sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A MALDADE


Há alturas em que a maldade se apodera de mim. Apetece-me incendiar aldeias inteiras, pilhar, saquear, roubar as velhotas e os endinheirados. Há alturas em que não tenho lei, em que me apetece destruir tudo. Afinal de contas, não tenho quase nada e eles têm tudo. Tenho uma casa, é certo, não durmo na rua. Mas não tenho dinheiro para almoçar fora nem para comprar livros na livraria, nem para comprar discos, nem sequer para andar de bar em bar noite fora. O que me vale é que tenho amigos que me vão pagando os copos. Mas há alturas em que a maldade se apodera de mim. Quero ver tudo a arder, como Nero. O dinheiro também poderia arder todo e estes gajos ficavam aos papéis. Não suporto mais a vidinha pacata desta gente, não suporto mais a segurança do lar, das telenovelas, do futebol. Não os suporto mais. Só quero ver o país e o poder a arder. E, já agora, dai-me uma gaja para curtir. Eu só quero ver o poder a arder. Telefono às amigas mas estão todas ocupadas. Estou farto da rotina do Piolho. Estou farto das aulas de alemão. Estou farto do que estes gajos me dão. Quero ver as bombas a rebentar. EStou farto deste faz de conta, desta paz pode, deste beber copos sem partir vidros ou pichar paredes. Estou farto da normalidade. Quero aparecer na televisão de cocktail molotov na mão. Estou farto do Tiero e da poesia dos cocós. Estou farto da corte do forrobodó. Apetece-me mesmo incendiar a cidade. EStou farto do porreirismo e da nacional-unidade. Quero apedrejar os bancos e os mercados. Quero deixar de ser bonzinho. Quero ver o poder a arder, os faraós empalados, a humanidade a renascer. Faço pactos com Sade e Satã. Quero bombardear os estádios e a televisão. Quando a maldade se apodera de mim...

GAJAS


A mulher insulta o mundo lá fora. Os putos entram. Não há gajas para mim. Limito-me a beber. A gaja levanta-se. Ontem andei à deriva por aqui, fui ao Púcaros e acabei em casa. Hoje poderia andar, de novo, à deriva. Mas não há gajas para mim. Nem o chato do costume aparece. Está mesmo na hora de começar a pregar. Como Jesus, como Sócrates. Não páram de entrar gajas mas não vêm para mim. As gajas que eu conheço trabalham muito, não são como estas. Eu é que nada tenho a ver com isso dos empregos e das ocupações. Estou aqui livre mas entediado. A Mónica não vem mais. Vou põr-me na alheta.

A REVOLUÇÃO NÃO DESARMA


“O Exército tem de salvar o país agora”, diz ElBaradei
Mubarak recusa sair e deixa Egipto à beira da explosão
10.02.2011 - 23:18 Por Sofia Lorena

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« anteriorA uma tarde de expectativa seguiu-se uma noite de desilusão e raiva no Egipto. A praça Tahrir encheu-se como nunca em antecipação do discurso de Hosni Mubarak e gritou em desespero ao perceber que ele não se demite.
“Liberdade ou morte”, gritava-se na praça Tahrir (Goran Tomasevic/REUTERS)

“O Egipto vai explodir. O Exército tem de salvar o país agora”, escreveu no Twitter depois das dez da noite o opositor Mohamed ElBaradei, ecoando os avisos de muitos.

Ao décimo sétimo dia de protestos, quando todos esperavam que Mubarak anunciasse que deixava o poder, o homem à frente dos destinos do Egipto há três décadas afirmou antes comprometer-se com uma “transferência de poderes a quem vencer as eleições de Setembro".

O ainda Presidente prometeu emendas na Constituição e anunciou a transferência de poderes para o vice-presidente – não ficou claro se Mubarak passou todos ou alguns poderes a Omar Suleiman, nem que poderes foram transferidos. Segundo o embaixador egípcio nos Estados Unidos, Sameh Chukri, Suleiman é agora o “presidente de facto” e “Mubarak um presidente de direito”.

Para terminar, o Presidente lembrou que serviu o Egipto a vida toda e garantiu que não deixará o solo egípcio “até ser enterrado debaixo dele”, enquanto na praça Tahrir, epicentro dos protestos no Cairo desde o primeiro dia, centenas de milhares gritavam “Sai, sai, sai”. As últimas frases do discurso que chegava à Tahrir projectado numa faixa branca já tinham sido quase inaudíveis. “Vai-te embora”, era a frase cada vez mais repetida.

Os manifestantes continuaram a gritar e muitos ergueram na mão os seus sapatos – um sinal de especial falta de respeito entre os muçulmanos.

Muitos permaneceram na praça, outros iniciaram marchas – para a televisão estatal, para o palácio presidencial – enquanto os líderes da oposição e os analistas se mostravam absolutamente surpreendidos com o discurso e temiam antecipar cenários.


Insulto à inteligência dos egípcios
“O meu palpite é que veremos manifestações massivas em muitas cidades – não apenas no Cairo – na sexta-feira, dia tradicional de protestos. Na verdade, Mubarak e Suleiman acabaram de insultar a inteligência do povo egípcio – e eles vão responder. O regime conseguiu galvanizar os manifestantes e talvez esteja a cometer um suicídio”, escreveu Nicholas Kristof num blogue do jornal “The New York Times”.

As palavras de Mubarak soaram como inacreditáveis a quem tinha acompanhado as últimas horas no Egipto. Primeiro o Exército anunciara para breve “ordens que vão agradar ao povo”. Quase em simultâneo, o novo secretário-geral do partido no poder, o Partido Nacional Democrático (PND), Hassan Badrawi, dizia que Mubarak poderá "responder às reivindicações do povo" até sexta-feira.

Em declarações à BBC, Badrawi não parecia deixar margem para dúvidas, garantindo que era seu desejo ver Mubarak abandonar o poder e que essa é “a posição de todo o partido”.

Pouco depois, num comunicado, os militares consideravam “legais e legítimas” as reivindicações do povo egípcio, que desde 25 de Janeiro pede nas ruas a saída do Presidente Mubarak. O Exército afirmava ainda “o seu compromisso e a responsabilidade pela salvaguarda do povo e pela protecção dos interesses da nação, e o seu dever em proteger as riquezas do povo e do Egipto”.

Seguiram-se especulações sobre a possibilidade de estar em curso um golpe militar – num cenário em que Mubarak tivesse tentado transferir os seus poderes para Suleiman e o Exército recusasse esta transferência.

Apanhado numa audiência no Congresso, o director da CIA, Leon Panetta, afirmava ser “muito provável que Mubarak abandone o poder esta noite”. Pouco antes do discurso de Mubarak, já depois das 19h00 (21h00 em Lisboa), o Presidente Barack Obama afirmava que “estamos a testemunhar história à medida que ela acontece”.

Entretanto, na praça Tahrir cantava-se, dançava-se e assobiava-se. Através do Twitter, Wael Ghonim, o executivo da Google que se tornou uma poderosa figura de liderança dos jovens que pedem a saída de Mubarak, escrevia “Missão cumprida. Obrigado a todos os corajosos egípcios”.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

PERMANECES, ANÍBAL

Campanha eleitoral marcada pelos estilhaços do BPN
Cavaco comprou acções da SLN a um preço mais baixo que os accionistas
08.01.2011 - 10:52 Por Rosa Soares, Raquel Almeida Correia

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« anteriorseguinte »A polémica compra de acções da SLN por Cavaco Silva tem estado centrada no valor de venda; mas é sobre o valor de compra que ainda subsistem dúvidas.
Cavaco Silva numa acção de pré-campanha, em Novembro de 2010 (Foto: Pedro Cunha)

Meses antes de Cavaco Silva ter comprado acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN, que controlava o capital do BPN), a empresa tinha realizado um aumento de capital. Aí, no dia 24 de Novembro de 2000, o valor dos títulos foi fixado em três categorias: a 1,8 euros para venda aos accionistas, a 2,2 euros a outros investidores e a um euro para um lote de acções que Oliveira Costa reservou para si e para algumas sociedades do grupo, entre as quais a SLN Valor. Deste lote de acções a um preço inferior ao que fora fixado para os accionistas, 105.378 acabaram por ser vendidas a Cavaco Silva, que na altura estava afastado de qualquer cargo de responsabilidade política.

Dado que a SLN Valor não estava cotada em bolsa, a referência para o preço de compra das acções realizada por Cavaco Silva acaba por ser o do último aumento de capital da SLN. Uma vez que o investimento do candidato foi realizado em 2001, desconhecendo-se o mês e dia em concreto, e o último aumento de capital foi realizado em Dezembro de 2000, regista-se uma proximidade temporal muito grande.

A operação de aumento de capital, realizada pela emissão de 200 milhões de acções, foi realizada em três modalidades. Uma das fatias do aumento de capital, no montante de 35 milhões de acções, foi reservadas aos accionistas, ao preço de 1,8 euros por acção. O valor nominal da cada acção era de um euro, pelo que os accionistas pagaram um prémio de 80 cêntimos acima desse valor. Outra fatia, no montante de 92 milhões de acções, foi destinada a uma lista de investidores, identificada em documento anexo à acta da assembleia geral, onde figuravam Abdool Vakil, Dias Loureiro, José Roquette, entre muitos outros. Para estes, o preço por acção foi fixado em 2,2 euros, pagando, assim, um prémio de 1,2 euros.

A última tranche, a maior, no montante de 108 milhões de títulos, foi colocada a um euro, ou seja, sem qualquer prémio de subscrição. Segundo a escritura de aumento de capital a que o PÚBLICO teve acesso, esta fatia foi destinada a um conjunto de investidores, identificados numa lista anexada à acta da assembleia geral de accionistas de Novembro. Dessa lista de subscritores de acções ao preço especial de um euro fazia parte o nome de Oliveira Costa, presidente e accionista da SLN, e do BPN, e mais três sociedades instrumentais do mesmo grupo: a SLN Valor, a SLN Participações e a NextPart.

Quem vendeu as acções?

Na acta da assembleia, é referido que a compra de acções da SLN por parte da SLN Valor estava relacionada com o projecto de admissão à bolsa da casa-mãe, e que a subscrição por parte da NexPart estaria relacionada com acções a subscrever por quadros, como forma de premiar o seu desempenho. Não é perceptível a razão por que Oliveira Costa compra acções a um euro, quando o valor fixado para os accionistas em geral é de 1,8 euros. A questão chegou a ser colocada na assembleia geral por um accionista, mas a resposta do então presidente está omissa na acta.

Chegados a este ponto, percebe-se que o valor de um euro fixado para as acções de Cavaco tinha um precedente muito recente. Quem vendeu as acções ao ainda Presidente da República, não se sabe. O PÚBLICO apurou que os accionistas não foram informados sobre as operações de venda das acções por parte de algum accionista com vista a satisfazer a compra de Cavaco, como obrigam os estatutos, ao abrigo de um direito de preferência na movimentação de acções.

Em declarações ao PÚBLICO, um antigo accionista da SLN, que pediu anonimato, explicou que a venda, ou foi ilegal - venda directa de um accionista sem a respectiva comunicação aos restantes - ou foi feita através de uma das sociedades instrumentais, que de acordo com os mesmos estatutos (artigo 7.º) estavam isentas de prestar informação sobre compra e venda de acções. As sociedades isentas dessa comunicação eram as que subscreveram acções a um euro.

Só Cavaco comprou acções a esse preço? Não. Vários investidores e mesmo alguns accionistas da empresa têm admitido que compraram acções da SLN a um euro. O mesmo ex-accionista da SLN explicou ao PÚBLICO que Oliveira Costa atraiu, durante vários anos, muitos investidores para a SLN, através da venda de acções a um preço relativamente baixo, com a promessa de altas rentabilidades em poucos anos. "Da mesma forma que se ofereciam rentabilidades de 10 por cento em depósitos a prazo, a cidadãos desconhecidos, o antigo presidente oferecia rentabilidades anuais de 20, 30 ou 40 por cento a grandes investidores", explicou a mesma fonte.Muitos desses contratos foram reduzidos a escrito, através de contratos de recompra, de que há vários casos tornados públicos, como será o caso da situação denunciada ontem por Paulo Portas (ver texto na Economia). Muitas outras promessas de rentabilidade eram meramente verbais, apesar da legislação de banca de investimentos exigir a sua redução a escrito.

Até ao momento, ainda não foi possível saber se a ordem e condições de investimento dadas por Cavaco foram objecto de contrato escrito. O que se sabe é que Cavaco escreveu ao presidente do conselho de administração da SLN, Oliveira Costa, a solicitar que procedesse à venda das respectivas acções, de que era titular através de conta no BPN. Apesar do silêncio de Cavaco, que se recusou a aceitar o repto dos restantes candidatos para que dissesse a quem vendeu e quem fixou o preço, a questão foi esclarecida com a divulgação do referida carta. É que Oliveira Costa autorizou a compra das acções pela SLN Valor, ao preço de 2,40 euros por acção.

Como é que o ex-presidente do banco chega a este valor? Não se sabe. Sabe-se apenas que não é muito mais do que o preço máximo a que foram vendidas acções no aumento de capital de 2000 e que há vários contratos de recompra com valores superiores, que chegam aos três euros. Ontem, em declarações à TSF, o actual presidente da SLN Valor e membro da Comissão de Honra de Cavaco disse que, "para o que se praticava na altura", o valor pago a Cavaco estava até "abaixo da maioria das compras". Sobre o timing da saída, Alberto Queiroga Figueiredo deixa no ar a possibilidade de Cavaco ter "tido um feedback de que as coisas não estavam a correr bem".

Cavaco teve seguros e fundos no BPN em 2005

Além das acções da SLN - Sociedade Lusa de Negócios, dona do BPN, que deteve em 2002 e 2003, Cavaco Silva esteve directamente ligado ao BPN enquanto cliente pelo menos em 2005 e 2006, de acordo com as declarações de património que entregou no Tribunal Constitucional - e que o candidato já recomendou, várias vezes, aos seus concorrentes que consultem.

O PÚBLICO consultou as que estão disponíveis, referentes à sua candidatura anterior (sobre rendimentos de 2004), entrada para o cargo de Presidente da República (rendimentos de 2005), e actual candidatura (2009).

Em Novembro de 2005, quando se candidatou, Cavaco tinha seguros de capitalização do BPN no valor de 210.634 euros.

Seis meses depois, ao assumir a Presidência, declarou possuir uma conta no BPN à qual estavam associados vários fundos de investimento: 483,310 unidades de participação do fundo Quam Multimanager 10%; 578,034 do Quam Multimanager 5%; e ainda 817,140 unidades do SISF Euro Cash Enhanced Return Portfolio. De acordo com informação de sites especializados em fundos de investimento, cada unidade dos Quam Multimanager valia então no mínimo 110 euros e, apesar de na declaração, preenchida à mão, o número de participações aparecer com vírgulas, entende-se que sejam sempre na ordem das centenas.

A declaração mais recente, feita a 14 de Dezembro último, não tem qualquer referência ao BPN.

Uma leitura conjunta das três declarações mostra que Cavaco Silva é um investidor diversificado e trabalha com quatro bancos: BCP, BPI, CGD e Montepio. Tem, há vários anos, dezenas de milhares de acções da banca (BCP, BPI), EDP, Jerónimo Martins, Brisa, PT, Zon, Sonaecom, a que se somam obrigações, variados fundos de investimento (milhares de unidades de participação), obrigações, PPR no valor de 52.583 euros, depósitos à ordem no valor de 56 mil euros, e a prazo no valor de 560 mil euros. Mas declara dever "ao Banco de Portugal 14.421 euros fruto de empréstimo bancário". Maria Lopes

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POIS, POIS


Taxa exigida para comprar dívida portuguesa a 10 anos ultrapassa 7,5%
Lisboa, 10 fev (Lusa) - A taxa de juro exigida pelos investidores para comprar títulos de dívida soberana portuguesa a 10 anos abriu hoje a subir para...



Taxa exigida para comprar dívida portuguesa a 10 anos ultrapassa 7,5%
Lisboa, 10 fev (Lusa) - A taxa de juro exigida pelos investidores para comprar títulos de dívida soberana portuguesa a 10 anos abriu hoje a subir para novos máximos históricos e já supera os 7,53 por cento.

Às 08:39, a yield exigida pelos investidores para comprar, no mercado secundário, títulos de dívida soberana com maturidade a dez anos negociava nos 7,41 por cento, de acordo com a Bloomberg, valor que se agravava passados pouco mais de 20 minutos (às 09:02) para os 7,53 por cento.

A taxa genérica da Bloomberg indicava um aumento para os 7,468 por cento (09:02), valor superior aos máximos desde a entrada no euro atingidos na quarta-feira, de 7,361 por cento.

Esta taxa segue a negociar pelo quinto dia consecutivo acima dos 7 por cento, estando o 'spread' face à dívida alemã com a mesma maturidade a agravar-se para os 426,3 pontos base.

NM.

Lusa/fim

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POETA E VADIO


Parece que recuperei o talento para a poesia. Escrevi poemas madrugada fora e dediquei um à menina simpática do café das piscinas. Sorri para mim. Tem muita alma a menina loira. Não dizes que queres filhos? Faz-te à moça, faz-te à moça, que isto está a voltar aos templos bíblicos. Permanece aqui em Braga mais umas temporadas. Bebe. Saboreia. A vida sorri para ti. Nada tens a perder. Escreves bons poemas. Poucos são capazes de o fazer. Tens esse dom. Queres filhos? Procura a mulher. Será esta? Voltaste a ser o poeta. Compras cadernos nas papelarias. Bebes finos à saúde da menina. Olhas para as outras. Queres as fêmeas jovens. Queres compreendê-las. Entrar no mundo das telenovelas, do facebook, da moda, no mundo delas. Afinal de contas, não tens obrigações, nem compromissos. As leis pouco te dizem. És o homem da liberdade, já o tens dito. Gostas de Jesus mas não de tudo. Continuas a ser infame, insolente. Não tens profissão remunerada. Mas vais-te fazendo às gajas. Às que te agradam. Também Jesus amou Madalena e a samaritana. Parece mesmo que voltamos aos tempos bíblicos ou aos tempos da cavalaria, Quixote, Dulcineia. Nada deves aos poderes do mundo nem escreves pior que os colunistas dos jornais. ÉS até uma espécie de santo, como diziam de Nietzsche. Fazes declarações de amor às empregadas de mesa, em vez de as fazeres ao primeiro-ministro. Achas-lhe piada. Deve te namorado ,mas como disse há dias uma amiga do facebook, os namorados não servem para escrever poemas. Para isso estão aí os poetas. Alguns deles, como este, têm a sua loucura. Não abdicam dela. Fazem até questão de a exibir em certas ocasiões. De qualquer modo, há cerca de 24, 25 anos que venho a esta zona das piscinas. Noutros tempos ia mais ao "Farol". Agora ando a marcar o território, a redescobrir a cidade. As mulheres jovens interessam-me. Não é somente uma questão sexual. Procuro chegar a elas. Falar com elas. Compreendê-las. Tentá-las fazer compreender o poeta sem emprego, o cronista não remunerado, aquele que nem sequer se peocupa em aranjar emprego, o vadio de Agostinho da Silva. Sou vadio, isso mesmo. Poeta e vadsio. Com todo o gosto. Muitos invejam a minha vida. Deixei de ter grandes preocupações. Mesmo que tenha só uns trocos no bolso. No bolso e não na bolsa. Sou inimigo de classe desse mundo. Sónia, é o nome dela. Distribui cafés e sorrisos. E eu aqui a pensar que sou magnífico, que estou a escrever um tratado sobre a vida quotidiana. Voltei a ser apenas o poeta que escreve versos às meninas. Que telefona a umas, que fala a outras pelo facebook, que toma café com elas, que as encontra nas noites de poesia. Nada disto tem a ver com a guerra Porto-Benfica. Nada disto tem a ver com os fanáticos da bola que se insultam nos estádios e nos cafés. Estou um pouco acima. Faço-me às gajas dos jovens. Meto-me no mundo deles. Não envelheci espiritualmente, apesar da asma, da apneia e da barriga inchada. Para que hei-de perder tempo a falar de economia e de futebol? Nunca fui muito equilibrado, já o dizia o meu pai. Se tivesse mais dinheiro, pediria mais finos. Gastei-o no caderno. Até pareço um cidadão exemplar, cumpridor. Mas a verdade é que não o sou. Ando a torcer pela revolução mundial com epicentro no Egipto. A ver se o Faraó cai. A menina também tem a sua dose de loucura. No outro dia chamou-me "mauzinho" por eu não ter trocos. Hoje falta-me a nota mas tenho os trocos. Não dormi quase nada esta noite. Levantei-me às 4,30 para escrever, saí de casa às 8 da matina. Agora sinto algum cansaço. Mas não me arrependerei jamais de ser aquele que sou.

O POETA NA BRASILEIRA


O poeta está, de novo, na "Brasileira". Desta feita, no andar de cima. Observa os jovens. Tenta compreendê-los. Tenta perceber de que lado estão. Desenham. O poeta, em tempos, também desenhava e bem. Depois perdeu o jeito e a prática. Permanece em Braga porque pressente que aqui alguma coisa está para acontecer. É a primeira vez que o poeta está nesta sala. Só tem dinheiro para um café. A revolução do Egipto desperta-o, enche-o de força e de vontade. O poeta acredita que está no mundo para o mudar. O caderno está a acabar. Está a formar um partido, um anti-partido. Petende fazer a revolução. Mija. É belo, apesar da barriga. Quer desenvolver actividades artísticas e o terrorismo poético aqui em Braga. Quer chegar aos jovens. Acredita no renascimento do homem. Está a viver os melhores dias da sua vida mas falta-lhe o poder da embriaguez. Os companheiros, as companheiras estão longe, estão na net. O poeta lança os seus textos ao mundo. Semeia. Está na cidade de Braga, na "Trip na Arcada". O poeta quer permanecer em Braga. Pensa que será aqui que o renascimento se vai dar. Ouve os jovens. São estes mesmos jovens que fazem a revolução no Egipto. O poeta ainda não está velho nem precisa de psicólogas imaturas. O poeta não tem que tabalhar. O seu trabalho é este. Criar e agitar. O poeta olha para os jovens. Actualmente é mais conhecido na Póvoa do que aqui em Braga. Na Póvoa afrontou o poder. Está em tribunal. O poeta olha as janelas da rua de S. Marcos. Quer algo de maior, algo de absolutamente superior. O poeta é de Nietzsche. Olha as hoas. Talvez devesse caminhar pela cidade. É isso que faz.

REVOLTA EM PORTUGAL

Portugal: Revolta anunciada
Enviado a 7 Fev 2011, por Face oculta
em Poder e autodeterminação
Portugal: Revolta anunciada

Movimento no Facebook quer juntar um milhão na Av. da Liberdade em Lisboa

Um milhão na Avenida da Liberdade pela demissão dos políticos já juntou mais de 11.000 pessoas.
O mais recente grupo de contestação do Facebook afirma chegar ao 1 milhão muito em breve - "1 milhão de pessoas na rua pela demissão de toda a classe politica".
O objectivo deste grupo junta anónimos insatisfeitos com a situação do país de várias orientações políticas, insatisfeitos com o sistema politico.
"A miséria, a injustiça, a exploração, a dominação, o poder, o sexismo... provocam quotidianamente nossa indignação e nossa vontade de não permanecer passivos. Mas se a revolta individual é o ponto de partida de toda tomada de consciência, de todo engajamento, ela sozinha não pode conduzir a grande coisa. Para transformar a realidade, devemos dar-lhe um sentido...
Passar da revolta à revolução é sermos capazes, ao mesmo tempo que lutamos contra esse sistema que nos sufoca no nosso quotidiano, de abrir as perspectivas de um outro futuro, propor um projecto social, um futuro em ruptura com aqueles que nos prepararam. Nossa contestação radical da sociedade actual acompanha-se da profunda convicção de que uma sociedade de liberdade e de igualdade é possível e realizável".

INDYMEDIA

CAI, SÓCRATES, CAI


Parlamento

PCP admite apresentar moção de censura e PSD não exclui hipótese de a apoiar
08.02.2011 - 07:18 Por Leonete Botelho, Sofia Rodrigues

Bloquistas garantem que não se vão colocar na posição de "facilitar a vida à direita portuguesa". PSD afasta, por enquanto, o cenário de derrube do executivo.
Jerónimo de Sousa tomou a dianteira da iniciativa política (Foto: Enric Vives-Rubio)

Jerónimo de Sousa deu o passo que faltava para colocar na agenda política o cenário de derrube do Governo de José Sócrates, admitindo pela primeira vez o apoio do PCP a uma moção de censura apresentada pela direita. Mas ontem, Bernardino Soares, o líder parlamentar, foi mais longe, admitindo que os comunistas podem tomar a iniciativa de avançar com uma moção de censura. Que teria o apoio do PSD.

Sem se querer pronunciar abertamente sobre qualquer dos cenários, o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, afirmou ao PÚBLICO que, "se Portugal estiver num impasse político, o PSD estará sempre do lado da solução e não do lado do problema". E deixou claro que soluções são precisas para o país, ao afirmar que "Portugal precisa de reformas estruturais, e o PSD já demonstrou que, mesmo na oposição, está disposto a viabilizá-las, mas também já percebemos que não é este o caminho que o Governo quer seguir". Com estas respostas, o PSD deixa claro que, neste momento, não tem vontade de apresentar qualquer moção de censura, mas não deixará de assumir responsabilidades caso a questão se venha a colocar.

Depois de Paulo Portas ter deixado claro que não será pelo CDS que uma moção de censura, venha ela de onde vier, não será aprovada, agora é a vez do PCP ser transparente nessa intenção. Para aprovar uma moção de censura é necessária uma maioria de 116 deputados (em 230), ou seja, são precisos os votos favoráveis do PSD (81) e do CDS (21), mas também de uma das bancadas da esquerda - PCP (15) ou BE (16). Na prática, Jerónimo de Sousa coloca a pressão em cima do PSD. Mas se das declarações de Jerónimo se subentendia um "convite" para que o PSD assumisse uma censura ao executivo, já as explicações de Bernardino Soares deixam aberta a porta para a moção própria.

"Olhando para as políticas em perspectiva como a alteração à legislação laboral, ou a aceitação de imposições da União Europeia de maior gravidade, não podemos deixar de ter em cima da mesa" essa possibilidade, defendeu. Questionado sobre se a realização de eleições antecipadas poderá favorecer o PSD, o líder parlamentar dos comunistas afirmou que o PCP não "fica refém de uma lógica de que, mesmo fazendo o PS a política mais desgraçada, tem de se resignar". "Não temos medo que o povo se pronuncie, não branquearemos a política de direita", afirmou.

Com esta posição, o PCP toma nas mãos a iniciativa política e coloca o BE na situação de saber se, perante uma moção de censura, vota pela manutenção do executivo ou se vai atrás dos comunistas, isolando o PS de Sócrates. Num eventual cenário de eleições, o PCP poderia tirar vantagens: reconquistar alguns lugares perdidos para os bloquistas, que estiveram ao lado do PS no apoio a Manuel Alegre nas presidenciais.

Em declarações ao PÚBLICO, José Manuel Pureza, líder parlamentar do BE, garante que a sua bancada não está disposta a dar a mão ao PSD e CDS. "Não nos colocamos na posição de facilitar a vida à direita portuguesa", afirmou, lembrando que o que poderia significar uma moção de censura aprovada. "Derrubar este Governo para introduzir a revisão constitucional do PSD não é aceitável".

O BE repete que discutir uma moção de censura neste momento "não tem efeitos práticos". Mas assegura que também está a fazer a sua avaliação do Governo: "Se este Governo não conseguir resistir à Merkel e ela transformar Portugal em frangalhos, também não pode contar com a nossa simpatia", afirmou Pureza.

No PS, a posição dos comunistas não causa estranheza e já se prepara o contra-ataque. Francisco Assis, líder parlamentar, lamentou que "o PCP, de forma completamente despudorada, admita ser muleta da direita parlamentar". E abriria uma crise com "consequências muito nefastas" para o país.
Com São José Almeida, Nuno Simas e Lusa

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ODISSEIA NA CARLOS TEIXEIRA


Estou em Braga
e voltei a escrever
poemas
os cães ladram
lá fora
é noite
são 5,30 da madrugada
e tenho vinho do Porto
à mão
vou bebê-lo
sou poeta
ninguém me tira isso
tenho versos menores,
é certo
mas este não é
um deles
a minha mãe
chora às vezes
tem medo
que eu vá preso
que seja novamente
chamado a tribunal

mas eu prossigo
às vezes até tenho medo
confesso
outras não
sou destemido
é aquela coisa
da liberdade,
sabes,
da justiça
que aprendi com o Carlos
com o Jaime, com o Joaquim
e com o meu pai
não são os grandes
que me assustam,
sabes,
a esses enfrento-os
com a caneta
é antes o peixe médio
aquele que se dissimula
e se esconde à espreita
aquele que se atira a ti
que te abocanha
quando estás fraco
a cambalear
ou te espeta
com as psicólogas
do sistema
com a estória
de que tens de
arranjar emprego
para sobreviver
mas tu desde a escola
que contestas as notas
desde a Faculdade
que pões a máquina
em causa
não és um "10"
nem um "15"
não é por isso
que és melhor
nem pior
essas coisas
que te têm
vendido
do dinheirinho
da moral
não fazem sentido,
sabes,
nunca serás merceeiro
ficaste com horror
às contas
dizem que és
um homem livre
e provavelmente
têm razão
dizem até
que tens atitudes delirantes
mesmo quando
estás aparentemente
sóbrio
e bebes vinho do Porto
apesar de estares em Braga
és poeta, porra!
É isso que és
bebes a isso
há coisas que dizes
que, por algum tempo,
influenciam alguns

no outro dia
estavas na Poesia de Choque
as pessoas de olhos
vendados
e o fogo queimou
a "Carta à Minha Mãe"
há realmente coisas
que só podem vir
do céu ou do inferno
as tuas experiências
como vocalista
não resultaram
mas estás aqui vivo
és do rock
e das amigas

são seis da madrugada
e bebes
os cães ladram
abres a janela
à procura do sol
ainda não veio
vais sair de casa
bem cedo
ou, se calha,
voltas para a cama
não sabes
o tempo é teu
"és o homem da liberdade",
já dizia o Jim
e tu segues-lhe os passos
as mulheres bonitas
interessam-se por ti
mas tu pesas
quase 100 quilos
não és o "sex-symbol"
és a Mana Calórica
e bebes só
às 6 da manhã
a Gotucha está na cama
e tu estás
em Jesus

já não és
o puto tímido
que não falava
que tinha vegonha
das meninas
já não és o estudante
das boas notas
a Matemática e a Inglês
és este
que está aqui
a celebrar o dia
que ainda não vem
bebes
tens qualquer coisa
talvez alguns
não te levem
a sério
por causa
dessa imagem
de alcoólico
que cultivas
estás-te nas tintas
és o homem da liberdade
tal é a tua graça
e a tua desgraça
não tens filhos
mas ainda queres
deixar descendência
não podes sustentá-los
mas podes ensiná-los
como um filósofo
às vezes ouves
as crianças e os jovens
de hoje
mas ainda não
os compreendeste
tens de dedicar-lhes
mais tempo
tens de pensar
na revolução
não só na presente
mas também na futura
mesmo que não chegues lá
estás no Egipto
e estás aqui
as palavras caem
mas tu não.


Braga, rua Carlos Teixeira, 21 R/C Esq, 4.2.2011

A GOTUCHA A DORMIR


São 4,30 da manhã
e a Gotucha
está a dormir
não tenho caderno
só este bloco de notas
e não sei se subo
se estou a cair

sonhei com poetas
e outros gajos
no Púcaros a dizer
o Carlos estava vivo
e eu a beber

os meus melhores textos
têm surgido a esta hora
nestas condições
espero que este
não fuja à regra

são 4,30 da manhã
e a Gotucha
está a dormir
tem flipado nas aulas
os putos fodem-lhe
a cabeça
dou-lhe mimos
faço-lhe festas
mas a menina
está a arder
queria fazê-la feliz
pô-la a sorrir
mas o poeta
é apenas isto
passa a vida
para o papel

aparte isso
sinto-me bem
aqui em Braga
estou aqui a morar
outra vez
levanto-me cedo
compro o jornal
para ver
as notícias
do Egipto
vou à net
que aqui
é de borla
e dou uns passeios
pela cidade
ontem até fui
ao cemitério
ver a campa
da minha avó
mas o cemitério
estava a fechar

na "Brasileira"
vejo algumas
pessoas de outrora
umas saúdam-me
outras não
e o "Saloon"
permancece
na "Centésima Página"

são 4,30 da manhã
e a Gotucha
a dormir
a Blanca no cesto
e no sábado
vou à manif

fundámos um partido
o PRL
queremos fazer
uma revolução dionisíaca
mas ainda vou parar
ao Parlamento
olha, era uma forma
de ganhar dinheiro
de ter uma profissão
remunerada
em vez de andar
aqui ao Deus-dará
de qualquer forma,
Deus dá-me dinheiro
e mantém-me na Terra
assim vou passando
os dias
e vivo-os bem melhor
do que muitos outros
não sei
tenho qualquer coisa
nasci ligado
a uma estrela qualquer
sou revolucionário
mas também místico
apanhei com alucinações,
visões e iluminações
nos cornos
e hoje continuo
a tê-las

são 5,30 da manhã
e a Gotucha
está a dormir
que durma
na paz dos anjos
anjo é ela
e eu não sei
se subo
ou se estou a cair.

Braga, 4.2.2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

PARA ANTONIN ARTAUD


PARA ANTONIN ARTAUD

Poeta ébrio
as mulheres amam-te
pedem-te fotos
olham para ti
poeta ébrio
andaste com companheiros
loucos
que te ensinaram
a noite
e a vida
tu próprio tornaste-te
louco
e não consegues
sair do transe
és a noite
e és a vida
escreves no papel
danças no papel
verde
és um palhaço
tiveste o mundo
a teus pés
e não o quiseste
que se fodam
os palácios
e os seus reis
se tens
a tua liberdade.

SÉRGIO ALMEIDA NA WORLD ART FRIENDS

Convidado do mês Fevereiro de 2011: Sérgio Almeida

Enviado por Ex-Ricardo, sex, 01/28/2011 - 01:30

Sérgio Almeida (1975, Luanda, Angola) é jornalista desde 1993. Licenciado pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, é jornalista da secção de Cultura do “Jornal de Notícias” desde 1999. Escreveu argumentos televisivos, foi professor de Teoria da Comunicação e coordenou o ciclo de conferências Cultura no Centro, no Dolce Vita Porto. É autor dos livros “Análise Epistemológica da Treta”, “Armai-vos uns aos Outros”, “Como Ficar Louco e Gostar Disso” e “Ob-dejectos”. Participou nas colectâneas de contos “São João do Porto” e “Fora de Jogo”. É membro do colectivo de intervenção poética Sindicato do Credo, autor da performance multimédia “Alba Só”, integrada no 10º aniversário da morte do poeta Sebastião Alba.


1- O que pensas acerca do panorama actual da literatura em Portugal?
2- Na tua opinião o que poderia ser feito para atrair mais leitores?
3- Qual o entrevistado que te deu mais prazer em toda a tua carreira?
4- Além de jornalista, és escritor. Fala-nos um pouco do teu trajecto enquanto escritor.
5- Quais os planos para o futuro


1) Há pouco tempo, no âmbito de uma reportagem, o escritor e crítico literário Miguel Real afirmou-me que a literatura portuguesa atravessa um período de ouro. Compreendo o seu ponto de vista: se os contarmos bem, há pelo menos meia dúzia de autores com inegável talento. E se, de cada geração, como nos diz a experiência, apenas resistem à passagem dos tempos não mais do que cinco ou seis autores, as gerações vindouras ficarão com a ideia que estes tempos foram invulgarmente ricos. Mas tenho as minhas dúvidas acerca disso. Exceptuando esse tal naipe de eleição (cujos nomes incluem não apenas os consagrados de fresco mas também outros, mais incógnitos, que, por motivos vários, não atingiram esse estatuto) o que impera é o repisar de fórmulas mais do que gastas, o seguidismo, os epígonos, o piscar de olho descarado aos tops de vendas... Gente a trilhar o seu próprio caminho, sem favores de grupinhos ou grupelhos, é coisa que não abunda, para ser franco.


2) A literatura não precisa de mascarar-se de 'cool' para atrair leitores à força. Porque, sejamos directos, os livros que realmente vale a pena ler são, em muitos casos, árduos, complexos e, por que não dizê-los, irritantes. Sim, irritantes. Na sua perfeição, antes de mais, mas sobretudo na indiferença face aos leitores, obrigando-nos a sair de nós mesmos para que possamos ter acesso ao seu magnífico conteúdo. Aborrecem-me deveras (o problema talvez seja meu, decerto) as tentativas tão em voga para que os livros possam, custe o que custar, ir de encontro aos leitores. Essa sofreguidão soa mais a desespero do que a estratégia de sedução. Uma coisa é a democratização da leitura – com a qual não poderia estar mais de acordo -, outra, bem distinta, é o nivelamento por baixo, a tentativa de adequar às regras do espectáculo algo que, por pertencer ao reduto secreto do indivíduo, deve ser descoberto na solidão.


3) Por mais que um jornalista puxe os galões da objectividade e da isenção, a verdade é que tendemos sempre a simpatizar com os autores com os quais existe uma grande afinidade literária ou ideológica. Recordo-me da emoção que foi para mim na altura (estava no JN há apenas um ano) entrevistar a Sue Townsend, autora dos livros do meu anti-herói preferido da adolescência, Adrian Mole. Ou do manifesto prazer que senti ao entrevistar Lazaro Covadlo, Eduardo Mendoza, Paul Theroux, Luís Fernando Veríssimo, Charles Reeve ou António Lobo Antunes, entre tantos outros.


4) Enveredei pelo jornalismo porque foi a forma que encontrei de viver da escrita. E, apesar das incertezas que rodeiam o jornalismo actual, não me arrependo até à data da opção. Publiquei até à data dois livros de ficção (“Análise Epistemológica da Treta” e “Armai-vos uns aos Outros”) e dois de prosa poética (“Como Ficar Louco e Gostar Disso” e “Ob-Dejectos”). Tenho material inédito para publicar, mas a sofreguidão ou a ânsia são dois dos (poucos) defeitos que não possuo.


5) Escrever, escrever, escrever.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

MANIFESTO DO PRL

3 FEVEREIRO 2011



MANIFESTO DO PARTIDO REVOLUCIONÁRIO LIBERTÁRIO
OU O NOVO HOMEM



O Partido revolucionário Libertário (PRL) saúda as revoluções, egípcia e tunisina e o movimento revolucionário que se estende do Norte de África ao Médio Oriente. O PRL saúda a queda das ditaduras e a derrocada do capitalismo dos mercados nessas regiões. O PRL apela a que também no Ocidente, como já tem acontecido na Grécia, em França e em Itália os desempregados, os precários, os estudantes, os explorados, os que vêem os seus salários, as pensões, as prestações sociais, os seus direitos reduzidos, àqueles que já não acreditam na democracia burguesa, àqueles que vêem a sua vida castrada pelos banqueiros, pelos mercadores, pelos burlões e charlatães do negócio e da política, apela a todos que saiam das suas casas, empregos e rotinas E se revoltem.
O mundo é nosso. Reclamemos o que é nosso. A vida não está à venda. Não tem preço. Não é negociável. Derrubemos os tiranos que nos roubam a vida. Ocupemos as praças. Está a chegar ao fim o mundo dos gráficos, dos cálculos e dos economistas. Um novo mundo nasce, um mundo de fraternidade, liberdade, amor. Um novo mundo está a nascer no Cairo. Saibamos compreendê-lo. Esta é a era do espírito. Expulsemos os vendilhões do Templo. Expulsemos os agiotas e os banqueiros. Expulsemos os políticos e os cronistas ao seu serviço. Ocupemos os media e os palácios do poder. Celebremos o novo mundo. Não mais merceeiros. Não nos venhais mais dizer o que temos de fazer. Nada está acima da nossa liberdade. Somos senhores. Senhores sem escravos. Abandonemos definitivamente a escravidão. O homem não pode ser reduzido à moeda e à mercadoria, o homem não é a moeda, o homem é sapiência e demência. Celebremos a liberdade na praça. Nunca mais seremos escravos. Somos senhores dos nossos destinos. Dancemos, pois. Celebremos o novo dia. Do Cairo para o mundo inteiro. Somos um só homem. E somos muitos de várias cores, credos, valores. Já não somos macacos. Voltamos ao homem, à criança sábia que brinca e ri, desenvolvemos actividades lúdicas, sem interesses por detrás. Eis o novo homem. O homem que cria e que crê. O homem que procura o conhecimento desinteressadamente. Eis o novo homem. Séculos e séculos em busca do Graal e ele aqui. Este é o homem da dádiva. O homem do desprendimento e da graça. Este é o homem que tem Deus e é Deus. Não mais prisões, não mais dirigentes, não mais hierarquias. Esta é a revolução sem chefes, sem comités centrais, não dirigida, como a de Maio de 68, como a de Morrison. Este é o homem que ri e goza livremente. Este é o homem da liberdade. O homem que nasce, que é puro, que segue o caminho do excesso e da sabedoria. Este é o homem que está nas praças do Cairo, de Alexandria. Fugi, turistas medrosos, fugi, negociantes medrosos, fugi, homens pequenos do mercado e da mercearia. O vosso mundo está a acabar. Este é o novo homem. Cantemos. Dancemos. Celebremos noite fora. O novo mundo é nosso e é aqui.

www.jornalfraternizar.pt.vu

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

APOCALIPSE NOW

Continuais a ir trabalhar de manhãzinha
continuais a ir às compras no hipermercado
estais fodidos
o vosso mundinho está a acabar
de nada vos adianta
agarrar-vos ao dinheirinho
o dinheirinho vai desaparecer todo
da face da Terra
"é o fim das risadas e das doces mentiras
o fim das noites em que fizemos por morrer
o fim"
estais fodidos
o velho mundo está a desabar
bem-vindos ao caos!
Podeis até fechar-vos em casa
agarrar-vos à família
nada disso vos salva
o novo mundo está aqui
eis o novo homem
vigoroso, firme, insolente
o homem que vai conquistar a Terra
que vem expulsar os vendilhões
e os corruptos
que vem empalar os mercados
escutai!
O vosso mundo acabou
o mundo agora é dos loucos
dos insurrectos
dos que não têm lei
tremei
abandonai as vossas casas
somos loucos
somos deuses
queremos o mundo
queremos as vossas mulheres
cantamos o apocalipse.

A. Pedro Ribeiro, Braga, 3.2.2011