domingo, 14 de setembro de 2008

DIÁRIO


Estou noutro café no Porto. Há poucos cafés abertos ao Domingo. A TV passa filmes de aventuras. Ando a dormir muito. Estes filmes americanos da fala fácil, da piadinha a propósito já enjoam. Sou um poeta! Um poeta que não aparece nas colectâneas de novos poetas. Um poeta que não atina nem se adapta às leis do dinheiro, do trabalho e do mercado. Um poeta que se aborrece com o quotidiano mas que ainda assim escreve sobre o quotidiano. Um poeta que ama os surrealistas e os situacionistas. Um poeta que não se reduz à mercadoria. Um poeta que vem ter com a amiga. Um poeta que está, uma vez mais, à mesa. Um poeta que tem os livros na livraria. Um poeta que vai vivendo como poeta. Um poeta que vai aos bares e bebe copos, que só não bebe mais porque não tem mais cacau. Um poeta que escreve nos cafés.

Quem quer namorar com este pobre diabo? Quem quer namorar com este teso? Quem quer viver com este inábil nas tarefas domésticas? Quem quer viver com um inadaptado ao trabalho? Quem quer namorar com quem não reconhece o primado do dinheiro e do mercado?

DIÁRIO

As pessoas ainda me tratam como a um cidadão respeitável. Nem imaginam as ideias que me passam pela cabeça. Nem imaginam que eu sou quem sou. Nos últimos dias não tenho conseguido escrever poemas. Só me sai esta prosa. Não sei explicar o fenómeno.

ANARQUISMO


O Anarquismo numa só lição - por Normand Baillargeon ( professor de ciências da educação no Quebec)

Eu, Normand Baillargeon, vosso primo afastado do Quebec, eu sou, no meu verde país, professor de anarquia…Ou quase…Lições e anarquia parecem-vos uma contradição? Nem Deus nem Senhor e ainda menos Lições, proclamam os velhos anarquistas. Ok, tudo bem, mas não vos esqueceis daqueles que nada sabem do assunto. Então, para os neófitos, proponho um pequeno e breve curso destinado aos que nunca viram a vida segundo a perspectiva da cor do anarquismo. Para os outros, trata-se apenas de uma ocasião para rever a matéria dada!

Imaginais uma desordem mundial, um caos terrível, uma confusão monstruosa. Será que vocês estariam por lá?
O primeiro jornalista que aparecesse falaria espontaneamente de anarquia para descrever a cena. Neste tipo de situações, a reacção é sempre a mesma.
Mas a verdade é que essa reacção resulta de uma pura atitude de anarcofobia.
Balelas! - dirão, porém, os anarquistas, de que briosamente faço parte.

O anarquismo designa uma tendência própria do pensamento social, político e económico moderno. Defende uma convergência possível e desejável entre o socialismo e o seu princípio de igualdade, e o liberalismo e o seu princípio de liberdade.
O anarquismo procura realizar esta síntese ambiciosa quer na autogestão económica quer na democracia participativa.
Através da primeira ele recusa o lucro e a organização hierárquica do trabalho, preconizando a solidariedade e a igualdade. Partilha das riquezas, mais do que de um leque de opções ( stock-options). Através da segunda, ele rejeita a ideia de delegação e defende a participação directa das pessoas no processo de tomada das decisões.

Os anarquistas distribuem-se por diversas tendências – há os que são individualistas, colectivistas, mutualistas, sindicalistas, e outros mais. Mas todos eles têm a sabedoria de desconfiar dos planos de organização social e económica, demasiadamente rígidos e definitivos, assim como dos conceitos absolutos. Rejeitam admitir um limite aos arranjos sociais e às condições desejáveis da vida humana, uma vez que eles pensam que, em condições de real liberdade, a sua expressão será cada vez melhor.

Os anarquistas pensam então que a liberdade, como nunca deixou de acontecer, inventará constantemente novas soluções para os problemas, e que a sua extensão permitirá cada vez mais a denúncia das formas de dominação, que não deixarão de também de se revestir sob modalidades inéditas à medida que os tempos passam.

Só isso? Quase.
Sim, porque o anarquismo luta também contra tudo aquilo que contribui para impedir que as pessoas assumam elas próprias o seu próprio destino, e, além disso, desafia-nos para que se comece, desde já, a construir a primícias de uma sociedade mais livre e igualitária do amanhã.
O anarquismo significa ainda a rejeição, pela acção directa, daquelas instituições que procuram dominar, sujeitar e matar aquilo que Bakunine chamava «o nosso instinto de liberdade», e que buscam incutir a docilidade, a passividade e a submissão. Como não é difícil de adivinhar, nos tempos que correm, há muito por fazer para quem, como nós, chega às estas conclusões. Por isso, o anarquismo é, na minha opinião, a única alternativa válida face à catástrofe universal para que nos querem empurrar e que significa, ela sim, o autêntico caos que devemos duvidar e combater.


Texto do Normand Baillargeon, professor de ciências de educação, publicado no nº 1 do jornal Siné-Hebdo,


Normand Baillargeon é o autor do livro «Pequeno curso de autodefesa intelectual (« Petit cours d'autodéfense intellectuelle«).

http://pimentanegra.blogspot.com

MIGUEL-MANSO


ÚLTIMO CIGARRO

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia



Miguel-Manso nasceu em Santarém em 1979. Publicou recentemente, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas: Contra a Manhã Burra. Vive em Lisboa.

sábado, 13 de setembro de 2008

DIÁRIO


Aqui junto ao mar escrevo. Tenho andado um bocado chocho. Ontem adormeci a ver "O Grande Ditador" de Chaplin. Não sei explicar o que se passou. Queria tanto ver o filme. Saí com uma amiga e as palavras não saíam. Quase parecia deprimido. Mas deprimido não estou, felizmente. Há quem publique os meus poemas e quem elogie a minha actividade de dizedor. Há gajas que gostam de exibir as mamas. Há coisas belas mas também há coisas muito más. Más demais.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

ROBERTO FREIRE


Nada é tão contagiante como o gosto pela liberdade.

DO MERCADO


Para lá do deus dinheiro existe o mercado. O mercado está em todo o lado. As relações entre homens quase se reduzem a relações de compra e venda. Todos estamos à venda no mercado. O mercado transforma-nos em mercadorias. O mercado e o dinheiro dão cabo do Homem. Só o espírito livre pode combater o dinheiro e o mercado. O espírito livre que apela ao caos mas que traz consigo as ideias de amor, de liberdade, de revolução opõe-se aos deuses do capoitalismo.

TARDE


vasant abaji dahake / tarde





Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.






vasant abaji dahake
(índia, n. 1942)
tradução de pedro amaral
em quartzo, feldspato & mica

DIOSCÓRIDES

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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

LILIAN MAIAL


DIABA

Rabo pontudo,
chifre carnudo,
sou toda inferno!
Que venham os céus,
que torre a terra!
Cravam-me os desejos
na carne sem pejo,
nas coxas,
no beijo.
Sou toda perdição:
o mal, a absolvição,
pecado e redenção,
hóstia maldita,
vinho contaminado,
paixão.
Teia feliz,
sou aranha,
serpente,
escorpião,
rabisco teu corpo
com a mesma devassidão.
Quero mais,
bem mais,
quero tudo!
Tomo as rédeas da tua vontade,
sou má,
sou cruel,
sou nociva,
mas sou indispensável
na tua cama
e na tua pele em chamas...

http://novoblogueerotico.blogspot.com
http://agostinhodasilva.blogtok.com

DIÁRIO


Bebo e não consigo escrever. Isto contraria a tendência anterior. A TV só fala de assaltos e pistolas. Há assaltos em todas as cidades, em todas as aldeias. O medo está instalado. Um polícia para cada cidadão. Polícias em todo o lado a controlar. E o Makukula diz que não está morto. E a selecção foi vítima de magia negra. E o ministro das Finanças é um alquimista e está sempre optimista. Sempre optimista mesmo que esta merda esteja toda podre. Detesto políticos. Detesto políticos, salvo algumas excepções. Detesto vê-los a falar para as câmaras de televisão. Mas hoje não estou inspirado. Não consigo escrever frases incisivas e cortantes. E a TV só dá notícias tristes. Detesto notícias e jornalistas. Dá-me uma notícia para eu comer. Dá-me um polícia para me proteger. Dá-me uma arma para andar aos tiros. Dá-me uma camisola da selecção. Dá-me uma nota para eu rasgar. Dá-me o sucesso por mais de três dias. Dá-me uma gaja boa para namorar.

MANIFESTO DO CAOS

O capitalismo é um sistema bárbaro e cruel. Mata milhares de seres humanos à fome todos os dias. Condena milhões à miséria. Condena outros milhões ao tédio, à depressão, ao suicídio. Eleva o dinheiro à condição de deus supremo. Recompensa a ambição, a avareza, a rapina, a aldrabice, a guerra, a filha da putice. Promove o poder, a hierarquização e o sucesso a qualquer custo. O capitalismo globalizado e o seu deus- o dinheiro- estão a destruir a humanidade e o ser humano, bem como o que resta da ética, do amor, da liberdade. O capitalismo e o culto do dinheiro são inimigos da vida. E têm os seus profetas- os profetas da morte. Contra os profetas da morte cantarei o caos. Cantarei o caos porque ainda não chegou o tempo de cantar o amor. Cantarei, a espaços, o amor. Cantarei o caos, a noite e a embriaguez ao lado de Dionisos. Apelarei à queima do deus dinheiro e à queda do capitalismo. Não serei ponderado. Serei imoderado como o Jim Morrison. Mas só nas alturas certas.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

CAVERNA


Eh! Vós aí! Continuais na caverna a contemplar as sombras,
a interpretar as sombras, a opinar sobre as sombras,
a chular-vos uns aos outros por causa das sombras,
a entrar em guerra por causa das sombras
Nunca mais saís da caverna!
Nunca mais vereis a luz,
nunca mais vereis o Grande Meio-Dia!
Eh! Vós aí! Expulsastes Dionisos! Expulsastes Zaratustra!
O vosso espírito vendilhão ficou incomodado com as suas palavras,
com o seu canto, com a sua dança!
Ficareis eternamente na caverna!
Apodrecereis na caverna
morrereis na caverna
porque não mereceis outra coisa!

Praia de Labruge, 9.9.2008

LUZ


Não me canso de dizer que o dinheiro é a fonte de todos os males. O dinheiro compra tudo. O dinheiro compra a ética, menina Cláudia. Já Platão dizia que a posse de bens era malévola. Por muito puras que as pessoas sejam não deixam de ser moldadas pelo dinheiro e por tudo o que vem atrás dele: a ambição, a inveja, a avareza, a carreira, a competição, o poder, o lucro, o sucesso. Corrijo: tudo gira em torno do dinheiro e do poder. O dinheiro e o poder envenenam as relações de trabalho, o dinheiro- a troca- e o poder emporcalham as relações humanas. Desde a infância que somos moldados por estes dois deuses, desde a infância que nos impingem estes dois deuses, estes dois profetas da morte. Nunca como agora, sob o capitalismo globalizado, o seu império foi tão dominador. Nenhum deus, nenhum chefe acima de nós! Só Dionisos. Dionisos não está acima de nós, Dionisos é um de nós. Bebe connosco, ri connosco, dança connosco. Bem sei que estes escritos são algo proféticos, messiânicos. Mas se sou um profeta, sou um profeta da vida, da liberdade, do amor mas também do caos. Neste momento estou interessado em instalar o caos. Não sou mais do que um gajo que anda por aí em busca do sublime. E começo a ver a luz. Mas, embora por vezes pareça, não vim ao mundo para me iluminar só a mim próprio.