segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A VIDA PELA VIDA


A VIDA PELA VIDA

“Não existe nada a não ser a vida. (…) Viver, estar vivo, é partilhar do mistério. (…) (Heraclito) pretendia dizer que a vida é tudo, a vida é o único privilégio, a vida não conhece nada, não significa nada, a não ser a vida.”
(Henry Miller, “Os Livros da Minha Vida”)

A vida. O impulso vital. O estar vivo. Eis o que realmente conta, o que está para lá e para cá dos mercados e dos seus seguidores, eis o que estes querem matar.
O mexer dos dedos, o acto de escrever, de criar sem esperar recompensas. A vida, simplesmente a vida. A alegria do renascimento permanente mas também a revolta contra tudo o que nega a vida. A defesa da Criação, a relação do Homem com o Criador, o simples facto de o homem estar à mesa sem pressões nem obrigações. A vida pela vida de que fala Miller, de que fala Nietzsche. O poeta (Jim Morrison) que sobe ao palco para dizer aos que o escutam que deixem de ser escravos, que existe outra via- a via da celebração do milagre da vida. Não mais lágrimas, não mais depressões, não mais castrações. O poeta diz-vos que tudo isso- e também a descrença, o niilismo- são coisas que os mercados e os poderes vos espetam na mente, são também coisas do homem pequeno, do macaco que trepa para cima dos outros e mercadeja. O poeta diz-vos que tendes sido escravos de vós mesmos e da não-vida da economia e da linguagem da economia. O poeta pergunta-vos quanto tempo mais ides deixar que vos ponham a cara na lama, quanto tempo mais ides deixar que vos digam o que fazer. O poeta diz-vos também, com Henry Miller, que está a chegar a hora de vos autolibertardes. Para isso, tendes de matar o instinto de compra e venda, o cálculo dos custos e benefícios, a mentalidade mercantil. Porque tudo isso é primário, pobre, inimigo da vida. Porque tudo isso permitiu edificar esta sociedade podre e sem saída que é preciso derrubar. Em nome da vida.

O POETA


O POETA

Desperto. De novo, desperto. As mãos tremem mas desperto. Estou no princípio. Estou no precipício mas estou também no cume. O homem sobe e o homem sabe. Espera a mulher se ela vier. Quere-a. A mulher bonita, a mulher sabida. O poeta conhece as palavras. Quer dizê-las à mulher. Sabe o que quer. Não se limita a escrever versos. Está no mundo. Bebe. É da noite. A noite arde como a mulher. Este é o poeta que diz que o país está a arder. No fundo, nada tem a perder. Nasceu para isto. Vive da provocação, do desafio. Quer. É sobretudo vontade. Arde. Nasce. Sabe que o Estado o pode deter a qualquer momento. Não suporta o Estado. Em algumas coisas acha-o necessário. Mas não o suporta. Quer derrubá-lo. Já o imaginou várias vezes, já lá esteve várias vezes. Atirou-lhe pedras. Não é um santo. Por vezes até foi um bocado sacana. As pessoas do dia-a-dia na realidade não o conhecem. Poucos o conheceram na sua versão “hard”. Muda de pele. Veste a pele do humilde. Já foi humilhado na praça pública. Mas reagiu após a palavra da mulher. Consegue ser maldoso como Nero. Em determinadas situações, sob determinados céus. As pessoas não sabem. Não sabem que ele esteve várias vezes no inferno mas também já viveu o paraíso. Já não é aquele rapaz inocente dos 16 anos. Apanhou patadas. A maior parte das vezes não reage, deixa a banda tocar. Faz-se de ingénuo, inocente, ou é-o mesmo, acreditamos que sim. O Do Vale senta-se. É o poeta mas não apenas o poeta. Sabe que esta é a hora. Sabe que é a hora de andar na corda-bamba. Sabe que as greves e as manifs estão aí. É convidado para reuniões subversivas. Esta é a hora de gastar munições. Até começa a querer as gajas das televisões. É terrivelmente narcisista. Sabe ser bom e cruel. É terrivelmente sincero nas suas convicções. De certa forma, é um fanático. Espera a mulher. A mulher de sonho, que sobressai na paisagem. Não qualquer uma. Cremos mesmo que acredita nas suas convicções para lá da morte,
embora nem sempre o deixe transparecer. Julga-se um iluminado. A sua luz brilha. Veio cá para algo de grande, de superior. Chega o chato do costume e corta a veia.

AINDA A MANIFESTAÇÃO ANTI-NATO

Eu fui a Lisboa abraçar-te



A ordem perturba mais do que a desordem.




Quem quiser ver, a democracia está aí: converteu a política, toda a política, no confronto com a polícia.

A política é hoje tudo aquilo que escapa ao sistema político-partidário. E contra o que escapa ao sistema político-partidário, a mentira da democracia chama a polícia.




Desta vez, não foram apenas os sitiados pelo controlo social e político – exercido pelo Estado em nome da falsa democracia – que sentiram na pele a repressão exercida pelo aparato da polícia-exército: alguns jornalistas, curiosos, transeuntes, imigrantes, ficaram espantados. Um carioca, ao entrar no Rossio às 18h da tarde ficou mudo e gelado: pensou que tinha regressado ao Morro Formiga na favela da Tijuca.

Mas a falsa democracia é por demais previsível: o ataque preventivo começou cedo. Ataque preventivo na rua, em Lisboa, ataque preventivo nos/dos Media com a série policial black block, ataque preventivo nas fronteiras. Assim desvia a falsidade da sua essência, assim limpa a ferocidade do seu Estado-Guerra: cercar o mal, isolar o desordeiro, o violento, o vândalo, os palhaços, os filhos-da-puta.




Mas se o Estado é cada vez mais guerra e cada vez mais previsível, o que dizer do PCP?




O meu avô e o meu pai foram/são comunistas. O meu avô foi preso, torturado, na prisão tentou suicidar-se para não ceder à tortura, para não ceder à violência: quis ceder a vida para não ceder a liberdade. Teve 7 dias em coma, tantos quanto os dias que ficou sob tortura do sono – a mesma tortura, entre tantas outras, que a NATO infligiu e inflige aos prisioneiros de guerra do Afeganistão e Iraque com o beneplácito do Estado português. Ao fim de 7 dias de tortura do sono, num rebate de lucidez, atirou-se a pique e de cabeça do vão das escadas do 4ª andar da prisão de Coimbra.

O meu pai, deu metade da vida pelo “partido”. Acumulou cólera e raiva, cortes nos direitos sociais e degradação da democracia. (A única coisa que ganhou foi, isso sim, o movimento de base e habitacional cooperativo que ajudou a fundar com sucesso). Acumulou mais cólera e raiva do que aquela que eu tenho.




O PCP é uma linha de comando de controlo da raiva e da cólera?




Nenhuma outra estrutura/movimento político e social no país é um “black block” em potência além do PCP.

Se a voz de comando disse-se: ocupem as fábricas, ponham cadeados nos portões, não deixem sair os camiões, o país parava. (Como talvez nenhum outro país europeu pudesse parar por acção de uma só máquina partidária). O PCP não tem de o fazer, só a ele lhe cabe essa responsabilidade, ou melhor, ao seu comité. Mas para achar a nossa responsabilidade em tudo o que fazemos, temos sempre que confrontar aquilo que realmente fazemos com as possibilidades do que poderíamos fazer e não fazemos. Nessa diferença, podemos achar a nossa irresponsabilidade.

Pergunto – não à voz de comando, aquele que declara à Lusa (Fonte: TVI) que as pessoas que foram impedidas de entrar no protesto «não pediram antecipadamente para fazer parte do corpo principal da manifestação»; ou ainda, citando a reportagem assinada no JN por Catarina Cruz, Carlos Varela e Gina Pereira, “o único caso de maior preocupação deu-se, a meio da tarde, quando um grupo não organizado foi cercado pelo Corpo de Intervenção da PSP, junto ao Marquês de Pombal. A intervenção policial deu-se a pedido dos organizadores da manifestação que perceberam que mais de 100 pessoas iam integrar o protesto. A polícia, fortemente armada, cercou o grupo na cauda do cortejo” –, pergunto a tantos comunistas e simpatizantes do PCP (e já agora aos outros movimentos partidários que a integravam) se têm o direito de impedir que um outro grupo de cidadãos exerça o mesmo direito que eles próprios gozaram no mesmo sítio, à mesma hora?

O que o PCP fez (ou a organização submetida à lógica centralista e autoritária do PCP) foi ilegal, ilegítimo e, sobretudo, um ultraje. E para fazer cumprir uma ilegalidade, chamou a polícia. E ditou-lhes: façam desta forma, cerquem esse grupo de cidadãos, ou seja, exerceu com eficácia o seu poder sobre as autoridades condicionando-as a agir fora da lei. Conseguiu o apartheid. Foi a peça que faltava no puzzle montado pelo circo do poder para legitimar mediaticamente a NATO, a sua cimeira, a sua máquina de guerra.

Foram três as entidades que montaram o circo mediático de legitimação da Cimeira da Nato: as altas-esferas políticas; a Polícia e os seus vários serviços; e os Media de Informação de Massa.

E o circo mediático tinha uma pedra-chave em todo processo de desvio da essência assassina da NATO e limpeza do sangue do seu cadastro criminal: os black block.

15 dias antes, começou-se a armar a tenda: telejornais transformados em séries policiais.

Os black block seriam a pedra-chave para montar o cerco, para apontar o adversário, para legitimar a repressão. Bastaria um carro a arder ou uma montra partida e, passe de mágica, o espectador lá de casa pensaria: de facto, os gajos da NATO até têm razão, estes tipos anti-Nato são uns arruaceiros. E todos os manifestantes passariam a ser arruaceiros e os senhores da Guerra uma espécie de caritas global d’ ajuda ao outro!

Mas desta vez, a tripla entente (Estado-Guerra, polícia e Media) não precisou de polícia infiltrada a partir as montras, para isolar o adversário, para desviar a atenção dos 35 mil mortos civis afegãos, os torturados, o horror, o ódio, o terror espalhado pela NATO. Tinham a voz de comando do PCP: a farsa dos B.B (barbies big-brother), a psicose colectiva instigada na TV por Estado-Guerra, Polícia e Media, passava a ter a sua realidade na manifestação contra a cimeira da Nato.



Nessa lógica, o PCP integrou a lógica do Estado: primeiro, limitou a sua actividade de protesto à legitimidade imposta pelo Estado da falsa democracia, como sempre tem feito (uma greve geral em 22 anos é uma espécie de suicídio assistido pelo capitalismo…), depois impedem um grupo de pessoas de juntar-se a uma só voz contra a Guerra, contra a NATO.




Cerquem esse grupo, cacem-nos, porque a democracia está em perigo!




E cercados que estávamos, passámos a ser o adversário, o arruaceiro, o vândalo, o criminoso que vem na TV. Nem uma pedra atirámos. O que o PCP e a polícia-exército fizeram foi fazer-me sentir, num par de horas, um palestino.

Num par de horas, a violência do cerco policial, converteu-nos em palestinos e palestinas (sem querer dramatizar, é apenas uma imagem, pois sei bem a diferença que vai entro um cerco num par de horas e um cerco total durante 3 gerações…). Nem sequer uma pedra atirámos. (Nem sequer aquelas garrafas d’água que se esborracharam no Vital Moreira… talvez tivessem sido anarcas com credencial!!!!!!!!!).

Entre pacifistas, libertários, membros da PAGAN, anarquistas e outros tantos seres como eu sem serem “istas” de nada, ali estiveram demonstrando a sua não-violência num momento inusitado de demonstração da violência do Estado e de clara violação de dois direitos fundamentais, o direito à manifestação em qualquer espaço público sem prévia autorização e o direito à livre circulação no espaço público do território nacional (não nos esqueçamos que ao longo do percurso foi-nos sucessivamente negado o acesso livre ao território que a voz de comando determinou que não podíamos pisar). À nossa volta, acabava a falsa democracia… mas quando a (falsa) democracia chega tão longe…




Sitiados, com polícias que nos ladeavam enfileirados a um metro ou dois de distância uns dos outros, já não tínhamos mais nada senão o corpo. Caçados os direitos, era a sobrevivência do corpo. A liberdade de ser corpo. Nada mais. Não atirámos uma pedra.

Por isso, no fim, quando te abracei, sei que abracei outro corpo, tão vivo quanto o meu, só violência de lágrimas. Mais nada.




Temos de voltar a fazer amor com a liberdade ou a democracia deixará de existir.




Pelo estado de ruína da cidadania, pela crescente militarização da polícia, pelo estado de ódio e controlo social, os nossos filhos (aqueles que continuem a afirmar a liberdade com a vida) caminharão já não escoltados de cada lado por um polícia, mas por tanques de guerra. Então, seremos cada vez mais palestinos e palestinas, cada vez mais cercados, e o nosso corpo, para viver, vai ter de explodir.



Júlio do Carmo Gomes

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

HOMENAGEM AO CARLOS PINTO DO PÚCAROS


A sessão de hoje, 18, quinta, da POESIA DE CHOQUE homenageia Carlos Pinto, o recentemente falecido mentor do Púcaros, sob o título "A Poesia dos Cafés e dos Bares". O evento tem lugar no Clube Literário do Porto às 22,00 h e conta com a participação dos diseurs residentes, Luís Carvalho e António Pedro Ribeiro.


Sem o Carlos Pinto, o Púcaros já não é o Púcaros. Sem o Carlos não há mais aquele abraço fraterno, aquela voz que dizia que no Púcaros não há classes e que, às quartas, era a anarquia. Sem o Carlos já não há aquela piada nem o homem da sineta que, de vez em quando, "rabujava". Sem o Carlos já não há aquele afecto, aquela camaradagem que quase já não se usa porque vem de dentro e é autêntica. Sem o Carlos há quem se sinta órfão à quarta-feira. Sem o Carlos eu já não sei o que vou fazer à quarta-feira. Sem o Carlos não há tertúlia, nem democracia, nem discussão até às tantas. Sem o Carlos não há socialismo nem liberdade à solta. Sem o Carlos a generosidade fica mais fraca. Sem o Carlos eu já não tenho boleia.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

HENRY MILLER E WALT WHITMAN


DA AUTOLIBERTAÇÃO

Henry Miller tem em mim o efeito que têm nele os autores que cita em “Os Livros Da Minha Vida”. Sinto fome das suas páginas, algo que me eleva, algo que é vida, liberdade e criação, que está nos antípodas do discurso do ministro das Finanças, que não fala de orçamentos, percentagens, cortes, mercados. Bucke diz que Walt Whitman “parece profetizar a raça vindoura”. É isso que eu vejo em Miller, Nietzsche e Jim Morrison. “Há mesmo a esperança de que uma nova raça de homens nasça neste continente (América), de que surja um novo paraíso e uma nova terra”, acrescenta Miller. Esse homem existe no homem. Esse homem tem de matar a finança e o primarismo da compra e venda, do ganho e da dívida que existe ainda em si. É possível chegar a esse homem, transbordante de vida. É possível chegar a esse homem “primitivo”, que Morrison reclamava. A esse homem que, nas palavras de Whitman, “achasse suficiente o simples facto de viver (…) com o Ser inundado noite e dia pelo êxtase total, ultrapassando todos os prazeres que a riqueza, o divertimento e mesmo as gratificações ao nível do intelecto, da erudição, ou do sentido estético podem proporcionar”. Esse homem não precisa de governos. Aliás, o governo, segundo Henry Miller, é “a abolição do eu”. Esse homem é, ele mesmo, autolibertação.

RECLAMAMOS A VIDA


Os tempos estão a mudar. Apesar desta aparente calmaria, o desespero começa a vir ao de cima. Há aqueles que já nada têm e aqueles que já nada têm a perder. Em França, na Grécia, na Islândia. Há uma Europa que já não aceita a ditadura estúpida dos mercados, dos agiotas, dos banqueiros nem as políticas de austeridade dos governos ao serviço daqueles. Por isso se partem montras, delegações bancárias, se incendeiam automóveis, se enviam explosivos aos políticos do regime. Porque, de facto, nada há a perder. Porque, de facto, obedecer aos mercados é obedecer aos especuladores que apenas se regem pela lei da máxima vantagem imediata, sem olhar a meios, pelo sacar à custa do outro, pelo capitalismo no seu estado bruto. Os mercados, Obama, Durão Barroso, Angela Merkel, José Sócrates, são todos inimigos da vida e da criação, querem todos castrar o homem e matar o homem livre a construir. Não pode haver qualquer compromisso com essas entidades ou indivíduos. As manifestações paralelas à cimeira da NATO irão prová-lo uma vez mais. Reclamamos a vida, não a paz podre dos mercados e dos banqueiros. Não aceitamos mais. Reclamamos a vida.

JOSÉ AFONSO


...“O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!”...

José Afonso
Entrevista realizada por Viriato Teles, In: Jornal Se7e, 27/Novembro/85

CENSURA

O perfil da Esquerda Anticapitalista no Facebook foi cancelado depois de esta organização política ter publicado uma convocatória para a participação na contra-cimeira da NATO em Lisboa, que decorre este mês na capital portuguesa.
Normalmente o Facebook cancela páginas se houver denúncias, por incumprimento do código de conduta ou por um erro técnico (Thierry Roge/Reuters)

Com mais de 1.500 seguidores e criado há vários meses, o perfil relata com regularidade as acções levadas a cabo por este grupo partidário que considera o cancelamento do perfil um “acto de censura”.

Em comunicado publicado na sua página na Internet, o partido explica que a decisão “arbitrária” de fechar a página “só pode ser entendida como uma forma de cortar a liberdade de expressão e o uso aberto desta ferramenta”.

“Uma ferramenta que muitos movimentos sociais e políticos da esquerda alternativa usam como instrumento para organizar e ampliar as suas acções e propostas”, explica o partido que entretanto criou já nova página no Facebook.

O cancelamento da página ocorreu 24 horas depois do partido ter anunciado que estava a fretar um autocarro para levar manifestantes anti-NATO a Lisboa.

A decisão, segundo Raul Camargo, porta-voz do partido, foi tomada de forma “imediata e sem aviso prévio”.

Camargo considera que “deve ter havido uma denúncia”, insistindo que “alguém está muito interessado que não se vá a Lisboa protestar”.

Normalmente o Facebook cancela páginas se houver denúncias, por incumprimento do código de conduta ou por um erro técnico.

“É eliminado todo o conteúdo obsceno, violento, malicioso ou ofensivo”, explica a rede social.

Camargo rejeita que a convocatória da Esquerda Anticapitalista constitua uma violação destas normas, afirmando que “há até grupos neonazis que continua vivos no Facebook” apesar de denúncias.

“Se alguém não quer que estejamos em Lisboa protestar, nós iremos ainda com mais força”, explica Camargo.

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

TORAH

Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.

Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.

Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.

No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.

Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:

- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.

Alguns foram.

Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.

Depois disso, é o que se vê.

(MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA - «Contos do Gin-Tonic»)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DO ARTISTA-PROVOCADOR


A minha escrita tem mudado de estilo. Tenho escrito de uma forma mais leve, límpida. Isso não quer dizer que tenha abandonado as minhas ideias revolucionárias. No entanto, penso hoje que a linguagem marxista-leninista e mesmo algum anarquismo são muito rígidos, atribuem um papel messiânico à classe operária e aos trabalhadores e desconfiam dos intelectuais. Vejo com cepticismo o papel das pretensas maiorias. Penso até, como Nietzsche, que a maioria e a democracia burguesa são sinónimos de mediocridade, de primarismo intelectual, de rebanho. As revoluções serão sempre, pelo menos numa primeira fase, obra de minorias. Poderei eventualmente acreditar que um dia haverá um grande número de criadores, de mentes esclarecidas. Mas, neste momento, julgo que é a acção pela diferença que faz a diferença. Julgo que é ao artista-provocador, que se distingue do vulgo, da maioria, e aos pequenos (ou maiores) grupos revolucionários que não se limitam a marchar nas manifestações que compete fazer a diferença. Analisando a realidade, o artista-provocador fala uma linguagem diferente da da maioria, da da economia, ridicularizando permanentemente o instituído, utilizando a sátira, a graça, a ironia ou mesmo um tom mais duro. Enquanto os grupos revolucionários partem os vidros dos bancos ou enviam pacotes com explosivos, o artista-provocador-criador desmonta a lei do mercado e dos mercados, no palco ou na escrita, assumindo, portanto, um papel incendiário e chamando mais gente para a causa. Cremos ser esse o legado que Jim Morrison deixou. A sua revolução não é rígida nem dirigida como a dos marxistas-leninistas. A sua revolução é um hino à liberdade absoluta, um convite a que cada um pense por si e se afaste da idelogia dominante, castrante, mercantil e do pensamento da maioria. É do indivíduo, do artista, daquele que tudo põe em causa, e não das massas, da maioria, que nasce a revolta.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

39 ANOS DEPOIS...


Num mítico concerto em Miami
Jim Morrison poderá vir a receber perdão por exibicionismo em 1969
10.11.2010 - 09:51 Por Susana Almeida Ribeiro


O governador da Florida sugeriu que o mítico vocalista da banda The Doors, Jim Morrison, poderá vir a receber um perdão póstumo pelos seus actos de exibicionismo durante um concerto em Miami, em 1969.
James Douglas “Jim” Morrison nasceu no estado da Florida a 8 de Dezembro de 1943 e morreu em França, em Julho de 1971 (DR)

O governador Charlie Crist - que está prestes a abandonar as suas funções - indicou que está a considerar o perdão a Morrison, que foi condenado a meio ano de prisão em 1969 por ter gritado obscenidades e ter mostrado os genitais ao público que pagou bilhete para o ouvir.

“Fiquem atentos”, disse Charlie Crist esta semana ao jornal “The Hill”. “É algo que eu estou disposto a tratar durante o tempo que ainda me resta em funções”.

O caso remonta a 1 de Março de 1969. O concerto dos Doors no auditório Dinner Key, em Miami, transformou-se num evento mítico que entrou para os anais da história do rock na América.

Morrison chegou ao local do concerto - que estava a abarrotar - depois de um dia de bebidas e depois de ter visto, na véspera, uma peça provocadora em Los Angeles, recorda o “The Guardian”. O ambiente era, por isso, explosivo. O vocalista começou a hostilizar o público e a gritar palavrões. Às tantas, perguntou à audiência se queria que ele mostrasse o seu pénis (não exactamente por estas palavras). Não é totalmente claro se acabou por mostrar ou não os seus órgãos genitais porque os momentos seguintes foram confusos, com pessoas a invadir o palco e Morrison à luta com o promotor do espectáculo. Durante o julgamento houve igualmente testemunhas contraditórias e o processo acabou por se transformar num debate acerca da liberdade de expressão.

Fosse como fosse, Morrison acabou sendo absolvido dos crimes de comportamento lascivo e de embriaguez, mas foi condenado por profanação e por exibicionismo. Foi condenado a uma pena de seis meses de prisão e ao pagamento de uma multa de 500 dólares. O cantor acabou, porém, por pagar a fiança e morrer em Paris, aos 27 anos, enquanto aguardava o resultado do recurso.

O governador Crist já tinha dito, em 2007, que havia “algumas dúvidas acerca da solidez do caso”. Depois de ter perdido, na passada semana - nas eleições intercalares - o seu cargo para o candidato republicano Marco Rubio, o governador tem até Janeiro para emitir um perdão.

A reunião final que ira decidir se haverá ou não clemência terá lugar no passado dia 9 de Dezembro, um dia antes daquele que assinalaria o 68º aniversário de Morrison, caso este estivesse vivo. “Tudo é possível”, prometeu Crist.

James Douglas “Jim” Morrison nasceu no estado da Florida a 8 de Dezembro de 1943 e morreu em França, em Julho de 1971. Foi encontrado sem vida na banheira do seu apartamento arrendado em Paris. Como não foram encontrados vestígios de acção criminosa, acabou por não ser realizada nenhuma autópsia, tal como está previsto na lei francesa, o que contribuiu para adensar o mistério em torno das causas da sua morte e reforçou o estatuto de Morrison como lenda da música.

O artista é ainda hoje considerado como um dos mais carismáticos vocalistas de todos os tempos - em larga medida devido à sua personalidade teatral - e consta no número 47 da lista dos 100 Melhores Cantores de Sempre elaborada pela revista “Rolling Stone”.

www.publico.clix.pt

Não à PRIVATIZAÇÃO DA CP

Lisboa, 10 nov (Lusa) - O líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, defendeu hoje que a concessão a privados dos transportes ferroviários é uma "solução estúpida", que vai fazer aumentar o custo para os cidadãos, significando um corte indireto nos salários.

"A privatização é uma economia estúpida, é uma solução estúpida para um país que precisa de soluções inteligentes, precisa de soluções fortes do ponto de vista económico", defendeu o líder bloquista.

Francisco Louçã viajou nos comboios da CP, na linha de Sintra, e depois no comboio da ponte 25 de abril, explorado pela Fertagus, sendo que a última empresa cobra, segundo as contas do BE, mais 83 por cento por quilómetro pelos serviços.

O bilhete da CP para o troço Lisboa Sintra é de 1,75 euros, enquanto que igualmente para percorrer 27 quilómetros, entre Lisboa e Coina, a Fertagus cobra 2, 95 euros.

O passe mensal da Fertagus custa 66,9 por cento e o passe mensal da CP na linha de Sintra custa 35 euros, sendo que, sublinhou Francisco Louçã, na Fertagus "não há passe social".

"Temos a certeza que a ferrovia é degradada se ela for entregue à gestão privada porque a fatura vai ser paga pelas pessoas quando o Estado fez o investimento", argumentou.

Para Louçã, "as soluções que passam por preços mais caros pelo mesmo serviço não podem ser inevitáveis".

"Quando o bilhete aumenta cinco por cento, que é o que vai acontecer a partir de 1 de janeiro, e os transportes são privatizados e os transportes vão voltar a aumentar isso quer dizer que o salário ou a pensão está a ser reduzida", afirmou.

"Num momento em que a economia é atingida por vagas especulativas, em que os juros aumentam, em que as dificuldades aumentam, nós precisamos de uma economia mais competente", defendeu, sublinhando que a privatização dos comboios é uma opção de uma "economia que está a ser pior para as pessoas".

ACL.

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico ***

Lusa/Fim.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

RECLAMAMOS A VIDA


Reclamamos a vida.
A vida não é a vida pequena
que se fecha na família
nem no paleio sentimentalista
dos programas televisivos
a vida não é o que os mercados cagam
nem aqueles que se deixam cagar
pelos mercados

Reclamamos a vida.
O direito a dizer o que pensamos
homens livres
não escravos da lei, do poder,
do que quer que seja

Reclamamos a vida.
A vida não é uma nota nem uma moeda
não é negócio nem troca
nem castração do desejo

Reclamamos a vida.
A vida que eles nos roubam
a vida que não tem preço
o estar aqui
a vontade livre
que não está sujeita às cotações da bolsa
às medidas dos políticos
aos lucros dos banqueiros.

Reclamamos a vida.
Não estamos às ordens
estamos aqui livres, puros
como no dia em que nascemos
nada devemos a ninguém
estamos no começo.

Reclamamos a vida.

VIP

O "Vip" mudou de gerência. Lá se foram o Luís e a Carla. Dava-me bem com eles. É pena. Eram das únicas pessoas com quem falava aqui em Vilar do Pinheiro. Afeiçoamo-nos aos lugares e às pessoas. E as pessoas estão nos lugares. As pessoas são os lugares. É pena.
A Cláudia Pinho hoje apareceu no "Jornal de Notícias". Um abraço ao Luís e à Carla.

domingo, 7 de novembro de 2010

ONDE ISTO VAI...

Ficaram sem ter como pôr comida na mesa e começam agora a engrossar as filas nas instituições que prestam ajuda assistencial. Muitos dos 280 mil portugueses que dependem dos cabazes do Banco Alimentar contra a Fome são da classe média. Tinham emprego, férias, acesso à net e tv por cabo, cartão de crédito. Ficaram com uma casa para pagar ao banco, um subsídio de desemprego que tarda a chegar - quando chega - ou que já acabou. Um carro que já não sai da garagem.
É pelas idades e roupas mais cuidadas que se notam os novos utentes (Foto: Manuel Roberto)

Chegam à Assistência Médica Internacional (AMI), à Caritas ou às Misericórdias e pedem comida, ajuda para pagar os livros dos filhos, a mensalidade da casa, a conta da farmácia. Pedem, sobretudo, que não lhes divulguem o nome, porque nunca se imaginaram na posição de quem faz o gesto de estender a mão a pedir ajuda. "São pessoas que [nas cantinas comunitárias] comem viradas para a parede, têm vergonha de ser vistas ali, se lhes perguntamos o nome, fogem...", ilustra Manuel Lemos, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), em cujos refeitórios comunitários (que substituíram as velhíssimas sopas dos pobres) "a procura aumentou entre 200 a 250 por cento".

Ainda nos refeitórios das misericórdias, as médias etárias baixaram "dos 65 ou mais para os 42 anos ou menos", calcula Manuel Lemos. E que quem ali vai já não são só os sem-abrigo, os velhos e os inempregáveis do costume. Prova-o a forma como se vestem. "São pessoas arranjadas e cuidadas, nota-se que já tiveram a vida mais equilibrada. Ficaram desempregadas, ou aconteceu-lhes outro qualquer desarranjo, mas naturalmente não deitaram a roupa fora...", conjectura o padre Rubens, da Igreja do Marquês, no centro do Porto, onde noite sim, noite sim, comem cerca de 200 pessoas, num serviço que foi concebido no ano passado para 40 (ver texto ao lado).

Na maioria das vezes, os pedidos chegam por email. "Desde o ano passado que nos chegam pedidos de professores, advogados, engenheiros: profissões que nada fazia prever que precisariam de ajuda institucional", diz Daniela Guimarães, educadora social na Cáritas do Porto. Por causa destes novos utentes, a Cáritas ampliou a sua oferta, que era alimentar e de vestuário. "Este ano criámos apoio medicamentoso, e, entre Janeiro e Outubro, investimos 5063 euros em medicação. Os apoios pontuais para pagar a água, a luz ou renda também não existiam, mas as pessoas começaram a chegar aqui já com a luz cortada ou com as casas em situação de execução fiscal e tivemos que começar a intervir aí também."

Na distribuição de roupa também houve alterações. "As terças-feiras à tarde continuaram a ser maioritariamente para os sem-abrigo e depois abrimos mais um dia para as outras pessoas que sempre viveram bem e que de repente...". E que repente ficam com os bolsos vazios a sugerir a necessidade de um emprego. Pessoas que, mesmo com emprego, de repente baixam a cabeça para contar que o dinheiro já não chega sequer para o café diário. "Há dias uma funcionária pública contava-me que, perante as colegas, disse que o médico a proibira de tomar café, porque tinha vergonha de assumir que não tinha dinheiro para as acompanhar."

Na maior parte das vezes, os pedidos chegam quando a retaguarda familiar já se desmoronou. E depois há "os recibos verdes, que não se encaixam nas "gavetas", porque não preenchem os requisitos para nenhum tipo de apoio", nota Daniela Guimarães.

Fechados em casa com fome

Menos mal quando pedem ajuda. Nos centros Porta Amiga, da AMI, 7026 pessoas pediram apoio social no primeiro semestre de 2010. Cerca de 75 por cento do total de 2009. A maioria entre os 21 e os 59 anos, ou seja, com idade para estar a trabalhar. Mas a coordenadora regional do Porto da AMI, Cristina Andrade, lamenta é pelos que não chegam a sair de casa. "Há muita gente fechada em casa, a passar fome. Com vergonha de sair porque nunca na vida pensaram ter que recorrer a uma instituição. Antes de cá chegarem, já venderam o recheio da casa, acumularam dívidas e só vêm quando as coisas estão em tribunal ou quando não têm para dar de comer aos filhos", relata. E insiste numa ideia que há-de repetir várias vezes: "Pedir ajuda é um direito, as pessoas têm que perder a vergonha de o fazer."



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