sábado, 4 de dezembro de 2010
OS VOSSOS MILHÕES VÃO ARDER
OS VOSSOS MILHÕES VÃO ARDER
Apesar de não ter ido às sessões de poesia, sinto-me no caminho da glória. E até as notícias do futebol são animadoras. Este pessoal tem de cair mesmo na real. No mercy. Vêem-se umas gajas bonitas e hão-de começar a vir para mim. Estou mesmo a caminho da glória. Nunca me senti realmente assim tão em cima. As barbas têm classe. Agora sim. Posso dizer o que realmente me apetece. No rules, no limits. Mais poder para o Ribeiro. O futebol começa a ser secundário. Ah! Ah! Cansa-te lá, ó Hulk! Ganhais milhões mas não passais de palhaços. Excepto o Cantona, claro. Esse é revolucionário. Eu também sou. É isso que sou. Quero destruir os mercados. Quero destruir os mercados, ouviram? Isto começa mesmo a correr bem. Não podes mais ignorar o poeta, ó camarada. Não podes mais ignorar o poeta. Continua a olhar para o futebol…isso, continua a olhar para a bola que vais longe…ah!Ah!Ah! Marcai uns golinhos, ah, ah, ah! Dança lá, ó Ronaldo, ó Mourinho! Ides perder os vossos milhões. Está escrito. No fundo, só fazeis merda, viveis à custa dos outros. Tenho uma pena de vós…vós e os políticos! Vós, os charlatães e os corruptos! Vós e os mercadores que vendem a mãe e o pai! Se depender de mim e de outros ides sofrer, ides sofrer muito. No mercy. Já não preciso de beber para estar em cima. Ides ter o que mereceis! Não tenho um tostão no bolso mas aponto-vos o dedo. No mercy. Quanto pior, melhor. Portugal perdeu a organização do Mundial. O Sócrates ficou fodido. Os futeboleiros e os patriotas também. Ide abaixo! Provai o gosto. Viva a Rússia! Vodka! Vodka! Os vossos milhões vão arder.
Apesar de não ter ido às sessões de poesia, sinto-me no caminho da glória. E até as notícias do futebol são animadoras. Este pessoal tem de cair mesmo na real. No mercy. Vêem-se umas gajas bonitas e hão-de começar a vir para mim. Estou mesmo a caminho da glória. Nunca me senti realmente assim tão em cima. As barbas têm classe. Agora sim. Posso dizer o que realmente me apetece. No rules, no limits. Mais poder para o Ribeiro. O futebol começa a ser secundário. Ah! Ah! Cansa-te lá, ó Hulk! Ganhais milhões mas não passais de palhaços. Excepto o Cantona, claro. Esse é revolucionário. Eu também sou. É isso que sou. Quero destruir os mercados. Quero destruir os mercados, ouviram? Isto começa mesmo a correr bem. Não podes mais ignorar o poeta, ó camarada. Não podes mais ignorar o poeta. Continua a olhar para o futebol…isso, continua a olhar para a bola que vais longe…ah!Ah!Ah! Marcai uns golinhos, ah, ah, ah! Dança lá, ó Ronaldo, ó Mourinho! Ides perder os vossos milhões. Está escrito. No fundo, só fazeis merda, viveis à custa dos outros. Tenho uma pena de vós…vós e os políticos! Vós, os charlatães e os corruptos! Vós e os mercadores que vendem a mãe e o pai! Se depender de mim e de outros ides sofrer, ides sofrer muito. No mercy. Já não preciso de beber para estar em cima. Ides ter o que mereceis! Não tenho um tostão no bolso mas aponto-vos o dedo. No mercy. Quanto pior, melhor. Portugal perdeu a organização do Mundial. O Sócrates ficou fodido. Os futeboleiros e os patriotas também. Ide abaixo! Provai o gosto. Viva a Rússia! Vodka! Vodka! Os vossos milhões vão arder.
DO GRAZIA TANTA
Por mim renuncio e aconselho os governantes reais e governantes sombra a meterem os submarinos no ...
Eu renuncio!
Neste momento de aflição em que todos temos de dar as mãos e deixar de olhar só para o nosso umbigo, correspondo ao apelo de quem nos governa (e de quem lhe apoia) e faço pública parte da lista do que o Estado criou e mantém para minha felicidade, e de que de estou disposto a patrioticamente prescindir.
Assim:
Renuncio à maior parte das empresas públicas, privadas e àquelas que não se sabe se são públicas se privadas, mas generosamente alimentadas, com dinheiros públicos;
Renuncio ao bem que me faz ver o meu semelhante deslocar-se no máximo conforto de um automóvel de topo de gama pago com as minhas contribuições para o Orçamento do Estado, e nessa medida estou disposto a que se decrete que administradores das empresas públicas, directores e dirigentes dos mais variados níveis de administração, passem a utilizar os meios de transporte que o seu vencimento lhes permite adquirir;
Renuncio à satisfação que me dá constatar a felicidade daqueles que, trabalhando metade do tempo que eu trabalhei, garantiram há anos uma pensão correspondente a 5 vezes mais do que aquela que eu auferirei quando estiver a cair da tripeça;
Renuncio ao PRACE e contento-me com uma Administração mais singela, compacta e por isso mais económica, começando por me resignar a que o governo seja composto por metade dos ministros e secretários de estado;
Renuncio ao direito de saber o que propõem os partidos políticos nas campanhas pagas com milhões e milhões de euros que o Estado transfere para os partidos políticos, conformando-me com a falta de propaganda e satisfazendo-me com a frugalidade da mensagem política honesta, clara e simples;
Renuncio ao financiamento público dos partidos políticos nos actuais níveis, ainda que isso tenha o custo do empobrecimento desta democracia, na mesma mesmíssima medida do corte nas transferências;
Renuncio a este serviço público de televisão e aceito, contrariado, assistir às mesmas sessões de publicidade na RTP, nas mãos de um qualquer grupo privado;
Renuncio a mais submarinos, mesmo percebendo a falta que me vão fazer e ao prestígio de Portugal no mundo;
Renuncio ao sossego que me inspira a produtividade assegurada por mais de 230 deputados na Assembleia da República, estando disposto a sacrificar-me apoiando - com tristeza - a redução para metade dos nossos representantes.
Renuncio, com enorme relutância, a fazer o percurso Lisboa-Madrid em 3h e 30m, dispondo-me - mesmo que contrariado mas ciente do que sacrifício que faço pela Pátria - a fazer pelo ar por metade do custo o mesmo percurso em 1 h e picos, ainda que não em Alta Velocidade.
Renuncio a mais auto-estradas, conformando-me, com muito pena, com a reabilitação da rede nacional de estradas ao abandono e lastimando perder a hipótese de mudar de paisagem escolhendo ir para o mesmo destino entre três vias rápidas todas pagas com o meu dinheiro, para além de correr o triste risco de assistir à liquidação da empresa Estradas de Portugal.
Seria fastidioso alongar-me nas coisas que o Estado criou para o meu bem estar e que me disponho a não mais poder contar. E lanço um desafio aos leitores: renunciem também ! Apoiemos todos, patrioticamente, o governo a ajudar o País nesta hora de aflição. Portugal merece.
Eu renuncio!
Neste momento de aflição em que todos temos de dar as mãos e deixar de olhar só para o nosso umbigo, correspondo ao apelo de quem nos governa (e de quem lhe apoia) e faço pública parte da lista do que o Estado criou e mantém para minha felicidade, e de que de estou disposto a patrioticamente prescindir.
Assim:
Renuncio à maior parte das empresas públicas, privadas e àquelas que não se sabe se são públicas se privadas, mas generosamente alimentadas, com dinheiros públicos;
Renuncio ao bem que me faz ver o meu semelhante deslocar-se no máximo conforto de um automóvel de topo de gama pago com as minhas contribuições para o Orçamento do Estado, e nessa medida estou disposto a que se decrete que administradores das empresas públicas, directores e dirigentes dos mais variados níveis de administração, passem a utilizar os meios de transporte que o seu vencimento lhes permite adquirir;
Renuncio à satisfação que me dá constatar a felicidade daqueles que, trabalhando metade do tempo que eu trabalhei, garantiram há anos uma pensão correspondente a 5 vezes mais do que aquela que eu auferirei quando estiver a cair da tripeça;
Renuncio ao PRACE e contento-me com uma Administração mais singela, compacta e por isso mais económica, começando por me resignar a que o governo seja composto por metade dos ministros e secretários de estado;
Renuncio ao direito de saber o que propõem os partidos políticos nas campanhas pagas com milhões e milhões de euros que o Estado transfere para os partidos políticos, conformando-me com a falta de propaganda e satisfazendo-me com a frugalidade da mensagem política honesta, clara e simples;
Renuncio ao financiamento público dos partidos políticos nos actuais níveis, ainda que isso tenha o custo do empobrecimento desta democracia, na mesma mesmíssima medida do corte nas transferências;
Renuncio a este serviço público de televisão e aceito, contrariado, assistir às mesmas sessões de publicidade na RTP, nas mãos de um qualquer grupo privado;
Renuncio a mais submarinos, mesmo percebendo a falta que me vão fazer e ao prestígio de Portugal no mundo;
Renuncio ao sossego que me inspira a produtividade assegurada por mais de 230 deputados na Assembleia da República, estando disposto a sacrificar-me apoiando - com tristeza - a redução para metade dos nossos representantes.
Renuncio, com enorme relutância, a fazer o percurso Lisboa-Madrid em 3h e 30m, dispondo-me - mesmo que contrariado mas ciente do que sacrifício que faço pela Pátria - a fazer pelo ar por metade do custo o mesmo percurso em 1 h e picos, ainda que não em Alta Velocidade.
Renuncio a mais auto-estradas, conformando-me, com muito pena, com a reabilitação da rede nacional de estradas ao abandono e lastimando perder a hipótese de mudar de paisagem escolhendo ir para o mesmo destino entre três vias rápidas todas pagas com o meu dinheiro, para além de correr o triste risco de assistir à liquidação da empresa Estradas de Portugal.
Seria fastidioso alongar-me nas coisas que o Estado criou para o meu bem estar e que me disponho a não mais poder contar. E lanço um desafio aos leitores: renunciem também ! Apoiemos todos, patrioticamente, o governo a ajudar o País nesta hora de aflição. Portugal merece.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
CANDIDATURA DE APR
CANDIDATURA DE ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA APELA AO BOICOTE AOS BANCOS!
A candidatura do poeta António Pedro Ribeiro à Presidência da República e o Partido Surrealista Situacionista Libertário apelam a todos os cidadãos do país que no próximo dia 7 de Dezembro retirem todo o dinheiro que for possível dos bancos. O apelo vem no seguimento de um outro feito recentemente pelo ex-futebolista Eric Cantona. Desta forma, trataremos da saúde a este império de mercados, banqueiros e governos que todos os dias nos roubam, que todos os dias vendem o pai e a mãe na bolsa, que nos matam o ser e a vida. A revolução é a doer e está a caminho. Não estamos interessados em orçamentos nem em contas, estamos interessados na vida.
A candidatura do poeta António Pedro Ribeiro à Presidência da República e o Partido Surrealista Situacionista Libertário apelam a todos os cidadãos do país que no próximo dia 7 de Dezembro retirem todo o dinheiro que for possível dos bancos. O apelo vem no seguimento de um outro feito recentemente pelo ex-futebolista Eric Cantona. Desta forma, trataremos da saúde a este império de mercados, banqueiros e governos que todos os dias nos roubam, que todos os dias vendem o pai e a mãe na bolsa, que nos matam o ser e a vida. A revolução é a doer e está a caminho. Não estamos interessados em orçamentos nem em contas, estamos interessados na vida.
RIBEIRO VERSUS MACEDO
Macedo Vieira, presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, confirmou ter sido informado pelo tribunal local sobre a constituição de dois arguidos no processo que visa apurar os autores do blogue Póvoaonline que, há dois anos, foi mandado encerrar devido a uma queixa do autarca e do vice-presidente Aires Pereira.
Em declarações à Rádio Onda Viva, Abílio Nova, advogado, negou ser o autor do blogue e revelou que o seu nome foi associado ao Povoaonline "num boato que puseram a circular no Verão passado. "O Ministério Público arquivou o inquérito, que estava a decorrer, e do qual eu [Abílio Nova] não tinha conhecimento, porque estava em segredo de justiça. Depois, foi requerida a abertura de instrução pelo presidente da câmara, que foi liminarmente indeferida", explicou Nova. "Entretanto, o presidente da câmara apresentou [um] recurso para o Tribunal da Relação do Porto e os juízes desembargadores entenderam que, havendo dois nomes indicados no processo como suspeitos, a instrução deveria seguir contra esses dois nomes. As suspeitas sobre o segundo arguido, António Pedro Ribeiro, sociólogo, poeta e cronista, resultam de ter afirmado que era colaborador e que conhecia o autor do blogue.
O blogue foi suspenso por uma providência cautelar, uma decisão inédita em Portugal. Os dois autarcas da Póvoa conseguiram que, em 2008, a Google encerrasse, definitivamente, aquele sítio na Internet, por ordem da 1.ª Vara Cível de Lisboa. O tribunal entendeu que o conteúdo do Póvoaonline "extravasava o direito à liberdade de expressão" e "atentava contra o direito à honra, à credibilidade, ao prestígio e à confiança" de Macedo Vieira e Aires Pereira.
www.publico.clix.pt
Em declarações à Rádio Onda Viva, Abílio Nova, advogado, negou ser o autor do blogue e revelou que o seu nome foi associado ao Povoaonline "num boato que puseram a circular no Verão passado. "O Ministério Público arquivou o inquérito, que estava a decorrer, e do qual eu [Abílio Nova] não tinha conhecimento, porque estava em segredo de justiça. Depois, foi requerida a abertura de instrução pelo presidente da câmara, que foi liminarmente indeferida", explicou Nova. "Entretanto, o presidente da câmara apresentou [um] recurso para o Tribunal da Relação do Porto e os juízes desembargadores entenderam que, havendo dois nomes indicados no processo como suspeitos, a instrução deveria seguir contra esses dois nomes. As suspeitas sobre o segundo arguido, António Pedro Ribeiro, sociólogo, poeta e cronista, resultam de ter afirmado que era colaborador e que conhecia o autor do blogue.
O blogue foi suspenso por uma providência cautelar, uma decisão inédita em Portugal. Os dois autarcas da Póvoa conseguiram que, em 2008, a Google encerrasse, definitivamente, aquele sítio na Internet, por ordem da 1.ª Vara Cível de Lisboa. O tribunal entendeu que o conteúdo do Póvoaonline "extravasava o direito à liberdade de expressão" e "atentava contra o direito à honra, à credibilidade, ao prestígio e à confiança" de Macedo Vieira e Aires Pereira.
www.publico.clix.pt
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
DAS MANIFS
Reemergência de sociedades de ordens
A modernização de um país periférico como Portugal faz-se de forma acelerada sempre que há ocasião para mais fortes contactos com o exterior. A cimeira da OTAN em Lisboa, no final de Novembro de 2010, trouxe pacifistas treinados na desobediência civil. E polícias treinados para enfrentarem desacatos de manifestantes violentos, cuja presença em Portugal nunca foi detectada. Eis um bom teste empírico para verificar qual seja a relação entre o Estado de Direito e o sistema prisional.
A observação da situação não foi difícil, pois a actividade esteve reduzida a dois episódios. O corte de uma via junto da cimeira por manifestantes que sujaram o chão e a si próprios com tinta, a sugerir sangue derramado pelos militaristas. Outros fixaram-se ao chão no mesmo local. Noutro local, a manifestação de pequenos grupos libertários e de pessoas de outras convicções foi cercada por polícias de choque, após serem impedidos de entrar na manifestação pela segurança própria da manifestação oficial.
No caso da manifestação contra o militarismo e a OTAN, dividida fisicamente entre partidos de esquerda e sindicatos devidamente identificados, tudo se passou segundo o modelo lógico da velha tradição inquisitorial, em que um juiz entregava o relaxado ao braço secular para o castigo – ao mesmo tempo que pedia misericórdia. Ao contrário desse tempo, como já tinha notado Foucault, o castigo não é público e representado como espectáculo mas antes privado e representado intramuros, como psico-drama. Neste caso a organização da manifestação emitiu um comunicado a hostilizar antecipadamente aderentes à mesma – equivalente ao relaxamento – sugerindo a reacção policial que vincará a imposição do respeito pela vontade política dos organizadores da manifestação de ostracizarem e estigmatizarem sectores considerados heréticos dos apoiantes da mesma causa.
Não é a primeira vez que tais desacatos ocorrem por iniciativa de organizadores de manifestações de esquerda em Lisboa. Pode referir-se, por exemplo, o modo como os dois partidos mais à esquerda do parlamento português impuseram a divisão entre si dos aderentes à possibilidade da construção da secção portuguesa do Fórum Social Mundial, organizando duas manifestações hostis e pondo aí um fim definitivo às actividades, logo no princípio da primeira década do século. Regularmente os raros e pequenos grupos de manifestantes não enquadrados política e sindicalmente são hostilizados pela organização de forma mais ou menos explícita. Mas não é costume saírem comunicados alarmistas contra estrangeiros e contra práticas por estes adoptadas. A polícia não costuma intervir como aconteceu no dia 20 de Novembro. E o que fez a polícia nesse dia?
A polícia desenhou no meio da Avenida da Liberdade uma prisão com cordões de polícias de choque fortemente armados. O trabalho da polícia, recém-treinada para acções repressivas, era por um lado mostrar uma força capaz de prevenir qualquer ideia de reacção por parte dos manifestantes e, por outro lado, evitar usar a violência sem aparente e evidente provocação de manifestantes, pois os olhos do mundo, através das câmaras de jornalistas, polícias e activistas, estavam postos naquele espaço em que os processos de estigmatização se constroem como se fossem arquitectura.
Cientes de tais contradições, alguns manifestantes exploraram-nas, tirando partido das posições de alheamento impostas aos guardas (que não falavam com ninguém a não ser de modo gestual e apenas recebiam ordens da sua hierarquia): faziam como se os guardas não fossem gente, utilizando os seus bastões como se fossem varas para dançar por de baixo, trocavam impressões com pessoas fora da cadeia como se os polícias ali não estivessem, passavam entre os polícias para dentro e fora da prisão (o que, às vezes, era impedido pela força e outras vezes funcionava sem reacção policial). Face à provocação policial de ameaçar com prisão os manifestantes, a tensão aumentou. Mas foi aliviada pelos comportamentos cómicos de contra-provocação e pelos ritmos percutidos por jovens artistas-manifestantes. A tensão e a provocação arriscaram tornar-se violência directa, mas não aconteceu.
Como nas prisões, há regras para cumprir. Apenas ninguém sabe quem, como, quando as faz cumprir, de absurdas e arbitrárias são tais regras não ditas. Apenas a autoridade ausente do terreno conhece tais regras, pois fabrica-as à medida da sua interpretação do que deve ser feito em cada momento, em função do comportamento de alheamento ou tensão de agentes e manifestantes. Nem os agentes nem os manifestantes, apesar de treinados, sabem efectivamente o que irá acontecer a seguir: a violência descontrolada ou a debandada. Fica tudo nas mãos de alguém a quem foi dado o poder de decisão, como aconteceu no fim da manifestação contra a guerra e contra a OTAN. A polícia debandou.
A manifestação oficial tinha sido rapidamente desmobilizada no fim da avenida e apenas ficou a prisão com alguns manifestantes dentro e outros fora, à espera do que pudesse vir a acontecer.
A organização da manifestação ganhou, pelo efeito de estigmatização dos anarquistas e das ideias de oposição distintas das tradicionais sobre o momento político – isso mesmo consta do comunicado dos organizadores, nomeadamente quando se insurge contra o destaque da comunicação social dado às acções espectaculares dos minoritários e amigos de práticas estrangeiras. O efeito mediático dos poucos activistas estrangeiros, esse, foi irresistível para a comunicação social, ou não estivéssemos numa sociedade do espectáculo. A prisão organizada pelo quadrado da polícia, porém, não foi mencionada.
Como ocorre com o sistema prisional, para o senso comum a restrição da liberdade, ainda que sem justificação plausível e evidente, é um direito que assiste aos agentes da autoridade, sem que a tensão gerada pela situação mereça debate público. Ou melhor, as causas de qualquer escalada violenta das situações de encarceramento serão geralmente debitadas aos reclusos, descontadas as causas mais estruturais e reduzidos os conflitos a desordens. A seu tempo, a situação poderá vir a ser ponderado judicial e politicamente – ou não.
Simbolicamente aquelas pessoas fechadas no quadrado estiveram excluídas da sociedade por serem consideradas perigosas: estavam a manifestar-se ilegalmente, isto é contra a vontade da organização da manifestação oficialmente reconhecida como sua proprietária. De onde, das duas uma, ou toda a manifestação se solidariza com os excluídos e defende a sua liberdade – o que não foi aqui o caso – ou a generalidade da manifestação simplesmente ignora (ou finge ignorar) que é gente com os mesmos direitos que segue à sua retaguarda. Evidentemente, a polícia e os manifestantes relacionam-se entre si em função das percepções difundidas sobre a realidade presente – quem são e onde estão os provocadores – e das estratégias próprias, de apresentação pública das respectivas identidades, vontades e capacidades.
No caso da desobediência civil intencionalmente organizada, as coisas correram como habitual: as tarefas de remoção dos activistas inertes foram deixadas à polícia – carregaram os corpos mortos com cuidado para não os aleijar, mas com dureza para os punir pelo incómodo e pela desobediência – e na sequência do espectáculo foram conduzidos à prisão de alta segurança de Lisboa, onde durante algumas horas ficaram isolados inclusivamente do contacto com advogados. (Nestes períodos de isolamento podem ocorrer situações de descontrolo emocional por parte das partes envolvidas, como sabe qualquer agente prisional que acontece aos recém-entrados, e também sabe o relator especial para a tortura da ONU, já que essa – a lei da incomunicação espanhola que autoriza o isolamento de alguns tipos de presos durante bastantes dias – é uma situação esse ligada a uma alta percentagem de denúncias de tortura no país vizinho).
Os Estados modernos controlam a contestação às suas políticas pressionando os limites do Estado de Direito, utilizando nomeadamente a diferença de rapidez de actuação entre o poder executivo – mais rápido – e o poder legislativo – mais lento – e explorando as divisões populares, nomeadamente a rivalidade entre partidos e as divisões sociais, em especial a situação dos excluídos. Como referem Jakobs e Meliá (2003) a prática do direito tende a aplicar-se nas sociedades actuais em três modos lógicos distintos: o direito para os mercados, em que as penas de prisão não são usadas, o direito para os integrados, em que as penas de prisão podem ser aplicadas, e o direito do inimigo, em que os direitos deixam de ser considerados: é como se os excluídos vivessem na prisão embora à solta. É nessa perspectiva – actuarial como dizem os anglo-saxónicos para a contraporem à perspectiva de utilização das penitenciárias para fins de reintegração social dos condenados – foram lançadas ideologias e tecnologias policiais sob a designação de tolerância zero, não aplicadas directa e estritamente em Portugal, segundo as quais qualquer acto de delinquência sinaliza um futuro criminoso e a sua liberdade passa a ser um risco conhecido para a sociedade (com direito a registo no Big Brother). Trata-se da versão globalizada da ideia salazarenta de que umas chapadas a tempo evitam males maiores.
Efectivamente o estado de direito pode estar a ser comprimido entre o mundo livre, onde grassa a ganância e a corrupção sem regulação, a que os norte-americanos chamam Wall Street, e o submundo dos under-dog (para voltar a usar um termo inglês) dos desqualificados, estigmatizados e reprimidos. Compressão agravada com a crise financeira de tal modo que a própria sociedade de classes fica secundarizada, juntamente com o respectivo estado de direito, face à reemergência de uma sociedade de ordens, à medida que os contratos sociais (negociação colectiva, concertação social, segurança social, partilha de riscos sociais, igualdade perante a lei) se transformam de objectivos de progresso em ambições insustentáveis.
A civilização da contenção incorporada da violência, descrita por Norbert Elias (??), pode estar a transformar-se numa sociedade penitenciária, como pressentiu Loïc Wacquant (2000??) ao analisar o Gulag norte-americano. Para os activistas do pacifismo europeus – herdeiros e continuadores dos que, durante a Guerra Fria, acusados de serem quintas colunas dos comunistas, diziam preferir viver vermelhos do que morrer – deve ser irónico serem os herdeiros dos comunistas em Portugal quem os vá relaxar à polícia. Sabem por experiência própria, experiência que não existe em Portugal com a mesma acuidade, que não é a violência directa ou a integridade propriedade o que os torna inimigos do Estado. O que os torna inimigos do Estado são as ideias que fazem ver as mesmas realidades e oportunidades de vida de outro modo, nomeadamente ver as prisões e os limites à livre iniciativa e ao empreendorismo que não sejam os virados para a exploração de terceiros, a promoção da ganância e do golpe económico sem consideração nem pela sociedade nem pelo meio ambiente, os mercados que não sejam protegidos pela força dos Estados e pelas conjuras políticas secretas. Nos países mais ricos da Europa, onde o Estado Social funciona regularmente há décadas, viver à margem da sociedade normal tornou-se uma opção de vida atraente para quem faça de crítica incorporada da sociedade normalizada e das respectivas contradições uma passagem ao acto. Por exemplo, tornando-se nómadas e, portanto, solidários com outros nómadas e a harmonização com a natureza que procuram e os acolhe.
Quadro 1. Frequência de acções violentas e vítimas, por autoria
incidentes mortos feridos
Nº % Nº % Nº %
nacionalistas ou separatistas 4723 38% 9800 36% 26925 38%
comunistas ou socialistas 3708 30% 2823 10% 6656 9%
religiosos 2572 21% 13270 49% 36938 52%
esquerdistas 432 4% 337 1% 125 0%
diversas outras ideologias 299 2% 338 1% 712 1%
anti-globalização 216 2% 22 0% 98 0%
conservadores de direita 127 1% 275 1% 93 0%
anarquistas 121 1% 1 0% 16 0%
ambientalistas 72 1% 3 0% 42 0%
racistas 41 0% 7 0% 79 0%
reaccionários de direita 14 0% 14 0% 10 0%
total 12325 100% 26890 100% 71694 100%
Fonte: João Freire (2009) "De onde vem a violência" em A Ideia nº 66, Almada, Tipografia Lobão,
citando Francisco Proença Garcia (2007) "O terrorismo transnacional" em Revista Militar, V.59, (4), que citou dados do Memorial Institute for the Prevention of Terrorism, www.mipt.org
No quadro 1 mostra-se como as forças da ordem, caso queiram, podem estar informadas de que os anarquistas são o menor dos riscos, quanto se trate da defesa da integridade física das pessoas. Porém são sobretudo a etiqueta anarquia e os anarquistas os alvos – será precisamente por serem os menos potencialmente ofensivos? – da repressão policial global, quando se trata de cimeiras.
A modernização de um país periférico como Portugal faz-se de forma acelerada sempre que há ocasião para mais fortes contactos com o exterior. A cimeira da OTAN em Lisboa, no final de Novembro de 2010, trouxe pacifistas treinados na desobediência civil. E polícias treinados para enfrentarem desacatos de manifestantes violentos, cuja presença em Portugal nunca foi detectada. Eis um bom teste empírico para verificar qual seja a relação entre o Estado de Direito e o sistema prisional.
A observação da situação não foi difícil, pois a actividade esteve reduzida a dois episódios. O corte de uma via junto da cimeira por manifestantes que sujaram o chão e a si próprios com tinta, a sugerir sangue derramado pelos militaristas. Outros fixaram-se ao chão no mesmo local. Noutro local, a manifestação de pequenos grupos libertários e de pessoas de outras convicções foi cercada por polícias de choque, após serem impedidos de entrar na manifestação pela segurança própria da manifestação oficial.
No caso da manifestação contra o militarismo e a OTAN, dividida fisicamente entre partidos de esquerda e sindicatos devidamente identificados, tudo se passou segundo o modelo lógico da velha tradição inquisitorial, em que um juiz entregava o relaxado ao braço secular para o castigo – ao mesmo tempo que pedia misericórdia. Ao contrário desse tempo, como já tinha notado Foucault, o castigo não é público e representado como espectáculo mas antes privado e representado intramuros, como psico-drama. Neste caso a organização da manifestação emitiu um comunicado a hostilizar antecipadamente aderentes à mesma – equivalente ao relaxamento – sugerindo a reacção policial que vincará a imposição do respeito pela vontade política dos organizadores da manifestação de ostracizarem e estigmatizarem sectores considerados heréticos dos apoiantes da mesma causa.
Não é a primeira vez que tais desacatos ocorrem por iniciativa de organizadores de manifestações de esquerda em Lisboa. Pode referir-se, por exemplo, o modo como os dois partidos mais à esquerda do parlamento português impuseram a divisão entre si dos aderentes à possibilidade da construção da secção portuguesa do Fórum Social Mundial, organizando duas manifestações hostis e pondo aí um fim definitivo às actividades, logo no princípio da primeira década do século. Regularmente os raros e pequenos grupos de manifestantes não enquadrados política e sindicalmente são hostilizados pela organização de forma mais ou menos explícita. Mas não é costume saírem comunicados alarmistas contra estrangeiros e contra práticas por estes adoptadas. A polícia não costuma intervir como aconteceu no dia 20 de Novembro. E o que fez a polícia nesse dia?
A polícia desenhou no meio da Avenida da Liberdade uma prisão com cordões de polícias de choque fortemente armados. O trabalho da polícia, recém-treinada para acções repressivas, era por um lado mostrar uma força capaz de prevenir qualquer ideia de reacção por parte dos manifestantes e, por outro lado, evitar usar a violência sem aparente e evidente provocação de manifestantes, pois os olhos do mundo, através das câmaras de jornalistas, polícias e activistas, estavam postos naquele espaço em que os processos de estigmatização se constroem como se fossem arquitectura.
Cientes de tais contradições, alguns manifestantes exploraram-nas, tirando partido das posições de alheamento impostas aos guardas (que não falavam com ninguém a não ser de modo gestual e apenas recebiam ordens da sua hierarquia): faziam como se os guardas não fossem gente, utilizando os seus bastões como se fossem varas para dançar por de baixo, trocavam impressões com pessoas fora da cadeia como se os polícias ali não estivessem, passavam entre os polícias para dentro e fora da prisão (o que, às vezes, era impedido pela força e outras vezes funcionava sem reacção policial). Face à provocação policial de ameaçar com prisão os manifestantes, a tensão aumentou. Mas foi aliviada pelos comportamentos cómicos de contra-provocação e pelos ritmos percutidos por jovens artistas-manifestantes. A tensão e a provocação arriscaram tornar-se violência directa, mas não aconteceu.
Como nas prisões, há regras para cumprir. Apenas ninguém sabe quem, como, quando as faz cumprir, de absurdas e arbitrárias são tais regras não ditas. Apenas a autoridade ausente do terreno conhece tais regras, pois fabrica-as à medida da sua interpretação do que deve ser feito em cada momento, em função do comportamento de alheamento ou tensão de agentes e manifestantes. Nem os agentes nem os manifestantes, apesar de treinados, sabem efectivamente o que irá acontecer a seguir: a violência descontrolada ou a debandada. Fica tudo nas mãos de alguém a quem foi dado o poder de decisão, como aconteceu no fim da manifestação contra a guerra e contra a OTAN. A polícia debandou.
A manifestação oficial tinha sido rapidamente desmobilizada no fim da avenida e apenas ficou a prisão com alguns manifestantes dentro e outros fora, à espera do que pudesse vir a acontecer.
A organização da manifestação ganhou, pelo efeito de estigmatização dos anarquistas e das ideias de oposição distintas das tradicionais sobre o momento político – isso mesmo consta do comunicado dos organizadores, nomeadamente quando se insurge contra o destaque da comunicação social dado às acções espectaculares dos minoritários e amigos de práticas estrangeiras. O efeito mediático dos poucos activistas estrangeiros, esse, foi irresistível para a comunicação social, ou não estivéssemos numa sociedade do espectáculo. A prisão organizada pelo quadrado da polícia, porém, não foi mencionada.
Como ocorre com o sistema prisional, para o senso comum a restrição da liberdade, ainda que sem justificação plausível e evidente, é um direito que assiste aos agentes da autoridade, sem que a tensão gerada pela situação mereça debate público. Ou melhor, as causas de qualquer escalada violenta das situações de encarceramento serão geralmente debitadas aos reclusos, descontadas as causas mais estruturais e reduzidos os conflitos a desordens. A seu tempo, a situação poderá vir a ser ponderado judicial e politicamente – ou não.
Simbolicamente aquelas pessoas fechadas no quadrado estiveram excluídas da sociedade por serem consideradas perigosas: estavam a manifestar-se ilegalmente, isto é contra a vontade da organização da manifestação oficialmente reconhecida como sua proprietária. De onde, das duas uma, ou toda a manifestação se solidariza com os excluídos e defende a sua liberdade – o que não foi aqui o caso – ou a generalidade da manifestação simplesmente ignora (ou finge ignorar) que é gente com os mesmos direitos que segue à sua retaguarda. Evidentemente, a polícia e os manifestantes relacionam-se entre si em função das percepções difundidas sobre a realidade presente – quem são e onde estão os provocadores – e das estratégias próprias, de apresentação pública das respectivas identidades, vontades e capacidades.
No caso da desobediência civil intencionalmente organizada, as coisas correram como habitual: as tarefas de remoção dos activistas inertes foram deixadas à polícia – carregaram os corpos mortos com cuidado para não os aleijar, mas com dureza para os punir pelo incómodo e pela desobediência – e na sequência do espectáculo foram conduzidos à prisão de alta segurança de Lisboa, onde durante algumas horas ficaram isolados inclusivamente do contacto com advogados. (Nestes períodos de isolamento podem ocorrer situações de descontrolo emocional por parte das partes envolvidas, como sabe qualquer agente prisional que acontece aos recém-entrados, e também sabe o relator especial para a tortura da ONU, já que essa – a lei da incomunicação espanhola que autoriza o isolamento de alguns tipos de presos durante bastantes dias – é uma situação esse ligada a uma alta percentagem de denúncias de tortura no país vizinho).
Os Estados modernos controlam a contestação às suas políticas pressionando os limites do Estado de Direito, utilizando nomeadamente a diferença de rapidez de actuação entre o poder executivo – mais rápido – e o poder legislativo – mais lento – e explorando as divisões populares, nomeadamente a rivalidade entre partidos e as divisões sociais, em especial a situação dos excluídos. Como referem Jakobs e Meliá (2003) a prática do direito tende a aplicar-se nas sociedades actuais em três modos lógicos distintos: o direito para os mercados, em que as penas de prisão não são usadas, o direito para os integrados, em que as penas de prisão podem ser aplicadas, e o direito do inimigo, em que os direitos deixam de ser considerados: é como se os excluídos vivessem na prisão embora à solta. É nessa perspectiva – actuarial como dizem os anglo-saxónicos para a contraporem à perspectiva de utilização das penitenciárias para fins de reintegração social dos condenados – foram lançadas ideologias e tecnologias policiais sob a designação de tolerância zero, não aplicadas directa e estritamente em Portugal, segundo as quais qualquer acto de delinquência sinaliza um futuro criminoso e a sua liberdade passa a ser um risco conhecido para a sociedade (com direito a registo no Big Brother). Trata-se da versão globalizada da ideia salazarenta de que umas chapadas a tempo evitam males maiores.
Efectivamente o estado de direito pode estar a ser comprimido entre o mundo livre, onde grassa a ganância e a corrupção sem regulação, a que os norte-americanos chamam Wall Street, e o submundo dos under-dog (para voltar a usar um termo inglês) dos desqualificados, estigmatizados e reprimidos. Compressão agravada com a crise financeira de tal modo que a própria sociedade de classes fica secundarizada, juntamente com o respectivo estado de direito, face à reemergência de uma sociedade de ordens, à medida que os contratos sociais (negociação colectiva, concertação social, segurança social, partilha de riscos sociais, igualdade perante a lei) se transformam de objectivos de progresso em ambições insustentáveis.
A civilização da contenção incorporada da violência, descrita por Norbert Elias (??), pode estar a transformar-se numa sociedade penitenciária, como pressentiu Loïc Wacquant (2000??) ao analisar o Gulag norte-americano. Para os activistas do pacifismo europeus – herdeiros e continuadores dos que, durante a Guerra Fria, acusados de serem quintas colunas dos comunistas, diziam preferir viver vermelhos do que morrer – deve ser irónico serem os herdeiros dos comunistas em Portugal quem os vá relaxar à polícia. Sabem por experiência própria, experiência que não existe em Portugal com a mesma acuidade, que não é a violência directa ou a integridade propriedade o que os torna inimigos do Estado. O que os torna inimigos do Estado são as ideias que fazem ver as mesmas realidades e oportunidades de vida de outro modo, nomeadamente ver as prisões e os limites à livre iniciativa e ao empreendorismo que não sejam os virados para a exploração de terceiros, a promoção da ganância e do golpe económico sem consideração nem pela sociedade nem pelo meio ambiente, os mercados que não sejam protegidos pela força dos Estados e pelas conjuras políticas secretas. Nos países mais ricos da Europa, onde o Estado Social funciona regularmente há décadas, viver à margem da sociedade normal tornou-se uma opção de vida atraente para quem faça de crítica incorporada da sociedade normalizada e das respectivas contradições uma passagem ao acto. Por exemplo, tornando-se nómadas e, portanto, solidários com outros nómadas e a harmonização com a natureza que procuram e os acolhe.
Quadro 1. Frequência de acções violentas e vítimas, por autoria
incidentes mortos feridos
Nº % Nº % Nº %
nacionalistas ou separatistas 4723 38% 9800 36% 26925 38%
comunistas ou socialistas 3708 30% 2823 10% 6656 9%
religiosos 2572 21% 13270 49% 36938 52%
esquerdistas 432 4% 337 1% 125 0%
diversas outras ideologias 299 2% 338 1% 712 1%
anti-globalização 216 2% 22 0% 98 0%
conservadores de direita 127 1% 275 1% 93 0%
anarquistas 121 1% 1 0% 16 0%
ambientalistas 72 1% 3 0% 42 0%
racistas 41 0% 7 0% 79 0%
reaccionários de direita 14 0% 14 0% 10 0%
total 12325 100% 26890 100% 71694 100%
Fonte: João Freire (2009) "De onde vem a violência" em A Ideia nº 66, Almada, Tipografia Lobão,
citando Francisco Proença Garcia (2007) "O terrorismo transnacional" em Revista Militar, V.59, (4), que citou dados do Memorial Institute for the Prevention of Terrorism, www.mipt.org
No quadro 1 mostra-se como as forças da ordem, caso queiram, podem estar informadas de que os anarquistas são o menor dos riscos, quanto se trate da defesa da integridade física das pessoas. Porém são sobretudo a etiqueta anarquia e os anarquistas os alvos – será precisamente por serem os menos potencialmente ofensivos? – da repressão policial global, quando se trata de cimeiras.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
A POLÍCIA E OS OCUPAS
A polícia, as Câmaras e o Estado em geral apenas procuram manter as ocupações inúteis de pre´dios desocupados, por parte de proprietários inúteis apostados na ruina das casas e na especulação dos terrenos.
A polícia não prende os proprietários dos prédios que ruem na via pública, por vezes com pessoas lá dentro
A polícia não prende os vigaristas da finança que continuam por aí a sorrir e a afirmar a sua inocência, a sua tranquilidade
A polícia apenas defende a sacrossanta propriedade privada dos parasitas. E age logo que há uma casa ocupada para atemorizar, para evitar que as ocupações se multipliquem
- - -
Polícia detém nove ‘ocupas’
Nove pessoas foram detidas e levadas para o comando da Polícia Municipal de Lisboa, ao final da tarde ontem, para serem identificadas por estarem a ocupar um prédio na rua de São Lázaro, em Lisboa.
Por:Helder Almeida
Segundo disse ao CM um dos detidos, libertados pelas 20h30, o grupo - conhecido por ‘ocupas' - ocupou o nº 94, propriedade municipal, "ontem [anteontem], e o objectivo era realizar um jantar popular hoje [ontem], no qual íamos oferecer sopa". Alguns estão ligados ao grupo ecologista GAIA. Ao CM, o subintendente André Gomes, comandante da Polícia Municipal, explicou que "está em causa um crime de ocupação de imóvel" e que a "câmara pode apresentar queixa" contra os ‘ocupas'.
http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=AC874946-BCC8-4EC1-813C-F14C8869A946&channelID=00000010-0000-0000-0000-000000000010
A polícia não prende os proprietários dos prédios que ruem na via pública, por vezes com pessoas lá dentro
A polícia não prende os vigaristas da finança que continuam por aí a sorrir e a afirmar a sua inocência, a sua tranquilidade
A polícia apenas defende a sacrossanta propriedade privada dos parasitas. E age logo que há uma casa ocupada para atemorizar, para evitar que as ocupações se multipliquem
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Polícia detém nove ‘ocupas’
Nove pessoas foram detidas e levadas para o comando da Polícia Municipal de Lisboa, ao final da tarde ontem, para serem identificadas por estarem a ocupar um prédio na rua de São Lázaro, em Lisboa.
Por:Helder Almeida
Segundo disse ao CM um dos detidos, libertados pelas 20h30, o grupo - conhecido por ‘ocupas' - ocupou o nº 94, propriedade municipal, "ontem [anteontem], e o objectivo era realizar um jantar popular hoje [ontem], no qual íamos oferecer sopa". Alguns estão ligados ao grupo ecologista GAIA. Ao CM, o subintendente André Gomes, comandante da Polícia Municipal, explicou que "está em causa um crime de ocupação de imóvel" e que a "câmara pode apresentar queixa" contra os ‘ocupas'.
http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=AC874946-BCC8-4EC1-813C-F14C8869A946&channelID=00000010-0000-0000-0000-000000000010
NÃO AO PAGAMENTO DAS SCUTS
Se TODOS assim fizessem... SCUT
Manuel Monteiro Matos
Rua da Gandra, 90 hab 24-G
4445-122 Alfena
Bilhete de Identidade nrº 5810608
Contribuinte nrº 158608232
Assunto: Pagamento de Passagens na Ex-SCUT de Alfena
Exmos. Senhores,
Sendo morador em Alfena e trabalhando no Porto, utilizo, como sempre utilizei, o seguinte trajecto: Porto-VCI-A3-A42-Alfena, sendo o regresso feito em sentido inverso utilizando as mesmas vias.
Não vou dissertar agora no facto de que Vas. Exas. me estão a cobrar a utilização de uma via que foi construída com os meus impostos e com as verbas provenientes da União Europeia, porque esse infelizmente é assunto ultrapassado pelas Leis abusivas deste País.
Vas. Exas. em conluio com os (des)governantes deste País, não prestam nenhum serviço... disponibilizam uma determinada estrutura (estradas) que caso queiramos utilizar terão que ser pagas, mas como vocês, pobrezinhos, ganham pouco e não têm dinheiro para criar postos de trabalho, não disponibilizam nenhum funcionário para receber o que devo no fim da utilização desses serviços...
Assim, de acordo com a leitura sobre as diversas formas de pagamento, cheguei à conclusão de que não vou comprar nenhum dos dispositivos que Vas. Exas. têm(??) à venda, nomeadamente o DECP, o DEM ou o DT, uma vez que tal não faz sentido!
Desgraçadamente, mesmo que quisesse adquirir uma dessas máquinas registradoras, as mesmas encontram-se esgotadíssimas.... porque se calhar vos dá jeito cobrar os "serviços administrativos" que são um autêntico roubo.
Então EU é que compro o dispositivo da v/ cobrança?? Isso tem tanta lógica como ir a um café, pedir umas águas que custam 0,80? e cobrarem-me 0,90? sendo que os 10 cêntimos a mais são como contribuição para o café ter comprado a sua máquina registadora..... NÃO FAZ SENTIDO!!!
Atentem nesta "JÓIA" exemplificativa de autêntica extorsão: No trajecto A3-Alfena, utilizando cerca de um quilómetro da A42.... o valor da passagem são 0,20? e o valor do serviço administrativo são.... 0,30? !!!!!! É para RIR???? então o custo administrativo é superior ao custo do Serviço??? Vão gozar com o c..........lho!!!!!!
Posso realmente fazer o pagamento postecipado, conforme foi divulgado por Vas. Exas., mas.... dou o exemplo concreto de um pagamento que efectuei e do qual junto cópia: No passado dia 21-10-2010 fui a uma Payshop e o recibo total foi de 5,02 Euros... sendo que esta verba diz respeito às parcelas de 2,60? de custos de portagem e... 2,42? de CUSTOS ADMINISTRATIVOS!!!!! 93% de aumento!!!!!
AINDA POR CIMA, O REFERIDO RECIBO NÃO IDENTIFICA OS LOCAIS EXACTOS DAS PASSAGENS NEM AS HORAS... NADA! Como eu utilizo uma viatura da Empresa onde trabalho, acabo por não ter forma de justificar se os recibos são referentes a utilizações particulares ou em serviço da Empresa....
Verifico ainda que, quando termino a passagem das Ex-Scut, no respectivo local, não tendo ninguém para me cobrar a passagem, nem sequer tenho UM LIVRO DE RECLAMAÇÕES!!!!!
Não me venham dizer que tal livro está ao meu dispôr na VIA VERDE ou em qualquer uma das Lojas existentes neste País..... Porque qualquer Empresa onde eu vá, tem Livro de Reclamações nas suas filiais, não me mandam para a SEDE a reclamar....
Tenho o Direito de reclamar no local onde me foi prestado o Serviço, não sou obrigado a deslocar-me para o fazer!!!!!
Ainda por cima, com tantos nomes nas estradas, nem sei se estou a utilizar um serviço da Ascendi, da Brisa ou de qualquer um dos outros Exploradores de cidadãos deste País.... pelo que nesses casos podiam sempre dizer "Ah! coisa e tal.... a sua reclamação não é para a Brisa... é para a Ascendi.... ou é para não sei quem.... olhe, pague e não bufe...."
Face ao exposto, considerando que a inexistência do Livro de Reclamações no Local onde o Serviço me é prestado; considerando tambérm que não tenho que suportar os custos das v/ máquinas de registos; considerando ainda um abuso que seja eu a pagar uma comissão de 93% ao payshop que se substitui a vocês para efectuarem a v/ cobrança que, lembro, não fizeram porque não estavam presentes no respectivo local quando eu passei e quis pagar....
Vou continuar a utilizar a ex-scut em questão, sendo certo que aguardarei que no respectivo local esteja alguém da v/ Empresa! se isso não acontecer, QUERO utilizar o respectivo Livro de Reclamações (podem pendurar no último poste antes da saída para Alfena, é uma sugestão...). CERTO mesmo, é que não pagarei mais multas (custos administrativos, comissão do Payshop, ou outro nome que lhe queiram dar), por não efectuar o pagamento atempadamente por CULPA VOSSA!!!
MALDITOS PORTUGUESES, REBANHO DE CORDEIROS: NINGUÉM TEM UNS PNEUS QUE ME EMPRESTE PARA QUEIMAR NA SAÍDA DAS SCUT'S????? NINGUÉM RECLAMA? TODOS FALAM E NO ENTANTO PAGAM E CALAM??? PORTUGAL TEM MESMO O QUE MERECE...
Dava-lhes os meus cumprimentos, mas só se fosse ao murro seus f.p.
Manuel Monteiro Matos
POR FAVOR DIVULGUEM
Manuel Monteiro Matos
Rua da Gandra, 90 hab 24-G
4445-122 Alfena
Bilhete de Identidade nrº 5810608
Contribuinte nrº 158608232
Assunto: Pagamento de Passagens na Ex-SCUT de Alfena
Exmos. Senhores,
Sendo morador em Alfena e trabalhando no Porto, utilizo, como sempre utilizei, o seguinte trajecto: Porto-VCI-A3-A42-Alfena, sendo o regresso feito em sentido inverso utilizando as mesmas vias.
Não vou dissertar agora no facto de que Vas. Exas. me estão a cobrar a utilização de uma via que foi construída com os meus impostos e com as verbas provenientes da União Europeia, porque esse infelizmente é assunto ultrapassado pelas Leis abusivas deste País.
Vas. Exas. em conluio com os (des)governantes deste País, não prestam nenhum serviço... disponibilizam uma determinada estrutura (estradas) que caso queiramos utilizar terão que ser pagas, mas como vocês, pobrezinhos, ganham pouco e não têm dinheiro para criar postos de trabalho, não disponibilizam nenhum funcionário para receber o que devo no fim da utilização desses serviços...
Assim, de acordo com a leitura sobre as diversas formas de pagamento, cheguei à conclusão de que não vou comprar nenhum dos dispositivos que Vas. Exas. têm(??) à venda, nomeadamente o DECP, o DEM ou o DT, uma vez que tal não faz sentido!
Desgraçadamente, mesmo que quisesse adquirir uma dessas máquinas registradoras, as mesmas encontram-se esgotadíssimas.... porque se calhar vos dá jeito cobrar os "serviços administrativos" que são um autêntico roubo.
Então EU é que compro o dispositivo da v/ cobrança?? Isso tem tanta lógica como ir a um café, pedir umas águas que custam 0,80? e cobrarem-me 0,90? sendo que os 10 cêntimos a mais são como contribuição para o café ter comprado a sua máquina registadora..... NÃO FAZ SENTIDO!!!
Atentem nesta "JÓIA" exemplificativa de autêntica extorsão: No trajecto A3-Alfena, utilizando cerca de um quilómetro da A42.... o valor da passagem são 0,20? e o valor do serviço administrativo são.... 0,30? !!!!!! É para RIR???? então o custo administrativo é superior ao custo do Serviço??? Vão gozar com o c..........lho!!!!!!
Posso realmente fazer o pagamento postecipado, conforme foi divulgado por Vas. Exas., mas.... dou o exemplo concreto de um pagamento que efectuei e do qual junto cópia: No passado dia 21-10-2010 fui a uma Payshop e o recibo total foi de 5,02 Euros... sendo que esta verba diz respeito às parcelas de 2,60? de custos de portagem e... 2,42? de CUSTOS ADMINISTRATIVOS!!!!! 93% de aumento!!!!!
AINDA POR CIMA, O REFERIDO RECIBO NÃO IDENTIFICA OS LOCAIS EXACTOS DAS PASSAGENS NEM AS HORAS... NADA! Como eu utilizo uma viatura da Empresa onde trabalho, acabo por não ter forma de justificar se os recibos são referentes a utilizações particulares ou em serviço da Empresa....
Verifico ainda que, quando termino a passagem das Ex-Scut, no respectivo local, não tendo ninguém para me cobrar a passagem, nem sequer tenho UM LIVRO DE RECLAMAÇÕES!!!!!
Não me venham dizer que tal livro está ao meu dispôr na VIA VERDE ou em qualquer uma das Lojas existentes neste País..... Porque qualquer Empresa onde eu vá, tem Livro de Reclamações nas suas filiais, não me mandam para a SEDE a reclamar....
Tenho o Direito de reclamar no local onde me foi prestado o Serviço, não sou obrigado a deslocar-me para o fazer!!!!!
Ainda por cima, com tantos nomes nas estradas, nem sei se estou a utilizar um serviço da Ascendi, da Brisa ou de qualquer um dos outros Exploradores de cidadãos deste País.... pelo que nesses casos podiam sempre dizer "Ah! coisa e tal.... a sua reclamação não é para a Brisa... é para a Ascendi.... ou é para não sei quem.... olhe, pague e não bufe...."
Face ao exposto, considerando que a inexistência do Livro de Reclamações no Local onde o Serviço me é prestado; considerando tambérm que não tenho que suportar os custos das v/ máquinas de registos; considerando ainda um abuso que seja eu a pagar uma comissão de 93% ao payshop que se substitui a vocês para efectuarem a v/ cobrança que, lembro, não fizeram porque não estavam presentes no respectivo local quando eu passei e quis pagar....
Vou continuar a utilizar a ex-scut em questão, sendo certo que aguardarei que no respectivo local esteja alguém da v/ Empresa! se isso não acontecer, QUERO utilizar o respectivo Livro de Reclamações (podem pendurar no último poste antes da saída para Alfena, é uma sugestão...). CERTO mesmo, é que não pagarei mais multas (custos administrativos, comissão do Payshop, ou outro nome que lhe queiram dar), por não efectuar o pagamento atempadamente por CULPA VOSSA!!!
MALDITOS PORTUGUESES, REBANHO DE CORDEIROS: NINGUÉM TEM UNS PNEUS QUE ME EMPRESTE PARA QUEIMAR NA SAÍDA DAS SCUT'S????? NINGUÉM RECLAMA? TODOS FALAM E NO ENTANTO PAGAM E CALAM??? PORTUGAL TEM MESMO O QUE MERECE...
Dava-lhes os meus cumprimentos, mas só se fosse ao murro seus f.p.
Manuel Monteiro Matos
POR FAVOR DIVULGUEM
terça-feira, 23 de novembro de 2010
MANIFESTAÇÃO ANTI-CAPITALISTA

sabotagem. A greve não pára aqui!
.por Paulão Insubmisso a Terça-feira, 23 de Novembro de 2010 às 9:52.Esta manifestação é convocada por diversos colectivos e está aberta à participação e convocação de todos os anticapitalistas e antiautoritários.
Data:
24/11/2010 - Hora: 15:00
Local:
Pç. do Camões
Colectivo Matéria Bruta* convida à participação:
No dia em que há um apelo à greve geral, convocada pelas centrais sindicais portuguesas, um grupo de colectivos e de pessoas singulares, solidariza-se com a greve. Sim, solidarizamo-nos com esta greve, mas não vibramos de falsa consciência e entusiasmo!
Não queremos continuar entorpecidos por uma vida de trabalho e de rotina, nem continuar a ouvir a mesma lenga-lenga de sempre, de que nos é bastante necessário ganhar a vida. Pretendemos um outro caminho de luta, a adoptar por qualquer um/a que nele se reveja, pois pensamos que se confunde a impossibilidade de dar uma grande solução para o mundo com a aceitação das coisas tal qual elas se apresentam.
A democracia capitalista actual rege a vida da maior parte da população mundial, sendo esta pouco ou nada ouvida sobre as políticas que a governam e assumindo-se, na prática, como um mero instrumento de produção nas mãos de quem detém o título de patrão ou governante.
Contra este estado de coisas construir alternativas é a expressão maior da resistência e é com essa ideia que o colectivo Matéria Bruta apela à auto-organização de todos, propondo que se assuma assembleariamente, com uma perspectiva de partilha e solidariedade, a resolução dos problemas e dos desafios que se colocam nas nossas vidas.
No dia 24 de Novembro apelamos à participação de tod@s na Manifestação Anti-Capitalista, ao Largo Camões. Ao mesmo tempo que apelamos a que a greve não páre aqui, que continuemos a construir nas nossas vidas modelos que estimulam a justiça social e ecológica, geridos de forma horizontal e não-hierárquica. Damos o pontapé de saída e realizamos uma iniciativa que coloca em prática, já neste momento, aquilo que preconizamos para as nossas vidas.
Queremos juntar pessoas, reavivar espaços e fazer deles um ponto de encontro privilegiado para viver em auto-gestão. Não pedimos nem ao patrão, nem ao sindicato, nem ao governo, aquilo de que necessitamos, mas organizamo-nos com @s noss@s companheir@s, de forma a sermos senhor@s das nossas vidas, partilhando em comum os frutos da nossa construção.
Esta manifestação é convocada por diversos colectivos e está aberta à participação e convocação de todos os anticapitalistas e antiautoritários.
.........................................................................................
G3 : Grupo dos três
O contexto de crise generalizada que levou à convocação de uma greve geral por parte dos maiores sindicatos nacionais não nos deixou indiferentes.Contudo, não nos revemos na ideia da luta pela estabilidade que marca essa contestação sindical. É a mudança aparente para que tudo permaneça.
Se depender dos sindicatos e dos partidos de esquerda, esta greve será mais uma encenação para tentar demonstrar que a luta para “mudar de rumo” pode ser feita num só dia, dentro dos limites legais, quando e como eles quiserem.
Cabe-nos a nós cagar nesta gente e compreender que individual e/ou colectivamente podem ser feitas diversas acções de protesto consoante os problemas de cada um/a.
Não basta não ir trabalhar, será necessário criar hábitos de luta contra quem nos explora desde sempre - com ou sem crise! com ou sem défice! com ou sem FMI!
Quantas “gloriosas jornadas de luta”, quantas multitudinárias marchas na Avenida da Liberdade, quantos abaixo-assinados não foram já promovidos pelos sindicatos? E o que é que mudou?
Para saber quem são os nossos exploradores basta ver quem são os parceiros sociais: Estado, patronato e sindicatos. E os pactos de paz social que assinam garantem que nada vai mudar.
Não há reforma possível para um sistema escravizante. Não queremos, por isso, radicalizar o tipo de luta dos sindicatos, um simples jogo de forças para conseguir acordos mais favoráveis, após os quais o militante, obediente e disciplinado, pode baixar a guarda. Queremos, isso sim, travar uma luta sem mediadores que atinja realmente quem nos oprime.
Não queremos esperar pelo pior – isso só o deseja quem quer tomar o poder –, nem esperar pela conjuntura ideal – quem espera por sapatos de defunto morre descalço –, há que tomar as nossas vidas nas nossas mãos e para isso é necessário agir já.
......................................................
Colectivo Os invisíveis
Quem é que ainda confia nesta gentinha que nos governa?
Falam-nos, dia sim, dia sim, da crise. Nos jornais e nos telejornais, no parlamento e nas empresas, a mesma conversa, a mesma sensação de que nos estão a ir ao bolso. E já nem outro pão conseguem vender. A austeridade que nos é proposta não se disfarça sequer com anúncios de melhores dias. A partir de agora, tudo serão sacrifícios.
Cada vez se torna mais claro o significado da palavra crise: um assalto descarado, um roubo organizado. O défice, a competitividade ou a rigidez da legislação laboral não são senão argumentos para nos explorarem mais e melhor. A crise é este sistema, o próprio capitalismo.
Perante esta realidade, uma evidência: ninguém aceita esta chantagem. A oposição ao cenário de desolação financeira, económica e social, mais do que propor reformas do sistema financeiro, políticas de emprego e um capitalismo um pouco menos selvagem, terá de romper, bloquear, paralisar o funcionamento da economia, interromper os seus fluxos, desmantelar os seus dispositivos.
Estamos com esta greve porque parar a economia é danificar o núcleo do sistema capitalista e tudo o que a isso conduza só pode ser bom. Manifestamo-nos fora dos sindicatos e dos partidos, porque a nossa raiva não é negociável e as nossas vidas não têm preço.
Nós tomámos uma opção: não reivindicamos nada nem pedimos nada. Viemos buscar o que é nosso.
Desejamos que as rupturas se multipliquem e agreguem, neste momento em que o capitalismo está emperrado e os governantes aterrorizados. Temos aguardado por uma oportunidade para nos livrarmos do passado de uma vez por todas. Temos aguardado que alguma coisa nova comece. É tempo de começar.
Esta manifestação é convocada por diversos colectivos e está aberta à participação e convocação de todos os anticapitalistas e antiautoritários.
Aparece! Divulga!
Panteras Rosa
MANIF ANTICAPITALISTA : PELO BLOQUEIO E PELA SABOTAGEM - 24NOV 15H LGO CAMÕES
Não somos moeda e a nossa liberdade não é para troca.
O poder já nos habituou às tentativas de compra dos movimentos sociais, com políticas reformistas que reforçam, mais do que combatem, um sistema capitalista excludente, criador e alimentador de desigualdades.
Façamos-lhes a vontade – dizem elxs. Façamos a vontade axs feministas, às fufas e axs trans*, axs imigrantes, às putas e às bichas ou axs bissexuais. Façamos-lhes a vontade, desde que não coloquem em causa o sistema heteropatriarcal e capitalista, claro! Dêem-lhes o casamento entre pessoas do mesmo sexo, até porque isso reforça a hegemonia monogâmica – mas não xs deixem adoptar; dêem-lhes a igualdade formal de oportunidades entre mulheres e homens porque isso xs convence de que só há mesmo homens OU mulheres – e continuemos a difundir, na saúde, na justiça, na educação, os valores que xs escravizam a papéis sexuais restritos; dêem-lhes uma lei que facilita a mudança de nome, nos documentos das pessoas transexuais - mas continuemos a apregoar que são doentes mentais; dêem-lhes a legalidade da prostituição – mas não lhe chamem trabalho nem se conceba que possa ser uma escolha; deixem xs imigrantes viver no NOSSO país – mas desde que seja para fazer o mais precário dos trabalhos e desde que possam ser expulsxs quando nos for conveniente. Dêem-lhes políticas reformistas, a ver se temos movimentos sociais mais consolados e bem-comportados, enquanto continuamos a vigiar e a excluir os corpos, os desejos ou as identidades não rentáveis.
Pois, mas a nós, as políticas reformistas não nos consolam nem calam. Não aceitamos a exploração capitalista, como se de um elemento integrativo se tratasse. Não aceitamos que os direitos humanos sejam moeda de troca. Não aceitamos lavagens cor-de-rosa. Não aceitamos que o governo ou “os mercados” decidam quem explora, quem é exploradx e quem beneficia dessa exploração. Não somos moeda e a nossa liberdade não é para troca.
É isso que vamos dizer no próximo dia 24 Nov, na Manif Anti-capitalista: pelo bloqueio e pela sabotagem. A greve geral deve significar não só a paragem de todo o sistema de produção, como nos pedem os sindicatos, mas também, e sobretudo, a evidência da revolta contra a opressão capitalista. Por este motivo, a greve geral é o dia de todxs sairmos à rua, mostrando que queremos e estamos dispostxs a tudo, por um sistema político, económico e social de todas e para todas as pessoas (e não de algumas e para uns poucxs); para mostrar que queremos, e estamos dispostxs a tudo, por um sistema que não seja escravo dos interesses de unxs, à custa de muitxs.
MANIF ANTICAPITALISTA : PELO BLOQUEIO E PELA SABOTAGEM - 24NOV 15H LGO CAMÕES
A REVOLUÇÃO DE CANTONA
Os media e algumas (muitas) pessoas estão sempre a espetar-nos com essa linguagem contabilística e mercantil nos cornos, aliada ao niilismo e ao conformismo. São as posições dos partidos do sistema, é a felicidade fabricada dos anúncios, a gestão, o orçamento, o negócio, a popança, as vedetas que se vendem aos bancos e às marcas.
Afinal é um ex-futebolista, Eric Cantona, que vem apelar à revolução e a que as pessoas retirem o dinheiro dos bancos. Porque os banqueiros e os especuladores são os culpados da crise. Eles e os políticos ao seu serviço são o rosto do capitalismo.
As manifestações pacíficas têm o seu papel mas já não afrontam suficientemente o sistema. Retiremos o nosso dinheiro dos bancos a 7 de Dezembro ou depois. Firamos os mercados e os bancos de morte. Isto está completamente podre. Parece tudo calminho, tudo bem-comportadinho mas é uma treta. Há que agir, ó poeta. Este é o tempo do caos. Matemos a paz podre das vedetas televisivas. Construamos o homem livre, o super-homem. A Terra é nossa. Busquemos as nossas Dulcineias. Amemos mas combatamos o inimigo. Este reino é nosso. Isto não pode continuar mais. Break on through to the other side.
Afinal é um ex-futebolista, Eric Cantona, que vem apelar à revolução e a que as pessoas retirem o dinheiro dos bancos. Porque os banqueiros e os especuladores são os culpados da crise. Eles e os políticos ao seu serviço são o rosto do capitalismo.
As manifestações pacíficas têm o seu papel mas já não afrontam suficientemente o sistema. Retiremos o nosso dinheiro dos bancos a 7 de Dezembro ou depois. Firamos os mercados e os bancos de morte. Isto está completamente podre. Parece tudo calminho, tudo bem-comportadinho mas é uma treta. Há que agir, ó poeta. Este é o tempo do caos. Matemos a paz podre das vedetas televisivas. Construamos o homem livre, o super-homem. A Terra é nossa. Busquemos as nossas Dulcineias. Amemos mas combatamos o inimigo. Este reino é nosso. Isto não pode continuar mais. Break on through to the other side.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
O POLICIAMENTO DA MANIFESTAÇÃO CONTRA A NATO
O policiamento da manifestação contra a NATO
por Zé Neves
O que se passou ontem na Avenida da Liberdade deve motivar um inquérito, a realizar por uma daquelas entidades que realizam inquéritos e que às vezes até servem para alguma coisa. A democracia não se dá bem com suspensões temporárias. A generalidade dos comentadores e dos dirigentes de todos os partidos com assento parlamentar fizeram questão de recordar isso mesmo ainda há uns poucos meses. Na ocasião, contra declarações da Drª Manuela Ferreira Leite. Na manifestação deste sábado, a polícia isolou um conjunto significativo de manifestantes e obrigou-os a desfilar cercados pela polícia, dentro de um quadrado, isolando-os da manifestação principal. A polícia decidiu ainda que os manifestantes não podiam sair dos limites do quadrado policial em que estavam cercados. Entre os manifestantes estavam crianças e pessoas mais idosas. Não estou certo se a polícia pretendia, deste modo, levar os manifestantes a cometer qualquer acção violenta. Se assim foi, então a polícia fez o contrário do que é suposto fazer e alguém deve ser reponsabilizado por isso. Pode também ser que as falsidades avançadas por José Manuel Anes e por responsáveis dos serviços de informação tenham convencido a polícia ou, na verdade, que esta necessite permanentemente de criar a sua prória necessidade. Sei que não se viu ninguém do Black Bloc. E que o Professor Anes deveria ser simplesmente demitido de tudo em que possa ter qualquer contributo relevante para o tema da segurança pública. A incompetência não pode continuar a ser senhora; até porque no dia em que estivermos perante uma qualquer ameaça séria à ordem pública, o mais provável é não que confiemos em Anes e nos serviços de informação. Mesmo que, nessa ocasião, tenham razão alguma. A violência e os métodos seguidos pelo aparato policial foram inéditos em manifestações políticas deste género. Parte dos manifestantes era anarquista, muitos outros manifestantes não eram. O major Mário Tomé e o deputado José Soeiro, cuja atitude deveria ser um exemplo a seguir por muitos dirigentes e quadros do Bloco de Esquerda, não são seguramente anarquistas. Muito mais gente que ali estava não era anarquista. E se fosse. E SE FOSSE. Recordo que ainda recentemente uma ministra do governo deste país se dizia anarquista e que um eurodeputado deste pais se diz anarquista.
No inquérito que será realizado deverá ser igualmente averiguado onde começa um serviço de ordem de uma manifestação e onde começa a força policial. Com efeito, não se percebe ao certo se foi o serviço de ordem do PCP que deu ordens à polícia no sentido de isolar um grupo de manifestantes ou se foi a polícia que de livre e espontânea vontade agiu desse modo. A reportagem da SIC não é minimamente elucidativa e eu só me juntei à parte guetizada da manifestação a meio do caminho. O que sei é de testemunho indirecto. Da reportagem da SIC, sobretudo, espanta-me a parte em que um responsável da polícia remete a responsabilidade da guetização dos manifestantes para a CGTP. Fico igualmente surpreendido com a parte em que um membro do serviço de ordem do PCP diz à jornalista que as pessoas que foram isoladas eram pessoas que não estavam "credenciadas" (foi esta a palavra) para estar naquela manifestação.
Gostava de saber, ainda, em que circunstâncias é que é preciso um tipo ou um grupo obter credenciação para ir a uma manifestação; e, já agora, também, gostaria de saber quem credencia os homens do serviço de ordem e lhes confere o poder de recorrem à força para impedirem a mobilidade de outros cidadãos em plena via pública. É a polícia? Já agora, e para quem souber responder, o que é legalmente um serviço de ordem? O serviço de ordem é uma espécie de polícia alternativa? Espero sinceramente que para a greve geral de dia 24 não seja necessário um tipo obter «credenciação» junto da polícia ou junto do PCP. Eu, de qualquer dos modos, garanto que farei greve. Com ou sem credencial. E farei pelos motivos presentes, mas também pelo passado. Porque conheço a história de um movimento operário que em Portugal fez o seu caminho com anarquistas, comunistas e muitos outros. Aliás, alguns (sublinho, ALGUNS) dos quadros e dirigentes do PCP que à boca cheia falam da identidade e da história do partido não fariam mal em recordar que, ao contrário de vários outros seus congéneres europeus, em Portugal o Partido Comunista fundado no início dos anos 20 tinha uma maior ligação aos ideais anarquistas. E não resultou propriamente de uma cisão entre social-democratas e comunistas.
O Spectrum tem o vídeo da notícia da sic disponível. Aqui. O destaque dado à guetização dos manifestantes desviou as atenções do essencial, a crítica da NATO e das suas políticas. Os orimeiros que foram privados do direito a fazer ouvir essa crítica foram os manifestantes guetizados que tiveram que se preocupar mais com a repressão policial do que com a manifestação dessa crítica. Se na economia das notícias os discursos contra a NATO acabaram por não ter o protagonismo devido, isso deve-se à atracção da grande parte dos jornalistas por tudo o que cheire a sangue (embora tenha sido a presença dos jornalistas, estou em crer, que conteve a violência policial). Talvez isto não tudo não fosse notícia e este post não estivesse aqui se a manifestação fosse uma só, com pluralidade maior do que a que confere direito de existência à Ecolojovem, ao Bloco de Esquerda e à Intervenção Democrática. O serviço de ordem do PCP e a polícia procuraram dividi-la, criando assim um "alvo policial", o que, sabemos bem, tem enorme semelhança com o que frequentemente se designa como "objecto noticioso".
http://viasfacto.blogspot.com/2010/11/o-policiamento-da-manifestacao-contra.html
por Zé Neves
O que se passou ontem na Avenida da Liberdade deve motivar um inquérito, a realizar por uma daquelas entidades que realizam inquéritos e que às vezes até servem para alguma coisa. A democracia não se dá bem com suspensões temporárias. A generalidade dos comentadores e dos dirigentes de todos os partidos com assento parlamentar fizeram questão de recordar isso mesmo ainda há uns poucos meses. Na ocasião, contra declarações da Drª Manuela Ferreira Leite. Na manifestação deste sábado, a polícia isolou um conjunto significativo de manifestantes e obrigou-os a desfilar cercados pela polícia, dentro de um quadrado, isolando-os da manifestação principal. A polícia decidiu ainda que os manifestantes não podiam sair dos limites do quadrado policial em que estavam cercados. Entre os manifestantes estavam crianças e pessoas mais idosas. Não estou certo se a polícia pretendia, deste modo, levar os manifestantes a cometer qualquer acção violenta. Se assim foi, então a polícia fez o contrário do que é suposto fazer e alguém deve ser reponsabilizado por isso. Pode também ser que as falsidades avançadas por José Manuel Anes e por responsáveis dos serviços de informação tenham convencido a polícia ou, na verdade, que esta necessite permanentemente de criar a sua prória necessidade. Sei que não se viu ninguém do Black Bloc. E que o Professor Anes deveria ser simplesmente demitido de tudo em que possa ter qualquer contributo relevante para o tema da segurança pública. A incompetência não pode continuar a ser senhora; até porque no dia em que estivermos perante uma qualquer ameaça séria à ordem pública, o mais provável é não que confiemos em Anes e nos serviços de informação. Mesmo que, nessa ocasião, tenham razão alguma. A violência e os métodos seguidos pelo aparato policial foram inéditos em manifestações políticas deste género. Parte dos manifestantes era anarquista, muitos outros manifestantes não eram. O major Mário Tomé e o deputado José Soeiro, cuja atitude deveria ser um exemplo a seguir por muitos dirigentes e quadros do Bloco de Esquerda, não são seguramente anarquistas. Muito mais gente que ali estava não era anarquista. E se fosse. E SE FOSSE. Recordo que ainda recentemente uma ministra do governo deste país se dizia anarquista e que um eurodeputado deste pais se diz anarquista.
No inquérito que será realizado deverá ser igualmente averiguado onde começa um serviço de ordem de uma manifestação e onde começa a força policial. Com efeito, não se percebe ao certo se foi o serviço de ordem do PCP que deu ordens à polícia no sentido de isolar um grupo de manifestantes ou se foi a polícia que de livre e espontânea vontade agiu desse modo. A reportagem da SIC não é minimamente elucidativa e eu só me juntei à parte guetizada da manifestação a meio do caminho. O que sei é de testemunho indirecto. Da reportagem da SIC, sobretudo, espanta-me a parte em que um responsável da polícia remete a responsabilidade da guetização dos manifestantes para a CGTP. Fico igualmente surpreendido com a parte em que um membro do serviço de ordem do PCP diz à jornalista que as pessoas que foram isoladas eram pessoas que não estavam "credenciadas" (foi esta a palavra) para estar naquela manifestação.
Gostava de saber, ainda, em que circunstâncias é que é preciso um tipo ou um grupo obter credenciação para ir a uma manifestação; e, já agora, também, gostaria de saber quem credencia os homens do serviço de ordem e lhes confere o poder de recorrem à força para impedirem a mobilidade de outros cidadãos em plena via pública. É a polícia? Já agora, e para quem souber responder, o que é legalmente um serviço de ordem? O serviço de ordem é uma espécie de polícia alternativa? Espero sinceramente que para a greve geral de dia 24 não seja necessário um tipo obter «credenciação» junto da polícia ou junto do PCP. Eu, de qualquer dos modos, garanto que farei greve. Com ou sem credencial. E farei pelos motivos presentes, mas também pelo passado. Porque conheço a história de um movimento operário que em Portugal fez o seu caminho com anarquistas, comunistas e muitos outros. Aliás, alguns (sublinho, ALGUNS) dos quadros e dirigentes do PCP que à boca cheia falam da identidade e da história do partido não fariam mal em recordar que, ao contrário de vários outros seus congéneres europeus, em Portugal o Partido Comunista fundado no início dos anos 20 tinha uma maior ligação aos ideais anarquistas. E não resultou propriamente de uma cisão entre social-democratas e comunistas.
O Spectrum tem o vídeo da notícia da sic disponível. Aqui. O destaque dado à guetização dos manifestantes desviou as atenções do essencial, a crítica da NATO e das suas políticas. Os orimeiros que foram privados do direito a fazer ouvir essa crítica foram os manifestantes guetizados que tiveram que se preocupar mais com a repressão policial do que com a manifestação dessa crítica. Se na economia das notícias os discursos contra a NATO acabaram por não ter o protagonismo devido, isso deve-se à atracção da grande parte dos jornalistas por tudo o que cheire a sangue (embora tenha sido a presença dos jornalistas, estou em crer, que conteve a violência policial). Talvez isto não tudo não fosse notícia e este post não estivesse aqui se a manifestação fosse uma só, com pluralidade maior do que a que confere direito de existência à Ecolojovem, ao Bloco de Esquerda e à Intervenção Democrática. O serviço de ordem do PCP e a polícia procuraram dividi-la, criando assim um "alvo policial", o que, sabemos bem, tem enorme semelhança com o que frequentemente se designa como "objecto noticioso".
http://viasfacto.blogspot.com/2010/11/o-policiamento-da-manifestacao-contra.html
A VIDA PELA VIDA

A VIDA PELA VIDA
“Não existe nada a não ser a vida. (…) Viver, estar vivo, é partilhar do mistério. (…) (Heraclito) pretendia dizer que a vida é tudo, a vida é o único privilégio, a vida não conhece nada, não significa nada, a não ser a vida.”
(Henry Miller, “Os Livros da Minha Vida”)
A vida. O impulso vital. O estar vivo. Eis o que realmente conta, o que está para lá e para cá dos mercados e dos seus seguidores, eis o que estes querem matar.
O mexer dos dedos, o acto de escrever, de criar sem esperar recompensas. A vida, simplesmente a vida. A alegria do renascimento permanente mas também a revolta contra tudo o que nega a vida. A defesa da Criação, a relação do Homem com o Criador, o simples facto de o homem estar à mesa sem pressões nem obrigações. A vida pela vida de que fala Miller, de que fala Nietzsche. O poeta (Jim Morrison) que sobe ao palco para dizer aos que o escutam que deixem de ser escravos, que existe outra via- a via da celebração do milagre da vida. Não mais lágrimas, não mais depressões, não mais castrações. O poeta diz-vos que tudo isso- e também a descrença, o niilismo- são coisas que os mercados e os poderes vos espetam na mente, são também coisas do homem pequeno, do macaco que trepa para cima dos outros e mercadeja. O poeta diz-vos que tendes sido escravos de vós mesmos e da não-vida da economia e da linguagem da economia. O poeta pergunta-vos quanto tempo mais ides deixar que vos ponham a cara na lama, quanto tempo mais ides deixar que vos digam o que fazer. O poeta diz-vos também, com Henry Miller, que está a chegar a hora de vos autolibertardes. Para isso, tendes de matar o instinto de compra e venda, o cálculo dos custos e benefícios, a mentalidade mercantil. Porque tudo isso é primário, pobre, inimigo da vida. Porque tudo isso permitiu edificar esta sociedade podre e sem saída que é preciso derrubar. Em nome da vida.
O POETA

O POETA
Desperto. De novo, desperto. As mãos tremem mas desperto. Estou no princípio. Estou no precipício mas estou também no cume. O homem sobe e o homem sabe. Espera a mulher se ela vier. Quere-a. A mulher bonita, a mulher sabida. O poeta conhece as palavras. Quer dizê-las à mulher. Sabe o que quer. Não se limita a escrever versos. Está no mundo. Bebe. É da noite. A noite arde como a mulher. Este é o poeta que diz que o país está a arder. No fundo, nada tem a perder. Nasceu para isto. Vive da provocação, do desafio. Quer. É sobretudo vontade. Arde. Nasce. Sabe que o Estado o pode deter a qualquer momento. Não suporta o Estado. Em algumas coisas acha-o necessário. Mas não o suporta. Quer derrubá-lo. Já o imaginou várias vezes, já lá esteve várias vezes. Atirou-lhe pedras. Não é um santo. Por vezes até foi um bocado sacana. As pessoas do dia-a-dia na realidade não o conhecem. Poucos o conheceram na sua versão “hard”. Muda de pele. Veste a pele do humilde. Já foi humilhado na praça pública. Mas reagiu após a palavra da mulher. Consegue ser maldoso como Nero. Em determinadas situações, sob determinados céus. As pessoas não sabem. Não sabem que ele esteve várias vezes no inferno mas também já viveu o paraíso. Já não é aquele rapaz inocente dos 16 anos. Apanhou patadas. A maior parte das vezes não reage, deixa a banda tocar. Faz-se de ingénuo, inocente, ou é-o mesmo, acreditamos que sim. O Do Vale senta-se. É o poeta mas não apenas o poeta. Sabe que esta é a hora. Sabe que é a hora de andar na corda-bamba. Sabe que as greves e as manifs estão aí. É convidado para reuniões subversivas. Esta é a hora de gastar munições. Até começa a querer as gajas das televisões. É terrivelmente narcisista. Sabe ser bom e cruel. É terrivelmente sincero nas suas convicções. De certa forma, é um fanático. Espera a mulher. A mulher de sonho, que sobressai na paisagem. Não qualquer uma. Cremos mesmo que acredita nas suas convicções para lá da morte,
embora nem sempre o deixe transparecer. Julga-se um iluminado. A sua luz brilha. Veio cá para algo de grande, de superior. Chega o chato do costume e corta a veia.
AINDA A MANIFESTAÇÃO ANTI-NATO
Eu fui a Lisboa abraçar-te
A ordem perturba mais do que a desordem.
Quem quiser ver, a democracia está aí: converteu a política, toda a política, no confronto com a polícia.
A política é hoje tudo aquilo que escapa ao sistema político-partidário. E contra o que escapa ao sistema político-partidário, a mentira da democracia chama a polícia.
Desta vez, não foram apenas os sitiados pelo controlo social e político – exercido pelo Estado em nome da falsa democracia – que sentiram na pele a repressão exercida pelo aparato da polícia-exército: alguns jornalistas, curiosos, transeuntes, imigrantes, ficaram espantados. Um carioca, ao entrar no Rossio às 18h da tarde ficou mudo e gelado: pensou que tinha regressado ao Morro Formiga na favela da Tijuca.
Mas a falsa democracia é por demais previsível: o ataque preventivo começou cedo. Ataque preventivo na rua, em Lisboa, ataque preventivo nos/dos Media com a série policial black block, ataque preventivo nas fronteiras. Assim desvia a falsidade da sua essência, assim limpa a ferocidade do seu Estado-Guerra: cercar o mal, isolar o desordeiro, o violento, o vândalo, os palhaços, os filhos-da-puta.
Mas se o Estado é cada vez mais guerra e cada vez mais previsível, o que dizer do PCP?
O meu avô e o meu pai foram/são comunistas. O meu avô foi preso, torturado, na prisão tentou suicidar-se para não ceder à tortura, para não ceder à violência: quis ceder a vida para não ceder a liberdade. Teve 7 dias em coma, tantos quanto os dias que ficou sob tortura do sono – a mesma tortura, entre tantas outras, que a NATO infligiu e inflige aos prisioneiros de guerra do Afeganistão e Iraque com o beneplácito do Estado português. Ao fim de 7 dias de tortura do sono, num rebate de lucidez, atirou-se a pique e de cabeça do vão das escadas do 4ª andar da prisão de Coimbra.
O meu pai, deu metade da vida pelo “partido”. Acumulou cólera e raiva, cortes nos direitos sociais e degradação da democracia. (A única coisa que ganhou foi, isso sim, o movimento de base e habitacional cooperativo que ajudou a fundar com sucesso). Acumulou mais cólera e raiva do que aquela que eu tenho.
O PCP é uma linha de comando de controlo da raiva e da cólera?
Nenhuma outra estrutura/movimento político e social no país é um “black block” em potência além do PCP.
Se a voz de comando disse-se: ocupem as fábricas, ponham cadeados nos portões, não deixem sair os camiões, o país parava. (Como talvez nenhum outro país europeu pudesse parar por acção de uma só máquina partidária). O PCP não tem de o fazer, só a ele lhe cabe essa responsabilidade, ou melhor, ao seu comité. Mas para achar a nossa responsabilidade em tudo o que fazemos, temos sempre que confrontar aquilo que realmente fazemos com as possibilidades do que poderíamos fazer e não fazemos. Nessa diferença, podemos achar a nossa irresponsabilidade.
Pergunto – não à voz de comando, aquele que declara à Lusa (Fonte: TVI) que as pessoas que foram impedidas de entrar no protesto «não pediram antecipadamente para fazer parte do corpo principal da manifestação»; ou ainda, citando a reportagem assinada no JN por Catarina Cruz, Carlos Varela e Gina Pereira, “o único caso de maior preocupação deu-se, a meio da tarde, quando um grupo não organizado foi cercado pelo Corpo de Intervenção da PSP, junto ao Marquês de Pombal. A intervenção policial deu-se a pedido dos organizadores da manifestação que perceberam que mais de 100 pessoas iam integrar o protesto. A polícia, fortemente armada, cercou o grupo na cauda do cortejo” –, pergunto a tantos comunistas e simpatizantes do PCP (e já agora aos outros movimentos partidários que a integravam) se têm o direito de impedir que um outro grupo de cidadãos exerça o mesmo direito que eles próprios gozaram no mesmo sítio, à mesma hora?
O que o PCP fez (ou a organização submetida à lógica centralista e autoritária do PCP) foi ilegal, ilegítimo e, sobretudo, um ultraje. E para fazer cumprir uma ilegalidade, chamou a polícia. E ditou-lhes: façam desta forma, cerquem esse grupo de cidadãos, ou seja, exerceu com eficácia o seu poder sobre as autoridades condicionando-as a agir fora da lei. Conseguiu o apartheid. Foi a peça que faltava no puzzle montado pelo circo do poder para legitimar mediaticamente a NATO, a sua cimeira, a sua máquina de guerra.
Foram três as entidades que montaram o circo mediático de legitimação da Cimeira da Nato: as altas-esferas políticas; a Polícia e os seus vários serviços; e os Media de Informação de Massa.
E o circo mediático tinha uma pedra-chave em todo processo de desvio da essência assassina da NATO e limpeza do sangue do seu cadastro criminal: os black block.
15 dias antes, começou-se a armar a tenda: telejornais transformados em séries policiais.
Os black block seriam a pedra-chave para montar o cerco, para apontar o adversário, para legitimar a repressão. Bastaria um carro a arder ou uma montra partida e, passe de mágica, o espectador lá de casa pensaria: de facto, os gajos da NATO até têm razão, estes tipos anti-Nato são uns arruaceiros. E todos os manifestantes passariam a ser arruaceiros e os senhores da Guerra uma espécie de caritas global d’ ajuda ao outro!
Mas desta vez, a tripla entente (Estado-Guerra, polícia e Media) não precisou de polícia infiltrada a partir as montras, para isolar o adversário, para desviar a atenção dos 35 mil mortos civis afegãos, os torturados, o horror, o ódio, o terror espalhado pela NATO. Tinham a voz de comando do PCP: a farsa dos B.B (barbies big-brother), a psicose colectiva instigada na TV por Estado-Guerra, Polícia e Media, passava a ter a sua realidade na manifestação contra a cimeira da Nato.
Nessa lógica, o PCP integrou a lógica do Estado: primeiro, limitou a sua actividade de protesto à legitimidade imposta pelo Estado da falsa democracia, como sempre tem feito (uma greve geral em 22 anos é uma espécie de suicídio assistido pelo capitalismo…), depois impedem um grupo de pessoas de juntar-se a uma só voz contra a Guerra, contra a NATO.
Cerquem esse grupo, cacem-nos, porque a democracia está em perigo!
E cercados que estávamos, passámos a ser o adversário, o arruaceiro, o vândalo, o criminoso que vem na TV. Nem uma pedra atirámos. O que o PCP e a polícia-exército fizeram foi fazer-me sentir, num par de horas, um palestino.
Num par de horas, a violência do cerco policial, converteu-nos em palestinos e palestinas (sem querer dramatizar, é apenas uma imagem, pois sei bem a diferença que vai entro um cerco num par de horas e um cerco total durante 3 gerações…). Nem sequer uma pedra atirámos. (Nem sequer aquelas garrafas d’água que se esborracharam no Vital Moreira… talvez tivessem sido anarcas com credencial!!!!!!!!!).
Entre pacifistas, libertários, membros da PAGAN, anarquistas e outros tantos seres como eu sem serem “istas” de nada, ali estiveram demonstrando a sua não-violência num momento inusitado de demonstração da violência do Estado e de clara violação de dois direitos fundamentais, o direito à manifestação em qualquer espaço público sem prévia autorização e o direito à livre circulação no espaço público do território nacional (não nos esqueçamos que ao longo do percurso foi-nos sucessivamente negado o acesso livre ao território que a voz de comando determinou que não podíamos pisar). À nossa volta, acabava a falsa democracia… mas quando a (falsa) democracia chega tão longe…
Sitiados, com polícias que nos ladeavam enfileirados a um metro ou dois de distância uns dos outros, já não tínhamos mais nada senão o corpo. Caçados os direitos, era a sobrevivência do corpo. A liberdade de ser corpo. Nada mais. Não atirámos uma pedra.
Por isso, no fim, quando te abracei, sei que abracei outro corpo, tão vivo quanto o meu, só violência de lágrimas. Mais nada.
Temos de voltar a fazer amor com a liberdade ou a democracia deixará de existir.
Pelo estado de ruína da cidadania, pela crescente militarização da polícia, pelo estado de ódio e controlo social, os nossos filhos (aqueles que continuem a afirmar a liberdade com a vida) caminharão já não escoltados de cada lado por um polícia, mas por tanques de guerra. Então, seremos cada vez mais palestinos e palestinas, cada vez mais cercados, e o nosso corpo, para viver, vai ter de explodir.
Júlio do Carmo Gomes
A ordem perturba mais do que a desordem.
Quem quiser ver, a democracia está aí: converteu a política, toda a política, no confronto com a polícia.
A política é hoje tudo aquilo que escapa ao sistema político-partidário. E contra o que escapa ao sistema político-partidário, a mentira da democracia chama a polícia.
Desta vez, não foram apenas os sitiados pelo controlo social e político – exercido pelo Estado em nome da falsa democracia – que sentiram na pele a repressão exercida pelo aparato da polícia-exército: alguns jornalistas, curiosos, transeuntes, imigrantes, ficaram espantados. Um carioca, ao entrar no Rossio às 18h da tarde ficou mudo e gelado: pensou que tinha regressado ao Morro Formiga na favela da Tijuca.
Mas a falsa democracia é por demais previsível: o ataque preventivo começou cedo. Ataque preventivo na rua, em Lisboa, ataque preventivo nos/dos Media com a série policial black block, ataque preventivo nas fronteiras. Assim desvia a falsidade da sua essência, assim limpa a ferocidade do seu Estado-Guerra: cercar o mal, isolar o desordeiro, o violento, o vândalo, os palhaços, os filhos-da-puta.
Mas se o Estado é cada vez mais guerra e cada vez mais previsível, o que dizer do PCP?
O meu avô e o meu pai foram/são comunistas. O meu avô foi preso, torturado, na prisão tentou suicidar-se para não ceder à tortura, para não ceder à violência: quis ceder a vida para não ceder a liberdade. Teve 7 dias em coma, tantos quanto os dias que ficou sob tortura do sono – a mesma tortura, entre tantas outras, que a NATO infligiu e inflige aos prisioneiros de guerra do Afeganistão e Iraque com o beneplácito do Estado português. Ao fim de 7 dias de tortura do sono, num rebate de lucidez, atirou-se a pique e de cabeça do vão das escadas do 4ª andar da prisão de Coimbra.
O meu pai, deu metade da vida pelo “partido”. Acumulou cólera e raiva, cortes nos direitos sociais e degradação da democracia. (A única coisa que ganhou foi, isso sim, o movimento de base e habitacional cooperativo que ajudou a fundar com sucesso). Acumulou mais cólera e raiva do que aquela que eu tenho.
O PCP é uma linha de comando de controlo da raiva e da cólera?
Nenhuma outra estrutura/movimento político e social no país é um “black block” em potência além do PCP.
Se a voz de comando disse-se: ocupem as fábricas, ponham cadeados nos portões, não deixem sair os camiões, o país parava. (Como talvez nenhum outro país europeu pudesse parar por acção de uma só máquina partidária). O PCP não tem de o fazer, só a ele lhe cabe essa responsabilidade, ou melhor, ao seu comité. Mas para achar a nossa responsabilidade em tudo o que fazemos, temos sempre que confrontar aquilo que realmente fazemos com as possibilidades do que poderíamos fazer e não fazemos. Nessa diferença, podemos achar a nossa irresponsabilidade.
Pergunto – não à voz de comando, aquele que declara à Lusa (Fonte: TVI) que as pessoas que foram impedidas de entrar no protesto «não pediram antecipadamente para fazer parte do corpo principal da manifestação»; ou ainda, citando a reportagem assinada no JN por Catarina Cruz, Carlos Varela e Gina Pereira, “o único caso de maior preocupação deu-se, a meio da tarde, quando um grupo não organizado foi cercado pelo Corpo de Intervenção da PSP, junto ao Marquês de Pombal. A intervenção policial deu-se a pedido dos organizadores da manifestação que perceberam que mais de 100 pessoas iam integrar o protesto. A polícia, fortemente armada, cercou o grupo na cauda do cortejo” –, pergunto a tantos comunistas e simpatizantes do PCP (e já agora aos outros movimentos partidários que a integravam) se têm o direito de impedir que um outro grupo de cidadãos exerça o mesmo direito que eles próprios gozaram no mesmo sítio, à mesma hora?
O que o PCP fez (ou a organização submetida à lógica centralista e autoritária do PCP) foi ilegal, ilegítimo e, sobretudo, um ultraje. E para fazer cumprir uma ilegalidade, chamou a polícia. E ditou-lhes: façam desta forma, cerquem esse grupo de cidadãos, ou seja, exerceu com eficácia o seu poder sobre as autoridades condicionando-as a agir fora da lei. Conseguiu o apartheid. Foi a peça que faltava no puzzle montado pelo circo do poder para legitimar mediaticamente a NATO, a sua cimeira, a sua máquina de guerra.
Foram três as entidades que montaram o circo mediático de legitimação da Cimeira da Nato: as altas-esferas políticas; a Polícia e os seus vários serviços; e os Media de Informação de Massa.
E o circo mediático tinha uma pedra-chave em todo processo de desvio da essência assassina da NATO e limpeza do sangue do seu cadastro criminal: os black block.
15 dias antes, começou-se a armar a tenda: telejornais transformados em séries policiais.
Os black block seriam a pedra-chave para montar o cerco, para apontar o adversário, para legitimar a repressão. Bastaria um carro a arder ou uma montra partida e, passe de mágica, o espectador lá de casa pensaria: de facto, os gajos da NATO até têm razão, estes tipos anti-Nato são uns arruaceiros. E todos os manifestantes passariam a ser arruaceiros e os senhores da Guerra uma espécie de caritas global d’ ajuda ao outro!
Mas desta vez, a tripla entente (Estado-Guerra, polícia e Media) não precisou de polícia infiltrada a partir as montras, para isolar o adversário, para desviar a atenção dos 35 mil mortos civis afegãos, os torturados, o horror, o ódio, o terror espalhado pela NATO. Tinham a voz de comando do PCP: a farsa dos B.B (barbies big-brother), a psicose colectiva instigada na TV por Estado-Guerra, Polícia e Media, passava a ter a sua realidade na manifestação contra a cimeira da Nato.
Nessa lógica, o PCP integrou a lógica do Estado: primeiro, limitou a sua actividade de protesto à legitimidade imposta pelo Estado da falsa democracia, como sempre tem feito (uma greve geral em 22 anos é uma espécie de suicídio assistido pelo capitalismo…), depois impedem um grupo de pessoas de juntar-se a uma só voz contra a Guerra, contra a NATO.
Cerquem esse grupo, cacem-nos, porque a democracia está em perigo!
E cercados que estávamos, passámos a ser o adversário, o arruaceiro, o vândalo, o criminoso que vem na TV. Nem uma pedra atirámos. O que o PCP e a polícia-exército fizeram foi fazer-me sentir, num par de horas, um palestino.
Num par de horas, a violência do cerco policial, converteu-nos em palestinos e palestinas (sem querer dramatizar, é apenas uma imagem, pois sei bem a diferença que vai entro um cerco num par de horas e um cerco total durante 3 gerações…). Nem sequer uma pedra atirámos. (Nem sequer aquelas garrafas d’água que se esborracharam no Vital Moreira… talvez tivessem sido anarcas com credencial!!!!!!!!!).
Entre pacifistas, libertários, membros da PAGAN, anarquistas e outros tantos seres como eu sem serem “istas” de nada, ali estiveram demonstrando a sua não-violência num momento inusitado de demonstração da violência do Estado e de clara violação de dois direitos fundamentais, o direito à manifestação em qualquer espaço público sem prévia autorização e o direito à livre circulação no espaço público do território nacional (não nos esqueçamos que ao longo do percurso foi-nos sucessivamente negado o acesso livre ao território que a voz de comando determinou que não podíamos pisar). À nossa volta, acabava a falsa democracia… mas quando a (falsa) democracia chega tão longe…
Sitiados, com polícias que nos ladeavam enfileirados a um metro ou dois de distância uns dos outros, já não tínhamos mais nada senão o corpo. Caçados os direitos, era a sobrevivência do corpo. A liberdade de ser corpo. Nada mais. Não atirámos uma pedra.
Por isso, no fim, quando te abracei, sei que abracei outro corpo, tão vivo quanto o meu, só violência de lágrimas. Mais nada.
Temos de voltar a fazer amor com a liberdade ou a democracia deixará de existir.
Pelo estado de ruína da cidadania, pela crescente militarização da polícia, pelo estado de ódio e controlo social, os nossos filhos (aqueles que continuem a afirmar a liberdade com a vida) caminharão já não escoltados de cada lado por um polícia, mas por tanques de guerra. Então, seremos cada vez mais palestinos e palestinas, cada vez mais cercados, e o nosso corpo, para viver, vai ter de explodir.
Júlio do Carmo Gomes
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
HOMENAGEM AO CARLOS PINTO DO PÚCAROS

A sessão de hoje, 18, quinta, da POESIA DE CHOQUE homenageia Carlos Pinto, o recentemente falecido mentor do Púcaros, sob o título "A Poesia dos Cafés e dos Bares". O evento tem lugar no Clube Literário do Porto às 22,00 h e conta com a participação dos diseurs residentes, Luís Carvalho e António Pedro Ribeiro.
Sem o Carlos Pinto, o Púcaros já não é o Púcaros. Sem o Carlos não há mais aquele abraço fraterno, aquela voz que dizia que no Púcaros não há classes e que, às quartas, era a anarquia. Sem o Carlos já não há aquela piada nem o homem da sineta que, de vez em quando, "rabujava". Sem o Carlos já não há aquele afecto, aquela camaradagem que quase já não se usa porque vem de dentro e é autêntica. Sem o Carlos há quem se sinta órfão à quarta-feira. Sem o Carlos eu já não sei o que vou fazer à quarta-feira. Sem o Carlos não há tertúlia, nem democracia, nem discussão até às tantas. Sem o Carlos não há socialismo nem liberdade à solta. Sem o Carlos a generosidade fica mais fraca. Sem o Carlos eu já não tenho boleia.
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