quinta-feira, 17 de julho de 2008

DIÓGENES, O CÍNICO


Diógenes, "o Cínico"
15.09.2003

Porque serão as pessoas de Atenas tão pouco generosas? Estão fartas, quase todas, deste excêntrico que dorme em qualquer parte, sob o pretexto de que a terra inteira é a sua casa. Que nunca se deixa impressionar pelos ricos nem pelos poderosos, nem sequer pelos deuses. Que vive com o seu casaco de lã grossa dobrado em dois, sempre o mesmo, tanto no Verão como no Inverno, e o seu alforge, onde enfia toda a comida que apanha. “O Cão”, como lhe chamam, há muito que irrita toda a gente. Os atenienses habituaram-se a vê-lo deambular por todo o lado, sempre descalço, qualquer que seja a estação do ano. Viram-no rolar na areia escaldante nos dias de canícula e, por vezes, no Inverno, espojar-se na neve, para enrijar, “exercitar-se”, como ele diz. As pessoas não sabem exactamente em que se exercita, mas não se habituam muito bem à ideia de dar com ele a urinar em qualquer sítio, e ainda menos a masturbar-se na rua, dizendo que seria bom que a fome também desaparecesse assim tão facilmente.

Será que este solitário hirsuto pretende trazê-los à realidade? A maioria dos atenienses encolhem os ombros. Pensam que Diógenes é um exaltado. Quem ouviu Platão dizer que este excêntrico é um “Sócrates que ficou louco” desconfia das suas extravagâncias. Mesmo assim, há muito que o admiram em segredo. Quando Diógenes se instalou na famosa pipa no Metroôn, muitos pensaram que não sobreviveria. Mas Diógenes sobrevive. Persiste, ano após ano. Ele obriga-se a viver duramente. E, para isso, é preciso coragem! Quando um vadio destruiu a pipa, alguns cidadãos perseguiram o culpado e castigaram-no. Reconstruiu-se, para o asceta tonitruante, um abrigo idêntico, que para ele era suficiente.

O que obriga a respeitá-lo é que Diógenes vive como pensa. Não finge. Eis alguém que é coerente nos gestos e frases. Um filósofo nas acções, não só no discurso. E muito menos um belo espírito que faz sempre o contrário do que diz. No entanto, Diógenes escreveu muito, e sobre temas muito diversos, desde tratados políticos a livros de moral. Mas a sua vida quotidiana fala pelas suas ideias. Quase ninguém leu as suas obras. Mas todos vêem o seu comportamento. Ele ensina pelas acções e pelo exemplo.

É verdade que, frequentemente, choca as pessoas. Porque é o primeiro a praticar este modo de vida denominado “cínico”, justamente por causa dos cães (“kunos”, em grego antigo, significa “cão”). Sem querer imitá-lo, aqueles que se cruzam com ele não estão longe, por vezes, de lhe dar razão. Quando Diógenes se refere a Platão como “falador inexaurível”, muitos atenienses partilham a sua opinião. E, quando ele se proclama a si próprio campeão olímpico na “categoria homens”, há quem concorde em segredo.

Mas os atletas, mesmo os virtuosos, têm de se alimentar. É por isso que Diógenes já se instalou, muito tempo antes do nascer do sol, precisamente no ponto de convergência de duas ruas. É o melhor local para mendigar. Dali, encostado à casa que faz esquina, a sua vista alcança toda a praça do mercado. Todos os atenienses que passam conseguem ouvir a sua voz. E ouvem-no, como de costume. Quer se chamem Platão, quer sejam menos famosos, quer sejam comerciantes, guerreiros, camponeses, escravos, homens ou mulheres, jovens ou velhos. Diógenes, como sempre, está decidido a não poupar os que passam por si. Mendigo sim, adulador não.

Maltrata-os para os abanar, para os acordar. Porque acha que são moles, ou estão atordoados, preocupados com os seus prazeres imediatos, incapazes de verem o essencial: serem homens, viverem livres, alcançarem a felicidade. Sim, é verdade que é um mendigo, ele, filho de um banqueiro, o antigo falsário exilado, o homem vindo de Sinope há já vários anos e que hoje vive nas ruas, como um cão, voluntariamente. Ele pede quando tem, de facto, muita fome e não tem nada para comer. Não tem a menor vergonha. Para ele, tudo é de todos. Quando lhe dão esmola, não lhe dão nada — entregam-lhe o que tanto é dele, como dos outros. É por isso que, para obter comida, Diógenes não se rebaixa perante ninguém. Pelo contrário, insulta os transeuntes o mais que pode.

“Ei tu, sim, tu, o gordo, estás-me a ouvir? Dás-me alguma coisa para comer? Em vez de encheres o bandulho, farias melhor dares-me alguma comida! Olha que tenho fome! E proíbo-te de me deixares assim! Estás a ouvir?” O outro continua o seu caminho sem voltar a cabeça. Então Diógenes reconhece, no meio da multidão, um avarento, que já lhe prometeu algumas moedas várias vezes, sempre para o dia seguinte, e começa a gritar: “Ó meu amigo, é para comer que eu quero o teu dinheiro e não para a minha sepultura! Se demoras tempo de mais, as tuas moedas servirão para me enterrar!” Alguns transeuntes riem-se. Ninguém dá nada. As horas passam. Ninguém atira a Diógenes um só cêntimo. Nem sequer uma côdea de pão ou algumas azeitonas. Fica sozinho, faminto, de mão estendida e com o seu discurso injurioso.

O sol já vai alto e ainda ninguém lhe deu nada. Diógenes não arreda pé. Continua a insultar as pessoas. O filho de uma prostituta atira- lhe uma pedra e ele gritalhe: “Atenção, meu rapaz, podias ter atingido o teu pai!” Um careca é injurioso e ele responde: “Felicito os teus cabelos por terem abandonado essa tua cabeça porca.” Um mercador ameaça-o de punho cerrado, Diógenes replica: “Enganas-te! Quando se estende a mão aos amigos, não se cerram os punhos!”

Provocar Diógenes é quase um passatempo para alguns transeuntes. Sob a violência aparente, procuram réplicas profundas. Um estrangeiro de passagem avança e interpela-o: “Ei, filósofo, sabes o que envelhece mais rapidamente nos humanos?” “A benevolência”, responde Diógenes. “E o que há de mais belo no mundo?” “Falar francamente! E tu és um chato”, acrescenta o cínico, antes de pedir, pela centésima vez, alguma coisa para comer. Um outro jovem toma a palavra. “É verdade, Cão, que vives aqui no exílio? “Estou muito feliz por estar exilado. Foi graças a isso que comecei a filosofar!” “E o que ganhas com a filosofia?” “Pelo menos o seguinte: estar pronto para qualquer eventualidade.” “Disseram-me também que tiveste de sair da tua terra porque tinhas falsificado dinheiro...” “É totalmente verdade”, diz Diógenes. “E também é verdade que, quando eu era muito mais novo, fazia chichi na cama, e agora já não faço.”

“Falsificar moeda” é a frase-chave da vida de Diógenes de Sinope, aliás, o “Cão”, ou ainda o “Cão real”. Ele próprio, ou o pai, ou ambos, passaram por traficantes de dinheiro, em Sinope, a sua cidade natal, e viram-se obrigados a exilar-se, quando o subterfúgio foi descoberto. Porém, Diógenes pensava ter agido bem. Em tempos, consultara o oráculo de Apólo sobre o seu destino. Resposta: falsificar moeda. Ora, o oráculo de Apólo não se iria enganar, todos sabem disso, mesmo aqueles que, como Diógenes, têm uma relação distante com os deuses. Então, onde estaria o erro?

Mais tarde, depois de se tornar filósofo, Diógenes compreendeu. A moeda que tinha de falsificar não era dinheiro! Mas as convenções sociais, os valores, o conjunto das relações sociais. Honras, poderes, riquezas, sabedoria, até mesmo os prazeres, todas as coisas de que os humanos tanto gostam e onde o sábio vê a falsidade que nelas existe, cabendo-lhe a ele fazer ver aos outros essa mesma falsidade. Tudo o que agita a humanidade: desejo, orgulho, receio, infelicidade, alegria — ele dá-se conta que tudo isso são pedras de imitação, peças sem valor, que circulam, passam por importantes, mobilizam e fazem sofrer, mas são apenas vento.

O segredo, o que contém e condiciona tudo o resto, é viver “segundo a natureza”. O ser humano que consegue encontrá-la encontrá- la e segui-la viverá feliz, despojado dos artifícios e dos males que a civilização engendra. Assim, Diógenes exercita- se, sistematicamente, a desfazer-se das convenções da vida social. A seus olhos, não são só engodos ou incómodos. São ciladas. Amizades que se tornam nefastas. Começou a compreendê-lo ao observar um rato. Certa manhã, pouco tempo depois de ter chegado a Atenas, quando dormia numa quinta, interrogava- se como iria viver. Começou a observar um rato e constatou que este animal não se preocupava em ter um tecto nem um trabalho. Era livre de comer o que encontrava no seu caminho e de dormir em qualquer parte e em qualquer altura. Eis o que é viver segundo a natureza: permanecer livre, bastarse a si próprio, não ceder a nenhuma das convenções da civilização.

Para conseguir isto, Diógenes decidiu, de repente, que tinha de seguir uma via abrupta, um caminho escarpado. Nada de meias medidas. Radicalmente. É indispensável desfazer-se das coisas inúteis. E há sempre coisas inúteis, mesmo quando julgamos termo-nos despojado de tudo — por exemplo, Diógenes apenas guardou uma tigela, um pequeno recipiente para beber. No dia em que viu uma criança, na fonte, a beber com as mãos, partiu este último utensílio. Não passava de uma espécie de moeda sem valor, uma falsa utilidade.

Nesta falsificação dos valores comuns, Diógenes vai muito longe. Não se limita à rejeição das honras e ao desprezo do poder. Dirige-se directamente às leis, na Cidade, a qualquer incarnação da autoridade. Desprezando Alexandre, o filósofo proclama-se, sem dúvida pela primeira vez na história, “cidadão do mundo”. Não poupa a religião. Chega a pilhar, nos templos, as oferendas destinadas aos deuses. E, quando uma mulher se prostra para rezar, olhando de soslaio o seu traseiro assim oferecido, o sábio agitado pergunta se ela não tem medo que um deus venha por trás, uma vez que eles estão em toda a parte...

E isto não é tudo. A instrução é posta de lado. A virtude só é apropriada para o sábio. Portanto, não há nada a fazer nem nas artes, nem nas ciências. É inútil até aprender a ler. Inútil casar-se. Inútil ter amigos. Inútil esconder-se para copular. Diógenes não é um homem de compromissos. Nenhuma combinação, nem qualquer aproximação. É um extremista da virtude, um hércules da coerência. Se queremos viver segundo a natureza, é com os animais que temos de aprender. Diógenes preconiza que as mulheres pertencem a todos, que as crianças são de todos, que não se preocupem com o incesto.

Diógenes não está sozinho simplesmente porque o rejeitam, o caluniam ou o condenam. Foi ele quem escolheu o refúgio, a grande solidão da liberdade total. Um dia, à saída do teatro, na altura em que a multidão deixava o hemiciclo, Diógenes pôs-se a caminho para entrar. “Que estás a fazer?” “Aquilo que fiz toda a minha vida!” Diógenes simboliza a existência contra a corrente, tanto com a sua grandeza, como com os seus limites. O seu desprezo pela carneirada, a sua exigência de coerência podem suscitar admiração. Podemos também pensar que tanta ostentação na simplicidade é sinal de um imenso orgulho.

O homem da pipa inventou o refúgio ante a civilização. Esta atitude acompanhará sempre, depois dele, a História ocidental de formas muito diversas, desde os ascetas do princípio do cristianismo até à “beat generation”. Com vantagens: denúncias da hipocrisia, coragem da virtude. E também com perigos: recusa da lei que desumaniza, o sonho da animalidade que desemboca na barbárie. Podemos também retirar daqui apenas a resistência face à adversidade, o desejo tenaz de nunca ser apanhado desprevenido pelo pior. É isto que testemunha o fim da história. Ei-la.

Diógenes encontra-se sempre na rua, de mão estendida. O sol baixa, e a sua mão continua vazia. Mas ele mudou de sítio. No início da tarde, instalou-se em frente a uma estátua, sempre de mão estendida. Permanece à frente da estátua, imóvel, mendigando sempre. “Ei, Diógenes, o que fazes aí?” “Exercito-me a receber recusas.”

1 comentário:

Doge disse...

Excelente post, achei por acaso no google e já assinei o feed.