quarta-feira, 27 de julho de 2011

A VIDA DO POETA


Derramar palavras no caderno
correndo o risco de o caderno
se perder para sempre
construir textos sem um fim definido
sem saber se sai o livro
estar na vida como os gatos
às voltas
aos saltos
a comida no prato
não me preocupar
com o dinheiro
ler muitos livros
pensar nas miúdas
ficar sábio

eis a vida do poeta.

domingo, 24 de julho de 2011

SANGUE REAL


Quem és? De onde vens? Quem te pôs no mundo? Certamente tens pai, mãe, família. Mas vieste para algo de maior, tens a tua loucura, persegues palácios, reinos de luz. Não, não és da populaça, do raciocínio primário, da sobrevivência. Vens em nome dos grandes, daqueles que são capazes de mudar o curso da vida. és o primeiro e o último dos homens. Estiveste com Merlin e Zaratustra. És da raça dos poetas. Cantas a mulher, cantas Madalena. Foste navegador, aventureiro de terra em terra. Agora estás aqui "com todas as crianças atacadas pela loucura". O álcool sobe no copo. Mexe com a alma. Os futebóis nada te dizem. És Hamlet. Ouves o teu pai. Tens delírios. Ouves as mulheres berrar com as crianças. Não suportas. Questionas tudo, o sentido da existência. És capaz de ser o melhor poeta das redondezas. Quando estás assim tocas o divino. Sentes falta de companheiros, companheiras. Muitos não estão à tua altura. Amas realmente a cerveja, o gás, o levá-la à boca. Cresceste nos bares. Nada a fazer. Não és da vida de todos os dias. Os jornais, de vez em quando, falam de ti. Não, tens algo de divino. Vieste com os profetas. Cantas o caos e a harmonia. Atravessaste as portas de percepção com Morrison, foste Marlon Brando no "Apocalipse Now". Não vais nos golos dos tolos. A conversa deles aborrece-te de morte. Odeias o tédio que te querem impor. Preferes olhar a mulher bela. Vais até ao fim da demanda. Definitivamente, não és como eles. és filho de Dionisos. Um rei num mundo de imbecis. Até no acto de beber és diferente. Uma puta dos tascos e do rock. Um homem da cidade. Um fora-da-lei. Um animal dos palcos e da vida. Á mesa do homem só. Um homem das mulheres. Um incendiário em potência. Um louco sem conversa. E o que interessa está dentro da garrafa. Do cálice. Do Graal. Não te soltavas na adolescência. Eras tímido. Agora és capaz de te revoltar contra a Criação. Apetece-te pontapear os carrinhos de bebé. Filho do rock n' roll e da revolução. Gastas o braço e a mão. Amas a mulher. És completamente fora. Ficavas aqui de cerveja em cerveja. Afinal de contas, nada tens a perder. Os outros começam a ter conversas loucas, inteligentes. Falam de triângulos e quadrados. Tu tornaste-te alérgico a eles. Contas os trocos. Tu também contas os trocos, ó divino! Deverias voltar ao surrealismo. Tens sangue real, miúdo. Sangue real.

sábado, 23 de julho de 2011

UMA CERVEJA NO "GULAG"


Uma cerveja no "gulag"
como tu, Jaime Lousa,
á espera do amigo
que pague e chega
beber é fácil
é só levar
o copo á boca
claro que há
o saber beber,
não é de qualquer maneira,
beber é uma ciência
exige sabedoria
querido Jaime,
por onde andas?
Estes vendilhões a subir
estes filhos da puta
no fundo,
nem sequer sabem viver
nem beber
falta-lhes a veia
e nós aqui
a comentar as gajas
a ver se elas
vêm á mesa
é o que sobra
e o que faz
a cerveja.



Confeitaria "In", 23.7.2011

A gaja do café
deixou-me apalpar-lhe o braço
as coisas estão a melhorar.

A VIA CERTA


Escrever forma da norma. Escrever sem preconceitos. Não me deixar levar pelo paleio comum, pelas "evidências" do bom senso. Sim, estar acima disso. Procurar o eterno, o belo, mesmo andando atrás do maldito, do dionisíaco. Ser esse ser que brilha no deserto. Fazer a revolução dionisíaca. Ser capaz de escrever as páginas belas e malditas. Construir o homem em mim. Sentir o mundo a meus pés. Amar a mulher bela. Ser o enviado de Camelot, de Artur, de Merlin. Desesperar nesta terra inóspita. Amar os fora-da-lei e as putas. Não, não ser politicamente correcto. Não ceder à norma. Não! Logo eu que tenho cantado a noite e as mulheres da noite. Anos sem fim ao balcão, noite fora. Não esperem de mim a conversão. Sou o poeta maldito, dizem. Tenho amado a noite e a vida. Continuo à procura. Não sou do mercado, nem dos mercados. Tenho uma história. Os meus livros não se vendem como desejaria. Mas sei que tenho seguido a estrada do excesso. Sou como o Jim, nada a fazer. Poderia passar a tarde a beber copos, como passei muitas vezes, e a fazer-me à empregada, mesmo que ela não seja uma prima-dona. A maldição dos quadrados está a desaparecer. Sou, como dizia o Jaime, aquele que vem não se sabe de onde. Sou aquele que vai ao fundo do copo. O poeta do Uno Primordial. Quem me ouve? Quem está aí? Não, não pertenço à raça dos poetas menores. Bebo à saúde dos grandes homens. São esses que sigo. Tenho sido também da cerveja. Antes da cerveja do que da norma. Que porra! Escrevo. Sou da vida. Falta-me a gaja. Não sei o que têm os best-sellers que eu não tenho? Não sei porque não vivo disto. Cinco linhas, uma nota. Deveria ser assim. Os outros inventam todos os estratagemas para ganhar dinheiro. Só eu é que não nasci para ganhar dinheiro, nem para o negócio, nem para chular o próximo. Escrevo páginas brilhantes mas estou aqui sozinho. Não escrevo romances, nunca andei a pedir favores. Por isso, estou aqui. Uma estrela à tua mesa. Um bailarino que regressa. Um animal de palco sem palco. Um homem que lê jornais à espreita da dama. Um revolucionário sem camaradas. Alguém que anda á solta, a quem a conversa não agrada. Vim ao mundo. Sou do mundo. Não me atires notícias. Aquilo que escrevo não são verdades eternas. Mas é aquilo que sou, aquilo em quem acredito. Não mais mentiras. Não mais hipocrisia. Vim ao mundo pregar mas ainda mal comecei. Tenho de prosseguir a demanda nesta terra desolada. Para isso estou aqui. Não vim pregar a economia. A economia destrói o homem livre. Sim, sou da imaginação, de Quixote, da paixão, da utopia. Tenho de cortar de vez com a economia. É um reino de tolos sem saída. Não, eu estava na via certa, desviei-me, perdi-me na demanda. Agora estou, de novo, lá. Não aceito. É isso que tenho de dizer e escrever. Estou a nascer. Ouves? Estou a nascer. Sabes, eu vivo os livros. Sabes, eu tenho iluminações. Vejo o que os outros não vêem. Até sou capaz de desejar a mulher que trabalha. Sabes, eu construo mundos. Eu não ando atrás da norma. Estou a nascer. Não estou a competir com ninguém. Percorro a aldeia em busca da glória. Não sou esse que esperas. Não sou o messias, nem o profeta da desgraça. Canto o caos e a alegria.

ROUBOS NOS TRANSPORTES

Transportes: Aumentos desmesurados…roubos à Troica

O governo com “desculpa” de cumprir os ditames da Troica, anunciou hoje que a partir de Agosto irá aumentar com preços desmedidos e obscenos para os trabalhadores, os transportes colectivos.


As tarifas terão aumentos em média 15%, mas poderão chegar aos 25 por cento. Ao mesmo tempo pressupõe-se a redução ou a suprimir carreiras, principalmente na CP e na Transtejo.

Estas medidas já previstas pelo memorando da Troica, terá em contrapartida os cortes salariais aos trabalhadores deste sector – eis a receita dos governos defensores do chamado Estado social para a transferência da totalidade deste sector para as mãos dos privados.

Com o sector de transportes cada vez mais descapitalizado, em consequência da gestão ruinosa dos seus gestores que foram arrecadando e continuam a arrecadar fabulosos e provocatórios ordenados e chorudas mordomias, vêm ao mesmo tempo fazer com que a factura tenha de ser paga exclusivamente pelos trabalhadores e pelos seus utentes na sua maioria esmagadora trabalhadores, desempregados e pensionistas.

Esta medida do governo do capital tem merecer do conjunto dos trabalhadores uma resposta firme, sem tergiversações, sem hesitações. Lutar contra os aumentos dos transportes, os impostos extraordinários, é lutar contra as privatizações, é solidarizar-se com a luta dos trabalhadores deste sector, contra o roubo nos seus salários.

Dizer Não ao Pagamento da dívida deve ser o primacial objectivo neste combate sem tréguas contra o capitalismo.

Em nota de rodapé, não resistimos de surripiar esta pérola do blogue Sputnik sobre a prevista criação de “um título de transportes a preços reduzidos”, para “promover a justiça e a solidariedade social”…canalhas…os mais velhos (não de ideias, mas de idade…) devem lembrarem-se do chamado “bilhete operário” no tempo do fascismo…é fartar vilanagem!

“Como se a façanha não fosse já suficiente, o governo, revestido da sua generosidade queirosiana, resolveu criar um passe para os “pobrezinhos”, combatendo assim e de forma cavaleiresca as injustiças sociais no acesso à mobilidade.


Depois de tanta “generosidade” houve uma dúvida que me surgiu; será que vão dividir os autocarros a meio como fizeram nos EUA, onde os negros só entravam pela porta traseira e só se podiam sentar na parte traseira do autocarro. Será que os “mais desfavorecidos” vão só ter lugar na parte de trás dos transportes públicos? Veremos onde nos leva tamanha generosidade...”

terça-feira, 19 de julho de 2011

SANTO GRAAL


Santo Graal
Santo Graal
procuro-te na noite
na mulher que ama
vens dos séculos
de Ésquilo e Shakespeare
és a minha alma
perdida no mundo
armaste-me cavaleiro
o mais belo dos poetas
os olhos brilham
diante da musa
reencontro a alegria
a magia de Merlin

as palavras são tuas
vêm das estrelas
Santo Graal
Santo Graal
por ti vim ao mundo
por ti canto a glória
a glória que persigo
Camelot chama-me
não mais a vidinha.

terça-feira, 12 de julho de 2011

JIM MORRISON, PROFETA DA REVOLTA


JIM MORRISON, PROFETA DA REVOLTA


(A Jim Morrison, 40 anos após a partida, a 3 de Julho de 1971)

Jim Morrison, o poeta/cantor dos Doors. Fascina-me desde os 16 anos. Nessa altura do Liceu Sá de Miranda ouvia muito os Pink Floyd. Conhecia as letras subversivas do Roger Waters, as críticas mordazes à Thatcher e ao sistema. Mas quando um amigo meu me emprestou o disco "Strange Days" e a longa canção "When The Music's Over" houve uma explosão. Tem piada que à primeira audição estranhei a coisa. Mas depois, bem depois havia aquele órgão, aquela bateria, aquele som hipnótico e o Jim recitava: "estamos fartos de tantos rodeios/ fartos de esperar com o ouvido colado ao chão/ queremos o mundo e exigimo-lo...AGORA!" Todas as infâncias, todas as antigas convicções, todas as missas, todos os preconceitos acabavam ali. Quando o Jim Morrison gritou "NOW!" eu tornava-me outro. Não há aqui misticismos baratos. É a urgência de quem não pode esperar mais. Tem de ser "agora" ou então está tudo perdido. Terminou o tempo das "risadas" e das "doces mentiras", como diz o outro épico dos Doors, "The End", que esteve na base do "Apocalipse Now" de Coppola. Tem piada que as palavras proféticas de Morrison voltam agora a fazer todo o sentido com as revoltas na Grécia. É uma revolta que ultrapassa os sindicatos e os partidos, uma revolta com pedras e "cocktails molotov" que não se limita á exigência do derrube de um governo, uma revolta de raiva que põe tudo em causa, uma revolta sem negociações, uma revolta morrisoniana, daqueles que estão "fartos de tantos rodeios", que exigem nada mais, nada menos do que o próprio mundo.



A postura de Jim Morrison em palco ajuda à lenda. Os concertos dos Doors eram celebrações dionisíacas, num terreno nietzscheano que transcendia o bem e o mal. Morrison era o xamã que provocava o público até à loucura. Havia mulheres que se despiam, que tiravam os soutiens, que dançavam como nos antigos bacanais. Jim era também Dionisos com a ajuda do àlcool e de outras drogas, era o deus que achava os "hippies" e o "flower power" ingénuos, que falava do amor no meio do caos, que dizia aos jovens que não passavam de escravos que faziam tudo o que lhes mandavam fazer.

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domingo, 10 de julho de 2011

OS POETAS, SEGUNDO HENRY MILLER


CRIAÇÃO E CASTRAÇÃO

“Por poetas entendo aqui todos os que habitam nas regiões do espírito e da imaginação. É sua missão seduzir-nos, tornar intolerável este limitado mundo que nos aprisiona”, escreveu Henry Miller em “O Tempo dos Assassinos”. Os poetas, os grandes poetas são magos, emissários de um outro mundo, são “caminheiros do céu” que nos falam de coisas que hão-de vir e de coisas há muito passadas.

“O que pertence ao domínio do espírito, do eterno, escapa a toda e qualquer explicação. A linguagem do poeta corre paralelamente à voz interior quando esta se aproxima da infinitude do espírito”, prossegue Miller. Os poetas vêm do Uno Primordial de Nietzsche e de Dionisos, daquela idade áurea perdida em que a vida era, nas palavras de Arthur Rimbaud, “um banquete em que todos os corações se abriam e em que todos os vinhos corriam”. E continua o poeta das “Iluminações”: “Vamos fazer o Natal sobre a Terra…agora, já, estão-me a ouvir? Não queremos esperar por caramelos no céu!”, o que remete para o grito de Jim Morrison : “We Want The World And We WAnt it…Now!” (“When The Music’s Over”).

Criar é uma festa mas pressupõe a descida aos infernos. “Aprendi a minha profissão no inferno”, confessou Léo Ferré. “A estrada que conduz ao Céu passa pelo Inferno”, acrescenta Henry Miller. Mas não há alegria comparável à do criador, do poeta, porque a criação não tem outra finalidade para lá de si própria. E esse poeta é um criador, um xamã, um feiticeiro ébrio que canta, dança e ri, que faz da arte uma festa e que torna absurda a sociedade capitalista e castradora.

POETAS-MAGOS

o poeta é o que descobre, o que vê primeiro.
os poetas, os grandes poetas são magos, emissários de um outro mundo, são "caminheiros dos céus" que nos falam de coisas que hão-de vir e de coisas há muito passadas.

sábado, 9 de julho de 2011

AINDA O LIXO


NÓS NÃO SOMOS LIXO!

O governo Passos Coelho/Cavaco/Paulo Portas é responsável por um autêntico assalto aos bolsos dos portugueses ao decapitar metade do 13º mês/subsídio de Natal. À excepção daqueles que recebem um salário mínimo miserável, todos parecem condenados a pagar, incluindo os pobres e os remediados. Numa altura em que a maioria do povo português passa por grandes dificuldades, Passos Coelho é mais troikista do que a troika, multiplicando os PEC's, cortando a direito sem o mínimo de sensibilidade social, faltando mesmo à promessa eleitoral de não aumentar os impostos. Enquanto isto, pretensos patriotas como os banqueiros, Cavaco Silva, Alberto João Jardim, os comentadores da corte e Paulo Portas lançam uma cruzada contra a agência de rating "Moody's" por esta ter atirado o país ao lixo, como se não fizessem parte da corja do capitalismo dos mercados, como se não tivessem eles mesmos atirado o país ao lixo, como se não fossem, eles próprios, lixo. O trabalho desses senhores, conjugado com o corte no "rating", faz subir os juros, o que significa sacar mais dinheiro aos de sempre, e a muitos mais, traduzindo-se igualmente em mais despedimentos, mais pobreza, mais miséria. Perante este cenário de lixeira generalizada, urge dizer que não aceitamos mais ser lixo, não aceitamos mais que nos cortem a carteira e a vida, que não somos joguetes nas mãos dos Passos Coelho, dos Cavacos, das Merkel, do Banco Central Europeu, do FMI, da União Europeia. Lutemos nas ruas como os gregos, como os egípcios, como os sírios. O mundo é nosso, não é deles!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LIXO


Lixo. Somos lixo. Eis onde os politiqueiros nos levaram. Eis o que dizem os mercados e a finança. Eis o que os Passos Coelho e os Cavacos merecem. Eis o que uma boa parte de nós não pode aceitar. Somos homens, seres humanos, não somos lixo. Lixo é o que nos espetais nos cornos todos os dias.
Ás vezes até parece que nos deixamos levar mas depois ressuscitamos. Não somos lixo. Lixo sois vós que produzis o lixo, lixo sois vós que vos deixais levar sempre. Nós resistimos. Temos as nossas próprias ideias. Não somos criados de ninguém nem comentadores da corte. Somos livres. Absolutamente livres. Acreditamos nas nossas ideias. Não somos lixo. Não vivemos apenas para comer e beber. Pensamos. Lemos livros. Não percebemos nada de finanças nem queremos perceber. Não falamos a linguagem económica. Somos criadores. Do papel fazemos nascer a palavra. Estamos fartos de ser governados por imbecis que outros imbecis elegem. Estamos fartos das ordens dos patetas. Não aceitamos. Temos todo o direito de não aceitar. Não somos lixo. Quem quiser que se contente com o lixo. Nós não. Nós vimos das estrelas. Somos o homem de Platão e de Nietzsche. Estamos aqui. Vivemos. Não nos limitamos a arrastar o corpo. Viemos para desafiar o tédio e a rotina. Viemos de mente aberta. Viemos abrir as portas.

IMBECIS


imbecis
imbecis
não sabeis o que vos espera
imbecis
imbecis
agarrai-vos aos trocos
e à família
imbecis
imbecis
salvam-vos as gajas
muitas gajas
imbecis
imbecis
o reino está próximo.

Á MESA DO HOMEM SÓ


à mesa do homem só. estórias., A. Pedro Ribeiro
20 February 2009 2 Comentários
Paixão, delírio, desvario e perda. São os principais ingredientes deste pequeno grande livro de poesia de A. Pedro Ribeiro que, nesta fase, dava os primeiros passos nas lides da escrita poética. Os textos datam da segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000. É notório o talento que escapa por entre as frases de uma escrita errante. Uma escrita essencialmente emotiva, elaborada a partir do cenário do quotidiano dos cafés das cidades do Porto e de Braga.

Uma das facetas mais angustiantes da obra por se tratar de uma temática recorrente, em diversos trabalhos de A. Pedro Ribeiro, é o da necessidade da fuga, de evasão e perseguição da miragem de um paraíso perdido, através da procura de refúgio no álcool, o alívio momentâneo no sexo. No primeiro caso, as alucinações despoletadas pela bebida aproximam-no da poesia provocadora de Morrison, enquanto que, no segundo, colocam-no muito próximo do panteão dos poetas do erotismo norte-americano como é o caso de Miller ou Bukovski.

As provocações sucedem-se em poemas como

“Ressaca”

Na ressaca
das noites ébrias
liberto pássaros
absorvo conversas

Tudo parece
absurdo convencional
diante do meu fogo
diante da embriaguez
permanente.


É notório o sentimento de insatisfação constante, fruto do espartilho do tédio, da monotonia, do desespero impresso pela patine da rotina dos dias sempre iguais que impelem a procura de mundos diferentes, onde a solução mais imediata é aquela que parece ser o portal de saída, de fuga, o álcool – abre a cortina para o paraíso construído na imaginação a partir da alteridade da consciência e do desequilíbrio sináptico que transparece no apelo a Dionysos em “Ébrio 29”.

“…ao raiar da aurora
avistaremos a terra prometida
desfilaremos entre os anjos
sobre o tapete celestial…”

Do mesmo impulso de fuga à deprimente e feia realidade do quotidiano, nasce o sonho da Beleza e do Prazer, onde se apela ao excesso, trazido aparentemente pelo arquétipo representado deus ou pela figura alegórica da Embriaguez, embora, na realidade, o desejo mais primário, mais fundamental é, precisamente, o Desejo, trazido pela mão de Aphrodite, arquétipo incarnado pela Musa, a quem é dedicado o livro…

“Valete de Espadas”

pétalas murchas
cálices desleixados
(…)

o sangue não corre
a alma não morre
entediada

tantas horas
longas demoras
no meu quarto
a espera
ansiosa

a vida lá fora
as conversas
…tu…
…já não vens…
…hoje…

Prosseguem a angústia e a asfixia, que agarram a alma, numa espiral de auto-destruição como um pântano de areias movediças em

“Távola”

(…) Amor sobre um penedo de saudade
rebento suicida
outras eras
idades

A catarse
o ciúme
ao rubro
o crime
o filme

estórias ao espelho
à mesa a tua imagem
do homem só acesa.

Um poema com duas opções de leitura, a multiplicar as interpretações e a aumentar exponencialmente a riqueza polissémica do texto que dá o título ao livro.

Em vário textos de à mesa do homem só. estórias a linguagem utilizada, aparentemente desconexa, é a projecção de caóticos sonhos povoados de erotismo, que reflectem uma poética tipicamente onírica, marcada por uma profusão de imagens que se sobrepõem e reproduzindo um caos interior, caracterizado por um vórtice de contradições à vista desarmada.
Poemas como “Anjo em Chamas”, dedicado a Jim Morrison, ou “Cristo Ébrio” deliciam pela absoluta subversão face ao convencional, à norma, às regras, a toda e qualquer proibição ou dogma, características que fazem do poeta A. Pedro Ribeiro um verdadeiro filho de Maio de ’68 . São dois poemas povoados de um erotismo imbuído no sagrado, a exaltar o hyerogamos, ou acasalamento sagrado, a lembrar antigos rituais Gregos ou Babilónios.

“Cristo Ébrio”

Regresso
serpentes masturbam-se na areia
estradas aquáticas

golpes de espuma celebram
o orgasmo de Neptuno.

Procuro o beijo
o anel sagrado
sou serpente ébria (…)

serpente ébria
danço canto
enfeitiço…

Este poema e o seguinte sugerem um ritual dionisíaco, marcado pelo ritmo caótico, desenfreado de um voraz bailado de Ménades, como se pode ver no poema

“Um poeta em fogo”

Distingo ao longe
um cenário onírico
adornado
de cores perversas

(…)

Vulcões vomitam cometas
flores desabrocham
em arco-íris embriagadas.

Cascatas inflamadas
trepam a catedral.

Caânticos dionisícos
em redor da fogueira
corpos enlaçados
em delírio carnal.
(…)


Em toda a obra se assiste ao triunfo da Loucura sobre a Razão que está especialmente manifesto em “Representação”.

Mas em “Devaneios” começam a notar-se alguns ecos de Baudelaire e da sua obra As Flores do Mal

“Devaneios”

Toma-me a alma
Conduz-me ao fim da noite
(…)
Encharca de whisky o meu cadáver vivo”
(…)

Vem pintor surrealista
acende na tela
a sombra imensa do martírio
conduz-me a noite sem fim”

O último dos poemas de à mesa do homem só…, com o qual o autor presta homenagem aos sem-abrigo, exprime a total e completa insubmissão à norma e a necessidade de afirmação e de ser aceite na plenitude da diferença, que comporta a sua forma de estar no mundo, com todos os desvios:

“Queimam as horas mal-dormidas sobre um banco de jardim.
No cérebro estalam vulcões, montanhas. A viagem recomeça, rumo ao cume.

Dentro do sonho existem lugares verdes (…)
Quiseram prender-me. Atirar-me para o hospício.
Mas eu não estava lúcido. E os inquisidores fugiram de mim.”

Uma escrita onírica sim, porque pictórica, onde as imagens se sucedem, se fundem formando o caos aparente, onde se concentra o vórtice de emoções e sensações impossíveis, incomportáveis na morna quietude de quotidiano…

À mesa do café está o último reduto que abriga alguém que encarna a rebeldia de quem prega no deserto, no meio de víboras e escorpiões.

Um livro no qual, segundo o Autor,

“tudo acaba, tudo começa à mesa do homem só que escreve, descreve, constrói cenários, delineia paisagens. O resto são estímulos, sinais exteriores, perspectivas de contacto, imagens.”

Clamamos, portanto, por uma reedição.

Urgente.

por Cláudia Sousa Dias

à mesa do homem só. estórias
A. Pedro Ribeiro
Silencio da Gaveta
2001

domingo, 3 de julho de 2011

JIM MORRISON: 40 ANOS, A 3 DE JULHO


"Eu vejo-me como um ser humano sensível e inteligente, mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes."
"Eu acho que os pontos mais importantes são apenas o mais alto e o mais baixo. Todo o resto está apenas no meio. Eu quero a liberdade para experimentar tudo."
"Eu acho que apenas estava farto da imagem que criaram de mim, que na qual eu algumas vezes consciente e outras inconscientemente colaborei. Tornou-se demais para mim ter que a suportar, então numa noite gloriosa pus-lhe fim."
"O género de liberdade mais importante, é seres verdadeiro. Trocas a tua realidade por um personagem. Trocas os teus sentidos por uma actuação. Desistes da capacidade de sentir, e em troca pões uma máscara. Não pode haver uma revolução em grande-escala, se antes não houver a revolução individual da pessoa. Primeiro tem que acontecer cá dentro."
"Quando fazes as pazes com a autoridade, tornas-te na autoridade."
"Os sorrisos receptivos dos admiradores geralmente guardam a morte por detrás dos dentes felinos".
"Alguns nascem para o suave deleite; outros, para os confins da noite".
"Sou um homem de letras".
"A única obscenidade que conheço é a violência".
"Os espectadores são vampiros silenciosos".