quarta-feira, 25 de novembro de 2015

CAMELOT

O reconhecimento. Algum narcisismo, confesso. Mas se não fosse narcisista já teria dado um tiro nos cornos. Já estive na merda várias vezes, meses seguidos no inferno da depressão. Agora é a minha vez de reinar. Sou candidato anti-capitalista à presidência da República. Sou anarquista-guevarista-nietzscheano. Isso não me impede de passar noites de bar em bar, de copo em copo. Venho de Henry Miller, de Jim Morrison, de Charles Bukowski. As pessoas olham para mim porque sou diferente. Não sou escravo do trabalho nem das horas. Escolhi a vida que quis. Falta-me a mulher amada. Falta-me a revolução concretizada. No entanto, sinto-a próxima. O capitalismo está num caos por causa dos atentados dos fanáticos de Alá e da barbárie interna. As pessoas não sabem o que querem. Falam de futilidades. Não se calam. Pobres vidas. Anda um gajo em busca da glória e esta gente contenta-se com telemóveis, televisão, dinheiro e sobrevivência. Sim, estou na estrada de Camelot, de Artur, do Santo Graal. Não como desse pão!, como disse Péret. Estive muito tempo calado, a ouvir os outros, agora é a minha vez de me dirigir ao mundo. Agora o mundo é meu, nada está acima de mim nem da minha vontade. Sou deus de mim e da minha vida, como afirma Max Stirner. Sou único, sou soberano. As palavras saem livres, soltas. Sou aquele que dança. Dionisos a Presidente. E mulheres, muitas mulheres, mulheres belas, as minhas bacantes. Não, este mundo não me agrada. Eu sou da celebração do lagarto, do banquete permanente, da criação. "A estrada do excesso conduz ao palácio da sabedoria", já dizia William Blake. Não sou sequer deste tempo, deste século, venho de Camelot, de Elsenor, da Grécia Antiga. Amo-vos mas tenho pena de vós.

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