quinta-feira, 29 de maio de 2008

POESIA


Digo poesia
e acham-me piada
berro poesia
e acordo as pessoas
digo poesia e leio
a isto se reduz a minha vida
digo poesia
mas não chego à classe operária.

Breton


RANO RARAKU

Como o mundo é belo
A Grécia nunca existiu
Não passarão
O meu cavalo acha a ração na cratera
Homens-pássaros remadores arqueados
Voaram-me em volta da cabeça porque
Também sou eu
Quem lá está
Atolado a três quartos
A troçar dos etnólogos
Na amena noite do Sul
Não passarão
A planura não tem fim
Quem se destaca é risível
As altas imagens caíram
Tradução de Ernesto Sampaio.



André Breton nasceu em Tinchebray em 1896. Iniciou estudos em Medicina, sem entusiasmo, apenas para contentar a família. Mobilizado para o exército, em 1916, conheceu aí Jacques Vaché, o qual viria a exercer forte influência na sua personalidade. Em 1919, fundou com Aragon e Philippe Soupault a revista Littérature. Em 1920 aderiu ao grupo Dada, mas logo se incompatibilizou com Tristan Tzara, vislumbrando no automatismo um meio de renovar toda a arte. Tornou-se assim no principal fundador e teórico do movimento surrealista francês. Em 1924, no Manifeste du Surréalisme, expôs alguns dos princípios estéticos essenciais desse movimento: escrita automática, liberdade formal, exploração literária do inconsciente. Além dos escritos teóricos, escreveu obras de poesia, ficção, etc. Animado por uma ardente vontade de acção, a sua rebeldia levou-o a aderir ao Partido Comunista em 1927. Publicou as revistas La Révolution Surrealiste e Le Surréalisme au Service de la Révolution. Em 1933, Breton foi excluido do Partido Comunista. Com Leon Trotsky, acabaria por fundar, em 1938, a Federação de Arte Revolucionária Independente. Quando os nazis ocuparam a França, Breton refugiou-se nos EUA com Duchamp e Max Ernst. Terminada a guerra, regressou a França. Morreu no dia 28 de Setembro de 1966.

terça-feira, 27 de maio de 2008

FRASES DE MAIO DE 68


A acção não deve ser uma reacção, mas uma criação.

A anarquia sou eu.

A arte está morta, libertemos a nossa vida quotidiana.

A arte está morta, não consumamos o seu cadáver.

A arte está morta, nem Godard poderá impedir.

A barricada fecha a rua, mas abre a via.

A cultura é a inversão da vida.

A cultura está a desintegrar-se, grita.

A economia está ferida, pois que morra!

A emancipação do homem será total ou não será.

A felicidade é uma ideia nova.

A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista.

A imaginação ao poder.

A insolência é a nova arma revolucionária.

A liberdade do outro estende a minha ao infinito.

A mercadoria é o ópio do povo.

A nossa Revolução é maior do que nós.

A novidade é revolucionária, a verdade também.

A poesia está na rua.

A política passa-se nas ruas.

A religião é a última mistificação.

A revolução deve ser feita nos homens, antes de ser feita nas coisas.

A revolução não é a dos comités, mas, antes de tudo, a vossa.

A sociedade nova deve ser fundada sobre a ausência de qualquer egoísmo e qualquer idolatria. O nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade.

Abaixo a sociedade de consumo.

Abaixo a sociedade espectacular mercantil.

Abaixo a universidade.

Abaixo o Estado.

Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo.

Ficai com o vosso dinheiro!
Fornicai-o até à morte

Morte ao trabalho!
Urge acabar com os sempre bem dispostos
com os de sempre bem com a vida

Não fui feito para rebanhos!
Deixai-me a sós com os meus livros.

domingo, 25 de maio de 2008

REVOLUÇÃO


Dá-me uma revolução
uma puta duma revolução
quero ver o capitalismo em pedaços
a bolsa em chamas
o poder a arder.

As vizinhas do lado falam como gralhas.
leio e não consigo expressar o que leio
quando virá a sabedoria?
leio e só a leitura me interessa.

Venho estudar filosofia para o café
a leitura é tudo
pouco me importa a clientela que me rodeia.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O NOVO MAIO DE 68


O NOVO MAIO DE 68



António Pedro Ribeiro



Nunca o capitalismo foi tão sufocante como agora. Os números, as percentagens, as estatísticas, o economicismo estão por todo o lado às ordens dos bancos, das multinacionais, das bolsas, da indústria de armamento. O homem é reduzido à condição de número, de mercadoria. O quotidiano tornou-se insuportável, entediante. A vida não é vida, é sobrevivência, é sobrevida. Os profetas da morte- Bush, Sócrates, Sarkozy- reinam, a liberdade não passa por aqui.

É preciso um novo Maio de 68. Uma revolução que questione a não-vida, a vida burguesa. Uma rebelião que traga o humano de volta- sem números, sem percentagens, sem estatísticas. Uma insubmissão permanente que faça tremer o capitalismo e o imperialismo.
Venho ao "Astória"
e tu não vens
tu que trabalhaste aqui
se calhar casaste
tiveste filhos
e estás longe.

Leio propostas revolucionárias
não institucionais
e as pessoas falam de banalidades
leio propostas revolucionárias
e a esperança renasce.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

JIM


Jim
outra vez o Jim Morrison
a beber ao balcão
sinto-me como tu
e chega o rapaz que não gosta
de revoluções
a beijar toda a gente
Jim
hoje ouvi os putos cantarem
a tua canção
Jim
a dançar no palco
continuas vivo
de longas barbas
e barriga de cerveja
sinto-me como tu
Jim
voltas sempre quando vem a solidão
Jim
a palavra custa a sair
Maio de 68, Vietname, hippies,
beatnicks, surrealistas, situacionistas
velho rocker
tu é que tinhas razão
a insultar os chuis
a desafiar a autoridade
em Miami, New Haven
de micro na mão
Dionisos sempre

PÁTIO


Regresso ao "Pátio"
o Ramiro discute a situação económica do país
com a clientela
a Liliana veio dar-me um beijo
e fez-me reviver
a Carla quer ir comigo a Paredes de Coura
e eu leio as letras dos Rolling Stones.

sábado, 17 de maio de 2008

A IMAGINAÇÃO AO PODER


A IMAGINAÇÃO AO PODER

António Pedro Ribeiro

Há 40 anos uma revolta estudantil abalou os alicerces da sociedade capitalista. Grito libertário de estudantes universitários a que, numa segunda fase, se juntou o operariado com ocupações de fábricas e 10 milhões em greve, o Maio de 68 permanece como exemplo de revolução no seio de uma sociedade capitalista desenvolvida. Pretendia-se revolucionar o quotidiano, mudar a vida, colocar a imaginação no poder. Maio de 68 foi também uma revolução feita à margem da burocracia sindical do PCF e do estalinismo, onde a espontaneidade e a autogestão foram práticas correntes. Maio de 68 foi beber aos beatnick, ao movimento hippie, aos situacionistas, a Che Guevara, às revoltas estudantis de Berkeley, de Itália, da Alemanha, à Primavera de Praga, ao Brasil, à contestação à Guerra do Vietname, à música de Woody Guthrie, de Bob Dylan, dos Beatles, dos Doors, dos Stones. Maio de 68 é a negação da vida burguesa. Começou a falhar quando os partidos de esquerda começaram a tomar conta do movimento. Foi o retorno à normalidade. Maio de 68 foi a nova Comuna de Paris, a nova revolução permanente. Sejamos realistas, exijamos o impossível! Maio de 68 é a festa, a revolução pura.