sábado, 4 de outubro de 2008

JOSÉ AFONSO


Algarve Notícias
De como eu me cruzei com o José Afonso em Aljustrel

Posted: 03 Oct 2008 02:15 AM CDT

É curioso verificar quantos herdeiros tem o José Afonso. De facto, só à sua sombra contam-se largas centenas de sobreviventes, fora aqueles que se arvoraram em ser a sua alma cantante, imitando os seus discos até à exaustão, sem esquecer os movimentos respiratórios e as inflexões vocálicas do mestre. Há mesmo tipos, que, qual culto Menphis (Elvis Presley), com as caras mais exóticas e com um ar de seminaristas inocentes, que nada tinha a ver com o José, mas que, apesar de tudo, cantam as suas canções com respeito e interesse pela obra do mestre.
Mas por acaso sabem quem foi o José Afonso? O Homem simples e sensível? O professor que sabia falar das histórias da história? O rebelde inflexível na denúncia das injustiças? O político que não voltava costas à luta? O Homem que cantava para os operários, para os camponeses, para os humilhados e oprimidos? O preso político? O homem que nunca pediu nada e que nada lhe deram no seu sofrimento?
Alguém por acaso sentiu o momento maravilhoso da sua criatividade? E a felicidade que ele sentia quando via o fluir dos seus sonhos? E a dor na sua morte?
Vamos lá, meus amigos, sejamos sinceros, vamos erguer bem alto a figura do Zeca, sem oportunismos e sem desvirtuar a personalidade dessa grande figura dos nossos tempos, nem a sua obra, que foi feita para o povo e só para o povo simples e oprimido. Até dá vontade de perguntar: Se ele estivesse cá de que lado estaria, contra quem estaria? A resposta é bem evidente! Mas aposto que estaria desprezado pela maioria dos que agora o homenageiam imitam e cuja obra sabujam. Já para não falar nas editoras que nunca o respeitaram, e até o recusaram gravar, apesar de, em cada Abril, se encherem de dinheiro com as suas reedições ou gravação de discos oportunistas, sem que os seus direitos sejam devidamente resguardados. É de mais…
Conheci o Professor José Afonso em Aljustrel. Fui seu aluno no Externato Filipa de Vilhena. Foi o meu professor da disciplina de História. Eu tinha 14 anos e frequentava o 4º. Ano do ensino liceal. Ele teria 22 ou 23 anos. Recém-licenciado, convidado a ir leccionar para aquele colégio por um professor, seu amigo e ex. colega, que também lá ensinava: o Dr. Delgado.
O professor José Afonso era muito simpático, muito aéreo e sorridente. Por vezes andava triste e distante, outras vezes cantarolava nas aulas e nos intervalos até cantava e, ainda, por vezes, escrevinhava aquilo que trauteava. Como deve calcular-se aquilo despertava a nossa curiosidade, nomeadamente e minha dada a minha educação musical no seio da minha família.
O meu pai era O Chefe da Estação Dos caminhos-de-ferro de Aljustrel e, simultaneamente, maestro. Dava aulas de música, participava em muitas actividades culturais e, até tinha uma pequena orquestra formada pelos meus irmãos e outros amigos (a orquestra Tonicher). Eu gostava de cantar, mas, como era o mais novo, não tinha a formação dos meus irmãos, tinha-me escapado àquela disciplina dos concertos.
O professor José Afonso, naturalmente aproximou-se da minha família musical e de um grande poeta aljustrelense, homem de esquerda, o Sr. Edmundo Silva – pai do Edmundo Silva baixista dos “Sheiks”, que com ele também contactou.
Entretanto, através do Dr. Delgado, que acima citei, soubemos na turma que aquele professor era um dos grandes cantores de fados e baladas de Coimbra. Ficámos banzados de admiração. Então era Cantor aquele professor que nos despertava tanta curiosidade e nos ensinava a ver a História com outros olhos?
De facto falava-nos da liberdade, da democracia, da igualdade e da fraternidade. Ensinou-nos muito sobre a divisão das classes sociais, do significado de exploração e de opressão. Também nos falava dos trabalhadores, dos camponeses, dos mineiros, dos sindicatos e do que era reivindicar por uma sociedade mais justa. Falou-nos das prisões e dos prisioneiros, do que era a polícia política e do seu papel em certos países.
A História do manual era uma, mas a verdade histórica era outra. Eu e, muitos outros alunos sentimos que algo de diferente se passava à nossa volta, como se nos estivessem a mentir, apesar de sermos putos e de acharmos tudo bem. E às vezes até falávamos disso e íamos tirar dúvidas com o Professor. José Afonso.
Chegou por fim o dia de tirarmos nabos da púcara durante uma aula e ele, muito humildemente, confirmou-nos ser verdade aquilo que o Dr. Delgado nos havia dito. E pronto, entramos no ciclo das canções e dos fados de Coimbra. Algo de maravilhoso!
Eu tinha uma guitarra acústica, velhota, com dois ou três buracos, que eu tapara com fita adesiva e algodão, a imitar o tratamento de ferimentos, mas que tinha um som e uma afinação excelente… E lá levei a guitarra para o colégio. E Ele cantou, libertou-se, sorriu sem parar – Cantou e ensinou-nos. Eu aprendi logo fados novos, baladas que ele alguns anos depois gravou em disco.
Aljustrel rejubilava. O Zeca Afonso, já assim chamado, cantou nas colectividades, em associações em pequenas festas e encontros informais ao ar livre. Eu e alguns amigos lá estávamos sempre a acompanhá-lo e a cantar com ele. Dizia que gostava de me ouvir cantar, mal sabendo que eu e ele, anos depois, nos encontraríamos do mesmo lado da barricada. (Curiosamente, um dia, num recital em Setúbal chamou-me o “trovão da Planície”)
O tempo correu e, como diria o Fernando namora no seu livro a Noite e a Madrugada: De trás dos tempos vêm tempos e outros tempos vêm… O povo de Aljustrel rejubilou! Muitos dos estudantes desse tempo vieram a seguir após o 25 de Abril, rumos no campo da política, como autarcas, deputados, dirigentes partidários professores etc. O professor José Afonso apesar do pouco tempo que lá esteve a dar aulas, ensinou-nos bem a Lição da Liberdade e da Justiça Social. E no dia da sua partida, de comboio, esteve uma imensa multidão de estudantes, seus familiares e muitos mineiros. Houve cantos e choros e muitos lenços a dizer-lhe adeus e chapéus a acenar. Ele nunca se esqueceu deste momento. Aljustrel ficou-lhe grato!
Orgulho-me muito de tê-lo conhecido e compreendido, de tê-lo cantado na tropa – na guerra em Angola, onde estive como Alferes Miliciano – e, após o meu regresso da guerra e ter reingressado na universidade, com ele convivido durante todos estes anos, desde 68 até ele ter partido. Estivemos em tudo o que era sítio, apanhámos muitos sustos, mas tivemos e demos muitas alegrias a muita gente oprimida.

Por Francisco Naia
“In Revista Memória Alentejana, Out.2007”

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


Sai!
Sai da cidade!
Sai da multidão!
Sai dos olhares
que te seguem
dos juízes da moral
do paleio mesquinho das beatas
de toda a corja mercantil

Sai! Não tenhas medo!
O mundo começa hoje
estás a regressar a ti mesmo
estás a jogar o teu jogo
estás na Idade do Ouro
no Uno Primordial
não tenhas medo!
Deixaste de ouvir a voz da multidão
e todos os deuses te iluminam.

CRISE


Esta crise da finança cada vez mais dá vontade de rir. Agora somos todos socialistas. Os capitalistas converteram-se ao socialismo, estão todos nas mãos do Estado. É o regresso em força das nacionalizações, do PREC, do 11 de Março. Somos todos socialistas ou, pelo menos, capitalistas de Estado. Marx e Lenine riem-se no túmulo.

NEM DEUS, NEM ESTADO, NEM TRABALHO, NEM MERCADO, NEM DINHEIRO!

DEUS E DEUSES


Chego à "Motina" e a Joana sorri radiante e trata-me como se eu fosse uma estrela. Antes assim. Nunca tinha sido antipática comigo mas hoje...
Sabes, essa estória do Deus e dos deuses...compreendo que as pessoas acreditem num deus ou em vários deuses. Os antigos acreditavam que o sol era um deus porque nós dá a luz. É natural. É natural que se procure um sentido para a existência, a causa primeira de todas as coisas. E aí as pessoas acreditam em Deus ou em vários deuses. É compreensível. Henry Miller dizia que o céu só pode estar aqui na Terra, tal como o inferno já está, e que não faz sentido procurá-lo no além. Henry Miller dizia que esse céu, esse "deus" está dentro de nós, Poetas. Platão também diz que somos enviados, intérpretes dos deuses. Somos caminheiros dos céus. Loucos divinos. E temos a grande responsabilidade de dizer aos outros que também somos deuses e que todos podemos ser deuses.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A FELICIDADE

O autor deste texto é João Pereira Coutinho, jornalista. Vale a pena ler!

'Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas.Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade! '

AINDA A CRISE


Artigo de opinião publicado no jornal Público:


Subprime: a democratização do crédito?



O subprime não surgiu devido a um fervor democrático ou um desejo igualitarista por parte dos bancos e de outras instituições de crédito de estender também aos mais pobres os benefícios do crédito de que apenas os ricos e os remediados tinham beneficiado durante séculos.
O subprime surgiu porque um banqueiro um dia olhou para um gráfico da população nos Estados Unidos e constatou que havia umas dezenas de milhões de pessoas que os bancos não estavam a espremer - apesar de, esporadicamente, estas pessoas terem uns dólares a mais no bolso e de possuírem as mesmas aspirações e desejos dos outros seres humanos: uma casa para morar, por exemplo.
A questão era: por que razão extorquir apenas o dinheiro dos mais endinheirados? Porque não tentar sacar aqueles escassos dólares que se amontoavam nos bolsos dos mais pobres? Porque não ordenhar também os mais pobres (para usar uma expressão que os gestores apreciam, ainda que usualmente em inglês, to milk the costumers)? Afinal, aqueles dólares todos juntos representavam uma maquia apetecível.
Havia o pequeno problema de estes clientes poderem não conseguir pagar, mas isso não era nada que uma taxa de juro mais elevada não pudesse compensar. Bastava cobrar aos mais pobres um juro mais alto de forma a obrigá-los a pagar, digamos, cinquenta por cento acima do que se cobrava aos mais abastados (sim, acima). Para mais, havia sempre a possibilidade de o banco retomar possessão da casa, caso a hipoteca não fosse paga.
E assim se fez. É claro que este mercado (a eufemística expressão inglesa subprime significa "não é bife do lombo") teve os seus problemas, revelando a Mortgage Bankers Association dos EUA, no final de 2007, que se verificavam sete vezes mais execuções de hipotecas neste segmento que nos restantes, mas o essencial foi conseguido: os pobres estavam a ficar realmente mais pobres e os dólares que lhes saíam dos bolsos estavam a entrar nos bolsos dos bancos. O segmento subprime estava finalmente a ser explorado.
O problema foi que, como os bancos transaccionam estes empréstimos na bolsa e esta revelou um enorme apetite pela avalanche de hipotecas fresquinhas, os bancos entusiasmaram-se e começaram a emprestar a juros cada vez mais altos a quem não tinha emprego nem dinheiro, para comprar casas que não valiam nada. Como os bancos e os gestores eram avaliados (pelas bolsas e pelos seus accionistas) pelos resultados imediatos e não pelos efeitos de longo prazo, estas manobras foram uma bênção para o sector financeiro durante uns anos: havia mais "clientes", mais "valor bolsista". Mas o mercado imobiliário acabaria por cair e a catástrofe adiada aconteceu, dando origem à bola de neve que se conhece. A bomba acabou por estoirar no bolso do sistema financeiro.
Dizer que a crise do subprime foi provocada pela "democratização do crédito" é não só falso como desonesto. O poder estava e continua a estar apenas de um dos lados da equação. Os pobres que conseguiram ir pagando a sua casa pagaram-na mais cara que os ricos (mesmo os que nunca falharam uma prestação) e muitos deles perderam simplesmente as suas prestações para os bolsos de gestores e accionistas dos bancos - e perderam as casas. Houve um robindosbosquismo ao contrário e nenhum benefício para a economia. O facto de as coisas não terem resultado para os bancos - ainda que tenha resultado para muitos dos vilões - não faz deles as vítimas. E o facto de alguns indigentes terem tido crédito não torna o episódio "democrático" - é apenas um sinal da falta de escrúpulos das empresas envolvidas e da falta de controlos do sistema financeiro. Jornalista

23.09.2008, José Vítor Malheiros

AI, AI, COMO ELES ESTÃO


Esta crise financeira dá-nos um gozo imenso. Os poderes e os capitalistas andam aos papéis. O Estado e o capital a comerem-se. Paraíso dos anarquistas!

Crise financeira
Senado dos EUA aprova plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares
02.10.2008 - 08h03
Por Lusa
U.S. Senate TV/Reuters

O plano foi aprovado com 74 votos a favor e 25 contra
O Senado dos Estados Unidos aprovou na noite de quarta-feira, por 74 votos contra 25, o plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares (501 mil milhões de euros) no mercado monetário.

A situação económica exige que o Plano Paulson de salvação financeira aprovado pelo Senado o seja também pela Câmara dos Representantes, declarou na quarta-feira, em comunicado, o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

"Os americanos esperam e a nossa economia exige que a Câmara [dos Representantes] adopte esta semana esta boa lei e a reenvie ao meu gabinete", comentou Bush após a aprovação no Senado do plano.

O Presidente aplaudiu o voto do Senado rejubilando-se pelo facto de republicanos e democratas terem superado as divergências partidárias para adoptarem o plano do secretário do Tesouro, Henry Paulson.

"Depois melhoramentos introduzidos pelo Senado, creio que os membros dos dois partidos na Câmara podem apoiar esta lei", acrescentou Bush.

A Câmara dos Representantes deverá votar na sexta-feira o texto rectificado, após haver rejeitado na segunda-feira a primeira versão por 228 votos contra 205, fazendo cair a pique o índice Dow Jones e as bolsas mundiais.

O texto aprovado na quarta-feira pelo Senado introduz um aumento da garantia pelo Estados dos depósitos dos clientes dos bancos, subindo o limiar garantido de 100.000 para 250.000 dólares (de 71.500 a 179.000 euros).

Foram também introduzidos créditos de impostos sobre a classe média e empresas.

Estas alterações constituem melhoramentos ao projecto e "ajudarão a proteger as economias das famílias americanas e das pequenas empresas", sublinhou Bush.

Esta lei "é essencial para a segurança financeira de todos os americanos", explicou o Presidente dos EUA. "Ela tem por fim ajudar as famílias americanas que tenham necessidade de pedir dinheiro emprestado para comprar um automóvel ou financiar estudos superiores, bem como as pequenas empresas que dependem de financiamentos para pagarem as suas facturas."

in PÚBLICO

LEVI CONDINHO

Ia no 115 com uma dor metafísica nos colhões
à procura da morte em diagonal perfeita
a música é a música é a música
disse a tia Gertrudes quando compunha o programa
da máquina de lavar
não me digas que não há beleza no ar que ela tem
essa putinha
sapatos rasos com talas de tortura para a sífilis
nas unhas
e o mugir da bicicleta quando lhe sugam o leite
das tetas gordas
sobre o Popocatepetl em pedaladas à Gino Bartalli-o-Católico
e o cardeal com um osso buço entalado no recto purpúreo
a muralha de urtigas na labareda dos teus olhos travessos
oh meu amor de qualquer dia
ámen disse a gazela fintando o rinoceronte
estúpido hipocondríaco
ámen disse o gatinho no colo do útero
acaso o acaso faz rima com o acaso do acaso?
rima de merda numa sublime exaltação escatológica
e o reviralho da altitude em voracidade alarmante
para a consolação dos mortais e o desconsolo
dos que partiram
maldito seja quem te inventou oh spleen oh letargia
vou-me embora quando a porta rebentar
bom dia



Levi Condinho nasceu em Alcobaça no ano de 1941. Foi viver para Lisboa em 1972, tendo militado no PCP entre 1970 e esse ano. Jornalista, cronista, empregado bancário, publicou Para Que Alguns Me Possam Amar, em 1977, ao qual se seguiram Saxofone e Tentáculos, em 1981. Autor incluído na antologia Sião, organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, publicada na frenesi em 1987.

retirado de http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

LEVI CONDINHO

Com um abraço ao Anthero Monteiro

DIREITO À PROPRIEDADE


Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas


retirado de http://doriff.blogspot.com

CANTOS

Cantarei também o caos. Cantarei também a decadência do mercado e do capitalismo. Cantarei o fim do dinheiro e da bolsa. Cantarei o fim do império.

MANIFESTO/CÂNTICO ÀS GAJAS (BOAS)

Ontem tive uma daquelas conversas intermináveis acerca do destino do Homem e da Humanidade. O meu amigo diz que estamos aqui para sofrer o menos possível. Mas para quem tem sede de infinito, para quem acredita no Amor e na Liberdade sem limites isso não deixa de fazer confusão. A verdade é que quase ninguém tem este tipo de conversas. A verdade é que para ser um profeta tenho de partir muita pedra. Falar para milhares de pessoas: eis a meta. Chegar à televisão e dizer a palavra. A palavra-chave é o tédio. Eis o que vejo: TÉDIO. Com ou sem trabalho. Com ou sem dinheiro. Talvez as gajas façam a diferença. Mas elas têm de ser generosas para nós poetas. Mesmo que estejamos na miséria, sobretudo aí. Mesmo que estejamos na loucura. Elas (gajas) têm de dar-se a nós poetas e pensarem menos no conforto e na segurança. Têm de se dar a nós porque nós trazemos a divindade e a sabedoria. Têm de se dar a nós em vez de se darem aos futebolistas. Têm de se dar a nós como se dão a Dionisos porque ficam loucas como as bacantes. Têm de perceber que o trabalho não serve para nada. Têm de perder o medo que sentem de nós, têm de dançar na montanha, na floresta e na cidade, têm de fazer fogueiras e queimar o dinheiro. Sim, talvez a salvação esteja nas gajas. As gajas têm de se deixar levar pela loucura, têm de ser xamânicas e dionisíacas. Por isso, cantarei loucamente as mulheres. Por isso, lhes dedicarei hinos. Por isso, serei Dionisos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


A importância histórica na obra de Hesíodo


A importância histórica na obra de Hesíodo

Jéferson Dantas¹

A poética grega é um dos grandes mananciais da literatura ocidental. Nela se fundem ou se ressignificam os elementos estudados por poetas das gerações posteriores, ou seja, escritores dos períodos medieval, moderno e contemporâneo. Os temas da poesia grega vão da Epopéia à Lírica e desta última para a Alexandrina, já no período helênico. Um dos grandes nomes da poesia grega, sem dúvida, foi Hesíodo.

Acredita-se que Hesíodo nasceu na Beócia, em Ascra, deixando como legado duas importantes obras para a humanidade: Teogonia e os Trabalhos e os Dias.
É possível observar na escrita de Hesíodo um estilo semelhante ao de Homero, embora de temáticas opostas. Hesíodo é o poeta do período arcaico grego, época de intensas turbulências no meio agrário. Se, por um lado, Hesíodo se afasta da temática social descompromissada de Homero, por outro ele vai empregar a mesma métrica e, praticamente, o mesmo vocabulário de Homero em suas narrativas. Supõe-se que 80% do vocabulário utilizado por Hesíodo sejam comuns àquelas utilizadas por Homero na Ilíada e na Odisséia.

Além disso, fica patente nas obras de Hesíodo o caráter didático. Na Teogonia ele faz uma explanação do universo a partir das divindades mitológicas. Metaforicamente, o poeta quer nos contar a origem do universo, servindo-se para tanto destas divindades perenes e austeras. No interior daquele contexto histórico (século VIII a.C. aproximadamente), Hesíodo nos traz com a pujança de sua poesia a manifestação de uma época de lutas entre grandes latifundiários e a população expropriada de qualquer espécie de privilégio. Cabe ressaltar que os desprivilegiados não são apenas os camponeses, mas todos os pastores e pequenos artesãos que começam a formar uma classe cada vez mais numerosa. Conforme o crítico literário e escritor Donaldo Schüller, "já não é possível silenciar a luta de classes, abafada nos poemas homéricos com o predomínio absoluto dos aristocratas e seus nobres".

Embora didático Teogonia tem fortes elementos morais, formalizada pelo perjúrio dos deuses. As divindades gregas são as responsáveis pela 'justiça', controlando os homens em seus excessos e até mesmo em suas paixões. Porém, o que Hesíodo procura denunciar é a sociedade corrompida, e uma religião que tão-somente resigna o ser humano. O poeta de Ascra é o porta-voz da classe camponesa. Em Os trabalhos e os dias, Hesíodo lamenta a sorte dos fracos e despossuídos, assinalando a única atitude que lhes convém: a submissão.

Não há como negar que Hesíodo foi o mais importante poeta grego depois de Homero, nem tanto pela grandiosidade de seus poemas ou pela dificuldade em romper com a linguagem epopéica, mas, sobretudo pela sua visão dos acontecimentos sociais da época. Para Werner Jaeger, "o seu pensamento estava profundamente enraizado no solo fecundo da existência campesina [o que] lhe outorgava uma personalidade e uma força próprias, [...] concedido pelas musas desvendar os valores próprios da vida do campo e acrescentá-los ao tesouro espiritual da nação inteira".

A consideração acima fica mais evidente em Teogonia, quando Hesíodo analisa as divindades tendo como enfoque principal Mnemósine (memória), que representa a mãe das musas. Esta divindade tem uma função psicossocial das mais fecundas, já que para a civilização grega no período arcaico (séculos VIII a VI a.C.) a escrita era reservada a poucos e a memória - lembrança do passado - denotava a própria divindade. Aí reside toda a riqueza épica deixada por Homero às futuras gerações - e que influenciaria sobremaneira Hesíodo -, já que o aedo (uma espécie de repentista), por valer-se de sua memória, vai criar a literatura oral épica, culminando na épica escrita do aedo Homero. Hesíodo, desta maneira, trata a memória (Mnemósine) como elevada técnica poética, propondo que a divindade dá ao poeta o dom sobrenatural para a busca da verdade e, com isso, a captura do passado como substância do presente.

Assim como os profetas são inspirados pelos deuses, os poetas são inspirados pela Mnemósine. Poetas e adivinhos são agraciados pela clarividência. O poder de saber as coisas que é dado ao poeta, pela mãe das musas, é explicado por Hesíodo como um dom divinatório. Acredita-se que Hesíodo se utilizou dos mitos de povos semíticos para a construção poética de Teogonia.
Independente da influência que estes povos tiveram na obra hesiódica vale ressaltar o aspecto sócio-cultural que o poeta acoberta com uma linguagem sempre dirigida aos deuses, mas que na realidade descortina a repressão dos grandes proprietários rurais.

Para Hesíodo, as idades heróicas do ouro, da prata e do bronze já passaram. Vive-se agora a 'idade do ferro', onde a vida é cruel e dura. Para Baldry, "a sua preocupação incide sobre a necessidade de pelo trabalho e pela poupança, o agricultor encher os seus celeiros e de uma manifestação de amargo descontentamento, quanto aos desonestos julgamentos dos reis locais".
Nesta direção, Hesíodo carrega em sua obra uma universalidade onírica profundamente enraizada no chamado inconsciente coletivo, remontando a figura arquetípica estudada por Jung. Muitos poetas contemporâneos bebem do arquétipo para a composição de suas obras, como é o caso do escritor latino-americano Ernesto Cardenal.

Hesíodo não criou uma linguagem poética nova. A epopéia serviu muito bem ao seu espírito arrebatado e justo e, nem por isso deixou de ser compreendido pelas camadas sociais mais empobrecidas. Homero tinha a verve fluídica, porém sintonizada com os interesses aristocráticos. Entretanto, a intensidade poética de Homero e de Hesíodo se assemelhava. Hesíodo, por ter reservado grande parte de seus escritos às reflexões sobre a justiça, antecipará a poesia lírica de Sólon, que era um legislador reformista e que foi diretamente responsável pelos princípios democráticos na Grécia antiga.
Por fim, o avanço estilístico alcançado por Hesíodo devido ao seu brilhante nível de abstração, inaugurou uma nova fase na poesia grega denominada "pós-épica".

1 Historiador e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador e articulador do Grupo de Estudos do Currículo da Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (FMMC), Florianópolis/SC. Professor Colaborador no Departamento de Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). E-mail:
clioinsone@gmail.com Blog: http://clioinsone.blogspot.com/
http://arteeeducar.blogspot.com

PLATÃO, "ÍON"


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas ou dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas são admiráveis- pois estão fora da sua razão- mas que é própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles.
Os poetas não passam de intérpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração.
Quando te fazem ouvir um canto desse poeta (Homero), animas-te imediatamente, a tua alma agita-se e as ideias chegam-te em catadupa. (...) Não é por uma arte nem por uma ciência que tu falas de Homero como falas, mas por um privilégio divino e por uma possessão divina, tal como os Coribantes que apenas são sensíveis à música do deus que os possui e que encontram com facilidade gestos e palavras para se acomodarem a essa música, enquanto permanecem insensíveis às outras.

A CAIR, A CAIR


Estados europeus ajudam a salvar alguns bancos europeus
Euro cai para 1,40 dólares face à crise financeira que chegou à Europa
30.09.2008 - 17h14 AFP
O euro registou hoje uma forte queda contra o dólar, reagindo à crise financeira que se instalou em definitivo na Europa e fez tombar alguns bancos da região.

A ausência de um acordo sobre o plano da Administração Bush para sanear a banca norte-americana contribui igualmente para a reacção actual do euro. Na abertura, o euro valia 1,4435 dólares e no final da sessão do mercado de divisas o preço era de apenas 1,40 dólares, uma desciam de quatro cêntimos, ou menos 2,9 por cento do que na véspera.

Hoje, uma nova vaga de bancos europeus parece ter caído em desgraça, em particular os belgas ING e KBC, duas instituições que se seguem aos gigantes Fortis e Dexia, salvos ontem por fundos públicos de governos de vários países europeus.

Nos últimos dias, os governos europeus têm estado em alerta devido à queda abrupta de títulos de instituições financeiras e de resgates inesperados que têm dificultado a capacidade de angariação de liquidez a essas instituições.

No Reino Unido, foi o caso do Bradford & Bingley, ajudado por fundos públicos e pela liquidez disponível do espanhol Santander, que garantiu parte dos seus activos.

Na Alemanha, o Hypo Real evitou a falência porque congéneres alemães e o governo local conseguiram angariar 35 mil milhões de euros.