quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

SILÊNCIO DA GAVETA, AMANHÃ




Dia 12 Dezembro 2008, sexta-feira, pelas 22h na Cooperativa A Filantrópica, Póvoa de Varzim.

10 Anos do Colectivo Silêncio da Gaveta
Espectáculo DEZ ANOS A DIZER COM MÚSICA
com João Rios nas palavras, José Peixoto na guitarra, Tiago Pereira no violino
e os convidados Fátima Fonte no piano e o poeta Aurelino Costa.

Apresentação do livro DO SILÊNCIO dos poetas
com fotografia e capa de Daniel Curval

e os poemas de

A. Pedro Ribeiro | Armando Ramalho | Aurelino Costa | Bruno Neiva

Daniel Maia-Pinto Rodrigues | Fernando Nunes | Filipa Leal

Isabel Rosas | Isaque Ferreira | Jesús Losada | João Rios

Joaquim Castro Caldas | José Fontes Novas | Vicente Rodriguez Lázaro

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

WE WANT THE WORLD AND WE WANT IT...NOW!


Talvez da Grécia venha algo de novo. Talvez da Grécia venha a revolução. O assassinato do rapaz de 15 anos pela polícia reacendeu tochas que pareciam apagadas. A tocha do anti-autoritarismo, a tocha do anti-capitalismo, traduzida na fúria contra os bancos e as bolsas, os verdadeiros culpados da crise capitalista. Em Atenas queimam-se automóveis, lojas, bancos, e põem-se a nu os podres dos "gestores" que acumulam cargos e rapinas nas empresas e bancos da crise. A revolta grega, despoletada por grupos anarquistas, é o grito daqueles que dizem basta a um mundo que promove a morte: a morte das relações humanas livres e autênticas, a morte dos sentimentos, a morte das pulsões vitais, a morte da fraternidade, a morte da criatividade, a morte do Homem. A revolta grega é o grito pela vida, o grito dos que se fartaram de esperar, o grito dos que pouco ou nada têm a perder. We Want the World and We Want it...Now! Tal como em 68 não são os jovens dos subúrbios nem os operários que se começam por se revoltar mas sim os filhos da burguesia, os estudantes. We Want the World and We Want it...Now! Queremos o mundo mas queremo-lo agora! Agora, tem que ser agora. Não há tempo a perder. É a vida que nos empurra. Não há dúvidas nem hesitações. A frase de Jim Morrison volta a soar, a bater, insistente, perfurante, dilacerante. We Want the World and We Want it...Now! Todas as missas chegaram ao fim, todas as máscaras se desmascaram, todas as infâncias vêm dar aqui, todas as convicções são postas à prova, uma nova era começa aqui. Este é o princípio do fim do capitalismo.

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA, NIETZSCHE


IX
Zaratustra dormiu muito tempo e por ele passou não só a aurora mas toda a manhã. Por fim abriu os olhos, e olhou admirado no meio do bosque e do silêncio; admirado olhou para dentro de si mesmo. Ergueu-se precipitado, como navegante que de súbito avista terra, e soltou um grito de alegria porque vira uma verdade nova. E falou deste modo ao seu coração:

“Um raio de luz me atravessa a alma: preciso de companheiros, mas vivos, e não de companheiros mortos e cadáveres, que levo para onde quero.

Preciso de companheiros, mas vivos, que me sigam — porque desejem seguir-se a si mesmos — para onde quer que eu vá.

Um raio de luz me atravessa a alma: não é à multidão que Zaratustra deve falar, mas a companheiros! Zaratustra não deve ser pastor e cão de um rebanho!

Para apartar muitos do rebanho, foi para isso que vim. O povo e o rebanho irritam-se comigo. Zaratustra quer ser acoimado de ladrão pelos pastores.

Eu digo pastores, mas eles a si mesmos se chamam os fiéis da verdadeira crença!

Vede os bons e os justos! a quem odeiam mais? A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infrator, ao destruidor. É este, porém, o criador.

O criador procura companheiros, não procura cadáveres, rebanhos, nem crentes; procura colaboradores que inscrevam valores novos ou tábuas novas.

O criador procura companheiros para seguir com ele; porque tudo está maduro para a ceifa. Faltam-lhe, porém, as cem foices, e por isso arranca espigas, contrariado.

Companheiros que saibam afiar as suas foices, eis o que procura o criador. Chamar-lhes-ão destruidores e desprezadores do bem e do mal, mas eles hão de ceifar e descansar.

Colaboradores que ceifem e descansem com ele, eis o que busca Zaratustra. Que se importa ele com rebanhos, pastores e cadáveres?

E tu, primeiro companheiro meu, descansa em paz! Enterrei-te bem, na tua árvore oca, deixo-te bem defendido dos lobos.

Separo-me, porém, de ti; já passou o tempo. Entre duas auroras me iluminou uma nova verdade.

Não devo ser pastor nem coveiro. Nunca mais tornarei a falar ao povo; pela última vez falei com um morto.

Quero unir-me aos criadores, aos que colhem e se divertem; mostrar-lhes-ei o arco-iris e todas as escadas que levam ao Super-homem.

Entoarei o meu cântico aos solitários e aos que se encontram juntos na solidão; e a quem quer que tenha ouvidos para as coisas inauditas confranger-lhe-ei o coração com a minha ventura.

Caminho para o meu fim; sigo o meu caminho; saltarei por cima dos negligentes e dos retardados. Desta maneira será a minha marcha o seu fim!”

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SERÁ QUE A COISA VEM?


Clima de insurreição geral
Manifestações e vaga de violência em mais de uma dezena de cidades gregas
08.12.2008 - 22h15 Jorge Heitor
Novos confrontos entre a polícia e os manifestantes proliferaram hoje por toda a Grécia. A cólera desencadeada pela morte, no sábado, do jovem Alexandro Grigoropoulos, alastrou mesmo a representações diplomáticas ou consulares no estrangeiro, como Londres e Berlim. Trata-se da mais grave agitação a que a Grécia assiste nas últimas décadas.

A polícia carregou contra 300 manifestantes, na capital, Atenas, mas também houve violentos distúrbios no vizinho porto do Pireu e em Salónica, a segunda cidade do país, em Trikala, no Centro, em Larisa, Volos, Patra e nas ilhas de Corfu, Creta, Samos, Lesbos e Rodes.

Os distúrbios dos últimos dias destruíram já cerca de 130 estabelecimentos atenienses. O Partido Socialista Pan-Helénico (PASOK, na oposição) pediu à população que criticasse o Governo conservador mas se abstivesse de novos actos de violência.

Os professores universitários iniciaram uma greve nacional de três dias. Os blogues mais populares entre os estudantes do ensino secundário incitaram-nos a boicotar as aulas, num clima de insurreição geral.

Ao longo destes dias, manifestantes com uma forte componente anarquista têm vindo a gritar “polícias, porcos, assassinos”, e a lançar bombas incendiárias, enquanto helicópteros tentam controlar as multidões.

Governo perdeu três ministros por corrupção

O ministro do Interior, Prokopis Pavlopoulos, prometeu investigar em pormenor as circunstâncias do incidente, ao mesmo tempo que reconhecia que “tirar uma vida é algo indesculpável em democracia”. E chegou mesmo a colocar o seu lugar à disposição, o que não foi aceite pelo primeiro-ministro Costas Karamanlis, sobrinho do antigo Presidente Constantinos Karamanlis. Ontem, o agente responsável pelos disparos já tinha sido acusado de assassínio.

Nos últimos 12 meses, o Executivo de Karamanlis já perdera três ministros devido a casos de corrupção e não se podia dar ao luxo de perder agora mais um, pelo que se tem desdobrado em desculpas públicas pela morte do jovem.

Um porta-voz da Esquerda Anti-Capitalista Unida, Panagiotis Sotiris, declarou hoje à noite à Reuters que a “revolução social” durará o tempo que for necessário, até o Governo cair.

A actual equipa governamental “não compreende os problemas do país”, comentou George Papandreou, líder do PASOK, que já antes destes incidentes se encontrava nas sondagens à frente da Nova Democracia e agora pretende capitalizar o descontentamento popular com as privatizações e a reforma do sistema de pensões.

www.publico.clix.pt

domingo, 7 de dezembro de 2008

PELA VIDA


Venho à confeitaria convencido de que sou um génio, convencido de que estou próximo de escrever a obra imortal. Leio um texto sobre o poeta Heinrich Heine. Já Heine dizia que o dinheiro era o deus. Já Heine dizia que a arte e a imprensa se submetiam cada vez mais às exigências mesquinhas do capital (1). Manoel de Oliveira diz, num jornal, que "a arte não tem qualquer finalidade útil, mas uma função muito particular, que é a do ensino da condição humana". De facto, o utilitarismo é inimigo da criação. É importante que os meus textos sejam lidos mas mais importante é que sejam bons, que reflictam a condição humana, que incomodem, como disse alguém. Não me adaptei à vidinha, à vida dita prática. Só posso sobressair enquanto criador, enquanto arauto da revolta mas não a revolta meramente política- a revolta dos partidos e dos sindicatos- e sim a revolta criadora, vital, total, que exige a Vida no sentido nietzscheano. É pela vida, pela condição humana que nós lutámos. Não nos ficamos por aumentos salariais ou melhorias sectoriais. Não estamos interessados nos queixumes do rebanho, nas "verdades" do senso comum. Queremos altura!
"Aquele que deitou encantamento sobre a paixão/ e do sofrimento retirou irresistível eloquência.../ Soube, contudo, como tornar bela a loucura/ e lançar sobre acções e pensamentos errados um matiz divino!" (Lord Byron)
Altura! Voar na confeitaria! Voar sobre galões e torradas! Ser um nobre de ideias. O capital e o mercado são inimigos de toda a grandeza. O capital, o mercado e o trabalho matam a vida, a exuberância dos sentidos, a eloquência. Para atingir a divindade é preciso ser louco, já dizia Nietzsche. Sejamos então loucos! Vivamos afastados da prudência, da moral cristã, da sobrevivência! Façamos da vida uma criação permanente, um banquete, uma festa. Dancemos na cara deles. Apanhemos grandes pielas, mandemos foder a moderação. Deixemo-los entregues ao sacrifício, ao trabalho, ao tem que ser. GOzemos com esta merda! Queimemos as notas, queimemos o deus deles! Deboche, deboche permanente! Orgias em todo o lado! Que reine Dionisos!

(1)-Marcelo Backes, "Heinrich Heine, Crítico do Capital".

sábado, 6 de dezembro de 2008


Quero estar próximo dos deuses
quero que as alucinações se voltem
a apoderar de mim
quero a criação pura
quero trovões e bombas rebentem
em redor da confeitaria
quero andar atrás dos fantasmas
Nietzsche! Nietzsche!
Ó grande Zaratustra
mantém-me longe do rebanho
faz de mim o poeta louco
o Ubermensch
que se passeia na corda-bamba
do devir

Nietzsche,
a Grande Náusea está em mim
falas-me da Vida
de um mundo de senhores
mas aqui eu só enxergo o tédio
Nietzsche
quero escrever como tu
farto-me de cantar as gajas loiras
que se exibem para mim
na confeitaria

Nietzsche
os profetas da morte cercam-me
por todo o lado
falam-me de dinheiro, trabalho,
castrações, conversões
Nietzsche
aos dezanove anos já seguia a via
mas a canção deles amoleceu-me
depois, em certas noites,
Dionisos veio ter comigo
levou-me pela mão
pôs-me no palco
fez-me dançar
ria-me sarcasticamente nas barbas deles
então toquei a Vida
amei-a, forniquei-a
desejei que ela durasse eternamente
tentei arrastar alguns para o meu barco
não consegui
tiveram medo
segui sózinho
criei, segui o instinto e a luz
mas depois encheram-me de comprimidos
voltei à vidinha
perdi as forças e a vontade
passo a vida a lamentar-me.
Há gente que faz pela vida, que circula e que se agarra à caixa registadora como o Arlindo. Há outra gente como eu que vai andando por aí, que mete uns livros na tola, que não se preocupa com o amanhã. Entre uns e outros é possível alguma simpatia, alguma amabilidade de viagem, nada mais.

HAKIM BEY E NIETZSCHE


A TARDE 26/07/2003 - Cultural
<
http://www.atarde.com.br/materia.php3?mes=07&ano=2003&id_subcanal=11&id_materia=\
3478 >
Filosofia
HAKIM BEY/NIETZSCHE

A odisséia do Caos

Pérsio Menezes

Eu vos digo: é preciso ainda ter caos dentro de si, para dar a luz a uma estrela
bailarina". Esta é uma das passagens mais famosas da obra de Nietzsche. Citada
exaustivamente nos contextos mais inesperados. No entanto, continua, toda vez
que é repetida, a transmitir a beleza e a precisão com os quais a idéia foi
exposta. Nietzsche chegou a afirmar certa vez que as primeiras pessoas que
poderiam compreender verdadeiramente sua obra só apareceriam por volta da virada
do século XXI.

Saber desta declaração faz perguntar-se se a escolha da música Assim Falou
Zaratustra, de Strauss, para as cenas iniciais do filme 2001 Uma Odisséia no
Espaço, de Stanley Kubrick, foi proposital neste sentido. O fato é que passamos
a virada do século e circulam pela Internet uma série de textos assinados pelo
pseudônimo Hakim Bey, que estão aglutinando em torno de si os aspirantes ao que
Nietzsche chamava de "espíritos livres".

A autoria destes textos, no entanto, não é certa: a revista Time tentou
entrevistar Bey e não o localizou. Cogita-se que ele seja o autor Peter Lamborn
Wilson, mas não há certeza. O pseudônimo tem um aposto: Profeta do Caos. A
editora Conrad lançou agora o segundo livro do tal profeta: Caos - Terrorismo
Poético e Outros Crimes Exemplares. O livro reúne escritos que vêm publicados e
reproduzidos em diversos sítios da Internet, em inglês, desde meados da década
de 90, e têm recebido cada vez mais audiência e comentários tanto por parte do
meio acadêmico (principalmente nos campos ligados à cibercultura e nos círculos
dos chamados estudos culturais), da cultura pop de uma maneira geral, da mídia
alternativa e da parte mais cool da mídia mainstream.

Os escritos de Bey ecoam fontes heterogêneas - e não são poucas: Artaud,
Bakunin, Khayyam, os poetas beatnik, Rumi, Rabelais, Burton, o situacionismo,
etc -, mas entre todas, com certeza a mais proeminente é Nietzsche. Abundam
referências explícitas ou sutis ao autor de Além do Bem e do Mal. E mais: um dos
pontos mais fortes do pensamento de Bey é a apropriação dele da idéia de moral
do filósofo alemão, como explicita nesta passagem:

"O super-homem nietzschiano, se existisse, teria de compartilhar, até certo
grau, desta criminalidade, mesmo se superasse todas as suas obsessões e
compulsões, simplesmente porque sua lei nunca poderia concordar com a lei das
massas, do Estado e da sociedade. Sua necessidade de guerra (seja literal ou
metafórica) poderia até mesmo persuadi-lo a participar da revolta, tenha ela
assumido a forma de insurreição ou apenas de uma boemia orgulhosa".

Um dos melhores textos do livro tem como título Nietzsche e os Devirxes, no qual
a comparação com os místicos sufis sintetiza e amplifica alguns pontos do
pensamento de Nietzsche: "Uma pessoa precisa provar (para si mesma e não para
alguém mais) sua capacidade de romper com as regras do rebanho, de fazer sua
própria lei e ainda assim não cair presa do rancor e do ressentimento próprios
das almas inferiores que definem a lei e os costumes em qualquer sociedade".

RETÓRICA AFIADA - A partir desta apologia do indivíduo, Bey vai desconstruindo,
com retórica afiada, várias das máximas que compõem o panteão de idéias dos
pretensamente revolucionários, mas que são na verdade apenas reformuladores de
leis: "A pessoa precisa (...) de uma estupidez inerte contra a qual possa medir
seu movimento e inteligência".

Outro ponto de estreitamento entre as palavras de Nietzsche e as de Bey é a
recorrente citação (em Bey) do nome de Hassan-i-Sabbah. Trata-se do líder da
seita místico-política Hashishins, que atuou na Pérsia por volta do século XII
trabalhando com o objetivo de minar o poder imperial. O lema da seita é o famoso
"nada é verdadeiro, tudo é permitido". Nietzsche trata dele no parágrafo 24 da
terceira dissertação de Genealogia da Moral, mas a seita de Sabbah aparece como
a síntese da idéia nietzschiana de moral, os espíritos livres por excelência.
Nos anos 60, os beatniks William Burroughs e Brian Gysin deram fama a Sabbah ao
associar o lema da seita à percepção de realidades múltiplas proporcionada pela
ingestão de substâncias psicotrópicas, traço que marcou a contracultura desde
então. Bey tem dupla ligação com Sabbah: além de síntese das idéias dos
precursores, Bey o toma como um expoente da cultura moura, à qual se alinha.

Ao tratar de Sabbah, Bey sempre adquire um tom poético: "Ao cair da noite,
Hassan-I-Sabbah, como lobo civilizado de turbante, debruça-se no parapeito e
contempla o céu, estudando pequenos asterismos de heresia no ar seco e sem rumo
do deserto". Nietzsche também fazia da expressão parte integrante das mensagens.
Não há como expressar novos pensamentos com frases velhas. E é justamente nos
trechos em que Bey aproxima a prosa da lírica da poesia que sua forma mais se
aproxima da de Nietzsche:

"Dar voltas sem destino na velha picape, pescar e coletar alimentos, deitar na
sombra lendo quadrinhos e comendo uvas - essa é nossa Economia. A realidade das
coisas quando libertas da Lei, cada molécula uma orquídea, cada átomo, uma
pérola para a consciência alerta - esse é nosso culto. O Airstream tem tapetes
persas em todas as paredes, a grama está cheia de ervas satisfeitas". Compare-se
com esta passagem do prólogo de Ecce Homo: "Os figos caem das árvores, são bons
e doces: e ao caírem rasgam-se sua pele rubra. Um vento do norte sou para os
figos maduros. Assim como os figos vos caem esses ensinamentos, meus amigos:
bebei seu sumo e sua doce polpa! E outono em torno e puro o céu da tarde".

Além da afinidade de idéias, de determinados temas em comum e dos pontos de
aproximação da forma, ambos são pensadores cujas obras dão margem a uma série de
interpretações contraditórias. Eles não aspiram produzir opiniões bem
fundamentadas e ponderadas. Antes, eles são uma máquina para despertar a
reflexão.

DESPERTAR O MAINSTREAM - Para ler Bey, é necessário aceitar que em um momento
ele deseja colocar o pescoço em risco somente para quebrar os hábitos
instaurados, como propõe em Terrorismo Poético (também para divertir-se, é bem
verdade) e num momento seguinte ele despreze quaisquer tipos de manifestações
revolucionárias. Naquele texto ele sugestiona a ação de uma série de
intervenções culturais na sociedade, no formato dos happenings, do teatro dos
anos 60/70, e outros tipos de "chistes" para chocar e despertar as pessoas do
senso comum:

"Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não
satisfazerem sua necessidade de indolência e beleza espiritual" ou ainda:
"Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda". Já em
Nietzsche e os Devirxes, ele diz: "(...) esse espírito livre teria desdenhado
perder tempo com agitações para reformas, com protestos, com sonhos visionários,
com todo tipo de "martírio revolucionário" (...).

SOBRE O CAOS - Porém, a despeito de todo o prestígio e veneração que Bey concede
a Nietzsche, há uma divergência que os separa: a própria idéia de caos, que
aparece como o laço de união entre todos os textos desta coletânea. Para o
pensamento aristocrata de Nietzsche, o caos é uma inquietação, uma busca por
algo que nem se sabe exatamente o que é, mas sempre caracterizado, marcado e
determinado pela necessidade de auto-superação, como nesta passagem de Ecce
Homo:

"Hierarquia das faculdades; distância; a arte de separar sem incompatibilizar;
nada de misturar, nada de conciliar; uma imensa multiplicidade que, no entanto,
é contrária ao caos - esta foi a precondição, a longa e secreta lavra e arte do
meu instinto" (note-se que ele usou a palavra multiplicidade para designar a
mesma idéia que na passagem da estrela bailarina ele chama de caos, e usou a
palavra caos no sentido de desorganização, algo a ser evitado).

Já em Bey, a idéia de caos aproxima do niilismo dos poetas beatnik, mais
precisamente ao niilismo iconoclasta de Willian Burroughs. No texto Teoria do
Caos e a família Nuclear, Bey torna-se um outsider, no melhor estilo Ginsberg, a
observar crianças num parque, até o momento que troca olhares com um menino que
capta o que ele descreve como o cheiro do tempo, liberto de todas as amarras da
escola, das lições de música, dos acampamentos de férias, das noites familiares
ao redor da TV, dos domingos no parque com papai - tempo autêntico, tempo
caótico. "Nietzsche não desejaria libertar o menino das tarefas de casa e das
aulas de música. Ele acredita que a auto-superação passa pelo aprendizado de
obedecer a si próprio e coloca na autodisciplina este conhecimento.

Esta tradução editada pela Conrad já tinha sido publicada no site
www.baderna.org (Baderna é o selo da editora para livros na área da
contracultura). Com o lançamento do livro, foram retirados, provavelmente por
razões comerciais. É impressionante o poder que a indústria tem de apropriar-se
dos elementos mais proscritos. Em determinado momento, Bey diz: "(este livro)
não abana o rabo e não grunhe, mas morde e estraga a mobília. Ele não tem um
número ISBN e não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos". A
despeito do enorme serviço à cultura que a Conrad presta ao publicar Caos, o
ISBN de Caos é 85-97193-93-7.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

CONSIDERAÇÕES METAFÍSICAS ACERCA DE UMA TOSTA-MISTA


Sento-me na confeitaria
e a palavra não sai
penso em reis, criadores, artistas
naqueles que andam na corda-bamba
e entra um homem que insulta o mundo
e que pede uma tosta-mista
de que magia se faz o poema?

A D. Rosa dormita diante da folha de papel
porque raio será que isto tem de ter uma lógica?
Deveríamos passar a vida a dançar
a fazer coisas sem sentido e sem objectivo
a D. Rosa escreve um poema
medita longamente
mas a coisa lá vai saindo
que ganho eu com isto,
para além de umas presumíveis palmas
no Púcaros e noutros tascos?
Que é isto senão a arte pela arte,
a criatividade pela criatividade?
O homem come a tosta-mista
e a D. Rosa escreve o poema
cisma
demora uma eternidade
e a coisa começa a dar-me gozo
o gozo com que o homem
devora a tosta-mista
e paga
o dinheiro circula
das mãos de uns para a caixa registadora
de outros
será isto a vida?
A D. Rosa levanta-se
também dá dinheiro para a caixa registadora
a caixa registadora é sagrada
todos se lhe dirigem
e prestam vassalagem

De repente, as pessoas soltam a língua
falam de casas, dos tubos entupidos,
do 2º andar
e das paredes que rebentam
a coisa torna-se violenta
apesar das iluminações natalícias
começam a dissertar acerca da pobreza,
dos pobres de juízo, da Maria Badalhoca
aprende-se muito por estas bandas

Levanto-me
também eu presto vassalagem
à caixa registadora.

A. Pedro Ribeiro, "Motina", 4.12.2008
Este exercício de escrever todos os dias. Chegar à confeitaria e pegar no caderno e na caneta. Há pessoas que nos cumprimentam afectuosamente. Há mulheres que nos excitam. As gajas boas gostam do que escrevo. É um facto. Escrever é um acto erótico, responde a pulsões eróticas. Escrever é um prazer. Como o outro que conta as rifas com volúpia.

A SOCIEDADE DO DINHEIRO




Qual é o sentido da vida? Não há Deus nem deuses, apenas o Homem. Que sentido há em estar sempre atrás do dinheiro? Que sentido há em estar sempre atrás da bola? O que é que isso tem de belo, de bom, de transcendente? A vida não pode ser isso! A vida é a volúpia, o prazer, a alegria, o amor, a criação, a celebração. A vida é a conquista da felicidade. Não podemos ser felizes se andamos sempre a fazer contas, não podemos ser felizes se somos escravos do dinheiro, da bola, do que quer que seja. O capitalismo e o mercantilismo são inimigos da liberdade e da felicidade. O capitalismo e a sociedade do dinheiro condenam o homem ao tédio e à depressão. O capitalismo e a sociedade do dinheiro castram os instintos vitais. O capitalismo e a sociedade do dinheiro são a morte. O capitalismo e a sociedade do dinheiro transformam tudo em merda. É com a nossa vida que eles jogam. É a nossa vida que eles destroem. É da nossa vida que vos falo. É a nossa vida que eles nos tiram.

DO LADO DA VIDA












Não vim ao mundo para ganhar dinheiro. Vim ao mundo para criar, para passar a mensagem. Aliás, o dinheiro, a economia, a sobrevivência matam-me. A economia e o dinheiro reduzem o homem às suas pulsões mais baixas, mais estúpidas, mais mesquinhas. Os economistas são os profetas da morte, do cálculo mesquinho, da vidinha. É uma vida contrária à alegria, à exuberância, às pulsões vitais aquele que nos vendem. O Deus-dinheiro mata a vida. O Deus-dinheiro é inimigo do amor, da emoção, da criação, da liberdade. Reduz tudo a cálculos mesquinhos, à lei absurda e fascista do mercado. Tudo se compra, tudo se vende. É esta a lei dos economistas. Eles e o Deus-dinheiro intrometem-se em tudo, no mais ínfimo pormenor da nossa vida. O Deus-dinheiro é a morte! É absurdo ser comandado pela morte. Não me venham falar em realismo! O homem deveria poder desenvolver as suas potencialidades criadoras sem pensar no dinheiro, sem pensar na morte. Não me peçam para contar o dinheiro. Não faço contas. Recuso-me a fazer contas. Estou do lado da vida.



Leio Platão enquanto mico o cu da gaja boa do lado. Os quiosques estão cheios de gajas boas nas capas das revistas a exibirem-se para nós. Parece que estão ali ao nosso alcance, à mão de semear mas não estão. É a sociedade-espectáculo onde somos meros espectadores, observamos a coisa mas a coisa é, ao mesmo tempo, inacessível, virtual.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O MENINO


Bem diz a Cláudia que eu sou muito mais assertivo a escrever do que a falar. A falar enrolo tudo, tropeço nas palavras, fico mole ou amável em demasia. Mesmo depois de ler Nietzsche não consigo expressar o entusiasmo que a leitura me causa. E nietzsche é uma pedra. São muitas pedras. E dá-nos a volta à cabeça, uma vez mais. And now I'm so alone, just looking for a home in every place I see, I' m the freedom man, that's how lucky I am. Sou o homem da liberdade, tal é a minha sorte, canta o Morrison. É inevitável. Volto sempre a Morrison e a Nietzsche. Foram os dois gajos que mais voltas me deram à cabeça. E continuam a dar. E umas gajas boas transportam as bandeiras do futebol. E os polícias controlam o café. Só os loucos atingem a divindade da vida, dizia Nietzsche. É preciso ser louco, louco divino como os poetas, como Morrison, como Nietzsche. É preciso celebrar a loucura. E os polícias bebem cerveja. Agora que a Cláudia partiu nada me resta senão a loucura. A loucura no meio dos alinhadinhos, dos normaizinhos. Posso não manifestá-la, mas ela está dentro de mim. E também a divindade. Posso não manifestá-la agora mas ela está cá e opõe-se à lógica dos negócios, da compra e venda, da moeda. O que roça o divino é a dádiva, a bondade, não a troca mercantil. A dádiva pela dádiva, o bem pelo bem, como dizia Sócrates e não o ficar à espera da recompensa no além como os cristãos. O céu só pode estar aqui, tal como o inferno. O céu está aqui no sorriso do inglês que me sorri sem razão aparente. O céu está nas atitudes desinteressadas, o céu está no bem, na bondade, no amor. Sócrates dizia que o amor é um gajo que anda esfarrapado. Um gajo esfarrapado, sem eira nem beira, sem direcção definida, como eu, neste momento. Neste mundo não podemos ser dóceis para toda a gente, não podemos ser carneiros, camelos, temos de ser a vontade, temos de rugir "eu quero!" como os leões. Temos de chegar ao menino, à criança sábia que joga e que ama.

1ª escrita em Geneve, Suiça


Sou o que sou. Fico calado. Nada encontro para dizer. Ainda não é a depressão. Mas podem ser os sinais. Não era suposto estar com estas questões numa estadia na Suiça.
Sou o que sou. Fico calado. Se estivesse com amigas e amigos seria diferente. Sou o que sou. Fico atado. É o álcool que falta. Poderia falar da catedral, da cidade velha, como aqueles que dizem maravilhas das suas viagens quando regressam. É porreiro. É interessante. Mas preferia apanhar uma bela bebedeira. Sou o que sou. Esteja onde estiver. E a palavra não sai. Mesmo sem estar deprimido. Para brilhar preciso do palco. Sou o que sou. Fico calado. Penso até que me torno chato. Ouves, ó poeta maldito? Já não és o deus que tanto apregoavas. Já não estás em cima e tens problemas de auto-estima. Não é por estares na Suiça que escreves de maneira diferente. Não é por estares na Suíça que te tornas outro. A verdade é que te estás a tornar tremendamente chato e maçador. Não é com esta conversa que engatas as gajas. Sou o que sou. Fico calado. Digo cinco frases por dia. Não entro nas conversas. Aos gajos e às gajas que me admiram peço desculpa.

Geneve, 22.11.2008