segunda-feira, 29 de março de 2010

JIM MORRISON NAS GALERIAS LUMIÉRE



Música: Jim Morrison relembrado no Porto em evento de música e poesia

O vocalista dos Doors, Jim Morrison, vai ser relembrado em 03 de abril nas Galerias Lumière, no Porto, num evento que incluirá um concerto de Darryl Read e a declamação de poesia. Rui Pedro Silva, autor do livro "Comigo Torno-me Real - The Doors", referiu hoje que A. Pedro Ribeiro e Suzana Guimarães vão declamar poemas de Jim Morrison, William Blake e Nietzsche. No final do evento, Darryl Read, que tem álbuns editados com Ray Manzarek, teclista dos Doors, vai executar versões de temas deste grupo, a que seguirá um concerto na Rua Galerias de Paris.

O HOMEM LIVRE


Às vezes perguntam-me o que vou fazer no dia seguinte. O dia seguinte é, muitas vezes, o dia livre, sem compromissos, sem encontros marcados. Acordo, almoço, vou até ao café ler e escrever. A maior parte das vezes não se passa nada de extraordinário, passa uma gaja boa, uma cara bonita, como quiserem, as beatas falam da vida alheia. Algumas vezes é mesmo entediante. Mas é meu. O tempo é meu e só meu. A vida é minha e só minha. Ninguém ma tira. Não há aqui patrões nem horários. Não há ninguém em cima de mim a dizer-me o que devo fazer. Não há nada acima de mim. Sou livre. Posso ter só uns trocos no bolso. Mas sou livre. Absolutamente livre. Vós não sois. Sou livre. Sou meu deus e meu senhor. Sou livre.

sexta-feira, 26 de março de 2010

BRECHT

Também não me preocupei

Primeiro levaram os negros,
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis,
Mas não me importei com isso,
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
Mas como tenho meu emprego,
Também não me preocupei.

Agora estão me levando,
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht

quinta-feira, 25 de março de 2010

O FILHO DE DEUS

SECÇÃO: Opinião

A. Pedro Ribeiro


O FILHO DE DEUS

Sou o filho de Deus. Passo a noite em claro. Deambulo pela casa. Sou o filho de Deus. Dizem que ainda não cheguei onde quero chegar. Só a espaços. Sou o filho de Deus. Dizem até, agora, que tenho utilidade pública. Sou o filho de Deus. Mas às vezes até sou o anticristo.

Ainda não cheguei onde quero chegar na palavra escrita. Tenho variações. Há dias, como hoje, em que vou da merda ao ouro em dois tempos, em que sou capaz do melhor e do pior.


Sempre fui assim. É madrugada. Os pássaros cantam lá fora. Estou a subir. Já desci hoje. Tenho 41 anos. O que fiz até hoje? Dei-me ao mundo e fugi do mundo. Tive medo. Já senti medo do homem e até da mulher.

As mulheres protegem-me mais, são mais doces, quando o são. Sim, tive medo. Fui um cobarde. Mas também houve alturas em que me fiz ao mundo de peito feito. Em que enfrentei a fera. Em que disse o que tinha a dizer. Sou o filho de Deus. I am the son of God.


Não tenho de ser humilde. Não tenho de me rebaixar perante coisa nenhuma. Ainda assim apetece-me refugiar-me entre as mulheres. Dizem que algumas têm medo de mim. Estranham a minha calma excessiva. Dizem que sou estranho. Que não sou como os outros. E, de facto, eu não tenho a palavra fácil. Falo pouco. Só em certas ocasiões sou um bom conversador. Quando algo ou alguém me entusiasma. Como agora.


Sou o filho de Deus. Escrevo às sete da madrugada. Nem sequer sei se Deus existe nem quero saber. Quero escrever o que nunca foi escrito. Quero escrever como Homero, Shakespeare ou Nietzsche. Não quero ser um poeta de prémios ou de conferências. Farto-me do poeta de café.

Sou o filho de Deus. Descasco uma laranja sobre o papel. O sumo derrama-se como sangue. Sou aquele que procurais. Sou o filho de Deus. Sou aquele por quem esperais.

www.vozdapovoa.com

segunda-feira, 22 de março de 2010

O NOVO COMEÇO

Posso começar agora. É entre os livros que me sinto bem. Três trouxe-os da biblioteca: "Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch" de Henry Miller, "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac, "Antologia" de Pablo Neruda. Dois comprei-os por 1,5 euro numa daquelas lojas que vende um pouco de tudo: "A Revolução Francesa" de Paul Nicolle e "Lolita" de Vladimir Nabokov. De facto, posso começar de novo. Este é, pode ser, o primeiro dia. Aqui na póvoa, no "Ultramar". Os livros fascinam-me. Atrás deles corro. Pelos livros deixo de olhar para as mulheres. E sei que posso começar de novo. Escrever de uma forma límpida sem, no entanto, deixar de ter tendências beatnick. Sei que sou capaz de chegar lá. Sei que, aqui e ali, tenho estado a escrever "o livro". O "Dia Triunfal" que "A Voz da Póvoa", graças ao artur Queiroz, publicou já é um claro esboço. E depois há o livro sobre o Super-Homem nietzscheano que o César me propôs. É para criar, para produzir que estou aqui vivo. Nada mais. Ontem vi a fantasia de Mélies na televisão. Vibrei com Mélies e a sua capacidade imaginativa. Que estamos a fazer aqui se não criamos, se não lemos, se não trabalhamos na construção da arte? Que utilidade tem a vida se for apenas comer, beber e trocar dinheiro por mercadorias? Qual o interesse em andar apenas atrás da próxima refeição ou do próximo salário? Que é o Homem se não se entrega à leitura e à criação? Que é o Homem sem o trabalho criativo?

domingo, 21 de março de 2010

GRAÇA


A menina é bonita
dá gosto vir assim ao café
com meninas bonitas
loira alta de laço simpática
nem apetece sair daqui
deveria haver meninas bonitas
em todo o lado
a vida assim é mais linda
e o poeta trabalha com alegria
e o poeta compõe o poema
com outra graça
e o poema é de graça
como a menina.

A VOZ

Não tenho chefes. Na verdade tenho um só chefe mas esse não está cá. A esse sigo, a esse venero, a esse procuro, a esse entoo cãnticos. Na verdade não é um verdadeiro chefe. Não me dá ordens, nada me impõe, a nada me obriga. Ouço-o neste momento e a sua voz é a voz da Liberdade e do Amor. Ouço-o em algumas canções na rádio, ouço-o no canto dos pássaros, ouço-o na graça das mulheres. Agora já nada tenho a temer. Todo eu sou vontade. Todo eu sou alegria. Iluminações. Vozes. Agora encontri-me. Agora todo eu sou bondade.

DESPOJAMENTO, CONHECIMENTO, CRIAÇÃO


Ao Artur Queiroz
Ao António Manuel Ribeiro
Ao Padre Mário de Oliveira

Tenho de ser despojamento, tenho de ser criação. Procuro o conhecimento do homem e da mulher. Dou-me a quem me ama. Sigo uma espécie de religião. Mas não é bem uma religião. É uma forma de vida. Talvez seja, em parte, o Jesus do padre Mário. A vida dos negócios, do lucro não me interessa. Limito-me a vir ao café, a relacionar-me superficialmente com as empregadas, a observar os patrões. Não, não sou do negócio. Nem do stress, nem da pressa, nem da pressão, nem da competição. Sou do Homem. Do homem que ri, dança e cria. Posso estar em baixo, posso estar no inferno mas é desse homem que venho. Daí a suposta serenidade excessiva, intrigante.
É a liberdade que me interessa. É pela liberdade que me bato. Se me retirarem um bocadinho que seja da minha liberdade eu já não sou o mesmo. E depois há o amor. O amor que sinto quando passas. O amor que nos eleva. O amor que nos desarma. Que nos aproxima da loucura. Sim, porque já sofremos a humilhação pública. Não, não somos do negócio. Do está sempre tudo bem. Não somos da feira nem do mercado. Por vezes descemos à praça pública mas sabemos o que a praça pública diz de nós. Às vezes até nos ama, bate-nos palmas, endeusa-nos mas outras vezes destrói-nos, diminui-nos. Também é verdade que já pouco ou nada temos a perder. Também é verdade que tudo temos a ganhar. E não devemos nada a ninguém. Podemos desejar tudo. Podemos desejar a loira que come croissants ao balcão. Podemos ser tudo o que quisermos. Numa folha de papel está o que somos. Numa folha de papel derramamos a vida. Sem àlcool. Só com a loira à nossa frente. No deserto do café. Há mais de duas horas que estamos a escrever. Escrevemos lentamente, ao ritmo do cérebro e do coração. Coração que, ainda ontem, ainda hoje batia forte, desesperado. Parecia que nos queria deixar. Mas estamos aqui. Continuamos aqui. Os homens riem e bebem àgua das pedras. Temos de ser despojamento, conhecimento, criação. Somos do Homem. Escrever o que escrevemos é o nosso trabalho na terra. Nada mais. Há dias em que vamos dizê-lo à praça pública. Há dias, noites, em que nos transformamos. Nada mais. Somos do homem e da mulher.

sexta-feira, 19 de março de 2010

FILHO DE DEUS


I am the son of God. Sou o filho de Deus. Passo a noite em claro. Deambulo pela casa. Sou o filho de Deus. Dizem que ainda não cheguei onde quero chegar. Só a espaços. Sou o filho de Deus. Dizem até, agora, que tenho utilidade pública. Sou o filho de Deus. Mas às vezes até sou o anticristo. Ainda não cheguei onde quero chegar na palavra escrita. Tenho variações. Há dias, como hoje, em que vou da merda ao ouro em dois tempos, em que sou capaz do melhor e do pior. Sempre fui assim. É madrugada. Os pássaros cantam lá fora. Estou a subir. Já desci hoje. Tenho 41 anos. O que fiz até hoje? Dei-me ao mundo e fugi do mundo. Tive medo. Já senti medo do homem e até da mulher. As mulheres protegem-te mais, são mais doces, quando o são. Sim, tive medo. Fui um cobarde. Mas também houve alturas em que me fiz ao mundo de peito feito. Em que enfrentei a fera. Em que disse o que tinha a dizer. Sou o filho de Deus. I am the son of God. Não tenho de ser humilde. Não tenho de me rebaixar perante coisa nenhuma. Ainda assim apetece-me refugiar-me entre as mulheres. Dizem que algumas têm medo de mim. Estranham a minha calma excessiva. Dizem que sou estranho. Que não sou como os outros. E, de facto, eu não tenho a palavra fácil. Falo pouco. Só em certas ocasiões sou um bom conversador. Quando algo ou alguém me entusiasma. Como agora.
Sou o filho de Deus. Escrevo às sete da madrugada. Nem sequer sei se Deus existe nem quero saber. Quero escrever o que nunca foi escrito. Quero escrever como Homero, Shakespeare ou Nietzsche. Não quero ser um poeta de prémios ou de conferências. Farto-me do poeta de café.
Sou o filho de Deus. Descasco uma laranja sobre o papel. O sumo derrama-se como sangue. Sou aquele que procurais. Sou o filho de Deus. Sou aquele por quem esperais.

quarta-feira, 17 de março de 2010

GRAÇA


A menina é bonita
dá gosto vir assim ao café
com meninas bonitas

loira alta de laço brasileira
nem sequer apetece sair daqui
deveria haver meninas bonitas
em todo o lado
a vida assim é mais linda
e o poeta trabalha com alegria
o poeta compõe o poema
com toda a graça
e o poema é de graça
tal como a menina.
Vá lá que um gajo ainda pode micar o cu das gajas para se entreter. Senão era a pasmaceira total.

Lá se foi a Carina. Venho à Padeirinha por causa da Carina e já não há Carina. Pelo menos por hoje. Há uma brasileira boazona mas não há Carina. A TV passa imbecilidades. O patrão matulão refugia-se na arrecadação. O Tavares chega e saúda-me. É a padeirinha sem a Carina.

O MEDO DO PAPÃO

Ich bin ein frei Mann. A professora de alemão é porreira mas eu não estou a apanhar a pedalada. Há mulheres que fogem de mim porque me acham estranho, demasiado calmo. Há pessoas que se sentam e conversam ao domingo e outras que andam cheias de pressa, sempre com medo do relógio e do patrão que vem de chicote. Que merda de vida é esta? Sempre cheios de medo. Tendes instantes em que vos ris, em que até gozais mas depois volta o medo. Tendes de voltar a casa com medo da noite. TEndes de arrumar as coisas com medo do papão. Entrais em pânico por causa da revolução. Eu também tenho as minhas paranóias, os meus medos, mas vocês são demais. Viveis no medo, no tédio e na morte. Precisais de alguém que vos controle. Precisais sempre do patrão e do papão. Não, não quero ser como vós. Os meus medos não são esses. Passais a vida a trabalhar para o patrão ou para o papão.

TRAFULHAS

"As pessoas precisam de entender que estão a ser burladas. O País não pode continuar a ser dirigido por trafulhas..."
(Dr. Medina Carreira)

PRIVATIZAÇÕES

BE acusa Governo de "leiloar o país" com programa de privatizações e de estar a "fazer um frete" à direita
Lisboa 17 mar (Lusa) - O BE deixou hoje duras críticas ao programa de privatizações anunciado pelo Governo no âmbito do Programa de Estabilidade e Cre...

Lisboa 17 mar (Lusa) - O BE deixou hoje duras críticas ao programa de privatizações anunciado pelo Governo no âmbito do Programa de Estabilidade e Crescimento, considerando que se trata de "leiloar o país" e "um frete" que o executivo está a fazer à direita.

"As contas são claras. O Estado perde muito mais do que ganha. O que o Governo prevê poupar por ano, com a lista interminável de privatizações, é igual aos dividendos que, também por ano, ganha só com os CTT e a EDP", afirmou o deputado do BE Pedro Filipe Soares, numa declaração política no plenário da Assembleia da República.

Considerando que todos os anos se irá perder dinheiro com as privatizações, o deputado do BE acusou os socialistas de fazer "um feroz ataque" ao bem público.

"A opção privatizadora não serve para garantir a estabilidade das contas públicas, é um ataque às posições estratégicas que o Estado detém, degradando as contas públicas", criticou, acusando o Governo de "levar a cabo o maior frete à direita que alguma vez foi feito no nosso país" com esta política de privatizações.

"O Programa de Estabilidade e Crescimento é o casamento entre o PS e a direita sem convenção antenupcial", sublinhou.

Insistindo que privatizar empresas que entregam dividendos ao Estado e que asseguram serviços fundamentais "é um disparate económico e uma ofensa contra a democracia", Pedro Filipe Soares assinalou ainda que nenhum programa de privatizações estava nos compromissos eleitorais do PS, nem no programa do Governo.

"O PS tinha um programa oculto de privatizações que não queria revelar aos portugueses", sublinhou.

Juntando-se às críticas do BE, o deputado do PCP Bruno Dias salientou ainda a necessidade de colocar a questão das privatizações no centro do debate político, considerando que "caiu a máscara ao PS" com programa agora anunciado.

"O PS leva a cabo aquilo que o PSD e o CDS gostariam de fazer", acusou.

VAM.

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

Lusa/fim