quarta-feira, 6 de julho de 2011

IMBECIS


imbecis
imbecis
não sabeis o que vos espera
imbecis
imbecis
agarrai-vos aos trocos
e à família
imbecis
imbecis
salvam-vos as gajas
muitas gajas
imbecis
imbecis
o reino está próximo.

Á MESA DO HOMEM SÓ


à mesa do homem só. estórias., A. Pedro Ribeiro
20 February 2009 2 Comentários
Paixão, delírio, desvario e perda. São os principais ingredientes deste pequeno grande livro de poesia de A. Pedro Ribeiro que, nesta fase, dava os primeiros passos nas lides da escrita poética. Os textos datam da segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000. É notório o talento que escapa por entre as frases de uma escrita errante. Uma escrita essencialmente emotiva, elaborada a partir do cenário do quotidiano dos cafés das cidades do Porto e de Braga.

Uma das facetas mais angustiantes da obra por se tratar de uma temática recorrente, em diversos trabalhos de A. Pedro Ribeiro, é o da necessidade da fuga, de evasão e perseguição da miragem de um paraíso perdido, através da procura de refúgio no álcool, o alívio momentâneo no sexo. No primeiro caso, as alucinações despoletadas pela bebida aproximam-no da poesia provocadora de Morrison, enquanto que, no segundo, colocam-no muito próximo do panteão dos poetas do erotismo norte-americano como é o caso de Miller ou Bukovski.

As provocações sucedem-se em poemas como

“Ressaca”

Na ressaca
das noites ébrias
liberto pássaros
absorvo conversas

Tudo parece
absurdo convencional
diante do meu fogo
diante da embriaguez
permanente.


É notório o sentimento de insatisfação constante, fruto do espartilho do tédio, da monotonia, do desespero impresso pela patine da rotina dos dias sempre iguais que impelem a procura de mundos diferentes, onde a solução mais imediata é aquela que parece ser o portal de saída, de fuga, o álcool – abre a cortina para o paraíso construído na imaginação a partir da alteridade da consciência e do desequilíbrio sináptico que transparece no apelo a Dionysos em “Ébrio 29”.

“…ao raiar da aurora
avistaremos a terra prometida
desfilaremos entre os anjos
sobre o tapete celestial…”

Do mesmo impulso de fuga à deprimente e feia realidade do quotidiano, nasce o sonho da Beleza e do Prazer, onde se apela ao excesso, trazido aparentemente pelo arquétipo representado deus ou pela figura alegórica da Embriaguez, embora, na realidade, o desejo mais primário, mais fundamental é, precisamente, o Desejo, trazido pela mão de Aphrodite, arquétipo incarnado pela Musa, a quem é dedicado o livro…

“Valete de Espadas”

pétalas murchas
cálices desleixados
(…)

o sangue não corre
a alma não morre
entediada

tantas horas
longas demoras
no meu quarto
a espera
ansiosa

a vida lá fora
as conversas
…tu…
…já não vens…
…hoje…

Prosseguem a angústia e a asfixia, que agarram a alma, numa espiral de auto-destruição como um pântano de areias movediças em

“Távola”

(…) Amor sobre um penedo de saudade
rebento suicida
outras eras
idades

A catarse
o ciúme
ao rubro
o crime
o filme

estórias ao espelho
à mesa a tua imagem
do homem só acesa.

Um poema com duas opções de leitura, a multiplicar as interpretações e a aumentar exponencialmente a riqueza polissémica do texto que dá o título ao livro.

Em vário textos de à mesa do homem só. estórias a linguagem utilizada, aparentemente desconexa, é a projecção de caóticos sonhos povoados de erotismo, que reflectem uma poética tipicamente onírica, marcada por uma profusão de imagens que se sobrepõem e reproduzindo um caos interior, caracterizado por um vórtice de contradições à vista desarmada.
Poemas como “Anjo em Chamas”, dedicado a Jim Morrison, ou “Cristo Ébrio” deliciam pela absoluta subversão face ao convencional, à norma, às regras, a toda e qualquer proibição ou dogma, características que fazem do poeta A. Pedro Ribeiro um verdadeiro filho de Maio de ’68 . São dois poemas povoados de um erotismo imbuído no sagrado, a exaltar o hyerogamos, ou acasalamento sagrado, a lembrar antigos rituais Gregos ou Babilónios.

“Cristo Ébrio”

Regresso
serpentes masturbam-se na areia
estradas aquáticas

golpes de espuma celebram
o orgasmo de Neptuno.

Procuro o beijo
o anel sagrado
sou serpente ébria (…)

serpente ébria
danço canto
enfeitiço…

Este poema e o seguinte sugerem um ritual dionisíaco, marcado pelo ritmo caótico, desenfreado de um voraz bailado de Ménades, como se pode ver no poema

“Um poeta em fogo”

Distingo ao longe
um cenário onírico
adornado
de cores perversas

(…)

Vulcões vomitam cometas
flores desabrocham
em arco-íris embriagadas.

Cascatas inflamadas
trepam a catedral.

Caânticos dionisícos
em redor da fogueira
corpos enlaçados
em delírio carnal.
(…)


Em toda a obra se assiste ao triunfo da Loucura sobre a Razão que está especialmente manifesto em “Representação”.

Mas em “Devaneios” começam a notar-se alguns ecos de Baudelaire e da sua obra As Flores do Mal

“Devaneios”

Toma-me a alma
Conduz-me ao fim da noite
(…)
Encharca de whisky o meu cadáver vivo”
(…)

Vem pintor surrealista
acende na tela
a sombra imensa do martírio
conduz-me a noite sem fim”

O último dos poemas de à mesa do homem só…, com o qual o autor presta homenagem aos sem-abrigo, exprime a total e completa insubmissão à norma e a necessidade de afirmação e de ser aceite na plenitude da diferença, que comporta a sua forma de estar no mundo, com todos os desvios:

“Queimam as horas mal-dormidas sobre um banco de jardim.
No cérebro estalam vulcões, montanhas. A viagem recomeça, rumo ao cume.

Dentro do sonho existem lugares verdes (…)
Quiseram prender-me. Atirar-me para o hospício.
Mas eu não estava lúcido. E os inquisidores fugiram de mim.”

Uma escrita onírica sim, porque pictórica, onde as imagens se sucedem, se fundem formando o caos aparente, onde se concentra o vórtice de emoções e sensações impossíveis, incomportáveis na morna quietude de quotidiano…

À mesa do café está o último reduto que abriga alguém que encarna a rebeldia de quem prega no deserto, no meio de víboras e escorpiões.

Um livro no qual, segundo o Autor,

“tudo acaba, tudo começa à mesa do homem só que escreve, descreve, constrói cenários, delineia paisagens. O resto são estímulos, sinais exteriores, perspectivas de contacto, imagens.”

Clamamos, portanto, por uma reedição.

Urgente.

por Cláudia Sousa Dias

à mesa do homem só. estórias
A. Pedro Ribeiro
Silencio da Gaveta
2001

domingo, 3 de julho de 2011

JIM MORRISON: 40 ANOS, A 3 DE JULHO


"Eu vejo-me como um ser humano sensível e inteligente, mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes."
"Eu acho que os pontos mais importantes são apenas o mais alto e o mais baixo. Todo o resto está apenas no meio. Eu quero a liberdade para experimentar tudo."
"Eu acho que apenas estava farto da imagem que criaram de mim, que na qual eu algumas vezes consciente e outras inconscientemente colaborei. Tornou-se demais para mim ter que a suportar, então numa noite gloriosa pus-lhe fim."
"O género de liberdade mais importante, é seres verdadeiro. Trocas a tua realidade por um personagem. Trocas os teus sentidos por uma actuação. Desistes da capacidade de sentir, e em troca pões uma máscara. Não pode haver uma revolução em grande-escala, se antes não houver a revolução individual da pessoa. Primeiro tem que acontecer cá dentro."
"Quando fazes as pazes com a autoridade, tornas-te na autoridade."
"Os sorrisos receptivos dos admiradores geralmente guardam a morte por detrás dos dentes felinos".
"Alguns nascem para o suave deleite; outros, para os confins da noite".
"Sou um homem de letras".
"A única obscenidade que conheço é a violência".
"Os espectadores são vampiros silenciosos".

JIM MORRISON FOREVER (1971-2011)


Morrison/40 anos
Nenhum seguidor chegou ao brilhantismo dos Doors
por Lusa01 Julho 2011


Nenhuma das muitas bandas assumidamente influenciadas pela originalidade da música dos Doors conseguiu atingir o "brilhantismo" do grupo de Jim Morrison, falecido há 40 anos, disse o biógrafo português do "Rei Lagarto".

"Muitas bandas ao longo das décadas assumiram-se fãs incondicionais dos Doors, e algumas em particular do Jim Morrison, mas nenhuma conseguiu chegar ao brilhantismo que os Doors assumiram na música e no casamento da música com a poesia", referiu Rui Pedro Silva, autor do livro "Contigo Torno-me Real". O autor, que está a preparar um segundo livro sobre os Doors, salientou que muitos tentaram imitar a banda de Jim Morrison, "mas ficaram muito longe" de conseguirem. "Outros beberam a influência e, de uma forma original, foram criar o seu próprio caminho", afirmou, destacando o caso de Ian Astbury, vocalista dos Cult, que mais tarde veio a ser convidado para representar Jim Morrison na banda que assumiu a designação Doors Século XXI.

Rui Pedro Silva realçou que "o próprio Bono, dos U2, é um confesso admirador de Jim Morrison". Para o autor, "estes 40 anos significam que Jim Morrison e os Doors continuam a ser bastante atrativos, pelo exemplo da boa criação artística que representam no panteão rock internacional e também pela postura que sempre demonstraram". Rui Pedro Silva reconheceu que o facto de Jim Morrison ter morrido com 27 anos "obviamente ampliou o mito", como aconteceu também com Kurt Cobain, dos Nirvana, "e de tantos outros que morreram com essas idades". "Mas, no caso dos Doors, acho que é muito mais do que isso. Acho que está mesmo associado à profundidade do legado que as novas gerações vão descobrindo", frisou. Para Rui Pedro Silva, considerado um dos melhores biógrafos e um dos mais profundos conhecedores da vida e carreira de Jim Morrison e dos Doors, "eles são um caso completamente anacrónico no mundo musical a vários níveis".

"Não seguiram nenhuma corrente especial. Eles apareceram no pleno auge do movimento hippie, mas não eram hippies, pelo contrário", salientou, notando que, numa das músicas dos Doors, Jim Morrison "é bastante crítico desse movimento". Jim Morrison "seguia a geração beat, ligada às artes, à literatura, e que era interventiva no verdadeiro sentido da palavra", realçou. "Há uma série de particularidades nos Doors que os distinguiram e os tornaram num caso único precisamente por essa busca constante de originalidade, tanto a nível das letras, da postura e do próprio enquadramento artístico", sublinhou o autor. Como exemplo, Rui Pedro Silva destacou que "os Doors não tinham baixista fixo em palco": "O Ray Manzarek fazia com a mão esquerda as linhas do baixo".

Depois das edições em português e inglês de "Contigo Torno-me Real / You Make Me Real", Rui Pedro Silva disse à Lusa que pretende lançar ainda este ano um segundo livro, desta vez sobre as raízes dos Doors e sobre a forma como a imprensa portuguesa descreveu o grupo ao longo destas décadas. O autor esteve na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), onde Jim Morrison e Ray Manzarek se conheceram no curso de cinema, a realizar um estudo cujo resultado será revelado no novo livro.


DIÁRIO DE NOTÍCIAS-ARTES

sábado, 2 de julho de 2011

MAOÍSTAS E EX-MAO'ISTAS


Actividade na minha rede

Actividade em ionline
Actividade em ionline há 5 minutosLuis Santos recomendou: "Permitam-me opinar. A verdadeira terrorista não..." . há 8 minutosBruno Farinha comentou: "é incrível como ainda dão voz a personagens destas..." . há 8 minutosLuis Santos recomendou: "Como o sócrates perdeu as eleições, já não havia n..." . há 9 minutosLuis Santos comentou: "Uma decisão sensata. Jornalista mmg=lixo" . há 40 minutosAntonio Ribatejo comentou: "Evidentemente que não tinham legitimidade e os con..." . há 42 minutosAntonio Ribatejo comentou: "Este era da esquerda caviar e agora passou a ser..." . há 44 minutosAlvinho Sammy comentou: "O que chateia nestes cortes, é que eu adoro filmes..." . há 55 minutosvitor guerra comentou: "Isso a crescentar ao buraco nas contas do estado d..." . há 59 minutosvitor guerra comentou: "é muito difícil apanhar os cacos,quando desaparece..." . há 1 horavitor guerra comentou: "Mas, ambos provam que o peixe já não morre pela b..." .Recomendar
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O charme discreto do maoismo português
por Nuno Almeida, Publicado em 02 de Julho de 2011 | Actualizado há 18 horas
.As aventuras e desventuras de uma geração de maoistas que hoje está sentada nos lugares de decisão em todo o lado
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2675954.jpg 1/1 + fotogalería .Estávamos em 75, no ano mais quente da revolução. Uma camioneta com mobiliário retirado da Faculdade de Direito de Lisboa chega à porta da sede do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). A comandar a expropriação revolucionária está o camarada Abel (Durão Barroso). Depois de um breve confronto com "o guia do proletariado", o camarada Arnaldo Matos, o militante é obrigado a devolver o mobiliário às salas da universidade.

O actual presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, é o mais célebre do ex-maoistas. Não porque tenha sido o maior dos adeptos de Mao Tsé Tung, mas porque é aquele que mais importante se tornou na actualidade. O ex-primeiro-ministro do PSD foi militante e dirigente da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML), braço estudantil do MRPP, fundado por Fernando Rosas, que editava o "Guarda Vermelho". O MRPP tem origem nos Comités Vietname, que em 21 de Fevereiro de 1968 realizaram uma manifestação frente à embaixada dos Estados Unidos da América, posteriormente transformados na Esquerda Democrática Estudantil. No início dos anos 70, eram hegemónicos num bom número das faculdades de Lisboa. Tinham como bastião a Faculdade Direito de Lisboa, no anedotário da época transformada num pagode chinês. Um dos momentos marcantes da história do MRPP foi o assassinato pela PIDE do seu dirigente, José Ribeiro Santos, durante um plenário estudantil em Económicas (actual ISEG), a 12 de Outubro de 1972. No tiroteio fica morto Ribeiro dos Santos e ferido José Lamego, na altura militante do MRPP e que foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do governo de António Guterres. O vão acusar o PCP de o ter morto a meias com a PIDE. "O fascismo apertou o gatilho e o revisionismo apontou-lhes o alvo - tal é a justa apreciação da sinistra confabulação das forças da classe contra-revolucionária que assassinaram o grande bolchevique José António Ribeiro Santos", garantia a publicação "Honra ao camarada Ribeiro Santos, o povo não te esquecerá!".

O empresário Jorge Coelho, o ministro Nuno Crato, o antigo ministro das Universidades Mariano Gago, até o ex-ministro da Administração Interna Rui Pereira, a mediática procuradora Maria José Morgado, o jornalista José Manuel Fernandes, o historiador Pacheco Pereira são alguns dos muitos ex-maoistas que atingiram posições de destaque na vida económica, académica e política. São muitos e conhecidos, pela simples razão de que os maoistas foram numerosos na década de 70. De 1964 até aos dia de hoje, há registo de dezenas de organizações maoistas no país; um estudo do investigador Miguel Cardina ("O essencial sobre a esquerda radical") recenseia cerca de 70 organizações ligadas a esta corrente ideológica.

Pacheco Pereira (ver entrevista) defende que o maoismo em Portugal provém de dois momentos diferentes: um primeiro devido à ruptura entre chineses e soviéticos, que leva a uma cisão do PCP, e um segundo momento, posterior a 1968, devido à radicalização de sectores da juventude, influenciados pela Revolução Cultural Chinesa e pelo Maio de 1968 em França.

Em 1964, a ruptura sino-soviética leva alguns militantes do PCP, como Francisco Martins Rodrigues, membro do executivo do PCP no interior do país, a romper com o partido. Numa reunião do comité central do PCP em Moscovo em Agosto de 1963, para preparação do VI Congresso, Martins Rodrigues expressa a sua divergência em três pontos fundamentais: defende um levantamento nacional para derrubar a ditadura, aposta na luta armada como uma das formas de luta e critica a estratégia de unidade do PCP com sectores da burguesia no combate ao fascismo, afirmando a necessidade de reforçar "o protagonismo do proletariado". No fundo, tratava-se de adaptar à realidade nacional os slogans da liderança chinesa, na contestação à política soviética da "coexistência pacífica" entre países comunistas e capitalistas na era das armas atómicas.

Um antigo director do "Público", o jornalista José Manuel Fernandes, tinha 11 anos quando se deu o Maio de 68. Quando entrou no liceu começou a frequentar reuniões. A adesão ao maoismo deveu-se à sua necessidade de contestar o regime de uma forma radical e por reacção a uma oposição "chata" que o PCP simbolizava. "Fui a uma ou duas reuniões, regra geral as intervenções mais chatas eram feitas por pessoas ligadas ao PCP, como o Miguel Portas, e identifiquei-me com pessoas com um discurso mais radical e apelativo." A sua militância política começa ligada à acção contra a guerra colonial, na órbita da CMLP (Comité Marxista-Leninista Português), na UEC (ML) (União de Estudantes Comunistas Marxistas-leninistas), cujos membros eram conhecidos no meio estudantil como os Pops, devido à sua plataforma por um ensino popular. Adere ao PCP (ML), facção Mendes, o mesmo em que milita Pacheco Pereira, e depois do 25 de Abril chega em 1976 ao secretariado da UEDP (União dos Estudantes Democráticos e Populares), organização de juventude da UDP, com o actual ministro da Educação, Nuno Crato.

José Manuel Fernandes diz que nas vésperas do 25 de Abril o PCP já tinha recuperado influência em algumas das faculdades (Económicas e Medicina) e dividia a popularidade com estudantes de vários sectores maoistas. "Os trotskistas ou os ''trouxas'', como a gente lhes chamava, eram muito poucos." Esta concorrência era encarniçada, mas não se fazia sem regras: "Tínhamos como adquirido que quando num plenário de estudantes criticávamos alguém do PCP não lhe podíamos chamar ''revisionista'' devido ao perigo de o estar a identificar para os bufos da PIDE. Ficávamos pelo menos claro ''reformista''." Em 16 de Dezembro de 1973, 150 estudantes do secundário reunidos na instalações da Faculdade de Medicina são cercados pela polícia e mais de 50 são detidos. Dormem uma noite na cadeia, "tirando uns poucos, como a Eugénia Varela Gomes, que ficam presos em Caxias", recorda José Manuel Fernandes. A todos os rapazes, com idades à volta dos 16 anos, é cortado pela polícia o cabelo com máquina zero. A carecada tanto é dada ao PCP Miguel Portas como ao maoista José Manuel Fernandes.

A primeira experiência de jornalismo têm-na já depois da revolução. Durante a campanha do Otelo funda-se o jornal com o pequeno título "O 25 de Abril do Povo". "Era para ser um diário, mas passa a semanário e dura só três meses." Depois disso dá-se a reorganização do jornal da UDP "A Voz do Povo". João Carlos Espada, do comité central da UDP, vai dirigir o jornal e José Manuel Fernandes acompanha-o. Diz o jornalista que na altura já não se considerava maoista. "Lembro-me de dois momentos que me fizeram mudar de ideias: o enterro de Mao, em que a nova direcção apagou das fotos a viúva de Mao e os seus apoiantes (o chamado Bando dos Quatro)" e uma das purgas do poder na Albânia, em que foi expulso e posteriormente "suicidado", o antigo primeiro-ministro albanês Mehmet Shehu. "Essas coisas impressionaram-me, acusarem o tipo de triplo espião russo, da CIA e do Vaticano. Simplesmente não podia ser verdade", diz o jornalista. Era duro ser jornalista/militante. "Recebíamos menos que o salário mínimo. Tínhamos de fazer a lista das nossas despesas e davam-nos um salário de acordo com elas. Daí as discussões homéricas entre fumadores e não fumadores, porque os primeiros recebiam mais", lembra, sorrindo.

O trabalho na "Voz do Povo" não se fez sem incidentes. "A certa altura cindimos com o PC(R), o jornal chega a estar cercado", afiança. A "Voz do Povo" continua a ser impressa mais uns meses, até acabar o dinheiro. "Na altura passámos a imprimi-lo na sede do PSR." Na sua redacção passam nomes como Henrique Monteiro, ex-director do "Expresso", ou Manuel Falcão, que chegou a chefe de gabinete de Santana Lopes, quando este foi primeiro-ministro. Durante as eleições presidenciais de 1980, João Carlos Espada apela em editorial no voto em Otelo e José Manuel Fernandes, chefe de redacção, defende o voto útil em Soares Carneiro. O ano de 1981 vai encontrar os dois na fundação do Clube da Esquerda Liberal, com Pacheco Pereira e Manuel Villaverde Cabral. José Manuel Fernandes concorda que o processo de evolução política dos maoistas portugueses tem algum paralelo com a ida para a direita dos maoistas franceses que se converteram nos "novos filósofos", que defendem a economia liberal, mas realça algumas diferenças: "Em meu entender, a maioria dos maoistas pura e simplesmente saiu da actividade política. Votam PS ou até em partidos como o Bloco." Reconheça contudo que há um grupo, ao qual ele pertence, que evolui para "posições mais à direita".

A verdade é que, se nos livrámos do maoismo, não conseguimos fugir do poder dos ex-maoistas. Fortes nas universidades, fazem parte da actual elite do poder. Que o diga José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, que escrevia no "Luta Popular" de 2 de Abril de 1975, o artigo titulado "Que Viva Estaline", em que, para combater o desvio da "linha negra" de Maria José Morgado e Saldanha Sanches escrevia: "O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético; mal se falou em Estaline começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva." Se trocarmos "euro" por "Estaline", nem mudou assim tanto.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O JIM ERA MESMO O MAIOR


Macacos peludos na TV da bola
as meias-finais da taça do hóquei

aqui chegados
a escrita diz
o que a vida não diz
a feira da Ladra
na Cordoaria
voltámos a uma certa pureza
inicial
estamos condenados,
ó barbudo de Braga

há gajos que comparecem
em todos os lugares
mesmo nas assembleias de voto
abutres que se fazem às gajas
e que as ferem de morte
loucos que investigam
a tua escrita
América, América
estás aqui
trouxeste a tua banda de bêbados
e levas-me até Deus
até à boca da baliza
como quando marcaste nove golos
no pátio do liceu
levaram-te em ombros
para depois te abandonarem,
ó bicho da noite e dos copos,
agora estranhas o sol
e dizes tudo o que te vem à alma
como estás longe,
ó versejador da corte,
faço versos
à tua custa
banqueteio-me à tua mesa
desaprendo todas as maneiras
e o Sporting até volta a ganhar
és um grande filho da vida
as mamas abanam
e até te esqueces do que ias dizer
guitarradas no Piolho
sangue na arena
um preto invadiu o campo
um protagonista
para adicionar ao Garcia
Deus meu, tanta poesia
há no futebol!
Mesmo que seja de sala
e leve leitões
começo a ficar farto
do politicamente correcto
só vejo porrada
e gajos corpulentos
e polícias
camarada, agarra-te à guitarra,
somos do rock
estamos na estrada
vamos á procura
a bola já cá canta
e o Jim
era mesmo o maior.


Piolho, 18.6.2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

NO PASARAN

NO PASARAN

António Pedro Ribeiro

A Grécia. Sempre a Grécia. Da Grécia não levais nada, ó inquisidores, ó capitalistas. Na Grécia não há Medinas Carreira que vos valham, nem profetas da morte, nem economistas da treta, nem contabilistas. Na Grécia o povo bate-se nas ruas, enfrenta o poder e a polícia. Na Grécia não há meias-tintas. Na Grécia não há Passos Coelho, nem Cavacos, nem vendilhões, nem troca-tintas. Ou, se os há, estão em xeque. O povo combate nas ruas. O povo de Homero, de Sófocles, de Eurípedes, de Pitágoras, de Sócrates, de Platão, de Aristóteles não aceita mais a ditadura dos mercados e a escravatura da troika, da Merkel, do Obama, do Sarkozy. Um povo assim não pode cair. Um povo assim não cai na cantiga. Um povo assim dignifica o Homem na Terra. Um povo assim faz o homem. Sejamos todos gregos. Como no princípio. Pela civilização, pelo homem livre, pela Vida. No Pasaran.

terça-feira, 28 de junho de 2011

LIBERDADE


.
LIBERDADE



Vim ao mundo de graça

não tenho de pagar o que como

nem o que bebo

não tenho de pagar

a ponta de um corno

pela vida

nem tenho de trabalhar

para pagar o que como

e o que bebo

não tenho de me sacrificar

por coisa nenhuma

a vida é livre e gratuita

só faço o que quero

o que me dá na real gana



e é isto que vos tinha a dizer.

[texto realizado/enviado por A. Pedro Ribeiro no âmbito da queima do judas 2011, subordinada ao tema "Liberdade, Revolução de Abril e metamorfoses do Mosteiro de Santa Clara"]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

DESPEDIMENTOS NOS ESTALEIROS DE VIANA

Estaleiros Navais de Viana do Castelo: Traição consumada…despedimentos de 380 trabalhadores até ao final do ano

Durante a campanha eleitoral, o camarada Garcia Pereira à frente de uma delegação da candidatura esteve presente nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, num encontro com a CT. Neste encontro, o camarada afirmou a dado passo, “está em curso um plano de aniquilamento desta empresa. Por exemplo não tendo nenhuma perspectiva para os estaleiros e amanhã virem invocar o desequilíbrio económico-financeiro assim criado para justificar primeiro o lay-off, algumas rescisões voluntárias e depois um despedimento colectivo”, isto foi dito em 28 de Maio, em resposta às preocupações da Comissão de Trabalhadores, que acusava a novel administração, que a dita reestruturação que a empresa se preparava para fazer, com os seus homens de mão contratados recentemente, com currículos de desmantelamentos de outras empresas, era para efectivamente acabar com a empresa.

Menos de um mês, estas palavras vêm infelizmente comprovar-se, a administração anunciou ontem o plano com nome pomposo, de reestruturação, que irá provocar a saída, até final do ano, de 380 trabalhadores, dos actuais 720.


E como se esperava as desculpas são os prejuízos provocados pelas políticas sucessivas de desinvestimento no sector, provocado ostensivamente durante os últimos anos pelos diversos governos. E a continua descapitalização da empresa.


Os trabalhadores que se dizem “surpreendidos pela brutalidade dos números”, afirmam pela voz do coordenador da CT, António Barbosa, “se é para reduzir efectivos para tornar isto apetecível para um privado qualquer estrangeiro vir apoderar-se do que é nosso, obviamente que nem nós, trabalhadores, nem a comunidade vianense o vamos aceitar”.

Lembra que esta medida é aprovada “nas vésperas” da entrada em funções do novo Governo. “O que sai faz um favor fabuloso ao Governo que entra, tudo coordenado pela troika externa e interna”, denuncia mais adiante António Barbosa.


Na altura da visita da candidatura do nosso partido, o camarada Garcia Pereira sublinhou que seria um crime para a região e para o país deixar que os Estaleiros Navais fossem “abatidos ou desmantelados”.

A resposta dos trabalhadores que deve ter a máxima solidariedade dos sindicatos do sector, das centrais sindicais e de todos os trabalhadores que lutam contra a política da Troika, de terra queimada, tem de ser determinante na combatividade contra o governo que tomou posse hoje, mero gestor de negócios do grande capital.


Pela parte do nosso partido, os trabalhadores dos estaleiros terão todo o apoio e a solidariedade na luta contra esta traição, esta medida anti-patriótica e de vende-pátrias.

http://lutapopularonline.blogspot.com

A CAIR, A CAIR...


Agência mantém perspectiva negativa
Moody´s baixa rating do Banif para “lixo”
22.06.2011 - 11:03 Por Paulo Miguel Madeira

9 de 9 notícias em Economia
« anteriorA agência de notação (rating) de risco de crédito Moody´s baixou a classificação do Banif para Ba2, com perspectiva negativa, um nível que entra já na classificação de “lixo” no jargão dos mercados.
(Catarina Oliveira Alves (arquivo))

O anterior rating do Banif era de Baa3 (a última categoria dos investimentos considerados seguros), o que significa que o corte hoje anunciado é de dois níveis, sendo esta decisão justificada com os problemas financeiros que o Governo enfrenta, e que enfraquecem a sua capacidade para apoiar a banca.

A agência chama ainda a atenção para as crescentes incertezas por toda a Europa relativamente à vontades das autoridades para continuarem a apoiar as instituições que não sejam as mais importantes nos seus mercados.

A nota de crédito do Banif, tal como a do resto da banca nacional, está assim a ser penalizada também pela situação no país, dizendo a Moody´s que que se a nota de Portugal (que se encontra com perspectiva negativa) baixar, então é provável que a do Banif também volte a baixar.

Por outro lado, se o banco não conseguir com as novas exigências de capital em Portugal ou se a sua posição líquida, se não conseguir melhorar a sua rendibilidade e indicadores de eficiência, ou se a qualidade dos seus activos se deteriorar. A Moody’s não exclui que o Estado apoie o banco, mas considera que a sua dimensão não lhe permite ter garantias de apoio ao mesmo nível que os de maior dimensão.

A agência explica que a acção de hoje sobre a nota do Banif conclui em parte a revisão relativa aos bancos portugueses desencadeada em Abril. O Banif é assim o segundo banco português que cai na categoria de Lixo, depois de já ter atribuído Ba1 ao Montepio (um nível acima do Ba2 hoje dado ao Banif).

No entanto, o Millenium BCP tem também a sua nota de longo prazo em Baa3, e com perspectiva negativa, pelo que é possível que proximamente caía também na acategoria de lixo da Moody’s.


www.publico.clix.pt

quinta-feira, 16 de junho de 2011

MULHERES


Já começam a desconfiar que pertences
aos "gangues" do multibanco
as mulheres amam-te mas não
te entendem
é mesmo melhor que não lhes mostres
certas coisas
mesmo às mais belas
as mulheres, certas mulheres,
afinal começam a perceber-te
mas não te dirigem a palavra
praia, "Modelo", Umberto Eco
vá-se lá perceber as gajas
é certo que tens seguido
correntes machistas
continuas a não perceber
as mulheres
no liceu
na Faculdade,
quando as tinhas à mão,
eras tímido
ou tinhas depressões de sete meses
salvaram-se duas ou três
a loira fala, fala
vai ao carro
traz presentes
sou definitivamente diferente
das mulheres
Umberto Eco
fala-se de literatura
e de protectores solares
estão realmente mais à mão
a TV vomita violência
adoro a ignorância
das mulheres
sinto-me melhor do que as estrelas
mas, para já, não saco nada
sou louco
sensato de mais para este mundo,
princesa

ajuntamento de amigas
a Gotucha não está
amo-a de qualquer forma
apesar da loira fixe
ainda não está tudo morto
a menina benfeitora
em Pedras Rubras
as pessoas saem à rua
não têm medo da revolução
ah!Ah!Ah!
Coitados
mal sabem o que os espera...

LADY BABÁ (CANÇÃO)


Lady Babá
vais aqui, vais acolá
és aquela que dá

olhos selvagens
foges às ordens
à pose instituída
à TV dominical

lady Babá
és aquela que dá

melhor do que as vedetas
melhor do que os patetas
sangue ao rubro
eu na tua fogueira
dás-te inteira
dás-te inteira

lady Babá
aqui e acolá

Lady Babá
quero-te (dadá)

Lady Babá
quero-te já já...


Braga, 13.6.2011

REINO


A vossa vidinha de escravos
está a chegar ao fim
Maria, deixa o namorado
os tempos estão a mudar
podes até votar nos sociais-democratas
e nos liberais
podes fazer o teu número de prima-dona
de bairro
os tempos estão a mudar


Escutai, juízes, homens de lei,
coquetes televisivas
de nada vos serve apelar à Pátria
e ao folclore
de nada vos serve dar umas risadas
a populaça sois vós, homens pequenos
mesmo quando vos dizeis
revolucionários anti-sistema
agarrai-vos à nova barca
que o jogo está a virar

Vinde, profetas,
que não sois da morte nem da desgraça
já não há ditaduras do proletariado
nem proletariado
os cravos de Abril já eram
estamos em Maio
o homem voltou a aparecer na televisão
sabe perfeitamente
que esta é a sua era
a era que Agostinho da Silva profetizou
vinde, companheiros, camaradas,
escrevei o manifesto
da nova revolução

E vós, pequenos,
a vossa vidinha de escravos
está a chegar ao fim
deixai as telenovelas
deitai a bola fora
tendes vivido mortos
levantai-vos
ainda tendes uma última hipótese
de salvação
deixai o vosso trabalho escravo
a família
a televisão
talvez Jesus esteja aqui
a olhar para a gaja do lado
com desejos carnais
talvez falte pouco
para o muro começar a cair
a história começou
com o Roger Waters e os Pink Floyd
em 79/80
Cabeceiras de Basto
com o Berto, com o Carlos,
lembras-te?
Nunca mais foste o mesmo
não percebias muito bem
mas a mente começou a remoer
questionaste a máquina
mais tarde tornaste-te maldito
uma puta dos tascos e do rock
é natural que alguns te provoquem
te mandem bocas
que não gostem de ti
porque os incomodas
porque pões em causa
o status quo
mas este é o teu tempo, camarada
este é realmente o teu tempo,
acredita
tudo o que fizeste e disseste
até hoje
tudo isso hoje desabrocha
faz todo o sentido
mesmo os teus erros
tiveram uma razão de ser
este é verdadeiramente
o teu reino
poeta dos bares e das noitadas
olha como agora olham para ti
não caias
não esmoreças
a tua loucura é necessária
para mudar o mundo
este é o reino
escuta
dança
celebra
este é o reino
não mais escravos
não mais meias-tintas
o homem que escreve
é o homem que age
o homem que escreve
é o homem que nasce.


V. N. Telha, 24.5.2011

BEM-VINDOS À REVOLUÇÃO, AMIGOS



Gregos invadem as ruas em protesto contra novas medidas de rigor
15.06.2011 - 13:16 Por Inês Sequeira, com AFP

Milhares de gregos estão a invadir hoje as ruas de Atenas, numa manifestação gigante que tenta impedir a aprovação de um novo plano de austeridade pelo parlamento e que já provocou alguns feridos em confrontos com a polícia.
A polícia junto ao Parlamento grego

(Foto: Yannis Behrakis/Reuters)

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Em causa estão as medidas que começam a ser debatidas hoje no Parlamento, destinadas a assegurar que a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional irão emprestar novamente dinheiro ao Estado grego.

Armados de cornetas, panelas e apitos, os manifestantes estão a fazer pressão sobre os polícias de intervenção que montaram guarda ao edifício do Parlamento, num dia de greve geral –a terceira deste ano - que colocou a meio gás os serviços administrativos, os transportes e os estabelecimentos de comércio.

De acordo com a polícia, citada pela AFP, são cerca de 20.000 os gregos que desceram às ruas da capital, mas os média locais referem o dobro de manifestantes.

Alguns recontros entre populares e as forças de segurança, com os primeiros a atirarem tijolos e cocktails molotov e a polícia de intervenção a responder com gás lacrimogéneo, provocaram hoje ao final da manhã pelo menos uma dúzia de feridos.

No entanto, apesar do gás lacrimogéneo que enche de fumo a praça do Parlamento, muitos gregos optaram por permanecer no protesto e no acampamento que ocupa uma parte do espaço da praça Syntagma já há três semanas.

Apesar da pressão, o primeiro-ministro grego, Georges Papandreou, declarou hoje que o governo “vai assumir as suas responsabilidades”, procurando chegar a um entendimento com a oposição sobre as medidas de austeridade.

“Assumimos as nossas responsabilidades para com o povo e com o país, vamos continuar a avançar e a tomar as medidas necessárias para tirar o país da crise”, declarou hoje Papandreou ao chegar ao palácio presidencial, onde se ia encontrar com o Presidente Carolos Papoulias no âmbito do novo plano.

Ao pé do Parlamento, na praça Syntagma, o espaço está ocupado por estandartes e bandeirolas gregas e espanholas, que destacam apelos à resistência: “No passaran” (“Não passarão”, em espanhol) e “Resistam” são algumas das palavras de ordem.

“Não se trata apenas de um problema económico, é também um problema moral e político”, disse à AFP um empregado bancário.

Têm ocorrido também alguns conflitos entre polícia de intervenção e manifestantes, que procuraram formar um “cordão” humano em torno do Parlamento mas não conseguiram ter sucesso e impedir os deputados de entrarem no edifício.

Apesar dos apelos à calma dos organizadores do protesto, vários manifestantes atiraram pedras à polícia e no final da manhã tentaram romper a barreira que circunda o Parlamento, mas foram repelidos com gás lacrimogéneo pelos agentes das forças de segurança.

O protesto está a ser conduzido pelo movimento de protesto popular dos “indignados”, lançado a 25 de Maio em solidariedade com o movimento espanhol que ostenta o mesmo nome, mas também participam movimentos de esquerda e da direita nacionalista.

Durante a última noite, as forças de segurança montaram uma barreira na rua que dá acesso ao Parlamento, diante da entrada do Parlamento. Dezenas de carrinhas da polícia estão ali estacionadas.


www.publico.clix.pt

terça-feira, 14 de junho de 2011

GARCIA PEREIRA

Antes de mais, a monumental e expressiva derrota de Sócrates (tendo o PS perdido meio milhão de votos) foi uma coisa boa e altamente positiva para o Povo Português, que assim se livrou de um verdadeiro ditador que liquidou o País nos seus seis anos de governação e que nem no discurso da noite da derrota deixou de evidenciar o estado de completa alucinação em que se encontra.



Por outro lado, a constituição de um Governo de coligação da direita (PSD e CDS) - e para além de que convirá recordar aqui o facto de que tal tipo de coligações não tem normalmente chegado ao fim da respectiva legislatura … - torna bem mais claras as coisas daqui para diante, deixando os campos de luta perfeitamente demarcados, sem peias ou nuvens de fumo de pretensos “amigos dos trabalhadores” como Sócrates e companhia: de um lado, estará o Governo PSD/CDS a aplicar o programa de medidas da Troika e do outro os trabalhadores e as forças políticas e movimentos de esquerda a combaterem esse programa.


De igual modo não é verdade que “a esquerda tenha perdido estas eleições”. Desde logo porque o PS não é de esquerda mas de direita e, aliás, foi exactamente por isso que foi tão humilhantemente derrotado. E ademais, o que é hoje claro, é que, com essa derrota humilhante de Sócrates e a solidariedade e apoio que lhe foram prestados pela denominada “ala esquerda” do PS (em vez de se ter reclamado como vencedora na noite eleitoral por a política direita de Sócrates ter sido veementemente condenada nas urnas), o que muito provavelmente se verificará agora não é qualquer viragem à esquerda do PS, mas sim uma sua viragem ainda mais à direita. Aliás o ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado, muito significativamente, falou já na necessidade dum “choque liberal” no PS…


E dos partidos da área da esquerda quem foi afinal fragorosamente derrotado foi o BE, pois que perdeu metade dos votos e metade dos deputados. E foi-o, não por ter uma política de esquerda, mas exactamente por ter uma posição hesitante e oportunista acerca das questões políticas essenciais, a começar pela do não pagamento da dívida, e por não se ter apresentado como querendo ser Governo ou formar Governo com quem quer que fosse. Em contrapartida, o PCP/CDU, porque procurou manter uma posição mais firme face à Troika e se ateve mais à necessidade de combater as respectivas medidas, conseguiu ainda assim segurar o respectivo eleitorado.


O PCTP/MRPP – que foi, recorde-se, o único partido a defender clara e consequentemente o não pagamento da dívida e a apresentar um programa de Governo democrático patriótico – reconfirmou a sua posição de primeiro partido extra-parlamentar, atingindo mais de 62.400 votos, o que mostra uma tendência para o seu crescimento contínuo, pois representa uma subida de 20% em relação aos resultados de 2009 e de 30% em relação aos de 2005, tudo factos completamente ocultados pela generalidade da Comunicação Social.


Tal resultado eleitoral – para mais obtido face a uma nunca vista operação concertada de silenciamento e mesmo de provocação contra a candidatura do PCTP/MRPP – constitui, não obstante a não eleição de deputados, um êxito assinalável. E a subida geral de votos e em particular o aumento em 50% do votos alcançados no distrito de Lisboa mostram que, a fazer-se um bom trabalho nestes próximos anos e a conseguir-se desta forma manter e mesmo acentuar esse ritmo de subida, a agora não atingida eleição de um deputado pelo círculo de Lisboa está perfeitamente ao nosso alcance.


Por fim, estas eleições serviram também para demonstrar outros dois pontos, que não devem deixar de merecer a nossa reflexão.


O primeiro é o de que, embora importantes, os meios de comunicação social, e em particular as televisões, não são tão relevantes quanto por vezes se pensa e os próprios julgam. Na verdade, os partidos políticos extra-parlamentares que aceitaram ir aos debates discriminatórios promovidos pelas três televisões não subiram por isso de votação e o que teve maior tempo de antena, aliás à boleia da providência cautelar intentada e ganha pelo PCTP/MRPP, ou seja, o MEP, sofreu mesmo uma enorme derrota eleitoral.


O segundo é o de que epifenómenos de candidaturas e partidos sem ideologia politica e sem programa e que tudo apostam nesse mesmo vazio ideológico ou no folclore e até na provocação, após algum sucesso momentâneo e apesar de quase sempre levados ao colo por uma comunicação social empenhada em com eles demonstrar que só vale a pena debater com os partidos do parlamento, acabam sempre por se esvaziarem por completo – foi assim com o PRD há mais de 20 anos atrás; foi assim agora com o PND e o PTP (o ex e o actual partido do tão mediaticamente promovido Coelho), e será decerto assim com todos aqueles que, como o PAN, cegos por uma aparência de instantâneo sucesso, logo se apressaram a proclamar que tinham alcançado em meses o que outros não teriam conseguido em décadas…









Agora, do que se trata é de, com o entusiasmo e a convicção que a análise reflexiva dos resultados eleitorais e da situação política actual nos impõem, prosseguir a defesa firme do não pagamento de uma dívida que o Povo Português não contraiu nem foi contraída em seu benefício, e que aliás é impossível pagar, bem como a constituição de um Governo democrático patriótico, com um programa de desenvolvimento da economia nacional e de combate ao desemprego. E de integrar, fortalecer, organizar e dirigir a resistência e a luta dos operários e demais trabalhadores, dos jovens, das mulheres, dos idosos e reformados contra todas e cada uma das medidas da Troika, cuja exacta dimensão e gravidade foram propositadamente escondidas (pela própria Troika, pelos partidos que a apoiam e pela comunicação social ao seu serviço) até ao dia das eleições e que só agora vão começar a ser reveladas.


E uma dessas lutas deverá ser a luta contra a privatização da TAP (http://bloggarciapereira.blogspot.com/2011/05/tap-nao-pode-ser-privatizada.html) e contra a sua entrega, directa ou indirecta, à Iberia.


A luta continua, pois!