segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A PRAÇA PERMANENTE


Corre agora na praça que sou um filósofo. Não tenho a erudição de Platão ou de Nietzsche nem tenho o método, o rigor e a disciplina de Kant mas, sim, talvez seja um filósofo. Aliás, se são os outros que o dizem...
Eu quero saber do Homem. Questiono a condição humana. Procuro a sabedoria, a iluminação no que a esse campo respeita. Não me preocupo com o conhecimento da Física, da Química ou da Matemática mas procuro conhecer o Homem. O homem e a mulher, claro. Converso com elas e com eles. Ouço-os. Procuro nos livros as respostas. Investigo. Sem mestrados nem doutoramentos mas investigo. Ouço os poetas, os filósofos, os escritores, os sociólogos, os psicólogos, os psiquiatras, os historiadores e os eruditos. Faço da vida uma praça permanente. Ouço também os loucos, os visionários, os malditos. Estou a construir o livro. Não sou poeta e filósofo por sê-lo. Tenho uma missão. Escrever o livro que transformará o mundo. Já não sou apenas eu a dizê-lo. São as palavras, os pensamentos que me guiam, que vêm ter comigo. Talvez seja presunçoso dizer que o livro transformará o mundo. Mas sei que se o conseguir escrever influenciarei muita gente. "Assim Falava Zaratustra" inicialmente só chegou a sete amigos. Os homens de espírito têm de saber lidar com a solidão e com a incompreensão dos seus contemporâneos.

REI E SENHOR


Seis da manhã. Hora de criar. O mundo ainda dorme lá fora. Não se ouve vivalma. Estou entregue, e bem, às leituras de Ezra Pound e de Miller. Há poetas e escritores que nos engrandecem, que aumentam a vida.
"Há apenas uma grande aventura, e essa é para o interior, rumo ao eu, e para essa não contam tempo nem espaço, nem tão-pouco feitos", escreve Henry Miller nos "Trópicos de Capricónio". E, de facto, é a vida interior, a descoberta do eu, a demanda de um Graal dentro de nós que faz de nós conquistadores, navegadores, sábios.
Seis da manhã. Hora de criar. Daqui a pouco ides todos prostituir-vos nos vossos empregos de merda a troco de uns trocos para manter a casa, o carro e o frigorífico. Não vos invejo. Tendes mais haveres do que eu mas eu tenho a minha liberdade. Tanto posso criar às seis da manhã, como às quatro da tarde, como às dez da noite. Não tenho chefes a foder-me os cornos nem regras, nem horários. Sou rei e senhor da minha vida. Às vezes fico deprimido mas sei perfeitamente onde quero chegar. E às seis da manhã sinto-me particularmente criador. É de mim que saem as palavras. É de mim que sai o ritmo. Não devo nada a ninguém.
Seis da manhã. Hora de criar. Não ouço nem cães nem gatos. Começo a ouvir agora os galos. Se é que não estou a ouvir vozes...Hamlet, Hamlet. São fantasmas, Hamlet. Olha! São aviões. Pássaros a cantar. O mundo começa a acordar.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

DO PADRE MÁRIO DE OLIVEIRA

O meu abraço, Pedro Ribeiro

É bom saber que continua a resistir. Ainda que saibamos que Ele, o Poder Financeiro, também continua a atacar. E de que maneira.

As mães não podem continuar a parir filhas e filhos para os dar de mão beijada ao Senhor Dinheiro. Mas é isso que está a suceder. Elas fazem isto, Pedro! Por isso, esta CARTA À MINHA MÃE que acaba de escrever e de partilhar também comigo é muito oportuna. Mas insuficiente, como bem sabe, melhor ainda do que eu. Quando o Poder Financeiro até as nossas mães submete e as põe a conceber e a dar à luz para ele, para os exércitos dele, para os executivos dele, para os presidentes da república dele, para os deputados dele, para as Oposições dele aos executivos dele (elas serão amanhã os próximos executivos), para as administrações das multinacionais dele, para os magistrados dele, para os clérigos dele, não bastam CARTAS como esta, ainda que esta seja muito oportuna. Mas é um tigre de papel, Pedro. São precisas PRÁTICAS POLÍTICAS E ECONÓMICAS MAIÊUTICAS, e quem está disposto? São precisos DUELOS IDEOLÓGICOS /TEOLÓGICOS DESARMADOS contra ele em todo o lado, também nos media e nas universidades, e quem está disposto?!

O Senhor Dinheiro apoderou-se até dos nossos genes, Pedro e já nascemos com a sua marca, a marca da BESTA!

Como EXPULSÁ-LO de nós? Como LIBERTARMO-NOS dele? Como lhe RESISTIRMOS efectivamente?

Sempre em comunhão, Mário

CARTA À MINHA MÃE

Sabes, mãe,
estes gajos deram cabo do Homem
sabes, mãe,
houve um tempo em que fui à escola
houve um tempo em que até trabalhei
mas agora cansei-me, mãe,
não posso mais ficar passivo
não posso mais assistir sentado
eles estão a dar cabo de mim
estão a dar cabo do Homem
sabes, mãe,
estas coisas vêm da infância
eu observava as coisas
era o mais inteligente, mãe
mas não intervinha
contentava-me com o meu mundo
com as minhas personagens
mas agora o teatro é outro
envolvi-me com o mundo
casei-me com o mundo
e estes gajos estão a dar cabo
do nosso mundo, mãe
destroem a natureza
viram a natureza contra nós
até podes votar neles, mãe
mas sabes, mãe, eu não sou como eles
eu preocupo-me com os meus filhos
e paro como as outras mães
sabes, mãe, essa merda dos negócios
e do dinheiro
não me diz nada
gasto-o em dois tempos
quando o tenho
são papéis e pedaços de metal
que se trocam
nada mais
mãe, estou farto dos discursos deles
na televisão
é a mim que eles querem destruir
querem-me mole, fraco, deprimido
mas desta vez não vão conseguir
porque agora conheço o jogo deles.

Mãe,
eu sou o Homem.

MADEIRA

Sem água, sem luz e com interrupções nas comunicações, alguns habitantes da ilha da Madeira estão preocupados com a situação dos seus familiares e com a evolução dos estragos com a subida da maré.
Margarida Freitas Vieira, técnica educacional de 54 anos, vive numa zona alta do “meio da cidade do Funchal” e está “sem água, sem luz, sem telefones e sem televisão”.

“Estou muito preocupada porque só consigo saber o que se passa através da minha janela. O mar está todo castanho por causa da água que lá chega das ribeiras e dos lixos e as ondas estão altíssimas”, descreveu Margarida.

Da janela de sua casa, onde está “segura” mas sem saber da sua família e amigos, a testemunha vê também a localidade de Anadia, mais baixa, e contou que “as estradas mais parecem ribeiras, de inundadas, e correm com muita intensidade”.

Também Paulo França, funcionário público de 42 anos, está preocupado com a situação, e teme “que a subida da maré, prevista às 15h00, traga estragos”.

Paulo e a família estão em casa, também numa zona mais alta da ilha, seguindo as indicações da protecção civil, e descreveu que “nunca se viu nada assim”.

“Estamos perplexos. A força das águas arrastou algumas viaturas de zonas inclinadas e não se sabe se estão vítimas dentro dos carros ou não”, temeu.

Por sua vez Filipe Cerqueira, advogado, tentou ir trabalhar hoje de manhã, mas pelos deslizamentos de terra e pelas inundações demorou três horas a fazer um percurso que demoraria cinco minutos.

“As estradas estão bloqueadas, há pontes que ameaçam cair. É lamentável que a cidade esteja toda diminuída”, considerou.

As más condições atmosféricas acalmaram neste momento e a chuva deu uma trégua, deixando um rasto de destruição sobretudo nos concelhos do Funchal e na Ribeira Brava.

As ribeiras galgaram as margens, arrastando na água lamacenta moradias, carros e pessoas, estando algumas dadas como desaparecidas.

Algumas localidades ficaram isoladas, a circulação faz-se com muitas dificuldades e muitas estradas estão encerradas.

MADEIRA

Ao final do dia, o balanço do temporal na Madeira é de pelo menos 32 mortos, 68 feridos e centenas de desalojados. Autoridades admitem possibilidade de mais vítimas mortais.
Muitas viaturas foram arrastadas e destruídas pelas correntes (Duarte Sá/Reuters)

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A forte chuva que caiu na Madeira esta madrugada levou a que o caudal das duas principais ribeiras do Funchal subisse consideravelmente, dando origem a fortes correntes de água e lama que arrastaram e destruíram dezenas de veículos. A baixa da cidade ficou inundada.

O presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, disse que está a preparar o envio a Bruxelas de “um pedido de apoio”, com “documentação fundamentada”. Jardim acrescentou ainda que já falou com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, com o Presidente da República e com o primeiro-ministro.

O Governo pôs ao dispor os “meios de que a região precisasse, inclusivamente meios financeiros”, acrescentou ainda João Jardim. O Governo regional dos Açores também já mostrou disponibilidade para ajudar os madeirenses.

Dada a gravidade da situação, o primeiro-ministro José Sócrates viajou para a Madeira, para definir, com o Governo regional, o plano de ajudas para a região.

Com Sócrates viajou o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, que esta tarde classificou o acidente como "uma situação que exige uma resposta nacional”.

Para além dos 32 mortos, foram contabilizados 68 feridos e há ainda centenas de desalojados na ilha da Madeira. O Exército está a acolher algumas das pessoas cujas casas ficaram destruídas.

O ministro da Administração Interna disse ainda que irá levar a Conselho de Ministros uma proposta para a declaração de calamidade na Madeira, de modo a que a região possa requisitar apoio da União Europeia para lidar com os danos das cheias.

Rui Pereira afirmou também que a Autoridade Nacional de Protecção Civil tem uma equipa de 100 pessoas a postos para seguir também para a Madeira. A Câmara Municipal de Lisboa também ofereceu a ajuda dos Sapadores Bombeiros.

As zonas litorais cidade do Funchal e a vila da Ribeira Brava são as localidades mais atingidas pela fúria das ondas e pelo aumento do caudal das ribeiras que inundaram a baixa da capital madeirense, completamente intransitáveis e com elevados prejuízos.

Dadas as dificuldades de comunicações, desconhecem-se os danos registados na povoação de Curral das Freiras, cuja população esta completamente isolada. Durante o dia, houve grandes problemas de comunicações em toda a ilha. As autoridades chegaram a fazer apelos nas rádios para que médicos e enfermeiros se dirigissem aos serviços de saúde. O aeroporto esteve fechado.

A GNR mobilizou entretanto 56 homens e dois cães, do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro, para embarcar ao início da manhã de domingo para a Madeira.

Este é o pior desastre na ilha nos últimos 100 anos.

DA ANA RAMOS

SILVA LOPES, 77 ANOS,
NOMEADO ADMINISTRADOR DA EDP RENOVÁVEIS.

A pouca vergonha continua. Ao que isto chegou.

SILVA LOPES, com 77 (setenta e sete) anos de idade, ex-Administrador do Montepio Geral, onde saiu há pouco tempo com uma indemnização de mais de 400.000 euros, acrescidos de varias reformas que tem, uma das quais do Banco de Portugal como ex-governador, logo que saiu do Montepio foi nomeado Administrador da EDP RENOVAVEIS, empresa do Grupo EDP.

Com mais este tacho dourado, lá vai sacar mais umas centenas de milhar de euros num emprego dado pela escumalha politica do governo, que continua a distribuir milhões pela cambada afecta aos partidos do centrão.

Entretanto o Zé vai empobrecendo cada vez mais, num pais com 20% de pobres, onde o desemprego caminha para niveis assustadores, onde os salários da maioria dos portugueses estão cada vez mais ao nivel da subsistência.

Silva Lopes foi o tal que afirmou ser necessário o congelamento de salários e o não aumento do salário mínimo nacional, por causa da competividade da economia portuguesa. Claro que para este senhor, o congelamento dos salários deve ser uma atitude a tomar, (desde que não congelem o dele, claro).

Quanto a FERNANDO GOMES, mais um comissário político do PS, recebeu em 2008, como administrador da GALP, mais de 4 milhões de euros de remunerações. Acresce a isto um PPR de 90.000 euros anuais, para quando o " comissário PS " for para a reforma. Claro que isto não
vai acontecer pois, tal como Silva Lopes, este senhor vai andar de tacho em tacho, tal como esta cambada de ex-politicos que perante a crise " assobia para o ar ", sempre com os bolsos cheios com os milhões de euros que vão recebendo anualmente.

Estes senhores não têm vergonha na cara?
Reenvia aos teus contactos, divulguemos mais esta afronta...



ENCAMINHAR? CLARO!
EU ATÉ ENVIAVA PARA MARTE, JÚPITER, NEPTUNO, PLUTÃO E PARA A LONGÍNQUA ANDRÓMEDA!
ISTO MEUS AMIGOS NÃO É UMA VERGONHA, É UM ESCÂNDALO!

Mas os chamados partidos da Oposição onde estão ?! A nanar !!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

DÁ-ME UMA REVOLUÇÃO


Dá-me uma revolução
com montras partidas
e bancos pilhados
dá-me uma revolução
este mundo mata-nos
deixa-nos a comprimidos
dá-me uma revolução
estou farto de caras bonitas
na televisão
dá-me uma revolução
com o mercado entupido
e carros incendiados
dá-me uma revolução
morro de tédio
neste café sem brilho
dá-me uma revolução
há cada vez mais gente
a desejá-la
dá-me uma revolução
não suporto mais
esta merda
dá-me uma revolução
uma revolução
que mude a Terra.

ANA GOMES

Boys will be... bóis

[Publicado por AG] [Permanent Link]

Eu não sei quem é esse tal Rui Pedro Soares, o boy sem cv que aos 32 anos foi alçado a administrador-executivo da PT pelo Estado, a ganhar escandalosamente mais num ano do que o meu marido ganhou em toda a vida, ao longo de 40 anos como servidor do Estado nos mais altos escalões.
Socialista encartado, dizem. Será, nunca dei por ele, que eu saiba nunca sequer me cruzei com ele.
Fraquinho no descernimento é, de certeza. Porque se não quis encalacrar os socialistas, foi exactamente isso que logrou ao accionar uma providência cautelar para impedir a saída do jornal SOL com mais escutas das suas ruminações telefónicas, justamente numa semana em que os socialistas procuraram desmentir quem clamava contra a falta de liberdade da imprensa.
E se investiu para abafar o jornal, a criatura tambem não percebeu que, ao contrário, projectava ainda mais longe a radiação solar.
Com bóis destes, para que servem ao PS os boys?

http://causanossa.blogspot.com

À MESA DO HOMEM SÓ


à mesa do homem só. estórias, A. Pedro Ribeiro

By Cláudia Sousa Dias

Paixão, delírio, desvario e perda. São os principais ingredientes deste pequeno grande livro de poesia de A. Pedro Ribeiro que, nesta fase, dava os primeiros passos nas lides da escrita poética. Os textos datam da segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000. É notório o talento que escapa por entre as frases de uma escrita errante. Uma escrita essencialmente emotiva, elaborada a partir do cenário do quotidiano dos cafés das cidades do Porto e de Braga.

Uma das facetas mais angustiantes da obra por se tratar de uma temática recorrente, em diversos trabalhos de A. Pedro Ribeiro, é o da necessidade da fuga, de evasão e perseguição da miragem de um paraíso perdido, através da procura de refúgio no álcool, o alívio momentâneo no sexo. No primeiro caso, as alucinações despoletadas pela bebida aproximam-no da poesia provocadora de Morrison, enquanto que, no segundo, colocam-no muito próximo do panteão dos poetas do erotismo norte-americano como é o caso de Miller ou Bukovski.

As provocações sucedem-se em poemas como

“Ressaca”

Na ressaca
das noites ébrias
liberto pássaros
absorvo conversas

Tudo parece
absurdo convencional
diante do meu fogo
diante da embriaguez
permanente.


É notório o sentimento de insatisfação constante, fruto do espartilho do tédio, da monotonia, do desespero impresso pela patine da rotina dos dias sempre iguais que impelem a procura de mundos diferentes, onde a solução mais imediata é aquela que parece ser o portal de saída, de fuga, o álcool – abre a cortina para o paraíso construído na imaginação a partir da alteridade da consciência e do desequilíbrio sináptico que transparece no apelo a Dionysos em “Ébrio 29”.

“…ao raiar da aurora
avistaremos a terra prometida
desfilaremos entre os anjos
sobre o tapete celestial…”

Do mesmo impulso de fuga à deprimente e feia realidade do quotidiano, nasce o sonho da Beleza e do Prazer, onde se apela ao excesso, trazido aparentemente pelo arquétipo representado deus ou pela figura alegórica da Embriaguez, embora, na realidade, o desejo mais primário, mais fundamental é, precisamente, o Desejo, trazido pela mão de Aphrodite, arquétipo incarnado pela Musa, a quem é dedicado o livro…

“Valete de Espadas”

pétalas murchas
cálices desleixados
(…)

o sangue não corre
a alma não morre
entediada

tantas horas
longas demoras
no meu quarto
a espera
ansiosa

a vida lá fora
as conversas
…tu…
…já não vens…
…hoje…

Prosseguem a angústia e a asfixia, que agarram a alma, numa espiral de auto-destruição como um pântano de areias movediças em

“Távola”

(…) Amor sobre um penedo de saudade
rebento suicida
outras eras
idades

A catarse
o ciúme
ao rubro
o crime
o filme

estórias ao espelho
à mesa a tua imagem
do homem só acesa.

Um poema com duas opções de leitura, a multiplicar as interpretações e a aumentar exponencialmente a riqueza polissémica do texto que dá o título ao livro.

Em vário textos de à mesa do homem só. estórias a linguagem utilizada, aparentemente desconexa, é a projecção de caóticos sonhos povoados de erotismo, que reflectem uma poética tipicamente onírica, marcada por uma profusão de imagens que se sobrepõem e reproduzindo um caos interior, caracterizado por um vórtice de contradições à vista desarmada.
Poemas como “Anjo em Chamas”, dedicado a Jim Morrison, ou “Cristo Ébrio” deliciam pela absoluta subversão face ao convencional, à norma, às regras, a toda e qualquer proibição ou dogma, características que fazem do poeta A. Pedro Ribeiro um verdadeiro filho de Maio de ’68 . São dois poemas povoados de um erotismo imbuído no sagrado, a exaltar o hyerogamos, ou acasalamento sagrado, a lembrar antigos rituais Gregos ou Babilónios.

“Cristo Ébrio”

Regresso
serpentes masturbam-se na areia
estradas aquáticas

golpes de espuma celebram
o orgasmo de Neptuno.

Procuro o beijo
o anel sagrado
sou serpente ébria (…)

serpente ébria
danço canto
enfeitiço…

Este poema e o seguinte sugerem um ritual dionisíaco, marcado pelo ritmo caótico, desenfreado de um voraz bailado de Ménades, como se pode ver no poema

“Um poeta em fogo”

Distingo ao longe
um cenário onírico
adornado
de cores perversas

(…)

Vulcões vomitam cometas
flores desabrocham
em arco-íris embriagadas.

Cascatas inflamadas
trepam a catedral.

Caânticos dionisícos
em redor da fogueira
corpos enlaçados
em delírio carnal.
(…)


Em toda a obra se assiste ao triunfo da Loucura sobre a Razão que está especialmente manifesto em “Representação”.

Mas em “Devaneios” começam a notar-se alguns ecos de Baudelaire e da sua obra As Flores do Mal

“Devaneios”

Toma-me a alma
Conduz-me ao fim da noite
(…)
Encharca de whisky o meu cadáver vivo”
(…)

Vem pintor surrealista
acende na tela
a sombra imensa do martírio
conduz-me a noite sem fim”

O último dos poemas de à mesa do homem só…, com o qual o autor presta homenagem aos sem-abrigo, exprime a total e completa insubmissão à norma e a necessidade de afirmação e de ser aceite na plenitude da diferença, que comporta a sua forma de estar no mundo, com todos os desvios:

“Queimam as horas mal-dormidas sobre um banco de jardim.
No cérebro estalam vulcões, montanhas. A viagem recomeça, rumo ao cume.

Dentro do sonho existem lugares verdes (…)
Quiseram prender-me. Atirar-me para o hospício.
Mas eu não estava lúcido. E os inquisidores fugiram de mim.”

Uma escrita onírica sim, porque pictórica, onde as imagens se sucedem, se fundem formando o caos aparente, onde se concentra o vórtice de emoções e sensações impossíveis, incomportáveis na morna quietude de quotidiano…

À mesa do café está o último reduto que abriga alguém que encarna a rebeldia de quem prega no deserto, no meio de víboras e escorpiões.

Um livro no qual, segundo o Autor,

“tudo acaba, tudo começa à mesa do homem só que escreve, descreve, constrói cenários, delineia paisagens. O resto são estímulos, sinais exteriores, perspectivas de contacto, imagens.”

Clamamos, portanto, por uma reedição.

Urgente.

à mesa do homem só. estórias
A. Pedro Ribeiro
Silencio da Gaveta
2001

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

CINCO E MEIA DA MANHÃ


São cinco e meia da manhã. Escrevo. A menina veio ter comigo no Piolho. A menina deu-me a mão e falou-me da revolução. Depois no Púcaros deram-me cervejas para financiar a revolução. A menina é bonita. Falta a outra menina que nunca atende o telefone. Se tivesse uma menina todos os dias era feliz. Basta que a menina me dê a mão. E, já agora, que fale na revolução. Acredito que ela vem. Há cada vez mais gente a desejá-la. Mesmo que haja cada vez mais gente deprimida. Talvez até por isso. O capitalismo produz a depressão. O mercado é inimigo da vida. O mercado destrói o homem e as meninas.
São cinco e meia da manhã. Escrevo. Não tenho sono. Este blogue já tem nove seguidores. Tenho seguidores. Não me posso deixar contagiar pelo derrotismo, pelo niilismo, pelo tem que ser. Tenho de acreditar no que já escrevi. Tenho de acreditar nas minhas ideias. No homem que ri e canta e dança. Na alegria autêntica, não forçada. No homem livre. Sou um homem livre. Estou condenado a ser um homem livre. Não me posso deixar contaminar pelas conversas do status quo, pela linguagem económica. Estou para lá da economia. Sou da palavra.
São cinco e meia da manhã. Escrevo. Tenho responsabilidades políticas. Mesmo que não esteja a seguir o caminho mais ortodoxo sei que tenho responsabilidades. Sei perfeitamente onde quero chegar. Não me posso deixar contaminar. Não me posso deixar contaminar. Afasta-te, mercado! Afasta-te, luta pelo poder! Afasta-te, luta pela sobrevivência! Eu tenho vontade. Tenho entusiasmo. Tenho fé. Acredito na revolução. Quase só acredito na revolução. E no amor, na liberdade, na poesia, nas meninas.

MÁRIO CRESPO

O jornalista Mário Crespo reiterou hoje ter sido vítima de censura por parte do Governo alegando que aquilo que o primeiro ministro diz em público tem consequências.
Mário Crespo começou por distribuir uma crónica que não vai sair "por não ter onde ser publicada" (Pedro Cunha)

O jornalista está a ser ouvido em comissão parlamentar a propósito da não publicação de uma crónica em que fala de alegadas pressões de José Sócrates.

“Estou aqui porque me foi censurada uma crónica”, afirmou na comissão de Ética, Sociedade e Cultura que está a realizar uma série de audições a várias personalidades sobre a liberdade de expressão em Portugal.

“A crónica foi censurada” e “surpreendeu-me muito a atitude do José Leite Pereira [director do Jornal de Notícias]”, disse, referindo que, tal como o Jornal Nacional era o bloco de informação com muita audiência, a sua crónica habitual no JN era “das mais lidas em Portugal.

“O que o chefe do Governo diz em público tem significado, tem que ter”, sublinhou respondendo a questões da deputada socialista Isabel Neto sobre a liberdade de expressão dos membros do Governo de criticar programas de informação em encontros casuais.

“Tenho uma série de fontes inequívocas - e de resto nunca foi desmentido - que me dizem ter sido dito [pelo primeiro ministro] que eu seria um problema a ser resolvido”, sublinhou Mário Crespo.

Segundo adiantou, os jornalistas sempre receberam telefonemas de assessores de ministros, mas a “situação tem-se vindo a intensificar nos últimos quatro anos”.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

HOMEM, QUEM ÉS?

Procuro o livro que me dê as respostas. Já o tive em "Zaratustra", em Henry Miller, e noutros, a espaços. Procuro o sentido da vida.

A MENINA É SIMPÁTICA


A menina é simpática. O que se quer é que as meninas sejam simpáticas. A "Padeirinha" está às moscas. Até o Tavares deixou de vir. O intelectual palrador não voltou a aparecer. O "Nova Onda" está a ter mais sucesso. Mas eu já não tenho cacau para andar de bar em bar. A "Padeirinha" está a ter prejuízo. Instalaram um ecrã para o futebol mas não parece estar a dar efeito. E eu preocupado com o sucesso comercial da "Padeirinha"...eu que não me preocupo com as questões económicas. Eu que só venho micar as meninas. E o patrão matulão continua a controlar. Sou escritor, caro senhor. Passo a vida a escrever. Escrevo e olho para as gajas. Eis o que faço. A menina sorri. A cerveja está quase a acabar. Mas ainda aguenta. A menina é simpática. As meninas estão sempre a mudar. As amigas não atendem o telefone. Era bom que esta menina se mantivesse. Não me excita como outras que por aqui passaram. Mas é bonita e simpática.