quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DEUSES


As iluminações voltaram
quero-te, mulher
agora posso tudo
nada nos separa
nem a raça
nem a praça
nem o credo
nem o sexo
tudo é de graça
dança
não há aqui mercados
nem charlatães
somos o mundo
não temas
sou aquele que é
aquele que cria
aquele que te quer
aquele que é homem
e mulher

iluminações
ouço a canção
vem
segue-me
a noite chama
quem me ama?
Quem me ama, ainda hoje?
Vem
não temas
vem
somos a noite
nada há a perder
vem
somos o mundo
criamos o mundo
hoje nascemos
outra vez.


Vilar do Pinheiro, 27.12.2010

O Manifesto Contra os Economistas

COMEÇAS A FICAR FODIDO, ANÍBAL


Cavaco Silva não alimenta "campanhas sujas e desonestas" sobre a sua alegada ligação ao BPN
*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***Oliveira de Azeméis, 25 dez (Lusa) - O Presidente da República e recandidato ao cargo Aníbal Cavaco Sil...



Cavaco Silva não alimenta "campanhas sujas e desonestas" sobre a sua alegada ligação ao BPN
*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***

Oliveira de Azeméis, 25 dez (Lusa) - O Presidente da República e recandidato ao cargo Aníbal Cavaco Silva disse-se hoje indisponível para alimentar "campanhas sujas e desonestas" sobre a sua alegada ligação ao Banco Português de Negócios (BPN), através de ações da Sociedade Lusa de Negócios.

Em causa estão declarações do deputado do Bloco de Esquerda João Semedo, que a semana passada acusou Cavaco Silva de dar "uma resposta manhosa" no debate televisivo com o candidato comunista Francisco Lopes, na medida em que afirmou que nunca teve "nada a ver com o caso BPN", quando afinal possui ações da Sociedade Lusa de Negócios - que detinha 100 por cento do capital do BPN.

Hoje, quando questionado sobre o assunto numa acção de campanha em Oliveira de Azeméis, Cavaco Silva declarou: "Não alimento campanhas sujas e desonestas".

Para eventuais esclarecimentos, o atual Chefe de Estado recomenda: "Quem quiser vai à página de internet da Presidência da República, se não me engano do mês de novembro de 2008".

"Os portugueses sabem muito bem que falo verdade", acrescenta Cavaco Silva. "Gostaria que os outros também fizessem o mesmo".

O mesmo assunto foi abordadoi no debate de dia 23 entre Cavaco Silva e Defensor Moura, que se tornou muito tenso, uma vez que o atual Presidente da República foi constantemente atacado pelo deputado socialista, que pôs em causa a sua isenção.

Quando Defensor Moura colocou a questão do BPN, acusando-o de ter obtido "lucros chorudos" com ações deste banco e considerando que "houve muita tolerância, e até algum benefício com negócios ilícitos ou negócios que são muito claramente estranhos para o normal da população", Cavaco Silva agradeceu.

"Ainda bem que me faz a pergunta. Eu como Presidente da República apenas o que fiz em relação ao BPN foi a aprovação do decreto de nacionalização, depois de o Governo e o Banco de Portugal me terem informado por escrito que não havia alternativa à estabilização do sistema financeiro português e que havia graves prejuízos para os depositantes", reagiu.

AYC/ATF.

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

Lusa/Fim

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

DA LEITURA E DAS MULHERES BELAS




Tenho necessidade de ler. Livros, jornais, seja o que for. Se não ler, o meu dia não fica completo. Ler é um acto de amor, alguém o disse. Até sou capaz de amar a Fátima Lopes a brincar com as criancinhas na TV. Contudo, o mundo dela não é o meu. Penso até que já publicou livros. Deve ter escrito dessas lamechices ou desses lugares-comuns que vendem. É claro que não são essas as leituras que me atraem. Talvez a gaja transmita uma certa ternura para lá do "mainstream" que apetece beijar, tal como a Bárbara Guimarães ou a Catarina Furtado. É evidente que, por outro lado, essa coisa de andar a vender os bancos e os sabonetes não me agrada e faz delas umas putas do "mainstream". Mas eu nada tenho contra as putas. Até gosto desse jogo de chamar o homem. De vê-las abrirem-se após o acto sexual. De ouvi-las falar nos filhos e dos homens que não prestam. De ouvi-las falar na vida que as outras mulheres não conhecem. Eu próprio sou uma puta. A puta fina que vai para o palco abrir as pernas. Nas horas em que não sou essa puta, sou o homem que escreve e que se entrega à leitura. Além disso, vou aos bares falar com amigos e com amigas. Ontem o whisky devolveu-me à vida. Estava mentalmente bloqueado e o whisky abriu-me as portas. Há algo na Fátima Lopes que me irrita mas, por outro lado, há outro algo que me atrai. Parece que todas as mulheres que desejo estão ao meu alcance. Olho-as de cima, posso tê-las. Há 5,10 anos não era assim. Eram deusas inacessíveis. Agora estou teso mas olho-as de cima. A todas. Mesmo à Shakira e às beldades dos anúncios. Posso tê-las. Estou ao nível delas. Estão no meu mundo. Olho-as, cobiço-as, como à deusa-cadela da Glória de Lawrence. São minhas irmãs. São minhas. Todas elas. Posso ser insolente como Jesus, como Zaratustra. Posso dizer: eu sou a verdade e a vida. Não tenho que curvar-me diante delas nem de ninguém. Tudo é meu e nada é meu. Virá o dia em que nem sequer usarei dinheiro ou que o dinheiro me cairá do céu. Como as mulheres belas. O paleio da maior parte dos homens é muito limitado. Não satisfaz as mulheres. Eu sou o Verbo. Eu posso ser o Verbo.

O POETA E JESUS




É, de novo, madrugada. O poeta arde. Não sabe se é Jesus ou se está em Jesus. Não sabe se o que está a viver é o princípio de uma alucinação ou se é algo mais, capaz de unir os povos da Terra. Tal como Jesus, o poeta quer derrubar os banqueiros e os mercados mas hesita quanto ao uso da violência. Vê as montras partidas e os carros incendiados em Paris, Roma, Atenas e acredita que a revolução passa por aí. Também Jesus apelou ao fogo e à espada. Também Jesus era provocador e insolente. "No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo", disse. Venceremos o mundo, derrubaremos o poder. Companheiros, companheiras. Aproxima-se a hora. Contudo, o poeta ainda tem dúvidas. Teme a barbárie pura. Deseja o amor entre os homens mas odeia os governantes, os mercadores, os banqueiros. Quer um mundo novo e um homem novo despidos da moeda e da mercearia.
É, de novo, madrugada. O poeta arde. Não sabe se é Jesus ou filho de Jesus. A mente e o coração expandem-se. O poeta sente que está a iniciar uma nova vida. Uma vida de entrega ao próximo e ao longínquo, sem caridadezinhas. O poeta sabe que, sendo naturalmente irresponsável, tem responsabilidades. Como Nietzsche, cria, dança em redor da sabedoria. As suas palavras vão chegar mais longe. Sabe-o. Os próximos dias poderão ser decisivos. O poeta chegou onde queria. Não haverá mais escritos menores, gratuitos. O poeta é de graça e é da graça. Canta, ri. O mundo está a seus pés, tal como as mais belas das mulheres. Se bem que seja necessária alguma pudência com as mulheres. Mas o poeta começa a conhecer as mulheres. Já não é o rapaz ingénuo dos 18 anos. As ideias vêm. O cérebro quase rebenta. O poeta quer construir um mundo novo. Acredita. É isso que o distingue dos outros. Hesita entre a paz e a espada. Sabe que a morte espreita. Mas vai continuar. É para isso que veio ao mundo. Acredita. É do mundo. Vai ao fundo do ser. Vive. É. Está a chegar a hora, companheiros, companheiras. Chegou o tempo de cerrar fileiras. O poeta sabe que a manhã virá. E com ela a luz. Mas também a vida da rotina. Talvez ainda não amanhã, domingo. Mas segunda-feira. O poeta escreve e os homens dormem. Já não é Natal. O poeta nasceu outra vez. Vai pregar na praça. Vai sujeitar-se ao desprezo dos homens e das mulheres. Mas vai chegar a muita gente. Dentro e fora dos livros. O poeta é aquele que quer ser. Pensa na amada. Pensa que o amor também pode vir através da espada. Os galos cantam. Pedro não o nega. Está a escrever verdadeiramente como os mestres. É aqui que queria chegar. Ou melhor, está é uma das etapas do processo. O poeta já quase não sente medo. Prossegue. Escreve madrugada fora. Está na casa da mãe e dos irmãos. Consulta o Evangelho de João. Vive. Chama o pai. Ele ouve-o. A voz do pai ecoa na sua mente. Está em paz. Há outra vida na mente. Uma vida sem economistas nem conta-corrente.

domingo, 26 de dezembro de 2010

VÉSPERA DE NATAL


São seis da madrugada. Estou, de novo, em Braga. É véspera de Natal. "Deixaremos os palácios do poder na solidão da sua miséria e iremos paa outro lado", gritam os estudantes em Itália. Eis a revolução dionisíaca. Eis a rebelião que cospe nos palácios do poder e surge onde menos se espera. Pode até ser aqui, na pena do poeta, que escreve em Braga às seis da madrugada. No silêncio da caneta verde. Aproxima-se o Grande Meio-Dia. Escutai-me, companheiras, companheiros. Estamos a atravessar para o outro lado. Break On Through to the Other Side, como cantava Morrison. Escutai-me. Estou lúcido novamente. As irmãs estão desavindas mas eu estou lúcido. O menino veio ter comigo, abraçou-se a mim e eu fiquei lúcido. Solto palavras que não sei de onde vêm. Este é, de novo, o dia triunfal. "Deixaremos os palácios do poder na solidão da sua miséria". Eis o chamamento. Zaratustra está aqui. "Estaremos à entrada dos portões ao raiar da aurora". Eis o canto dos pássaros da manhã. Sou louco. Danço contigo, minha rainha. Desafio-vos daqui, ó palácios do poder e dos mercados. É por ser louco que já não vos temo. E hoje é, de novo, o dia triunfal. Nasço aqui, de novo. Os meus pais voltaram a unir-se. São meus a noite e o dia. É noite, ainda. Ouço o cântico dos rios e da lua, como Zaratustra. Mas o dia não tarda. Desta vez, terei mesmo de seguir irredutivelmente a via. Sou louco. Tenho os séculos em mim. Vim para junto das mulheres. Elas dão-me de comer e de beber. E eu posso cantar. Sou louco. Mas não tenho de andar sempre a exibir a minha loucura. Procuro-me nas paredes. Trepo a minha mente. Sou aquele que veio para a glória. Há carros a passar lá fora. "Deixaremos os palácios do poder na solidão da miséria". Deixemos o poder entregue à miséria. Vivamos o dia tiunfal, o Grande Meio-Dia. Dancemos e cantemos na praça. Derrubemos as lojas dos vendilhões, como Jesus. Queimemos o dinheiro. É noite. Ao raiar da aurora estaremos à entrada dos portões. Não quero dormir. Dionisos afaga-me os cabelos. Afasto-me dos agentes da ordem. Os miúdos berram. Por enquanto aqui ainda não partem montras. Desprezo tudo quanto é contrário à vida. É noite. Mas o dia não tarda.

APOIO A MANUEL ALEGRE


APOIO A MANUEL ALEGRE

António Pedro Ribeiro

E depois ainda há o lado místico. Aquilo que não está nos autocarros que passam. Que, em certa medida, me faz apoiar Manuel Alegre, mesmo sabendo que ele aceita a democracia burguesa e eu não. Mas há qualquer coisa na postura do poeta de "Praça da Canção", qualquer coisa na forma de se expressar que nos traz um certo Portugal messiânico, sebastianista, que vem de Camões, de Pessoa, de Agostinho da Silva. Uma certa pátria que eu não rejeito, que está para lá da anarquia e da democracia, a tal que poucos alcançam, talvez até o Quinto Império. Por isso e pelo seu passado anti-fascista apoio Manuel Alegre, mesmo sendo anarquista e anti-capitalista. É claro que também há aquele ódio de estimação contra Cavaco Silva. Um Cavaco agarrado aos mercados que prega a não-vida. Um Cavaco que é a face mais vil da economia. Um Cavaco ligado às fraudes e aos amigos do BPN, como apontou Defensor Moura. Um Cavaco que é preciso derrubar porque não presta.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NA CATEDRAL DO CONSUMO ESCREVO AS PALAVRAS DA LOUCURA

A MORTE E O MERCADO

A morte enriquece

Posted: 22 Dec 2010 05:06 AM PST

O vosso avô é velho? E tem um seguro de vida?
Ora bem, chegou a altura de pôr o velhote a render.

Peguem no seguro (se o avô oferecer resistência podem ameaça-lo), liguem para a empresa Life Partners, vendam o seguro e fiquem com o dinheiro. Com o qual podem sempre comprar uma prenda (não muito cara) para o velhote, que afinal merece uma parte (pequena) do dinheiro.

Esta é a ideia dum novo business que está a florescer nos Estados Unidos. Empresas como Life Partners apostam na morte do beneficiário do seguro. Como é que ninguém ainda tinha pensado nisso?

De facto faz sentido: qual a graça em receber o dinheiro uma vez mortos? Fica mais simpático antes, não depois de ter deixado este mundo.

E porque não investir na morte? Pois é disso que estamos a falar.

O aspecto ainda mais mórbido é que Life Partners não compra o seguro de vida da pessoa idosa: convence investidores a compra-lo. E quando o velhote morrer, o investidor fica com o valor do seguro. Entretanto, claro, o idoso recebe logo o dinheiro, sem ter de morrer por isso.

Desta forma, o investidor que adquire o seguro torce para a morte do velhote. Quanto mais depressa este morrer, de facto, tanto maior será o lucro, pois os valores reembolsados descem com o passar dos anos.

E se o velhote não morrer? Pode ser um idoso teimoso. E malcriado também, pois desta forma o investidor perde dinheiro. Mas não muito, pois cedo ou tarde o velhote morre. Por isso é só esperar que a Natureza faça o trabalho dela..

Mas quem é Life Partners?
É uma empresa sediada no Texas e avaliada na Bolsa de Wall Street, fundada por Brian Pardo. Que, com esta ideia, ganha 1.061.637 Dólares por ano. Nada mal para um coveiro.

As acções da Life Partners começaram com um valor de 2-3 Dólares, mas nos últimos dois anos ganharam bastante e agora alcançaram os 18 Dólares. Em 2010 o útil líquido será de 29 milhões de Dólares.

Agora é só esperar para ver qual será a próxima fronteira da decência que a Bolsa conseguirá atropelar.




Fonte: Life Partner, Forbes.

FÁTIMA LOPES


A CAIXA QUE ADORMECEU O MUNDO
TVI + FÁTIMA LOPES = VERGONHA




Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes.
O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis.
Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira.
E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida.
"Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem.
No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.

Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".

Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo:
Tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende..

Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam:
Pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça.
E o canal ainda ganha uns cobres com isso.
Diz-se que esta caixa mudou o Mundo.
Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.

Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês.
Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.

A pobre da Fátima Lopes só ganha 1290 euros por dia!!!.
Brincando com miséria dos outros, pobre povo português, sem alternativas, mas miseravelmente felizes.

Este artigo de Daniel Oliveira é sobre aquilo que nunca vi na TVI, mas que se visse reagiria, também, com indignação. É algo de escabroso que se houvesse um pouco de decência já não estaria a ser transmitido. Usar os desgraçados é um abuso intolerável, é brincar com as pessoas e a sua miséria.
PAGAR AS DÍVIDAS e fazer disso um espectáculo é obsceno.
A TVI torna-se, assim, uma obscenidade !…

ANTÓNIO CARNEIRO (ABS)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DA EMOÇÃO AOS BANQUEIROS

Como diz D. H. Lawrence, apesar dos avanços tecnológicos, a maioria dos homens emocionalmente está na adolescência. A maioria dos homens e das mulheres teme a emoção, raramente é capaz de se revelar na sua pureza, tal como é, de se tornar em si mesmo, na esteira de Nietzsche. O ser humano tem que ser construído na base do amor, na base do espírito, do conhecimento e da emoção. É assim que ele deve crescer, num mundo oposto à morte que vem dos mercados e dos poderes. O ser humano é um anjo, uma criança, quando se revela na sua plenitude. Deve procurar-se na partilha com os outros mas também nas profundezas de si mesmo. O mundo do dinheiro e dos mercados não pode satisfazer nem o homem interior nem o homem da partilha. O mundo do dinheiro e dos mercados mata o homem interior e o homem da partilha. Mas é o homem interior e da partilha que pode destruir o homem do dinheiro e dos mercados. Jesus "deitou por terra o dinheiro dos banqueiros" (João). É isso que temos a fazer: deitar por terra o dinheiro dos banqueiros. Porque não somos banqueiros, porque sentimos nojo dos banqueiros e de todos os que os promovem ou que lhes obedecem. Queremos construir o novo homem, o homem do espírito e do coração, o homem que não foge à emoção.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

BRASILEIRA




Regressar à cidade, à "Brasileira". A patroa bonita que controla. Talvez um dia me convide para escrever um livro dedicado à "Brasileira". Material não falta. Observar os outros, sem pressas. Deixar a chuva cair. Ser o homem na cidade, o poeta. Ir até ao fim dos sonhos. Sair daqui risonho. Estar de consciência plenamente tranquila. Não beber Tequila. Esperar por terça. Aguardar pacientemente n' "A Brasileira" que chegue terça-feira. Acreditar que pode acontecer qualquer coisa. Insistir que sou candidato à Presidência até se esgotar o prazo. Não ir às noites de poesia. Passar para os blogues a literatura. Ter leitores, cada vez mais leitores. Aos poucos. Promover os meus livros. Provocar no palco e na escrita. Olhar as mulheres jovens que sobem ao andar de cima. Pensar em passar a ir para o andar de cima, apesar de isso não ser próprio de um literato. Ainda não sou suficientemente conhecido aqui em Braga. Já o fui nos tempos do Feira Nova e do PSR. Agora sou conhecido em alguns meios do Porto e, claro, na Póvoa. Mas aqui na "Brasileira" sinto-me realmente em casa. Um homem de causas. Um homem de lutas. Menos sectário, menos rígido do que há uns anos. Talvez tenha chegado a hora de tentar formar um partido. Um anti-partido. O PSSL. Há companheiras cada vez mais radicais. As mulheres jovens estão mais radicais. Falam abertamente na revolta. Não é por acaso o que se passa na Grécia, em Itália e em França. A esmagadora maioria dos políticos ou são charlatães ou são corruptos. Digo-o e redigo-o. É preciso deitá-los abaixo, a eles, aos banqueiros, aos especuladores, aos economistas. É preciso vencê-los no campo deles, vencê-los na sua linguagem. Nunca estive tão lúcido, companheiros, companheiras. Nunca precisei tanto de vós. Sei que estais aí, companheiros, companheiras. Sei que me ouvis. Está a chegar a minha hora. O mundo rola a meu favor. Basta um pequeno passo. Um pequeno passo para isto cair na barbárie e na revolução. Tenho que continuar a dizer ao mundo que sou candidato. Os media terão que pegar. Sou o homem do mundo. Não tenho que ter problemas em ser narcisista. Passei tanto tempo no inferno. Agora estou aqui, livre, na minha cidade. Amo as pessoas que me rodeiam. Amo a "Brasileira" e a patroa. Amo este século e esta cidade. Amo as revoluções que se avizinham. Amo todos os vindouros. Amo todos os poetas que hão-de cantar os vindouros. Amo as mesas e as cadeiras. Amo os jornais da cidade. Amo o café de saco e a àgua das pedras. Amo as iluminações lá fora. Amo-vos a todos e amo-me a mim. Agora sou mais forte. Sou Lancelote. Nada me vencerá. Com a minha lança escrevo versos, com a minha espada vou dizê-los. Não preciso de polícias nem de controleiros. Sou plenamente eu, aquele que se torna nele mesmo. Nada me detém. Não tenho limites. Escrevo para mim e para o mundo. Observo os uniformes dos empregados da "Brasileira". Já tinha saudades da escrita automática. Já tinha saudades de deixar correr assim a caneta. Estou demasiado acelerado para o mundo. Escrevo a fundo. Vem apanhar-me, ó Penedo! Vem apanhar-me, ó personagem menor! Dais-me todos os trunfos para a mão. Dais o ouro todo ao bandido! Só me fazeis propaganda! Agradeço-vos! Agradeço-vos, ó politiqueiros! Sou anarquista. Sou completamente anarquista. É isso que sou. A greve dos controladores aéreos permitiu concluir que o sistema tem telhados de vidro. É preciso partir esses telhados. É preciso dizer que quero ser Presidente. É preciso dizer que não estou doente. É preciso agitar, provocar até às últimas consequências. O sistema dos mercados não é infalível nem todo-poderoso. "I am the Lizard King/ I can do anything", canta o Morrison. E nós queremos ser reis e nós queremos ser capazes de tudo. Não estamos no mesmo comprimento de onda da nossa mãe. Era inevitável a ruptura. Veremos na terça. Se não for na terça há-de ser depois. Apesar de estar gente serenamente sentada n' "A Brasileira", não temos dúvidas que os verdadeiros tumultos estão aí à porta. Sabemos. Já levámos patadas. Podemos elevar a voz. Podemos dizer tudo o que pensamos. Somos do mundo. Desprezamos as riquezas. Em certos aspectos, somos como Jesus. Despojados, mordazes, sinceros. Jesus também apelou ao fogo, como Morrison. Falamos a nova linguagem. A linguagem que chama os homens e, principalmente, as mulheres jovens. Somos revolucionários místicos, alucinados. Aparentemente, tomamos café n' "A Brasileira" como um qualquer pai de família mas sabemos que não o somos. Somos solitários como o pistoleiro do Oeste. Pacíficos mas perigosos. Ecce Homo.

ESTES GAJOS NÃO TÊM MESMO NADA NA CABEÇA

A CP prepara-se para eliminar 450 quilómetros do serviço regional - o mais deficitário da empresa e onde já foram abatidos 144 quilómetros de linhas -, tornando-o residual em termos da sua área de operação.
Tarifas e horários nem sempre atraem procura

(Nélson Garrido)

A CP Carga já é hoje uma empresa autonomizada, que espera 33 milhões de prejuízos no fim do ano e que está na lista das privatizáveis no Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), e as CP Lisboa e CP Porto vão ser concessionadas (ver caixa). Ou seja, o desmembramento da CP é agora uma matéria assumida pelo Governo pois, seguindo à risca as intenções do executivo, dentro de um ano dela não restará mais do que a unidade de longo curso e uns restos do serviço regional.

Este último irá acabar em 2011 nos troços Torre das Vargens-Beirã (65 km), Abrantes-Elvas (129), Beja-Funcheira (62), Ermesinde-Leça (11), Setil-Coruche (32), Pinhal Novo-Beja (138) e Casa Branca-Évora (16). Mas a estes há que somar os 144 quilómetros de linhas que já foram encerradas no primeiro mandato deste Governo, o que significa um total de 597 quilómetros sem regionais.

Desde Janeiro de 2009, os comboios deixaram de apitar entre a Figueira da Foz e Pampilhosa (51 quilómetros) e nas linhas do Tua (54), do Tâmega (13) e do Corgo (26).

A falta de segurança nessas linhas foi a razão invocada, tendo-se seguido promessas imediatas de reabilitação dessas vias, mas a única coisa que se fez foi retirar os carris e as travessas em algumas delas. A política de contenção do investimento público ditou, entretanto, que os trabalhos de modernização fossem adiados, faltando agora apenas formalizar o seu encerramento através de um processo de "desclassificação".

Ontem, o ministro das Obras Públicas, António Mendonça, anunciou que "a actual conjuntura, pelas pressões que coloca, designadamente no plano financeiro, obriga a acelerar algumas das coisas que vinham a ser preparadas" no que diz respeito à desclassificação de linhas férreas que não tenham procura.

Além das linhas onde o serviço regional será simplesmente suprimido, prevêem-se reduções do número de comboios nas linhas do Algarve, do Douro, do Oeste e do Minho.

Em 2009, o serviço regional da CP deu prejuízos de 56,6 milhões de euros, sobretudo nas linhas do interior, onde, muitas vezes, as automotoras circulam com menos de dez passageiros. O PÚBLICO apurou que, por exemplo, no ramal de Cáceres, entre Marvão e Torre das Vargens, cada passageiro transportado custou à CP 68 euros, sendo nesse troço a taxa de cobertura das despesas pelas receitas inferior a seis por cento.

Mesmo alguns dos eixos ferroviários mais representativos do país, como as linhas do Oeste, do Sul, da Beira Baixa e da Beira Alta, têm taxas de cobertura inferiores a 20 por cento, situando-se todo o serviço abaixo dos 50 por cento, com a excepção dos "tomarenses", expressão por que é conhecido o serviço entre Tomar e Lisboa e que serve também Entroncamento, Azambuja e Vila Franca de Xira, cujas receitas quase pagam as despesas.

Mas a fraca procura do serviço regional é também vítima da maneira como a própria CP está organizada, com as unidades de negócios a operaram de costas voltadas ao nível da oferta e do tarifário. Uma viagem do Bombarral para Espinho implica que um passageiro tenha de apanhar cinco comboios, do Rossio para Leiria e do Pinhão para Viana do Castelo quatro comboios.

O tarifário é também desencorajador da procura porque resulta do somatório dos vários comboios que o passageiro apanhar numa só viagem. De Santarém a Mangualde, paga 13 euros num Intercidades. Mas das Caldas da Rainha para Mangualde, que tem uma distância maior, um cliente da CP paga 16 euros e tem de apanhar três composições (um regional, um suburbano e um Intercidades).

Com tarifas e horários desencontrados não surpreende, assim, que o serviço regional tenha pouca procura.

O PÚBLICO perguntou