terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Procuro o livro que me dê as respostas. Já o tive em "Zaratustra", em Henry Miller, e noutros, a espaços. Procuro o sentido da vida.

A MENINA É SIMPÁTICA


A menina é simpática. O que se quer é que as meninas sejam simpáticas. A "Padeirinha" está às moscas. Até o Tavares deixou de vir. O intelectual palrador não voltou a aparecer. O "Nova Onda" está a ter mais sucesso. Mas eu já não tenho cacau para andar de bar em bar. A "Padeirinha" está a ter prejuízo. Instalaram um ecrã para o futebol mas não parece estar a dar efeito. E eu preocupado com o sucesso comercial da "Padeirinha"...eu que não me preocupo com as questões económicas. Eu que só venho micar as meninas. E o patrão matulão continua a controlar. Sou escritor, caro senhor. Passo a vida a escrever. Escrevo e olho para as gajas. Eis o que faço. A menina sorri. A cerveja está quase a acabar. Mas ainda aguenta. A menina é simpática. As meninas estão sempre a mudar. As amigas não atendem o telefone. Era bom que esta menina se mantivesse. Não me excita como outras que por aqui passaram. Mas é bonita e simpática.

MIILLOR FERNANDES

(adaptado)
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à
quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma
pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então,
foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos
extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário
de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos
mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua
língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que
vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a
ideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão
matemática.
2
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a
mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem
nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.
Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades
de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro
para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro
Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema,
e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu
correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente,
sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito
assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se
reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um
merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua
maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus
quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de
seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
3
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar
firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado
amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de
maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a
sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para
uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de
ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor
num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo
assim como quando estás a sem documentos do carro, sem
carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a
mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada
funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a
saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os
empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e
em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a
desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

HOMEM LIVRE


Homem livre
amas a solidão
e pertences à Terra
homem livre
queres a glória
e constróis o poema
homem livre
a tua arma é a palavra
acima de ti não há nada
homem livre
não serves a Deus
nem ao mercado
homem livre
amas a paz
mas estás em guerra
homem livre
não trabalhes
não sofras
não obedeças
ri
goza!
Homem livre
és das paixões
e pertences à Terra.

O OUTRO POETA

Há mais um poeta no "Bom Pastor". Finalmente, vejo companheiros, poetas que vêm escrever para o café. Os outros poetas fecham-se em casa a escrever. São diferentes de mim. Eu descarrego tudo. Os outros estão sempre a fazer cortes, acrescentos e arranjos. Não são espontâneos. O meu companheiro poeta folheia o bloco, mexe na pasta azul. Eu continuo a escrever, a vomitar o que me vem à cabeça, a lamentar a falta de cerveja. O outro poeta escreve. Os outros clientes olham para o Sporting. A vida é o que é.
Estava eu a pedir a mão do irmão, do amigo no poema e a D. Rosa deu-me a mão. Não pode ser mera coincidência. É o divino. O divino está em mim. O divino faz de mim o artista, o mago, o profeta. O divino transforma-me noutro homem. No homem que cria, no homem que acredita, no homem que vai até ao fim. Sou eu que estou aqui. Sou eu que estou aqui, ouviram? Sou eu que contesto as vossas leis. Sou eu que digo o poema nas vossas barbas. Sou eu que provoco. Sou eu que danço. Sou eu que bebo. Sou eu o homem. Sou eu o deus.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OBRIGADO, SOL

PACHECO PEREIRA

Caso "Sol"

Pacheco Pereira pede explicações ao primeiro-ministro sobre conspiração
12.02.2010 - 14:37 Por Luciano Alvarez

O deputado do PSD Pacheco Pereira voltou hoje a insistir que o primeiro-ministro tem de dar “muitas explicações ao país” e manifesta-se “cada vez mais preocupado” com o que vem sendo a ser relatado pelo semanário ‘Sol’ sobre o caso “Face Oculta”, que considera uma “conspiração”.
O primeiro-ministro tem de fazer uma avaliação sobre a sua própria posição, disse Pacheco Pereira (Manuel Roberto/PÚBLICO)

“É um conluio entre um conjunto de responsáveis políticos com responsáveis económicos e com pessoas que funcionam um pouco como funcionários políticos em diferentes empresas, misturando interesses económicos com interesses políticos no sentido de manipular aquilo que é o contexto actual da imprensa em Portugal”, afirmou no Parlamento, no final da comissão parlamentar para a corrupção.

O social-democrata acrescenta que “quando muita gente anda a falar de liberdade de expressão” não se trata de “as pessoas omitirem livremente a sua opinião”. “O que acontece é que está a ser condicionada a liberdade de expressão se, por qualquer motivo, um plano deste tipo fosse levado avante. E nós não sabemos, nalguns casos, se para alguns jornais amigos e para alguns jornalistas amigos o condicionamento das notícias e das opiniões funcionou em período eleitoral. Tudo isto tem uma grande gravidade”, salientou.

Questionado se José Sócrates deve pedir a sua demissão, Pacheco Pereira não respondeu directamente. Disse que o primeiro-ministro “tem de fazer uma avaliação sobre a sua própria posição”, acusando-o de ter “mentido ao Parlamento”, o que “em qualquer país democrático é grave”. “Nós já sabemos muito mais coisas que o que publica o ‘Sol’. Sabemos muito mais coisas sobre a PT, a Ongoing, sobre o processo da TVI, temos declarações dos jornalistas, temos alguns documentos. Reduzir isto apenas a fugas de informação, ou informações assentes em escutas é pouco. Há muito tempo que nós sabemos que há uma relação directa entre as decisões políticas e as decisões económicas. Há uma intromissão nos negócios nos gabinetes ministeriais, em especial nos da comunicação social”, acrescentou.

PODRIDÃO

Depois de ter abortado o negócio e de José Eduardo Moniz ter negociado a saída da TVI e se ter juntado a Nuno Vasconcelos na Ongoing, Oliveira espicaça o vice-presidente do BCP dizendo-lhe que Vasconcelos “tem sido a vedeta em toda a imprensa”.

O telefonema ocorreu a 4 de Agosto último e referia-se às noticias de que a Ongoing pretendia reforçar a sua posição no grupo Impresa (SIC/"Expresso"/"Visão"), dominado por Francisco Balsemão. O ex-ministro socialista responde que pretende é avançar para a TVI e se trata apenas de “poder acusar Balsemão de não ter querido vender, o que o obrigou a ir para outras áreas”.

No dia seguinte comentam o facto da mulher de Moniz se manter na estação de Queluz. “Quem a armou que desarme”, disse Vara, respondendo Oliveira que “isto não tem grande solução”. Dias depois voltam a conversar para comentar as condições em que Moniz terá negociado a saída da Media Capital e a protecção que Manuela Moura Guedes goza no seio da redacção da TVI. “Está espaldada numa trupe que domina a informação”, transcreve o "Sol".

Numa outra gravação do início de Setembro, a conversa centra-se nas notícias que relatam alegadas movimentações do PS para afastar Moura Guedes do Jornal Nacional das sextas, e também de supostas conversas entre José Sócrates, o primeiro-ministro espanhol e o presidente da Prisa, José Luís Cébrian para negociar a venda da TVI.

“Acabei de saber que o teu jornal manda a tese de que foi uma cabala do PS”, diz Vara, questionando depois “quem é que na redacção trata desses assuntos”. “Só falo com o Marcelino”, disse então Oliveira sendo que alguns dias depois o informou que haveria alguns “jornalistas mais novos” a procurar esclarecer o assunto e que terá dito a Marcelino “para terem atenção a essa brincadeira”. Segundo relata o "Sol", o patrão da Controlinveste terá também ligado ao director do "Jornal de Notícias" recomendando “cuidado com as peguntas que anda a fazer”.


www.publico.clix.pt

ONDE ISTO CHEGOU!

Reportagem
Vale do Cávado: pagar para provar que se procura emprego
por Liliana Valente, Publicado em 11 de Fevereiro de 2010 .Empresas pedem dinheiro e obrigam desempregado a trabalhar de graça para carimbar declarações de prova junto do centro de emprego
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Maria Conceição Lopes foi a única das desempregadas a deixar-se fotografar. Costureira desde os 18 anos, continua à procura de emprego em fábricas de têxtil Nelson d'Aires/kameraphoto 1/1 + fotogalería .Chamam-lhe "chapa cinco" e é uma prática de algumas empresas da região do vale do Cávado conhecida pelos desempregados da zona. Não se trata de pagar para trabalhar, mas de pagar para provar que se está à procura de emprego. É pedido aos desempregados da região cinco euros por carimbo. O esquema das empresas vai mais longe e várias desempregadas relataram ao i que foram "convidadas" a trabalhar à experiência, de graça, sem que lhes fosse garantido qualquer contrato de trabalho e sem que essas horas (ou dias) viessem a ser pagas.

Foi o que aconteceu a Maria da Conceição Lopes, uma desempregada que trabalhou no sector têxtil durante 31 anos. Conceição, como gosta de ser chamada, foi convocada pelo Centro de Emprego (CE) de Barcelos para comparecer numa empresa. E conta o episódio: "Quando lá cheguei a dona da empresa mandou-me ir no dia a seguir para começar às oito da manhã. Fui às nove e ela pôs-me a trabalhar à experiência. Chegou a hora de almoço e eu fui perguntar-lhe se era para ficar e ela disse-me se eu queria trabalhar três dias à experiência, mas que não tinha trabalho para mim." "Então se não tinha porque é que queria que eu ficasse lá a trabalhar!?", questiona. A resposta chega logo a seguir: "Hoje são todos mais mentirosos. Aproveitam-se de haver muitos desempregados que têm de mostrar que estão à procura de trabalho." A necessidade de comprovar junto do CE a procura activa de emprego leva as pessoas "a sujeitarem-se", explica.

A substituição por outro trabalhador aumenta a pressão junto dos funcionários do sector. A meio caminho entre Barcelos e Esposende, com o olhar a correr em radar a zona, Odete aceita encontrar--se com o i, mas explica que "o medo de denunciar os abusos" é grande entre quem tem emprego. Também Odete já teve de trabalhar de graça para ver a declaração assinada: "Um dia fui a uma empresa. Éramos umas dez, algumas ficaram a trabalhar à experiência. No dia a seguir foram mais e no outro... Ficam com o trabalho feito e não pagam."

À explicação de Odete junta-se a indignação de Isabel. "Porque é que o CE manda pessoas para estas empresas?", pergunta a jovem desempregada que foi convocada pelo CE para uma empresa em risco de fechar e que deve salários aos trabalhadores.

A pergunta de Isabel encontra resposta na denúncia de Odete: "A ideia é massacrar, massacrar até que o trabalhador ceda e se despeça e perca os direitos. Assim a empresa pode ir buscar outro trabalhador ao CE."

O esquema é simples: seja por iniciativa do desempregado ou porque é convocado pelo CE, o desempregado quando chega à empresa é "convidado" a trabalhar à experiência para que possa comprovar junto do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) que respondeu à convocatória ou que está activamente à procura de trabalho.

Empresas-fantasma O Centro de Emprego de Barcelos reencaminhou desempregados para uma empresa-fantasma. O i teve acesso a cartas enviadas pelo IEFP a várias mulheres desem- pregadas de Barcelos e Esposende, remetendo-as para uma empresa sedeada numa habitação social, sem que lá exista qualquer empresa.

As sete mulheres - trabalhadoras do sector têxtil - receberam uma notificação do Centro de Emprego de Barcelos para se apresentarem na empresa Anabela Pereira Martins, em Novembro passado. A morada indicada pela carta é a de uma casa social na localidade Palmeiras de Faro, perto de Esposende (ver fotografia). Do lado de fora, as cortinas, as persianas a meio e as fechaduras partidas dão nota de que ali não funciona nenhuma empresa. As mulheres foram posteriormente encaminhadas para uma outra empresa do sector têxtil, em Esposende, onde os salários não são pagos a tempo e horas.

A situação é recorrente no sector têxtil na região, explica ao i o presidente do Sindicato Têxtil do Minho e Trás-os-Montes. Manuel Sousa acusa o centro de emprego de não fazer qualquer rastreio às empresas que procuram desempregados. "O centro de emprego não controla e envia muitas vezes as pessoas para empresas que na realidade não existem. Ou porque nunca existiram ou porque faliram e recrutam para novas empresas do mesmo dono", revela.

Grande parte dos pedidos de funcionários feitos ao CE são de pequenas empresas familiares, que funcionam muitas vezes nas casas dos donos.

Odete, uma das trabalhadoras, explica que há funcionárias "que são colocadas em empresas que não têm condições, muitas vezes a penar até à meia-noite". A mesma trabalhadora conta que "há quem trabalhe para empresários em nome individual, numa espécie de garagem". E deixa a descrição: "Aquilo nem tem número de porta!"

Os empresários em nome individual do sector do têxtil são quem mais recruta trabalhadores despedidos de grandes fábricas que faliram com o agudizar da crise. A questão das trabalhadoras fica no ar: "Porque é que só as grandes empresas é que estão a abrir falência?" A resposta chega pela voz de Maria Conceição. "As grandes empresas do têxtil pagavam horas extraordinárias, horas nocturnas, faziam os descontos certos para a Segurança Social." E as pequenas? Odete explica: "Nós neste momento estamos a ser explorados. Trabalhamos nove, 10, 11 horas que não são pagas, são para gozar um dia se o patrão quiser. Como nunca quer, acabamos por dar horas de graça."

As horas extraordinárias são o menor dos problema. "O grande problema é o medo, a pressão", explica Odete. "Somos obrigados a aguentar."

O sector do têxtil na zona do vale do Ave e Cávado empurrou milhares de pessoas para os centros de emprego. Só no concelho de Barcelos estavam desempregadas em Dezembro 5426 pessoas, quase 3 mil mulheres.

O elevado nível de desemprego no vale do Cávado chamou a atenção dos partidos políticos. O Bloco de Esquerda (BE) já questionou o Ministério do Trabalho sobre o envio de pessoas para empresas-fantasma no concelho de Barcelos. O deputado Pedro Soares explica que "a situação no vale do Ave e Cávado ultrapassa os limites admissíveis da dignidade humana. Há empresas que estão a aproveitar-se da fragilidade das pessoas de- sempregadas". Por isso o BE pondera a apresentação de um pedido de um plano estratégico para combater o desemprego na região. Também o PCP já teve conhecimento da situação das trabalhadoras.

A directora do Centro de Emprego de Barcelos, Madalena Quintão, questionada pessoalmente, remeteu a resposta para a direcção do IEFP do Norte e recusou- -se a comentar as denúncias relatadas. O i apresentou a questão ao IEFP, que até à hora de fecho desta edição não comentou.

www.ionline.pt

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

DA VIDA INTERIOR

Há, de facto, uma vida interior onde coexistem céus e infernos, deuses e demónios, montanhas e abismos. No interior dessa vida trava-se um combate mortal entre o bem e o mal mas, por vezes, ficamos além do bem e do mal. A racionalização não é capaz de apreender esse mundo mágico onde é possível o homem ser homem e atingir o paraíso. Como diz Artaud, a revolução comunista ignora o mundo interior do pensamento. O pensamento está para lá da experiência. A vida interior, o pensamento é que nos permite criar, é que nos permite aproximarmo-nos dos deuses mas também dos demónios. O céu na Terra de Henry Miller está dentro das nossas cabeças. O conbhecimento poético é interno e mágico, como diz Artaud. Os poetas são mágicos, criam mundos. O materialismo capitalista persegue o pensamento poético e inveja-o.

O mundo interior, esse mundo que inventa mundos, personagens desde a infância. É lá que está o ouro. É agora que posso escrever a obra. Vou enviar estes textos a um editor. Estes textos têm de ser publicados. Não falam de gajas nem de mamas. Mas são importantes. Vêm da alma. Vêm da vida. Abominam a morTE. Vêm de Nietzsche, do homem nobre. O homem nobr não tem de se preocupar com a populaça. O homem nobre não tem de ser socialista. TEm de fecundar a mulher que o enfeitiça. TEm de ser mágico, "supõe a presença do fogo em todas as manifestações do ensamento humano", afirma Artaud. "A música é a tua única amiga/dança em cima do fogo se ela te convidar" (Jim Morrison). Dionisos copula com as bacantes em fúria. Dança em redor da fogueira. Incendeia lojas, bancos, automóveis. Cospe na polícia e no exército.Cospe no senso comum e na normalidade. Canta a canção do "Fim": " É o fim, amigo querido/ é o fim, amigo único/ custa-me deixar-te mas tu nunca me seguirias/ o fim das risadas e das doces mentiras/ o fim das noites em que fizemos por morrer, é o fim". O fim que é o princípio, o fim que é o princípio do fim do capitalismo. E chego so fim vidrado por Zaratustra, apaixonado pelas alturas e pela grandeza.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Não há dúvida de que me tenho precipitado nas publicações. Mas o "poeta no Piolho" teria mesmo de ser assim. A selecção do Amaral trouxe-me de volta à realidade. A maior parte das coisas que escrevo são repetitivas. Nem outra coisa seria de esperar com tanta produção. Tenho de dar mais atenção às revisões e correcções.

AS MINHAS MENINAS


As minhas meninas não podem sair comigo. Estou triste. Há aqui as meninas do café mas estas não me conhecem. As minhas meninas não podem sair comigo. O patrão calmeirão controla. Que tristeza. Já é noite. O homem bebe. O Rocha não está aqui.

CONTRA O CAPITALISMO


Protesto em dia de greve geral contra cortes salariais
Milhares manifestam-se em Atenas e Salónica contra cortes salariais
10.02.2010 - 11h36
Por Agências
Yiorgos Karahalis/Reuters

Os manifestantes contestam a redução do salário real, as restrições à contratação e a supressão de benefícios fiscais
Os cortes salariais justificados pelo Governo grego com a crise económica e financeira em que se encontra o país levaram hoje para as ruas de Atenas e de Salónica mais de dez mil pessoas. O protesto decorreu em dia de greve geral contra os “sacrifícios injustos e ineficazes” do plano contra a crise do primeiro-ministro, Giorgios Papandreu.

Ao final da manhã, o Adedy, principal sindicato dos funcionários públicos do país, contou pelo menos cinco mil dos seus membros nas ruas da capital grega e três mil outros em Salónica, no norte da Grécia. Por sua vez, a Frente de Luta sindical (PAME), que deriva do ultra-ortodoxo partido comunista, confirmou que conseguiu reunir cerca de cinco mil militantes numa outra manifestação também em Atenas.

Apesar dos protestos em separado contra a redução do salário real, as restrições à contratação e à supressão de benefícios fiscais, os manifestantes das três estruturas mostraram-se unidos na motivação para a contestação. “Não devemos pagar a crise”, gritaram uns, “Greve contra os especuladores”, escreveram outros em cartazes, onde apelaram ainda à união numa resposta contra “os banqueiros, armadores e grandes empresas”.

Em Atenas, a polícia de intervenção grega chegou a lançar gás lacrimogéneo sobre os manifestantes. Segundo as autoridades, a decisão foi tomada depois de funcionários de recolha de lixo terem tentado quebrar um cordão policial com os seus camiões para se juntarem aos manifestantes que seguiam a pé pelas ruas da capital. À agência Reuters, um oficial da polícia afirmou que alguns manifestantes responderam à acção das autoridades lançando-lhes pedras. “Mas o incidente foi rapidamente resolvido”, sublinhou.

Grécia a meio-gás

As manifestações decorrem em dia de greve geral no país, que está praticamente parado dada a adesão de funcionários dos vários sectores à paralisação. Ainda não existem números oficiais de adesão, mas os funcionários dos ministérios, finanças e autarquias e professores estão entre os grevistas, bem como os controladores aéreos, o que levou a que as duas grandes companhias aéreas gregas, a Olympic Air e a Aegean, tenham anulado todos os voos de hoje.

O organismo nacional dos caminhos de ferro reduziu também o número de comboios nas ligações internas, devido à greve de nove horas da Federação Nacional de Caminhos de Ferro , mas as ligações internacionais não foram afectadas pela paralisação.

Nos hospitais públicos, os serviços estão a ser prestados por pessoal mobilizado para suprir as faltas dos que aderiram à greve.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CRÍTICA DE ANTHERO MONTEIRO A "UM POETA NO PIOLHO"

20/01/2010 – “O POETA NO PIOLHO” de A. Pedro Ribeiro

Pede-me o Pedro Ribeiro que apresente este seu livro de poemas intitulado O Poeta no Piolho, que inclui inéditos, mas também outros textos já publicados noutros livros, que conheço, supondo eu, pelo título da colectânea, que todos foram escritos no café Piolho, que o autor frequenta e onde se sente em casa – como ele próprio confessa.
Esta solicitação é de todo inesperada e formulada muito em cima da hora, pelo que me será relevada alguma falta pelo pouco tempo que tive para poder corresponder cabalmente ao expectável, porque li o livro e alinhei algumas ideias entremeadamente numa altura de viagens e de outras ocupações.
Disse que não esperava ter esta incumbência, sobretudo porque a minha poesia e a do Pedro são muito diferentes na forma e no conteúdo e não escondemos algumas divergências de fundo sobre conceitos poético-literários.
Apesar disso, falar deste livro é um desafio que aceitei com prazer e honrado pelo convite, porque é mais um ensejo de aprendizagem e até de revisão dos meus próprios conceitos. Aprender motiva-me muito mais, aliás, do que ensinar. E, além disso, pelo Pedro e pela necessidade de o compreender melhor, vou transformar-me em advogado… do diabo.
É que, apesar das divergências, nutro pelo Pedro um amizade respeitosa, que só não é mais profunda porque apenas nos encontramos aqui no Púcaros e porque as nossas vivências e conceitos até de cidadania, ao que parece, estão longe de ser próximos ou paralelos. O Pedro é alguém que cumprimento e de quem me despeço nesta casa com um abraço de afecto sincero e em cujos olhos entrevejo um sentimento de comovedora ternura pelos outros e pelas coisas.
O Pedro Ribeiro seria alguém que poderíamos equiparar a qualquer normal e pacífico cidadão, não se desse o facto de ele subir ao tablado nesta casa, entendendo-se por tablado o espaço entre colunas onde à quarta-feira se lê poesia.
É aí então que o Pedro se transforma por completo e todos enfrentamos o perigoso “animal de palco”, papel que ele assume, ipsis verbis, num dos textos do seu livro:

“Este personagem atinadinho faz-me bocejar de tédio (…). Eu gosto é mesmo da festa, da celebração, do animal de palco. É aí que eu acredito no amor, na vida, na vibração. Sou doido, completamente doido, fora da tua realidade, minha rica” (tratamento menos habitual no Pedro e que é igual à expressão usada por outro doido que o Pedro admira, Mário de Sá-Carneiro, no seu poema “Caranguejola”).

É que o Pedro Ribeiro não é só o poeta que escreve, mas também o que lê os seus poemas – e não se trata aqui de uma simples leitura, mais ou menos neutra, mais ou menos branca, como recomendam alguns especialistas e se pratica, por exemplo, nas Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre. O Pedro, quando escreve um poema, já se imagina nesse papel de actor ou de “performer” e é um espectáculo poder apreciá-lo com tudo o que nele há de gingão, peripatético, histriónico até.
É por isso que a análise da sua poesia tem que ter em conta essa relação existente entre quem produz um texto e quem o reproduz oralmente para um público como no teatro. O “animal de palco” vive desejoso dessa glória de saltar para o tablado. E o palco começa no próprio café onde ele escreve freneticamente, compulsivamente (“As palavras vêm ter comigo” – diz ele), pois já aí pode ser visto, como um actor no seu camarim, por um público que se movimenta à volta da sua mesa, que de vez em quando lhe faz perguntas, que sabe que ele é quem é, uma espécie de iluminado, mas alguém que tem também luz própria e que ilumina principalmente as “gajas” que por ali ondeiam, a quem oferece poemas, fazendo, nelas, incidir um foco de luz mais forte sobre as “mamas”, como parte proeminente e anatomicamente predilecta.
O palco é o lugar onde o Pedro esquece a sua inquietude e ansiedade, o seu mal-estar quotidiano, a sua incompetência para viver normalmente, como acontece com a protagonista do Livro do Desassossego.
É por tudo isto, sobretudo por esta impossibilidade de dissociar o poeta do “diseur” ou do “performer”, portanto do actor, que eu não tenho dúvida alguma em asseverar que a poesia do Pedro Ribeiro é muito mais teatro do que poesia.
É que o género dramático serve muito mais os seus textos de invectiva (como a Declaração de amor ao primeiro-ministro: “Estou apaixonado pelo primeiro ministro / Quero vê-lo num filme porno”). É essa forma que serve melhor os seus poemas-manifestos (como o “Poema de amor inocente em jeito de manifesto autárquico para a cidade do Porto”). É esse tablado que mais o ajudaria a realizar a revolução que procura (“Sim, sou definitivamente um poeta de café e até um revolucionário de café, com todo o gosto.”). É esse palco onde mais facilmente realizaria o comício para arrebanhar mais gente para a sua causa (“Farto-me de apelar à revolta / E esta merda permanece igual. / Fiquemos juntos / Acariciemo-nos /Curtamos o amor”).
A necessidade de comunicação imediata com o seu público, ávido do seu verbo (“’estou a ficar farto de tantos rodeios’ / como Morrison / quero o aqui e o agora! Quero a eternidade, / o instante eterno, agora!” – escreve ele), obriga-o a deixar-se levar pelas tais palavras que o visitam. Não é ele que as escolhe. Elas é que o escolhem a ele e, por isso, não há nos seus poemas, grandes preocupações com a forma. O que interessa é o conteúdo e esse conteúdo tem urgência em ser matéria de comunicação, em passar para o outro lado (“Como me sinto sublime agora. Já estou em condições de passar a palavra.”), porque a sua escrita e a sua actuação no palco são também propaganda (“admiro o Paiva / é um activista incansável / eu não sou um activista / ou deixei de o ser / só faço propaganda / quando subo ao palco / ou quando os meus livros têm leitores”). O que interessa é que a mensagem surta efeito e fique bem gravada nas cabeças e, tal como acontece com a publicidade, há slogans que se repetem (“o dinheiro é de todos e não é de ninguém / o dinheiro é de todos e não é de ninguém / o dinheiro é de todos e não é de ninguém»), há “gajas” por todo o lado (“E chegam mais gajas. Isto hoje é sempre a abrir. Um gajo até se perde”) e há mais cerveja a gorgolejar até no deserto, nem que seja apenas por mera miragem (“enquanto houver cerveja / continuarei a escrever”; “o estado devia fornecer-me cerveja gratuitamente, deveria pagar-me em cerveja”; os gajos dos bares deveriam fornecer-me / gratuitamente álcool para eu produzir”).
Esta comunicação instante recorre inclusivamente ao calão, sem qualquer censura, porque necessita dele para chamar os bois… e as vacas pelos nomes: para invectivar “esses filhos da puta” dos capitalistas, para nos convencer da “merda” que é estar num estado de espírito de absoluta fossa, para “se cagar para as vossas conversas”, para dizer com o José Mário Branco, no seu FMI, “que se foda o futuro!” ou para “mandar tudo para o caralho”.
E esta linguagem de urgência para “passar a palavra”, como ele diz, funciona maravilhosamente, sobretudo quando quem tem o privilégio de ouvir os seus poemas está também a beberricar cerveja, o que acontece sobretudo nos bares onde jorram também habitualmente os seus versos, como acontece no Púcaros. E o efeito é surpreendente, tanto mais que a sua actuação agarra os ouvintes como um íman: não consegue certamente induzi-los a queimar o dinheiro, como ele preconiza, não consegue fazer abrir as pernas das gajas a torto e a direito, não consegue, por exemplo também, persuadir os ouvintes a deixar de trabalhar, como ele faz, mas consegue convencê-los de que o poeta ou o actor parece ser sincero e coerente naquilo que escreve e que, no mínimo, realiza os objectivos que definiu para a sua escrita e que estão consignados no final do 2.º texto do livro: “(…) continuo a escrever / faço disto o meu escritório /(…) / também é uma forma de combater o tédio / de observar a sociedade de consumo e do mercado / de analisar o comportamento dos meus semelhantes / de descarregar a alma» (e este último objectivo é essencial para um “doido”, como ele se define…).
Agora a minha opinião sobre a qualidade destes poemas:
Se analisarmos os seus textos com as lunetas embotadas da crítica académica; se não percebermos que a sua aposta é na desestabilização dos conceitos arreigados e que a sua construção é antes de tudo uma desconstrução para se iniciar tudo de novo (ele escreve no texto “Mensagem”: “Destruir para construir. Começar do zero.”); se procurarmos no que escreve a obediência às normas tradicionais em vez de vermos as novas questões que surgem com a permanente transgressão (Paul Louis Rossi diz que “não pode existir poesia sem transgressão das suas formas mais utilizadas”); se andarmos à cata do poético nos seus versos, quando há críticos, como este que acabei de mencionar, autor do Vocabulário da Modernidade Literária, que defendem que o poético não existe, o que existe é uma relação, entre as palavras e as coisas, condensadas na linguagem, a qual (relação) produz um efeito particular de emoção e surpresa», então, a esta luz algo cansada, a poesia de Pedro Ribeiro estará porventura muito próxima da nulidade.
O próprio poeta, embora considere tocar por vezes “o sublime” nos seus textos, admite que “nem todos são brilhantes”. De facto, muitos deles, uns em prosa, outros em verso, não passam de meros apontamentos ou notas do que vai presenciando, como por exemplo: “Personagens de outrora / Atravessam o ‘Piolho’ / O homem bebe, escreve / Permanece na sua / Não espera ninguém / Nem sequer a dama.” Outros há, porém, que nos colhem na tal “surpresa” de que fala o Paul Louis Rossi, ainda que o estratagema para concluir de chofre o poema seja por vezes repetitivo: é o Gomes que vem cobrar a conta (“e corta o ritmo”); é o Fred que chega “e a escrita esgota-se”; é a menina das “mamas boas” que o Poeta se põe a apreciar, mas entra também “um gajo importuno (que) se senta à minha frente / tapa-me a visão / e corta-me o poema”, ou, finalmente, “a musa de flores no cabelo” que chegou, mas “já se foi / e o Telejornal fode-me a cabeça”.
E há ainda outros poemas que não vou ler por serem mais extensos, mas cuja leitura recomendo vivamente para se conhecer este poeta não apenas superficialmente, com a frivolidade de quem só veio cá beber umas cervejas: por exemplo, o texto intitulado “Diário” que bem podia chamar-se “Ideário”, porque resume quase todo o seu pensamento; o poema “Garrafa”, pequeno em extensão, mas, graças a um maior e mais sábio fechamento, grande em sugestões plurissignificativas; os 9 versos do poema “A saudação triunfal do gerente”, em que ele consegue a solidariedade de todos e de tudo o que está à sua volta para também o saudarem como alguém que não é bem deste mundo e vive noutra galáxia; o caos que é o “poema de amor inocente em jeito de manifesto autárquico para a cidade do Porto”, em que, baseado na técnica surrealista do inventário, nos dá a imagem caótica de uma sociedade inteira; ou, finalmente, para não me alongar, a parte final do “Poema que cura”, a rebentar de anáforas, numa linguagem uma vez mais profundamente teatral e propagandística.
Mas a preocupação do Pedro Ribeiro, como já disse à saciedade, não é escrever bonito. Ele está-se cagando para o lirismo e a beleza; para ele, isso é algo para transformar na sua contrária. Ele próprio afirma: “Dá-me um poeta lírico / para foder esta noite / uma cara bonita / para desfigurar”.
Este é um poeta sui generis. Homem culto, filósofo, capaz de escrever bem e melhor, se quiser, inventou para si próprio uma imagem que sacrifica a sua normalidade, para se ir autoconstruindo outro: um solitário que quer dominar as multidões pela palavra; um servidor permanente de Dionisos, sempre mais próximo dos instintos, das paixões, da irracionalidade e do caos do que da razão (“vade retro, razão”- escreve), da ordem, do equilíbrio e da sociabilidade de Apolo; um discípulo de personalidades malditas que lhe emprestam atrevimento para se vestir também de anjo negro e contaminar o mundo; enfim, um funâmbulo que evolui sobre o risco permanente e que tanto pode maravilhar quem o vê caminhar sobre a corda como pode tropeçar e cair no abismo, sobretudo (ele não aceita conselhos, mas nós somos seus amigos) se se ficar pelas gajas, pelas mamas, pelas cervejas e pelo uso do calão pelo calão e, como é seu timbre tudo pôr em causa, se não começar também a pôr-se em causa a si mesmo, à sua poesia e a uma certa repetitividade de temas e de processos. Ele sabe melhor do que ninguém que a repetição fabrica o estereótipo, que ele tenta por todos os meios combater e, a meu ver, deve combater em si próprio.
A poesia de Pedro Ribeiro é herdeira de vários pensamentos e atitudes (“sigo apenas os meus mestres” – escreve ele), muitos deles citados abundantemente no livro: em primeiro lugar, Nietzsche com quem chega a identificar-se ou pelo menos com a sua personagem Zaratustra que, diz ele, “foi rejeitado pela populaça/ e eu também sinto que o sou / talvez estejamos / demasiado elevados para a populaça”), depois Jim Morrison, André Breton, Henry Miller, Paul Éluard, Sade, Raoul Vaneigem, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Lautréamont, Sá-Carneiro e Joaquim Castro Caldas, de quem ele inveja sobretudo o seu estado permanente de embriaguez. Mas não podemos esquecer a influência da Beat Generation (Ginsberg, Kerouac, Ferlinghetti, entre outros), que desafiaram, como ele o faz, os valores académicos e as normas do bom-gosto, que adoptaram uma ética e uma estética de total liberdade e se recusam ao encerramento num dado espaço ou escola.
A estes modelos podemos adicionar Charles Bukowski, mais velho que os da geração beat, mas de alguma forma próximo, porque adoptou também a marginalidade, o ócio, as mulheres, o sexo e a bebida como uma espécie de valores, sendo de supor que Pedro Ribeiro tenha herdado dele não apenas estes requintes, mas também alguns barris de cerveja para embebedar os próprios poemas. Aliás, outra personagem importante na vida de Pedro Ribeiro parece ser Jesus Cristo-Homem (“julgo-me o Morrison ou o Cristo”), que já lhe deve ter ensinado a fazer o milagre da multiplicação, não dos pães nem dos peixes, mas da cerveja, até porque pode bebê-la indefinidamente e…

«Porra! Nunca mais fico bêbado!
Bebo e nunca mais fico bêbado!
Quero ficar bêbado como o Joaquim Castro Caldas!
Quero ficar bêbado como o Jim Morrison!»

Haveria muito mais a dizer sobre este livro do Pedro Ribeiro, mas não quero maçar-vos mais. Fiz, de facto, um esforço por entendê-los, ao poeta e à sua poesia, tentei inclusivamente acreditar na sua coerência de anarquista. Ele não precisa da minha compreensão para nada, porque vai continuar a traçar o seu rumo livremente, sem as nossas intromissões. Para nós, simples mortais que nunca tocaremos o sublime, nem tudo no Pedro é de fácil entendimento: é mesmo muito complicado, por exemplo, compreender alguém que se recusa a trabalhar e que, candidatando-se agora à Presidência da República, se mostra preocupado com os desempregados…
Mas acredito que ele se julgue coerente e isso basta. Para entendê-lo ainda melhor, só me resta beber copiosamente com ele à nossa amizade, à sua saúde, ao sucesso do seu livro e da sua candidatura à presidência. Saia uma cerveja para mim e outra para o Pedro, que pago eu!

Anthero Monteiro