domingo, 13 de julho de 2014

LEONOR

Em Braga. De novo n' "A Brasileira". Há já alguns meses que não passo vários dias seguidos aqui. A Leonor está triste, doente, deprimida. Não há outra menina como ela. Há 21 anos que nos conhecemos. Muita coisa se passou entretanto. Ela tornou-se professora, eu um poeta vadio que já fez alguns disparates, uma "avis rara" que alguns querem entrevistar. Sinto-me bem aqui em Braga. As pessoas parecem amáveis. As donas d' "A Brasileira" são bonitas. Sinto-me em casa, na minha cidade. Posso não ter a fama de outros, posso não ter a técnica mas sei que sou capaz do melhor. Sei que consigo escrever bem. Boa literatura. Mesmo que já tenha publicado coisas sofríveis, mesmo que não seja reconhecido por alguns. Ainda assim tenho os meus fãs, as minhas fãs. Vou deixar um legado, como alguém disse. Vou deixar uma obra. E não vou ficar por aqui. Ainda tenho muito a dizer, a escrever. Ainda tenho muitas cervejas a beber. Sei que me repito. Mas há coisas a denunciar. Há a Leonor. Sofro por ela. Revolto-me contra este mundo de injustiça, de manha, de rapina. Apesar de existirem mulheres bonitas, pessoas bonitas. No entanto, a maioria tem medo de viver, de explodir, de se extasiar. A maioria agarra-se ao trabalhinho, ao dinheirinho. Leva uma existência quadrada, vazia. Não valoriza o conhecimento, a luz, compete entre si. Contudo, apesar de tudo, ainda acreditamos em algumas pessoas. Ainda acreditamos no diálogo, na descoberta, nas conversas até às tantas. Na ausência de pressas, de pressões. No homem livre, sem obrigações. Acreditamos que somos capazes. Não vamos atrás da felicidade da maioria.