quarta-feira, 1 de outubro de 2008

PLATÃO, "ÍON"


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas ou dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas são admiráveis- pois estão fora da sua razão- mas que é própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles.
Os poetas não passam de intérpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração.
Quando te fazem ouvir um canto desse poeta (Homero), animas-te imediatamente, a tua alma agita-se e as ideias chegam-te em catadupa. (...) Não é por uma arte nem por uma ciência que tu falas de Homero como falas, mas por um privilégio divino e por uma possessão divina, tal como os Coribantes que apenas são sensíveis à música do deus que os possui e que encontram com facilidade gestos e palavras para se acomodarem a essa música, enquanto permanecem insensíveis às outras.

A CAIR, A CAIR


Estados europeus ajudam a salvar alguns bancos europeus
Euro cai para 1,40 dólares face à crise financeira que chegou à Europa
30.09.2008 - 17h14 AFP
O euro registou hoje uma forte queda contra o dólar, reagindo à crise financeira que se instalou em definitivo na Europa e fez tombar alguns bancos da região.

A ausência de um acordo sobre o plano da Administração Bush para sanear a banca norte-americana contribui igualmente para a reacção actual do euro. Na abertura, o euro valia 1,4435 dólares e no final da sessão do mercado de divisas o preço era de apenas 1,40 dólares, uma desciam de quatro cêntimos, ou menos 2,9 por cento do que na véspera.

Hoje, uma nova vaga de bancos europeus parece ter caído em desgraça, em particular os belgas ING e KBC, duas instituições que se seguem aos gigantes Fortis e Dexia, salvos ontem por fundos públicos de governos de vários países europeus.

Nos últimos dias, os governos europeus têm estado em alerta devido à queda abrupta de títulos de instituições financeiras e de resgates inesperados que têm dificultado a capacidade de angariação de liquidez a essas instituições.

No Reino Unido, foi o caso do Bradford & Bingley, ajudado por fundos públicos e pela liquidez disponível do espanhol Santander, que garantiu parte dos seus activos.

Na Alemanha, o Hypo Real evitou a falência porque congéneres alemães e o governo local conseguiram angariar 35 mil milhões de euros.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

HAKIM BEY


Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.

Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é: o que a InterNet pode fazer por nós?

Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.

Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.

À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios).

Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.

Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.

Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satânicos".

Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.

Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.

Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?

No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.

Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.

Uma imagem adequada para uma ruína romântica…

Hakim Bey NYC 18 de agosto, 1997

retirado de http://catatau.blogsome.com

domingo, 28 de setembro de 2008

GAJAS DA TV


As gajas da TV exibem-se na TV. Até que não me importava de ser entrevistado por uma gaja dessas. O meu anarquismo permite esses desvios. Deixei de ser rígido nas minhas convicções. Até simpatizo mais com o Dali. Para lá da pintura, que é genial. Mas esse mundo "avida dollars" também é o mundo que eu combato. Como posso querer dinheiro se quero queimar o dinheiro? Com as minhas ideias tenho que me manter à margem. Mas se fosse convidado para ir à televisão não recusaria o convite. Diria para lá, quando menos se esperasse, umas das boas. Umas das boazonas. Quando começo a falar das boazonas o pessoal ri-se. Nada tenho a ver com a guerra entre televisões. A minha guerra é outra. Sou da guerrilha. Sou do Che e de Sade. Quero uma revolução que seja mundial. QUero acender o rastilho. Quero pegar fogo a esta merda. Às gajas boas, não. Sou o poeta que recomeça. Sou o poeta que tropeça e se levanta. Sou o poeta que tu queres apanhar. Sou o poeta à beira do mar. Sou o poeta que olha para as gajas e fica á espera. Sou o poeta que desespera. Sou o poeta em pé de guerra. Sou o poeta que fica. Sou o poeta que arde. Sou o poeta que queima e teima. Sou o poeta que te rodeia.

UHF


UHF no regresso à Faculdade de Letras. "Jorge Morreu", "Já Não Me Interessa", "Um Copo Contigo", "Rua do Carmo", "Cavalos de Corrida", "Sonhos na estrada de Sintra", "Juro Que Tentei", "Matas-me Com o Teu Olhar", "A Lágrima Caiu", "Os Putos Vieram Divertir-se". António Manuel Ribeiro no papel do xamã. A dizer aos putos que nesta vida ninguém lhes dá nada, é só malandragem. Tentar ser feliz, mesmo assim, em cada dia que passa. Um grande concerto.

sábado, 27 de setembro de 2008

O ANARCA PÓS-MODERNO


O ANARCA PÓS-MODERNO

O Anarquista Pós-Moderno convocou pela Internet uma reunião de anarquistas. O ajuntamento ocorreu no passado dia 21, sob alta vigilância policial, num barracão colocado à disposição por Flamínio Dados Errados - conhecido elemento da Organização dos Anarcas Unidos, radicado em Venda das Pulgas. A agitação era evidente, disfarçada, aqui e acolá, com cumprimentos enrugados e desabafos lastimosos. Tomou a palavra Florentino Riço Concórdia, de Bagaceira, Calheta, num discurso empolgado e empolgante que teve o mérito de não só quebrar o gelo como também de atear o fogueiro das massas. Bufando ódios, cuspindo bílis sobre a ordem vigente, avivando a memória dos mais esquecidos sobre saques, vilipêndios, vitupérios, atentados contra a liberdade individual, Florentino Riço Concórdia rematou a sua intervenção citando os mestres Bakunin e Kropotkin, segundo os quais o anarquismo não vingaria sem o empenho de todos numa causa que fosse de todos. Para tal, o eriçado Florentino Riço Concórdia sugeriu que se lançassem os camaradas numa investida o mais violenta possível contra os poderes instalados, a qual deveria passar por acções tão comprometedoras quanto indisfarçáveis tais como: atear fogo a igrejas e catedrais, pendurar os padres pelas próprias tripas (ideia decalcada do padre Jean Meslier), atentados à bomba contra bancos, seguradoras e afins, disparos certeiros na direcção de tudo o que fosse político instalado e subserviente. Nuno Brigeiro e Luís Pandarrinha, respectivamente de Crucifixo e Endiabrada, concordaram imediatamente, mas apenas avançariam se Alguém tomasse a iniciativa. Alguém solicitou a palavra para lembrar que era dotado de uma memória feliz. Outros podiam ter esquecido, mas ele ainda trazia bem vivas as críticas que lhe haviam sido arremessadas, na última convenção dos Anarcas Unidos, quando propusera exactamente as mesmas medidas com o aval de Ninguém, seu camarada de sempre. Não estava, por isso, em condições de negar ou sequer minorar as propostas vindas a lume, pois ele mesmo as havia proposto anteriormente. No entanto, outros teriam de dar agora o primeiro passo na direcção do abismo. Ao falar em outros, Alguém e Ninguém olharam de viés os camaradas Buzaglo Sargaço e Estther Caturna. Estther, ex-companheira de Arquimedes Catre e de Alzino Zaguzy, fora recentemente promovida a presidenta da Associação Unida de Mulheres Anarcas Separadas. Coube-lhe a palavra, a qual podemos resumir nos seguintes termos: as mulheres anarcas estão preparadas para a luta, assim os homens anarcas tomem a iniciativa de lutar. Não obstante encontrarem-se todos de acordo quanto a causas comuns e metodologias a adoptar na defesa dessas mesmas causas, ninguém parecia estar disposto a dar aquilo a que na gíria popular se chama o primeiro passo. Mostraram-se todos mais que empenhados no segundo passo, embora o primeiro passo parecesse uma miragem. Eis senão quando Jesus Camelo puxou da palavra e, num rompante algo inusitado, se arrogou no direito de eleger um grupo composto por Nanete Bezerra, Deolina Caxias, Donzília Confusa, Duartina Ratanji, Umbelina Trindade, Peixe Courelas, Florivaldo Prozil, Júlio Trabulo, Pascal Zabumba e Bernardino Biverlo, como sendo aquele que ficaria incumbido de oferecer o primeiro passo à causa anarca. Os elementos do grupo eleito por Jesus Camelo, oriundos todos eles de Catraia do Buraco, entreolharam-se indignados. Pareciam prever naquele gesto impetuoso a arrogância do poder, assim como uma conspiração contra a povoação de onde eram naturais e à qual deviam a maior das indiferenças. No entanto, como diz o povo, tudo pelos nossos, nada contra os nossos. O Grupo Eleito apontou Jesus Camelo como um falso anarca, um biltre, um miserável traidor da liberdade individual, uma mente aburguesada pela ânsia de poder, um arrivista mendicante que procurava por todos os meios ocupar um lugar de destaque que lhe conferisse o estatuto de dispor sobre os outros sem critério nem resposta. Tomados por um ódio que diríamos mais racional que a própria razão, os elementos do Grupo Eleito lançaram-se sobre Jesus Camelo montando-o e crucificando-o em nome de todos os humilhados e ofendidos. Estava dado o primeiro passo.

retirado de http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

JORNAIS


Esta merda de aparecer nos jornais, sabes, ficamos convencidos de que somos umas estrelas mas depois passa um mês ou dois e já toda a gente se esqueceu de nós ou então a coisa começa a subir e armamo-nos em vedetas em primas donas e queremos o mundo a nossos pés e queremos todas as gajas boas e bonitas e depois acabamos por perder tudo esta merda de aparecer nos jornais, sabes, já vi o filme e já tenho visto tantos filmes que já nem sei onde me devo situar, sabes, um gajo começa a sentir-se em cima, realmente em cima convencido de que é capaz de tudo convencido de que vai amar os amigos e derrotar os inimigos convencido de que de agora em diante vai ser o paraíso e depois a coisa cai-nos em cima, sabes, cai-nos realmente em cima e não sabemos onde vamos parar, sabes, esta merda de aparecer nos jornais e de pensar que os jornalistas nos adoram e que andam sempre atrás de nós e que toda a gente nos adora, admira e respeita e que as pessoas olham para nós, sabes, é tudo uma ilusão, sabes, quando há alguém que se preocupa connosco e que diz para não ir por aí esse alguém tem alguma razão esta merda de aparecer nos jornais e de te sentires absolutamente livre e de seres o artista que faz tudo o que quer, sabes, isso é muito bonito isso é tão puro e bonito como a mulher que amas que realmente amas e que espera por ti estejas onde estiveres, sabes, quando começas a ver o mundo com outros olhos quando começas a ver a beleza que há nos olhos delas isso é muito bonito e tens razão em te sentires tão em cima e já não pensas só nas mamas nem dás tanta importância ao que sai nos jornais.

Pátio, 26.9.2008

LIBERDADE


Sabes, essa merda das caralhadas que um gajo vai dizendo e escrevendo eh, pá! é mais fácil fazê-lo assim para mim do que adoptar uma linguagem rebuscada encher tudo de flores agradar às meninas aprendi a ser rude nos bares nas tascas já não há volta a dar-lhe não posso ser sempre simpático há inimigos a abater não me peçam que embarque no nacional-cançonetismo afinal de contas um gajo passa tanto tempo fodido que é um alívio sentir-se em cima estou a ficar como o Lou Reed: "adoro mulheres penso que elas são o máximo são uma benção para os olhos um bálsamo para a alma que pesadelo seria o mundo sem mulheres" eh, pá um gajo não pode dar os trunfos todos dizer tudo o que elas querem senão elas controlam-nos, sabes, e aí perdes a tua liberdade a tua preciosa liberdade, sabes, essa merda que tanto amas essa merda que te faz correr a liberdade a liberdade essa merda ninguém a controlar-te ninguém acima de ti só a tua consciência essa coisa que a tua mãe não compreende essa merda que pouca gente compreende essa merda que está nos gajos que admiras essa merda essa merda essa merda.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

AS GAJAS, AS MAMAS


As gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que saem
que saltam
que te põem
cheio de tesão
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que balançam
que tremem
à frente
dos teus olhos
que te põem doido
completamente doido
fora de controle
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
no metro
na rua
em todo o lado
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
coisa divina
absolutamente divina
apetece chupá-las
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
fico sem controle
vou ter um ataque
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
supremo deleite
viva o criador!

Vila do Conde, Pátio, 26.9.2008

FUTEBOL

Mais do que os gajos que só falam de futebol detesto gajas que percebem de futebol. Será que as gajas não podem gostar de roupas, de ler revistas de moda e de ter actividades culturais como a Gotucha? Falar de futebol. Que desperdício! Ainda por cima jogos da distrital que não interessam a ninguém.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

APENAS TRAIÇÕES?

Teses ao XVIII Congresso
PCP fala em “traição de dirigentes” na derrota da URSS
25.09.2008 - 11h07 São José Almeida
A “traição de altos responsáveis do partido e do Estado” é um dos motivos apontados para a “derrota” do socialismo na União Soviética de acordo com as Teses ao XVIII Congresso do PCP que hoje são divulgadas com o jornal partidário “Avante!”.

Em fase de discussão, para posterior aprovação pelo congresso, e susceptíveis de sofrer alterações, as Teses afirmam a necessidade e a certeza de que o futuro passa pelo socialismo e pelo comunismo. É nesse âmbito que é abordada a análise do que se passou nas décadas de 80 e 90 na União Soviética e nos países de Leste, que levou ao que a direcção do PCP caracteriza como “derrota” do socialismo.

Assim, no ponto O socialismo, alternativa necessária e possível pode ler-se, na página 15: “Perante os complexos problemas que se manifestaram na construção do socialismo na URSS, assim como noutros países do Leste da Europa, o PCP expressou compreensão e solidariedade para com os esforços e orientações que proclamavam visar a sua superação, alertando simultaneamente para o desenvolvimento de forças anti-socialistas e para a escalada de ingerências imperialistas, confiando em que existiam forças capazes de defender o poder e as conquistas dos trabalhadores e promover a necessária renovação socialista da sociedade. Mas certas medidas tomadas agravaram os problemas ao ponto de provocar uma crise geral. O abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo, a penetração em profundidade da ideologia social-democrata, a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, a traição de altos responsáveis do partido e do Estado, desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo”.

Considerando “a caminhada da humanidade para o socialismo e o comunismo sofreu profundos reveses no findar do século com a destruição da URSS e as derrotas do socialismo no Leste da Europa”, a direcção do PCP garante que o que foi derrotado não foram os ideais e o projecto comunistas, mas um 'modelo' historicamente configurado, que se afastou, e entrou mesmo em contradição com características fundamentais de uma sociedade socialista”.

Refira-se que, na análise da situação internacional, as Teses dizem que “importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e RDP da Coreia”.

E sublinham que entre os partidos comunistas “continuam a desenvolver-se tendências revisionistas e reformistas envolvendo processos de degenerescência, autoliquidação e diluição em frentismos de 'esquerda', com o abandono das referências ideológicas e objectivos revolucionários que definem os comunistas como corrente revolucionária”.

Garantido que “o Partido da Esquerda Europeia, que o PCP não integrou pela sua lógica supranacional e natureza ideológica, não só se confirmou como uma falsa resposta ao reconhecidamente do necessário reforço da cooperação das forças de esquerda anticapitalistas na Europa, como introduziu factores de divisão, afastamento e preconceito, que se manifestaram nomeadamente no Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu.”

www.publico.clix.pt

E O CAPITALISMO A ARDER, A ARDER


Um dia antes da votação do plano de saneamento da banca
Bush adverte Congresso para actual situação de “perigo” da economia dos EUA
25.09.2008 - 09h33
Por AFP, PÚBLICO
Yuri Gripas/Reuters

Bush pediu urgência e a combinação de vontades no Congresso para fazer aprovar o pacote de emergência rapidamente
George W. Bush advertiu ontem à noite, num raro discurso televisivo consagrado à actual crise financeira, “que toda a economia está em perigo” caso o Congresso norte-americano não aprove rapidamente o pacote de saneamento da banca proposto por Washington.

“Estamos no meio de uma crise financeira grave”, insistiu o Presidente dos EUA, numa declaração solene e com um tom dramático, realizada a partir da Casa Branca.

Dirigindo-se aos norte-americanos, mas com um claro intuito de pressionar o Congresso, Bush anunciou que chamou hoje à Casa Branca os dois candidatos que se encontram na corrida presidencial, o democrata Barack Obama e republicano John McCain, que se “irão juntar aos responsáveis parlamentares dos dois partidos (...) a fim de ajudarem a acelerar as discussões sobre uma lei sem espírito partidário”.

O Presidente dos EUA testemunhou o espírito de “cooperação entre democratas e republicanos e entre o Congresso e a sua administração” para fazer passar a lei que irá permitir a criação de um megafundo destinado a acolher activos problemáticos que se encontram nos balanços de bancos e outras instituições financeiras e que lhes impede de assegurar a liquidez necessária para sobreviveram.

Evocando o secretário norte-americano do Tesouro, Henry Paulson, responsável pelo plano que foi submetido ao Congresso, Bush considerou o pacote de 700 mil milhões de dólares (475 mil milhões de euros) “bastante ambicioso para resolver um problema grave”, acrescentando ainda que “este esforço de salvamento não visa preservar as empresas ou as indústrias de certos indivíduos. Visa preservar a economia norte-americana em geral”.

Bush apresentou-se como um “fervoroso adepto da livre iniciativa empresarial”. “Daí, que o meu instituto natural é de me opor a uma intervenção do governo”, afirmou, sublinhando logo de seguida que “se deve deixar as empresas pagar pelos erros que cometem”.

“Em circunstâncias normais teria seguido esse princípio. Mas não estamos nessas circunstâncias normais”, reconheceu George W. Bush, que termina o seu mandato daqui a dois meses e que, sempre que pode, tem vindo a dar a mão ao seu colega de partido, o candidato John McCain.

Bush voltou a insistir na acção rápida do Congresso como o último passo indispensável para evitar a ruína de grande parte da indústria e do empresariado do país. “Sem a acção imediata do Congresso, a América poderá cair num pânico financeiro e num cenário doloroso”, concluiu o Presidente norte-americano.

www.publico.clix.pt

LOUCURAS


Eh, pá! Apetece-me cometer loucuras
insultar o público
berrar para toda a gente

Eh, pá! Estou farto da razão
e das coisas alinhadinhas
porque raio terei de explicar tudo?

Eh, pá! Quando era puto portava-me bem
agora apetece-me portar-me mal
esta merda parece um quartel
ou uma prisão
toda a gente a fechar-se no grupo
a falar só para o grupo
faz falta um profeta que fale
para toda a gente

Eh, pá! A minha liberdade é sagrada
não venhas com normas
não me venhas foder a cabeça
com aquilo que devo fazer

Eh, pá! Apetece-me cometer loucuras.

Porto, Piolho, 24.9.2008

MANIFESTO DA CRIAÇÃO


Fino após fino vou bebendo. Os estudantes fardados celebram. Sinto saudades do meu tempo de estudante. Essa coisa de não estudar ou estudar muito pouco e ir beber copos com os amigos. As merdas culturais e políticas em que me meti. As noitadas. Houve muitos projectos por concluir, merdas quiméricas. O amor que ficou. A santa loucura como diz o AMR que vou ver amanhã. O regresso à Faculdade de Letras. O regresso em triunfo. Essas coisas todas. E o divino Ulisses. Ítaca que nunca mais vem. Os praxistas gritam lá fora. E os empresários da bola esfregam as mãos.
Eu deveria ser pago à letra. Olha o que te digo, deveria ser pago à letra. Qual a diferença entre fazer um verso e fazer uma finta? E as coisas grandes, realmente grandes, àparte as gajas boas, vêm do espírito, da alma. E as coisas realmente grandes, àparte as gajas boas, são criações do Poeta, do Artista. Quem foi o artista que criou as gajas boas? O Poeta é um privilegiado porque é um criador. Na sociedade do dinheiro deveria ser pago a peso de ouro. Deveria ser adorado como na Grécia e em Roma. Deveria ostentar a coroa de louros. Mas também deve gritar no meio da multidão, cantar a sua canção. O seu papel é agitar, provocar, mostrar o novo mundo. Não deve temer a loucura. Deve segui-la, amá-la até ao fim. Deve estar em pé de guerra, com intervalos para descansar. Deve ser imoderado em busca da sabedoria. Deve estar para lá dos bens materiais. Nunca deve mendigar. O único deus que respeita é o seu irmão Dionisos. Os outros são ficções. Deve dizer e fazer coisas incongruentes, non sense, para baralhar amigos e inimigos. Deve ter uma atitude de gozo perante a realidade. Deve situar-se além do bem e do mal e para lá de todos os preconceitos, como defendia Nietzsche. Deve cantar o caos. Deve amar loucamente a mulher amada, como preconizava Breton. Pode até divinizá-la , seja ela a empregada de mesa ou a "porno-star". Deve encarnecer, gozar com a sociedade-espectáculo, tanto com os produtores do espectáculo como com os batedores de palmas. Deve explorar todas as potencialidades da net e das Zonas Autónomas, à boa maneira de Hakim Bey. Deve ser um xamã, um profeta, um pirata, um filósofo, um provocador, um criador, um Homem Superior.

Porto, 24.9.2008

EUROMILHÕES


Ah! Se as coisas fossem de borla é que era bom. Não precisar da merda do dinheiro, não andar atrás da merda do dinheiro. Comer de borla. Beber de borla. Ter livros de borla. Esquecer que as gajas não comparecem aos encontros. Assim é que não dá. Até cheguei ao ponto de jogar no "Euromilhões".