos nossos mercados monetários, que é fundamental".

O ministro das Finanças reafirmou que, apesar da revisão em baixa das previsões de crescimento económico na Zona Euro, só irá divulgar o novo quadro macroeconómico quando apresentar o Orçamento do Estado para 2009 em meados de Outubro.

in PÚBLICO.

DIÁRIO


Já sou conhecido por estas bandas. Já sabem que por aqui eu tomo sempre café. Mas o que eu realmente queria era escrever poesia automática à boa maneira de Breton. O que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
Prometi a mim próprio que ia escrever todos os dias. Prometi a mim próprio que iria escrever divinamente, que iria aparecer nos jornais e na televisão. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
No entanto, sei que a minha poesia não dá para ganhar prémios e dificilmente aparecerá na televisão. Estou condenado a ser o poeta maldito que, de vez em quando, escreve bem. Estou condenado ao "underground". Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
As amigas falam comigo, dão-me conselhos, gostam de mim. As amigas preocupam-se comigo. As amigas não querem que eu acabe a mendigar. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
Já li muitos livros. Já conheci muita gente. Já tive visões. Já vi o céu e o inferno. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.

SOU O POETA


Sou o poeta
que não aparece
nas colectâneas
sou o poeta
que não se adapta
à vida prática
que não atina
com as leis do mercado
que se aborrece
com o quotidiano
com a fala fácil
com a piada a propósito
sou o poeta
que não se reduz à mercadoria
que permanece à mesa
que tem os livros na livraria
sou o poeta
que vive como poeta
que ama os surrealistas
que vem ter com a amiga
sou o poeta
que escreve nos cafés
que vai aos bares
e bebe copos
sou o poeta que berra
que insulta
que amaldiçoa
sou o poeta
que traz a magia
que vomita a poesia
sou o poeta
que traz a revolta.

Porto, 14. Set. 2008

MÁRIO CESARINY


Faz-me o favor...
*
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
*
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
*
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
****


Em todas as ruas te encontro
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
*****
*



voz numa pedra
*
*
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
***
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa
nenhuma
nada está escrito afinal


**
Mário Cesariny

domingo, 14 de setembro de 2008

DIÁRIO


Estou noutro café no Porto. Há poucos cafés abertos ao Domingo. A TV passa filmes de aventuras. Ando a dormir muito. Estes filmes americanos da fala fácil, da piadinha a propósito já enjoam. Sou um poeta! Um poeta que não aparece nas colectâneas de novos poetas. Um poeta que não atina nem se adapta às leis do dinheiro, do trabalho e do mercado. Um poeta que se aborrece com o quotidiano mas que ainda assim escreve sobre o quotidiano. Um poeta que ama os surrealistas e os situacionistas. Um poeta que não se reduz à mercadoria. Um poeta que vem ter com a amiga. Um poeta que está, uma vez mais, à mesa. Um poeta que tem os livros na livraria. Um poeta que vai vivendo como poeta. Um poeta que vai aos bares e bebe copos, que só não bebe mais porque não tem mais cacau. Um poeta que escreve nos cafés.

Quem quer namorar com este pobre diabo? Quem quer namorar com este teso? Quem quer viver com este inábil nas tarefas domésticas? Quem quer viver com um inadaptado ao trabalho? Quem quer namorar com quem não reconhece o primado do dinheiro e do mercado?

DIÁRIO

As pessoas ainda me tratam como a um cidadão respeitável. Nem imaginam as ideias que me passam pela cabeça. Nem imaginam que eu sou quem sou. Nos últimos dias não tenho conseguido escrever poemas. Só me sai esta prosa. Não sei explicar o fenómeno.