sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Ouvir Doors pela manhã na padaria. "Break On Through". Será que as coisas estão mesmo a mudar? E depois os Led Zeppelin. Orgia. Deleite. Recatai-vos, velhas. O mundo arde em rum.

trago em mim a dor
mas também o infinito
voo rumo ao além
sou quem nunca tinha sido.

PCTP/MRPP

O POVO TEM DE SE SUBLEVAR
CONTRA AS MEDIDAS FASCISTAS DO GOVERNO!
Quando, durante o período da campanha eleitoral o PCTP/MRPP foi o único partido a
dizer que o Memorando da Tróica que os Serventuários do PS, PSD e CDS/PP, se
apressaram a assinar, constituía uma autêntica declaração de guerra ao povo e aos
trabalhadores portugueses, foi imediatamente silenciado pela burguesia e seus órgãos
de "comunicação social".
Não convinha à classe dominante a voz incómoda daqueles que como o PCTP/MRPP
exigiam que uma auditoria à dívida fosse imediatamente efectuada por auditores
independentes para que os trabalhadores portugueses tivessem uma informação clara e
precisa sobre quanto se deve, a quem se deve e porque é que se deve. Porque a culpa não
pode morrer solteira e, certamente, o resultado dessa auditoria confirmaria que os
culpados não eram nem o povo nem os trabalhadores.
Lutando contra a corrente do "politicamente correcto", da hipocrisia de que Portugal "é
um bom aluno" e que não podemos ser vistos pelos "mercados" como "incumpridores e
caloteiros", denunciámos que o calote e os caloteiros responsáveis pela dívida estão
perfeitamente identificados: os sucessivos governos PS e PSD, por vezes acolitados pelo
CDS/PP, a banca privada a operar no nosso país que, à custa de adquirir empréstimos no
BCE (Banco Central Europeu) a 1% e vendê-lo a 5% e mais, obtinha fabulosas margens
de lucro (da ordem dos 500 a 600%), os grandes grupos financeiros e bancários
internacionais, os interesses do imperialismo europeu, com o imperialismo germânico à
cabeça.
Denunciámos que, para além do mais, o que iria acontecer - e a experiência da Grécia, da
Irlanda, da Argentina e do Equador, entre outras o confirmavam – era um sucessivo
agravamento das medidas contra a classe operária e os trabalhadores portugueses, com
a desculpa de que as medidas que iam sendo aplicadas, afinal, não tinham sido
suficientes para a “estabilização orçamental” desejada pela burguesia pelo grande
capital.
E eis que vem hoje Passos Coelho, 1º Ministro de um governo de traição, completamente
vendido aos interesses da Tróica e do imperialismo germânico, marionete de Sarkozy e
Merkel, anunciar que se vai agravar o roubo sobre os salários dos trabalhadores da
função pública (em 2012 verão reduzidos em 20% os seus rendimentos do trabalho),
atingindo o subsídio de férias e de natal em 2012 e 2013, sobre as pensões, cortes
substanciais no acesso à saúde e à educação, aumento da carga de trabalho para todos os
trabalhadores em meia hora diária em nome da “produtividade”, isto é, mais lucros para
a burguesia, aprovação de legislação laboral facilitadora dos despedimentos e tornandoos
mais baratos de efectuar por parte do patronato.
www.pctpmrpp.org | pctp@pctpmrpp.org
Não há que ter ilusões! O governo não se ficará por aqui. A burguesia tem vindo a aplicar
estas medidas porque não encontra por parte dos sindicatos e organizações de classe
dos trabalhadores uma resposta firme, organizada, de lutas que dêem uma saída
revolucionária à classe operária e aos trabalhadores portugueses.
Os trabalhadores portugueses devem exigir das suas Centrais Sindicais –
CGTP/Intersindical e UGT - a organização e convocação imediata de uma Greve Geral
Nacional a sério e todas as greves gerais que forem necessárias para inverter a seu favor
a relação de forças que os opõem à burguesia e aos intentos do grande capital, e deve
isolar aqueles partidos que, dizendo-se de esquerda – como o P”C”P e o Bloco de
“Esquerda” – os têm tentado amarrar ao pagamento de uma dívida que não contraíram,
nem foi contraída em seu benefício.
Partidos esses que, perante o anúncio das medidas mais celeradas e gravosas agora
anunciadas, timidamente reconhecem aquilo que o PCTP/MRPP já há muito denunciava,
e a classe operária e o povo português sentiam na pele, que estamos num “estado de
guerra”.
A manifestação de 15 de Outubro deve constituir um sinal claro de que os trabalhadores,
a juventude, os reformados, os precários e os desempregados, não aceitam esta política
que não toca um milímetro nos interesses do grande capital financeiro e bancário e
desfere um ataque feroz ao povo e aos trabalhadores portugueses. Tem de ser uma
manifestação de força e de demonstração de que o povo se vai sublevar contra estas
medidas e contra este governo. De que os trabalhadores sabem que para sobreviverem o
capitalismo tem de morrer.
O PCTP/MRPP conclama a classe operária e os trabalhadores, o povo português, os
estudantes e intelectuais, a sublevarem-se contra estas medidas, a organizarem-se para
derrubar este governo de traição e impor a constituição de um Governo Democrático
Patriótico que tome, como primeira medida, a decisão de recusar o pagamento desta
dívida ilegítima, ilegal e odiosa, expulsar de imediato a Tróica do FMI/FEEF/BCE do
nosso país, implementando um novo paradigma de economia, baseado num plano de
investimentos criteriosos que faça Portugal recuperar o seu tecido produtivo e
aproveitar adequadamente a sua posição geoestratégica única, medidas que asseguram
a nossa Independência Nacional.

13 de Outubro 2011

A Comissão de Imprensa do PCTP/MRPP
Rui Mateus

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

PROJECTO DE ROMANCE


PROJECTO DE ROMANCE


Depois de ter ouvido aquele àlbum “Strange Days” dos Doors, pela segunda vez, a sua vida nunca mais foi a mesma. Tinha sido um amigo do Liceu Sá de Miranda, o Jorge, que lho emprestara. João já conhecia as letras mordazes do Roger Waters dos Pink Floyd em “The Wall”, “The Final Cut” ou “Animals”, mas ouvir “People Are Strange”, “You’re Lost, Little Girl”, “Moonlight Drive”, ...“Horse Latitutes” e sobretudo “When The Music’s Over” foi uma explosão, um nascer de novo. Aquele órgão, aquela bateria hipnóticos e quando o Jim Morrison gritava “We want the world and we want it now!”, bem quando o Jim gritava “We want the world!” o mundo começava ali, acabavam ali todas as infâncias, todas as missas, todas as antigas convicções caíam por terra. João era outro. Nunca mais foi o mesmo. A partir daí, João comprou todos os discos dos Doors, ouvia incessantemente “Break On Through”, “Light My Fire”, “Riders On the Storm”, “Roadhouse Blues” e, claro, “The End”, o outro grande épico dos Doors, o tema edipiano do assassino do pai, do amante da mãe. Outra grande volta à cabeça. Depois, aos 18, quando estava no 12º ano, em Braga, foi ver “Apocalipse Now” ao cinema por causa do “The End”. Mas o filme, com Marlon Brando naquele papel genial do coronel Kurtz no meio da selva a recitar poemas, com aquela descida aos infernos da guerra e da loucura, marcou João para sempre. Depois, quando estava na Faculdade de Economia do Porto, leu “Assim Falava Zaratustra” de Nietzsche, graças a “Daqui Ninguém Sai Vivo”, a biografia de Morrison. Bem, escusado será dizer que toda a finança, toda a contabilidade, toda a mercearia, toda a economia foi posta em causa. João ia propositadamente com “Zaratustra” para as aulas para provocar. Nunca mais suportou o mundo da finança e da economia. Até aí tinha sido um rapaz tímido que escrevia uns versos ingénuos e inocentes. A partir daí tornou-se, quando não estava deprimido, num personagem insolente, dionisíaco, que provocava na pose e na escrita. Começou a beber a sério. A frequentar a noite e os bares. Ainda assim algo puro, belo, alguém que se passeava pelo aquário da vida nocturna. Foi também com os concertos dos Xutos, dos Mão Morta, dos GNR, dos UHF que cresceu. Principalmente com os UHF e os Mão Morta. E com os livros que ia lendo sobre o anarquismo, sobre Marx, Lenine e Trotsky ou deles próprios. Interessou-se pela revolução. Aderiu ao PSR por causa do “Combate”. Conheceu a Ana, a companheira do resto dos seus dias, mesmo depois do namoro acabar.

E era Braga que o acolhia. O “Tuaregue”, o “Deslize”, o “Honni Soit”. Escreveu poemas como “Ressaca”, “Ébrio 29”, “Representação”. Tentou formar bandas como os Ébrios mas só houve um concerto numa discoteca. Foi nessa altura que conheceu o Jaime Lousa, o jornalista e literato, que viria a morrer na miséria, e que o convidou para entrar num filme surrealista onde teria de ir comprar um ovo ao hipermercado “Feira Nova”. Como resultado, uns dias depois do primeiro e único concerto dos Ébrios, João é acusado de ocupar o “Feira Nova”, na sequência de um protesto contra o consumismo e as grandes superfícies. Tinha 22 anos, as beatas fugiam dele na rua, os pedreiros largavam o trabalho, os velhos faziam-lhe continência. Tinha 22 anos e era o Che Guevara de faca de plástico no bolso. Depois, bem depois andou seis meses a comprimidos. Uma dose cavalar. Por causa de um filme que, afinal de contas, teve pouco de alucinação. João acreditou que estava a fazer História, que estava a fazer a revolução, chorava porque pensava que estava tudo feito. Já conhecia o trago amargo da depressão mas nesse ano apanhou com uma de sete meses. A cara inchou, não conseguia comunicar. Mas antes disso queria ser um cantor, queria ser o novo Jim Morrison, tinha a presença mas não tinha a voz. Tinha-a sim para recitar e não para cantar, como se veio a verificar mais tarde. Ainda assim tentou outras bandas. Talvez nunca o tivessem compreendido verdadeiramente.

O JUÍZO FINAL


"Vais morrer esta noite",
diz o infame ao narciso

vim ao bar
pronunciar estas palavras
esperei séculos para tas dizer
na cara,
ó mafioso da máquina,
estou farto de vos ver triunfar
hoje despejei sobre ti
a gargalhada satânica
provoquei o caos
ameacei-te
e isso deu-me um gozo imenso
há séculos que não me sentia assim
depois fui partir montras para a avenida
lojas, bancos
como na Grécia, como em Inglaterra
ficai lá com o vosso Zéca Afonso,
ó parados no tempo,
eu estou a fazer a nova revolução
insulto Deus em plena Sé
não me arrependo de nada
queríeis o incendiário,
aqui o tendes,
ó filhos da puta!
Já não temo a vossa manha
estou farto do vosso sacar
das punhetas que fazeis
ao poder e ao dinheiro
"ides morrer esta noite"
começai a tremer de medo
o novo rei está aqui
regressou de Camelot
vem combater os macacos,
os banqueiros e os seus cães
já nada teme
é-vos superior
às vossas festinhas
ao vosso vinho
ao vosso "tudo bem"
venho combater-vos
passei demasiado tempo
no inferno
agora é a minha vez
EU SÓ QUERO VER O PODER A ARDER
EU SÓ QUERO VER O PODER A ARDER
o rum arde dentro de mim
sou o homem superior
venho incendiar o vosso sossego
escravos,
saí das vossas tocas!
A nova era está aqui
deixai-vos de abraços
e beijinhos
bem-vindos ao caos
ao Shakespeare da pesada
"I'm the lizard king
i can do anything"
sabes, estes versos mordem
queimam
não são líricos
e bonitinhos
como o Eugénio de Andrade
tendes aqui o novo poeta
tendes aqui o novo rei
segui-me
ainda podeis salvar-vos
"come, follow me
cross the sea
endlessly"
amigos, isto não é conversa
para entreter
amigos, isto sou eu
a incendiar
há poetas capazes
de mudar o mundo
de fazer as vossas mentes
em vez da televisão

onde estás,
país da minha infância?
onde está
o menino puro
que eu era?
tornou-se demoníaco
todos os que tentaram fazer-lhe mal
pagaram a factura
nem que seja 100 anos depois
tremei, pois, ó inimigos,
empresários, especuladores,
homens de mão de Bruxelas e do FMI
ides cair um a um
ides ser empalados no alto
da Torre dos Clérigos
nem vós vos safais, ó futeboleiros,
chegou a hora do juízo final.


Vilar do Pinheiro, 12.10.2011

O COMBATE COM OS DEMÓNIOS


Combato os demónios
como Holderlin, Kleist, Nietzsche
vou até ao infinito
bebo
sou um deus
o rum arde
dá-me delírios
cavalos alados
ovações
olhai como voo
como me afasto do mundo
todo eu sou brasa, fogo
esperai de mim a loucura
a loucura sábia
o olhar vivo
as palavras do fim
combato dragões, medusas
venho da idade da descoberta
sou sangue, paixão
o guardião do cálice
ninguém me reconhece
nas ruas do útil
arrasto-me sem trocos
mas há noites
em que Dionisos volta
e aí dança, celebra
e faz tremer
o instituído.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O POETA É UM INCENDIÁRIO

O POETA É UM INCENDIÁRIO

Os poetas, alguns poetas, são incendiários. São capazes de pegar fogo ao mundo. Quer através da palavra escrita, quer através da palavra dita. Aliás, na antiga Grécia, havia poetas que eram requisitados para animar as tropas para a guerra. O poeta, não o poeta lírico, não o poeta da corte, tem uma grande responsabilidade entre mãos. Pela palavra pode incendiar os que o lêem ou os que o ouvem, pode provocar a guerra ou a revolução. Não o esqueçamos. Além de médium, de mago, pode ser o incendiário. Há exemplos na História. A forma como certos poetas, certos bardos, acabam por influenciar muita gente. Não é nada de desprezível. Sobretudo nos tempos que vivemos, nos tempos de quase caos e barbárie. Não é necessário estar sempre a dizer: "Vem aí a revolução! Vamos todos para a rua!" Basta dizê-lo duas ou três vezes. O poeta dito maldito tem, de facto, uma missão, se calhar mais eficaz do que a dos partidos ou de outras organizações, a de acordar as pessoas, sobretudo os jovens. "We want the world and we want it now!", gritou Jim Morrison. "Merda para Deus!", como proclamou Rimbaud. "Nem Deus nem amos", berram os anarquistas. O poeta não está à venda, está cá para incendiar. O país e o mundo já ardem e o poeta deve atear ainda mais o incêndio. "Vamos pegar fogo à noite", ainda os Doors. Ao pegar fogo também a si próprio, ao incendiar-se, o poeta deve igualmente cantar a mulher, deve provocá-la, trazê-la para o fogo. O que não é fácil, porque se bem que a mulher seja selvagem, natural, ela também procura a segurança, o conforto, o sustento, o lar, a protecção de si e das crias. Mas o poeta, tal como Dionisos, deve ser capaz de arrastar consigo as bacantes. Deve amá-las. Não é como os outros. Provoca. Incendeia. Traz a luz. Rouba o fogo e a arte aos deuses, como Prometeu. O poeta é um incendiário.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O MENINO

Não falo a linguagem do homem comum
desculpem-me mas eu não falo
a linguagem do homem comum
sei ser educado, delicado até
mas não embarco nas conversas
do que vem a propósito
na palavrinha do tareco
olho para as gajas
é o que é
para as curvas das gajas
desejo-as
aprecio-lhes os cabelos selvagens
as brincadeiras
mas não me peçam
para entrar na conversa
do homem comum
não preciso de submeter-me
ao homem comum
aliás, cheguei a um ponto
em que ´não tenho
que sujeitar-me a nada
sou dono de mim próprio,
ó imperialistas!
Sou dono da ideia
e do pensamento
sou soberano
escrevo versos no café
como Pessoa escrevia
em vez de aguaardente
bebo cerveja
sou um solitário
como ele
a minha cidade ´não é Lisboa,
é Braga
agora regresso a mim mesmo
nem sequer sou o actor
apenas aquele que escreve
à mesa discretamente
se tivesse mais dinheiro
embebedava-me...
mas eu já escrevi isto
em qualquer lado...
quero escrever o que nunca escrevi
estou lúcido como Álvaro de Campos
daqui a uns anos
quanto estiver agarrado à máquina
talvez me dediquem colóquios,
homenagens
talvez escalpelizem a minha literatura
talvez procedam a estudos rigorosíssimos
acerca da minha obra
mas agora sou apenas
o homem que escreve
e bebe
como tantas vezes antes
só que agora estou mais iluminado
sim, iluminado
é a palavra certa
comecei a sentir-me iluminado
no liceu aqui ao lado
no Alberto Sampaio
quando comecei a falar com as meninas
quando comecei a ler livros
e a ter conversas intelectuais
era um jovem promissor
depois fui parar
à Faculdade de Economia
e foi o que deu
revoltei-me contra a finança
agora não posso com esse mundo
sou do "The End"
sou do "Apocalipse Now"
bebo sem pensar em contas
orçamentos, preços
viva o copo cheio!
Que se foda o ministro das Finanças!
Não me cortais na vida
não me cortais na veia
não me espetais IVA's nem IRS's
estou acima
estou mundos acima
pertenço às estrelas
ao universo
nada tenho a ver convosco
que vos vendeis todo o dia
que dais o cu e a cona
aos mercados
não, não sou vosso
nasci de outros
nasci da honra
tirem-me daqui Wall Street
tirem-me daqui o BCE e o FMI
quero a Glória
não quero o FMI
metei a troika pelo cu acima
metei...
olha, mas apesar de tudo
aqui há vida
apesar de tudo as gajas riem
apesar de tudo a barbárie
ainda não é completa
apesar de tudo há estrelas
há estrelas aqui como na Grécia
eles não podem vir para aqui
cortar a direito
nós próprios podemos romper a direito
Break on through to the other side
ainda temos o direito de beber
a nossa cerveja
ainda temos o direito
de cantar a nossa canção
o mar já foi nosso
estou a falar da pátria perdida
dos que se fizeram ao mar
sem saber onde o mar acabava
estou a falar dos navegadores
não do tédio dentro das casas
não do país do rendimento mínimo
do deve e haver
da contabilidade filha da puta
não, eu sou da grandeza
eu vou beber cervejas ao inferno
com Rimbaud, com Cesariny, com Ezra Pound
não suporto mais os poetinhas
nem os escritorzecos de terceira
sou um mau rapaz
da linhagem maldita
ando pelos bares
brindo à vida
não sou do negócio
nem das gravatas
ando à solta
atiro-me de caras
e se não me quiseres ouvir, queridinha
podes dar uma curva
não estou para falinhas mansas
sou a puta do rock
nisto me tornei
não há cura
nem redenção
houve uns livros que li, sabes
que me deram a volta à cabeça
e agora misturo Shakespeare, Nietzsche, Pessoa
com puro rock n' roll
nada a acrescentar, minha rica
tenho a escola da rua
podeis até insultar-me
que eu sou mil vez pior do que vós
hey, baby, baby, baby,
I'm not gonna die tonight
não segui o ciclo normal
sou uma puta do rock n' roll
preencho os dias
canto as horas
sou o menino
que não se adaptou.

domingo, 2 de outubro de 2011

WALL STREET


Insultais o árbitro
mas não insultais o grande papão
há manifs e detenções em Nova Iorque
no coração do império
olhai o vosso paraíso
olhai as pessoas felizes
no supermercado
olhai como dão vivas à vida
como saltam de alegria
olhai que as revoluções
não são só no Egipto e na Líbia
olhai o coração do império
olhai o império a cair
olhai Wall Street,
ó comentadores da bola
e do regime
falai de Wall Street
olhai a vitória do capitalismo
de pantanas
olhai a felicidade que fabricastes
olhai a treta do Obama
pois, Jesus está aqui
acreditemos nele
ó pregador de terceira
"Yes, We Can"
vendes banha da cobra
olhai a democracia global
a globalização redentora
ó benfeitores,
ó beneméritos,
olhai a felicidade dos dormitórios
olhai para as vossas conversas
maldizeis o Chávez e o Fidel
o comunismo acabou, ´não é?
O anarquismo não chegou a nascer.
Que tendes em casa?
A barbárie
o medo
a loucura
nunca mais comereis sossegados
as pilhagens estão aí à porta
the doors are open,
my friend
estou a falar do princípio
estou a falar dos homens livres
da idade do ouro
quando dançávamos
em redor da fogueira
quando celebrávamos o dia
e bebíamos até cair
não este tédio
não a lei de Wall Street
não uns a vigiar os outros
não todos a fingir
que estão vivos
não todos a fingir
que estão sãos
olhai o império a cair
falta pouco
a coisa está a explodir
na minha cabeça
não me faleis no Porto
não me faleis no Benfica
é a única conversa
que tendes?
Que o Porto joga às 8,15
que o Benfica ganhou ontem
olhai que as vossas conversas
vão ter que mudar
olhai que a vossa sanidade
está a dar o berro
olhai que a poesia
está a deixar de ser lírica
olhai que, aos 43,
finalmente dão-me razão
nem sequer preciso
de ir atrás dos partidos
nem sequer preciso
de ser de companhia
olhai como sou leve
como danço na pista
como sou verdadeiramente
um mago
não preciso de jogos
nem de resumos
não sou nenhum pateta atrasado mental
o Ronaldo foi mais para trás,
o Messai foi mais para a frente,
continuai
continuai assim
isto vai ser a doer
lembras-te de quando
querias que a noite
não acabasse mais?
Isso sim, era a vida
a vida na sua exuberância
não este corte
não esta corte
dos direitinhos
ides apanhar
com tudo nos cornos
Wall Street
vai rebentar.

SEIS DA MANHÃ


SEIS DA MANHÃ

São seis da manhã. Dói-me a cabeça. Estive a contar as estórias da minha vida. Estive a vivê-las nestas três horas de sono. Fui à "Filantrópica" à Póvoa falar com os putos e a chama começou a acender-se. Sabes como é. Começas a lembrar-te da infância e a mente abre-se. Há qualquer coisa que explode. As palavras surgem em catadupa. Torno-me o médium, o mago, aquele que interpreta. D......ói-me a cabeça ainda. Dizem que a minha poesia é diferente das outras. É ácida, beatnick, sei lá. Talvez, como alguém disse, alguns poemas sejam quase pessoanos como a "Ilídia no Velvet". Mas dizem que ela é diferente. Talvez porque eu sou mesmo louco e procuro o que não há. O ouro perdido, o reino de aquém e de além. Sou esse poeta. O poeta que continua a ir aos bares e que faz a festa. O poeta que provoca as mulheres bonitas porque as quer dentro e fora do poema. O poeta que sabe ser insolente como o Joaquim Castro Caldas mas que se fecha em copas a escrever e a ler na mesa do canto. São seis da manhã e dói-me a cabeça.

sábado, 24 de setembro de 2011

O MANIFESTO, OS UTÓPICOS E OS VERDADEIROS


O MANIFESTO, OS UTÓPICOS E OS VERDADEIROS

A função do dinheiro é a alienação da essência humana, diziam os socialistas alemães do séc. XVIII. Os mesmos afirmavam que, em vez de defendermos os interesses do proletariado, deveríamos defender os interesses da essência humana, do homem que não pertence a nenhuma classe. Já os socialistas utópicos (Saint-Simon, Fourier, Owen) defendem o fim do lucro e do trabalho assalariado. É aí que me situo depois de reler o “Manifesto do Partido Comunista”. Tenho reservas em relação a Marx e a Engels, se bem que estes afirmem que “a burguesia afogou o sagrado êxtase do fervor religioso, o entusiasmo cavalheiresco e o sentimento pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta”, que “rasgou (…) as relações familiares e reduziu-as a simples relações de dinheiro” e que “converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o sábio em assalariados ao seu serviço”. Dizem ainda que “estes operários (agora muito mais escravos), obrigados a vender-se dia-a-dia, são uma mercadoria, um artigo de comércio como qualquer outro, sujeito a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado”. Já então como agora. Os autores do “Manifesto” acrescentam também que “a burguesia já não é capaz de reinar porque não pode assegurar ao escravo a existência”. Para os nossos senhores, acrescentamos nós, e para os escribas ao seu serviço, a liberdade resume-se à liberdade de compra e venda. O que vai de encontro à nossa “tese” do homem assassinado.

A NOVA ESPÉCIE


Austeridade. Sacrifícios. Eis o que esses pregadores da morte domésticos, europeus e mundiais exigem. Não têm o mínimo de elevação esses macacos, esses paus-mandados da grande finança e do mercado. Mas a culpa também é daqueles que votam neles e que os deixam chegar onde eles chegaram. A culpa é do homem que se deixa embrutecer a troco de umas migalhas. A culpa é daqueles que se deixam permanecer na caverna e que não procuram ou que deixaram de procurar a luz por desânimo ou desalento. A culpa é daqueles que perderam a curiosidade e deixaram de buscar o conhecimento. Porque só o conhecimento de si mesmo e do mundo permitirá ao homem desafiar as máquinas de propaganda do capitalismo dos mercados. O mesmo homem, que tal como Prometeu roubou o fogo aos deuses, esse homem é capaz de se rir na cara dos macacos dos mercados. Porque esse homem é vontade, reage aos mecanismos da castração do desejo, é, ele mesmo, o criador, o artista. Não pode mais ficar exposto às drogas impostas. Vive na e pela liberdade. Será capaz de derrubar o capitalismo dos mercados e a verborreia dos negócios. Será capaz de erguer um novo homem sobre a terra. Porque é ele o homem do início, do amor, da descoberta. E não pode mais suportar a escravatura. Falha, é deastrado em algumas tarefas, mas não aceita ser mais silenciado pelos imbecis do lucro e da finança, mas não aceita mais o mundo reduzido à economia, mas não aceita mais o absurdo de uma existência sem sentido. Companheiros, companheiras, a revolução estã nas vossas cabeças. Matai o que eles vos impingem todos os dias. Respondei à morte com a alegria. Celebrai. Gozai na cara desses macacos, brincai como as crianças, como loucos, cantai, exuberantes, o novo dia. Não sois mais deles. Não jogais mais o jogo deles. Sois a nova espécie. Sois o novo dia.

A ARTE DE VIVER


A arte de viver, eis o essencial. Neste momento, não posso viver plenamente porque o olho esquerdo está vermelho e não o posso forçar. De qualquer modo, ainda posso expressar as minhas ideias e trocar impressões com os empregados do "Guarda-Sol". Expressar ideias, cultivar-se e trocar opiniões, eis três aspectos fundamentais da arte de viver. Não é apenas o activismo, é o facto de estar à mesa, beber um copo e trocar impressões. Ouvir os outros que mostram preocupação pela evolução catastrófica da sociedade, eis outro aspecto a ter em conta. Mas estaria sem dúvida melhor se pudesse ler à vontade a "Carta a Louis Pauwels sobre as Pessoas Inquietas..." de Paul Sérant. Porque também estou inquieto. Porque sou um homem que se preocupa com a sua felicidade e com a dos outros. Mas o mundo de hoje afasta a felicidade dos homens, da esmagadora maioria dos homens. Uns porque, como diz Nietzsche, apenas se dedicam à sobrevivência e ao sustento, outros porque são exigentes mas todos os dias são atacados pela máquina de propaganda capitalista. É difícil assim conduzir a arte de viver, a menos que nos tornemos loucos. Recomendo ainda assim o máximo de folia com amigos e amigas, o filosofar espontâneo, a convivência com os mestres e com aqueles que nos ensinam alguma coisa. Se o conseguirmos, já estaremos a desafiar a máquina de propaganda e a ditadura dos mercados e da linguagem da economia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O INÍCIO DO MUNDO


O INÍCIO DO MUNDO


Pensar todo o pensável. Exercitar o pensamento. Poderia passar a vida a pensar. Mas depois há o amor, a liberdade. Acabo por não me fechar totalmente no meu pensamento. Lanço pontes para o mundo. Tenho necessidade de comunicar. Poderia passar os dias aqui em Braga com a Gotucha e dedicar-me ao livro. Ao livro que já está, em parte, em “Nietzsche, Jim Morrison, Henry... Miller…” mas que importa continuar a construir. Ao livro que pretende construir o homem. O homem que, apesar das suas fragilidades, se eleva e se enobrece no café. O homem que aspira a ser santo. Que vê o mundo com novos olhos. Cujo pensamento se liberta. Que ainda é o poeta beat mas que dele se afasta. Sou feliz aqui em Braga. Posso dizê-lo. Não sinto isto em mais nenhum lugar. Espero a Gotucha. Ela dá-me o amor. Já não estou deprimido. Estou curado, ouço a voz do meu pai. Não te inquietes mais com o que tens de comer ou de beber. Segue a via. Continua na via que tens seguido e vai-te aperfeiçoando. Lê os mestres. Segue a via que conduz a si mesmo. Áquele que eras quando nasceste. Afasta-te da publicidade e da propaganda. Sê puro cada dia. Não ouças a voz da populaça. Bem sabemos que ainda ligas às glórias do mundo. Bem sabemos que amas o aplauso. Todavia, há em ti a sede de infinito. Há em ti o desejo de ser único. O desejo de beber o cálice sagrado, de o partilhares com as eleitas. Há em ti a vida abundante, a vida pela vida, fora do mercado, mesmo que aparentemente sejas apenas o homem à mesa. Vibras, explodes no acto da criação. Há espíritos que dançam em ti, ó poeta. Não, no fundo, nunca te deixaste enganar pelo ecrã. Não precisas de mediadores, tens-te a ti e à Gotucha. Tens um mundo dentro de ti. Estás inundado de vida plena. Hoje, 10 de Setembro, às 4:20 da tarde, no “Doce Convívio”. Compreendes a linguagem das crianças. Falas a linguagem do início do mundo. Tantas vezes não a conseguiste expressar, tantas vezes tropeçaste nas palavras e agora estás aqui com o olhar inaugural. Cedeste por vezes mas não caíste. Chegaste aqui. Estás no Uno. És único. Agarras a liberdade absoluta. Nada tens a ver, de facto, com os poetas menores. Conheceste-os, ouviste-os, mas não és deles. Nunca deste grande importância às flores mas agora começas a ama-las. És, de facto, o poeta. Aquele que vive a obra. Que não passa a vida a pensar na próxima refeição. Aquele que esquece as horas e está com a que esquece as horas. Aquele que toma café despreocupadamente porque está no início do mundo. Aquele que já não tem constrangimentos. Que pode ser aquele que realmente é, sem máscaras. Que tem o universo à sua mesa.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O POETA E AS AMIGAS


O poeta arde
mas as amigas não vêm
arde dentro de si mesmo
alimenta-se
dos seus abismos
nasce de novo
mas as amigas não vêm
está triste
queria brincar com elas
dizer-lhes
o que lhe tendo vindo
à mente
nos últimos dias
em que lhe apetece
gritar na rua
soltar gargalhadas sarcásticas
insultar o homem comum
mas as amigas não vêm
por isso o poeta está ferido
a raiva cresce
olha o mundo com desprezo
com o grande desprezo
com o pior dos desprezos
não suporta a televisão
escreve
como quem espeta facas
olha o relógio
as amigas não vêm
o poeta arde
pede mais cerveja
se tivesse dinheiro
beberia até cair
até rebentar com o mundo
revolucionário alucinado
parte montras
incendeia bancos
agora resta-lhe o Do Vale
e a cerveja
ouve falar russo
se estivesse em baixo
não aguentaria
assim arde
ouve o Do Vale
está quase a rebentar
as amigas não vêm
põe-no doido
fora de si
o poeta arde
está farto do tédio
da monotonia
as horas passam
antes estar aqui
do que na aldeia
o poeta arde
abandona a razão
segue a estrada da luz
está farto
não pode mais
as amigas não vêm
não suporta mais
a imbecilidade
"mostra-me o extermínio
dos relógios e dos televisores"
escreveu
quando ainda
era um rapaz inocente
agora escreve
para suportar
a falta das amigas
deixou de ter horários
brinda ao caos
a época é-lhe propícia-
dizem no facebook
é uma espécie de profeta
vai voltar a cantar
escreve ao ritmo da vida
da verdadeira vida
é essa que quer apanhar
mas faltam-lhe as amigas
aparecem outras
não é capaz de falar-lhes
só no Pinguim
e nos outros palcos
é louco
cada vez mais louco
as palavras saem
das tripas
nunca mais será
um poeta menor.


Piolho, 22.9.2011