quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A MULHER. O HOMEM.


O homem senta-se. Lê o jornal. Depois observa. Vê a mulher. Quer falar-lhe. Está de costas. Ama-a. Perdeu a lata. Escreve. É isso que faz na vida. Deveria ser remunerado por isso. A mulher mantém-se de costas. Mexe os pés. Pensa. Olha para a estrada. O homem ama-a mas perdeu a lata. Chegam o leite e as torradas. A mulher come. O homem observa. Nietzsche escreveu coisas terríveis acerca das mulheres mas também disse que a felicidade é uma mulher. A felicidade é uma mulher. A felicidade está de costas para mim. A felicidade come e bebe leite. Não olha para o homem. O homem escreve. É o que sabe fazer. Contempla a felicidade. Ama-a. Mas não a consegue tocar.

DOS LIVROS


SECÇÃO: Opinião

A. Pedro Ribeiro


DOS LIVROS

Os livros, alguns livros, não são como as chicletes. Prova, mastiga, deita fora. Os livros ficam connosco para sempre. Os livros, alguns livros, são mais importantes do que as pessoas, do que a maioria das pessoas. Preenchem-nos, enriquecem-nos, dão-nos vida, tornam-nos mais humanos.


Os livros, alguns livros, são a vida, a própria vida. É nos livros que me refugio nestes dias sem ti. Só os livros, alguns livros e a escrita me dão o alento necessário para continuar, para combater a solidão. Os livros e também a música. De resto, é o de sempre. A chávena de café à minha frente. A D. Rosa que se ri e fala comigo. A empregada de amarelo, que também é Rosa, e que fala com o cliente. Mas, apesar dos livros, são dias sem ti. Sem os livros seriam vazios. Completamente vazios. Valham-me os livros, alguns livros, nestes dias sem ti.

www.vozdapovoa.com

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

OBRIGAÇÃO, TRABALHO, MERCADO

Obrigação, trabalho, mercado. Eis o que fizeram da vida esses pregadores da morte que se chamam políticos, banqueiros, grandes empresários, economistas. Reduziram a vida a cálculos financeiros e contabilísticos esses pregadores da morte que nos querem afastar dos nossos companheiros, dos nossos afectos. Revoltei-me contra esses profetas da morte e da conta quando estava na Faculdade de Economia do Porto. Comecei a pôr em causa as contas, os gráficos, os balanços, os orçamentos. Comecei a levar Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Jim Morrison, Nietzsche para as aulas. "Assim Falava Zaratustra". E agora que leio o "Zaratustra" pela quarta vez o espírito volta a dar voltas.
O homem pequeno só ouve os pregadores da morte, via media. O homem pequeno adora os pregadores da morte. Aceita que a vida se reduza aos ganhos e às perdas. Aceita que a vida não seja vida. Aceita ser reduzido a uma percentagem, a uma cotação da Bolsa. Preocupa-se apenas com o interesse mesquinho e imediato, com a sobrevivência. Não aspira às alturas, ao cume das montanhas. Rejeita o artista nietzscheano, o espírito livre, aquele que cria, aquele que busca o conhecimento, aquele que quer. Porque "o querer liberta"!
A vontade do homem está para lá das moedas e notas dos merceeiros do mercado. A vontade do verdadeiro homem que grita pela liberdade e pela vida nada tem a ver com negócios e com mera sobrevivência. O verdadeiro homem é corpo, espírito e afecto. O homem nobre não é o homem das meias medidas.

OS MERCEEIROS DO MERCADO


Mas em baixo tudo fala e nada se ouve. Pode anunciar-se a sabedoria com o toque dos sinos: os merceeiros do mercado hão-de cobri-la com o barulho das suas moedas!

(F. Nietzsche, "Assim Falava Zaratustra")

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

VELHOS AMIGOS, ONDE ESTAIS?

Fizeram da vida obrigação, trabalho, mercado. Urge voltar à verdadeira vida. Livre e criadora.

domingo, 10 de janeiro de 2010

NIETZSCHE


Criar- é a grande libertação da dor e o alívio da vida. Mas, para que exista o criador, é preciso muito sofrimento e muita metamorfose.
Sim, são precisas na nossa vida muitas mortes amargas, ó criadores! (...)
Para que o próprio criador seja a criança que renasce, é preciso que queira ser também a que gera e as próprias dores do parto.

(Nietzsche, "Assim Falava Zaratustra")

OS MEUS POEMAS


Afinal talvez os meus poemas não sejam assim tão bons. Há editoras que os rejeitam. Ou talvez só alguns o sejam e eu não o melhor seleccionador. Só sou, a espaços, o poeta que quero ser. Só sou, a espaços, o poeta maldito, talvez genial. Mas sei que sou. A isso dedico a minha vida. Talvez esteja a ser cabotino. Mas sei que tenho talento. Não me vou deixar abater pela nega da editora. "Da Merda até Deus" há-de sair, talvez com outros poemas, com novos poemas. E quero também escrever o tal livro profético à Nietzsche, à padre Mário de Oliveira. Não me posso deixar abater. Sei que tenho o talento. Sei que estou à procura. Sei que vou com Zaratustra. Sei que ainda tenho um caminho a percorrer. Sei que as pessoas vêm ter comigo a elogiar os meus poemas. SEi que estou a produzir mais e melhor. SEi que sou um rei nesta terra de cegos. Sei que tenho a luz. Amo aqueles que procuram. Amo aqueles que rejeitam o rebanho, a gentalha. O Peixoto quer um livro só com poemas de amor. Vai tê-lo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

BRAGA CAMPEÃO

O Sp. Braga continua imparável. Para já é campeão de Inverno, mas hoje frente ao Nacional reforçou a ideia de que tem equipa para discutir o título. Com Hugo Viana em alta, os bracarenses destroçaram por completo o Nacional, que saiu do Estádio Axa derrotado por 2-0, números que pecaram por defeito.

O Nacional foi para o intervalo a perder por um golo. Um resultado que, ao contrário daquilo que se poderia pensar, até deveria deixar o treinador Jokanovik satisfeito, tal a superioridade dos bracarenses. Afinal, não é por acaso que chegam a esta altura na liderança da Liga. Nem a saída de João Pereira para o Sporting afectou o rendimento da equipa (o seu substituto, Filipe Oliveira, mostrou-se em bom nível e cruzou para o segundo golo).

O Sp. Braga mantém-se como uma formação que sabe o que fazer com a bola e com jogadores que marcam a diferença. Como Hugo Viana. Foi ele que pautou o jogo a meio-campo e soube tirar partido da liberdade concedida pelos madeirenses. Sempre que a bola saía dos seus pés, a baliza de Bracalli tremia. O guarda-redes brasileiro realizou uma boa exibição, mas pouco ou nada conseguiu fazer aos 2’: livre de Hugo Viana, a defesa do Nacional ficou de mãos nos bolsos e Vandinho apareceu a cabecear sem oposição.

Um golo que deitou desde logo por terra a estratégia do Nacional, que apostou numa equipa de tracção atrás. Nem a sua estrela Ruben Micael, demasiado recuado, conseguiu sobressair. Distribuídos num 4x2x3x1, os homens de Domingos Paciência - que tem em Rentería um reforço para breve, de novo emprestado pelo FC Porto - detiveram o controlo quase total da partida. Faltou só algum discernimento nos derradeiros momentos a Mossoró e Meyong para dar continuidade às jogadas e colocar o resultado noutro patamar.

As oportunidades sucederam-se. Aos 9’, Foi Bracalli que desviou para canto um remate de Mossoró. Pouco depois, Meyong não chegou a um bom passe de Hugo Viana. O camaronês voltou a falhar pouco depois, após um cruzamento de Alan. E, aos 42’, só a qualidade do guarda-redes evitou um golo de Hugo Viana.

O Nacional a tudo isto respondeu com quase nada. Nunca conseguiu ser a equipa que, por exemplo, criou muitas dificuldades ao Benfica na Luz. O único lance de verdadeiro perigo aconteceu já na segunda parte (52’), num remate de Ruben Micael que saiu junto ao poste. Três minutos depois, veio o golo que acabou com a partida: cruzamento de Filipe Oliveira, Moisés cabeceia contra Patacas e surge Leone a fazer o golo. O Sp. Braga conquistava o título de campeão de Inverno.

Positivo
Hugo Viana
O médio regressou depois de uma lesão e deu ainda mais força e qualidade ao futebol bracarense. Entrou em grande em 2010. Além de tudo o que fez na construção de jogo, fica ainda na retina o remate de fora da área que foi devolvido pelo poste.

Vandinho
Esteve muito bem na forma como conseguiu ajudar a sua equipa a ganhar a guerra no meio campo e aproveitou bem a oportunidade que lhe ofereceram nos primeiros minutos para colocar o Sp. Braga a ganhar.

Negativo
Nacional
Foi uma sombra da equipa que tem surpreendido nesta Liga. Nunca conseguiu equilibrar o jogo e as situações de perigo que criou contam-se pelos dedos de uma só mão.

Leandro Salino
Aos 77’, o médio teve uma entrada muito dura sobre Alan, viu o segundo cartão amarelo e deixou a equipa a jogar com dez. O Nacional, que já pouco podia, acabou nesse momento.

Ficha de jogo
Sp. Braga, 2
Nacional, 0

Jogo no Estádio Axa, em Braga.
Assistência cerca de 8000 espectadores.

Sp. Braga Eduardo, Filipe Oliveira, Leone, Moisés, Evaldo, Mossoró (Diogo Valente, 87’), Vandinho, Hugo Viana, Alan (Yazalde, 83’), Paulo César e Meyong (Matheus, 74’).
Nacional Bracalli, Patacas, Tomasevic, Felipe Lopes, João Aurélio, Cléber Oliveira, Salino, Pecnik, Ruben Micael, Amuneke e Edgar.

Árbitro Artur Soares Dias, do Porto.
Amarelos Leone (59’), Salino (64’ e 77’), Patacas (90+1’). Vermelho Salino (77’).

Golos 1-0, por Vandinho, aos 3’; 2-0, por Leone, aos 56’.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O DIA TRIUNFAL

SECÇÃO: Opinião

António Pedro Ribeiro


O Dia Triunfal

Estou em Braga e este é um dia triunfal, um dos mais felizes da minha vida. Tenho apenas uns trocos mas sou feliz. Abençoado por Zaratustra e pelos pássaros da manhã. Sou a criança sábia. Estou a regressar á infância. Não tenho de fazer pactos com a social-democracia nem com os Sócrates deste mundo. Não tenho de me ajoelhar diante do grande capital ou dos senhores do dinheiro.


Sou um homem livre. Escrevo o que quero. Assumo o que quero. Sou o que quero. Nem sequer preciso de Deus, caro padre Mário. Basta-me o Jesus que expulsou os vendilhões do templo. Expulsar os vendilhões do templo, é isso que temos de fazer agora. Expulsar os senhores do dinheiro, do poder. Expulsá-los da vida. Eis a nossa missão na Terra. Demandar o Graal, o sagrado feminino, o amor das mulheres. Não devemos nada a ninguém.


Entraremos na casa das pessoas como Jesus. Sem dinheiro. Somos deuses. Comportamo-nos como reis no mundo do dinheiro, da intriga, da mercearia. Não podemos ser iguais aos outros. Nascemos de graça, na graça do divino. Nascemos e vivemos na dádiva, no coração, no espírito. Somos absolutamente livres. Amamos a eternidade do instante. Por isso, às vezes somos doidos, completamente fora. Não temos limites. Não somos formatados pela tradição ou pelo medo. Dançamos na corda bamba de Nietzsche. Provocamos como Debord, como os surrealistas, como os dadaístas. Gozamos com o quotidiano imbecil dos outros porque queremos provocá-los, trazer-lhes a luz.


E é a luz que vemos neste momento. A luz que queremos trazer aos outros, aos que ainda não estão completamente mortos para a vida. É a vida que queremos, não a vidinha das trocas, do mercado e do tédio. Sentimo-nos iluminados mas não somos mais do que os outros. Apenas diferentes. E exigimos sermos respeitados como tal. Somos do mundo. Deste mundo e não do outro. Profundamente deste mundo. “Humanos, Demasiado Humanos”. Desde a infância que pensamos mais do que os outros, que questionamos mais do que os outros, que observamos a realidade mais do que os outros. Nascemos com um dom. Já atravessamos muitos desertos, muitas idades de dor mas agora estamos curados. Estamos de volta á Idade do Ouro dos anos 80 e 90. Mas mais sábios, mais purificados, mais livres. Estamos prontos para enfrentar a cidade. Chegámos à idade de passar a mensagem. Este é o poema. O poema em prosa que há muito queríamos escrever. O poema bendito e maldito. O início do novo livro. O livro que pretende mudar a face da Terra. O livro que se dirige ao mundo. O livro que escrevo com o meu próprio sangue.

in www.vozdapovoa.com opinião

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

PAPÁ

Papá
faz hoje três anos
que foste

papá
deveria estar hoje
a falar contigo
a dizer-te as coisas
que não te disse
ao longo da vida
ou estava demasiado deprimido
como tu estiveste
nos últimos tempos
ou estava eufórico
em mundos que tu desconhecias
tivemos algumas conversas sinceras
mas foram poucas
os teus cálculos matemáticos
as tuas reflexões
não lhes consegui dar sequência
venho, como tu,
para a confeitaria criar
somos, á nossa maneira,
uns incompreendidos
não suportamos ficar apenas
a olhar para o ar
temos de estar a criar
a produzir qualquer coisa
sejam versos
sejam teoremas
não incomodamos ninguém
mas quase ninguém
nos tenta compreender
estamos sós
estamos condenados a ficar sós

Papá
agora compreendo
as tuas fases eufóricas
as tuas descobertas
o teu Totobola

papá
era agora
que te queria aqui
a esta mesa
mas tu não vens
já não podes vir
bem sei que ás vezes
ouço a tua voz
mas não é a mesma coisa
falavas de atrasados mentais
e de cretinos
e eu agora compreendo
o mundo é tão pequeno

papá
tu sim, eras um senhor
tu sim, tinhas classe
eu, às vezes, tenho
outras perco-me
escrevo umas merdices
a que alguns acham graça
mas não é verdadeiramente isso
que eu quero escrever
eu quero escrever na graça
na glória
no sublime

papá
não segui a via
que tu querias para mim
também, a partir de certo ponto,
isso passou a contar pouco
mas pode ser
que através da escrita e do espectáculo
eu chegue lá

papá
queria tanto
que estivesses aqui.


Vilar do Pinheiro, "Motina", 5.1.2010

Regresso à "Motina"
e aos cafés da "Motina"
depois de uns dias em Braga
com a Gotucha
regresso aos livros e aos papéis
ao trabalho do artista
apesar do tédio
gosto de estar aqui
sem multidões
nem confusões
no centro da confeitaria
a música que eleva
o poeta que aumenta
a vida
gratuitamente
graças a Miller
"Sexus"
do coração
do artista
que é, ele próprio,
a vida.


"Motina", 5.1.2010

PASSAGEM DE ANO

Foi a passagem de ano em que mais bebi nos últimos anos. Whisky, vinho, cerveja. Estávamos em Braga. Fomos ao "Insólito". Não deixaram o Manuel entrar. Já passou o tempo em que era eu que armava confusões à porta dos bares. De qualquer modo, não simpatizo com porteiros. Seguimos para o Porto. O Manuel foi buscar erva. Eram quatro horas. Não me lembro de nada do que se passou à meia-noite na casa das três irmãs. Fomos a um bar nas galerias. Um gajo perguntou-me se eu era comunista e eu respondi-lhe que sou anarquista. A Gotucha dançava, dançava. Eu também. Mas a barriga está inchada. O Pena saúdou-me efusivamente. A Gotucha dançava, dançava. Ainda em Braga lembro-me que tanto a chateei que até convenci a Fernanda a sair de casa. No bar perdi o cartão. Fui honesto. Lá fui falar com o gajo. Paguei o mesmo. A Gotucha fumava, fumava. Regressamos a Braga. A ressaca durou dois dias.

O NATAL DOS BANQUEIROS

Assunto: Fwd: O Natal dos banqueiros



Por: José Niza - In ''O Ribatejo''

1. Depois do que aqui escrevi na semana passada sobre “o dinheiro”, não esperava tão depressa voltar ao assunto: preferia que, em tempo de Natal, a caneta me conduzisse para outras paragens, e me levasse por caminhos que fossem de procura, ou de descoberta, de uma réstia de esperança, de uma festa numa praça de amor, de paz e de canções.
Mas não. O homem põe. E a banca dispõe.
2. Um relatório há poucos dias divulgado pela CMVM – a Bolsa – deu-me um murro no estômago. Não é que eu tenha andado distraído da ganância e dos festins da nossa alta finança. Mas tudo tem que ter limites: os números revelados nesse relatório sobre os salários dos administradores dos bancos e das empresas mais importantes do País, para além de aterradores, são um insulto ao povo português e, em especial, aos mais de 500 mil trabalhadores que estão no desemprego.
3. O salário mínimo em Portugal é de 450 euros por mês. 90 contos por mês. 3 contos por dia. Muito pouco para pagar a renda da casa, a comida, as roupas, os sapatos, a água, a luz, os transportes, talvez o telemóvel…
Há um ano, o governo, as confederações patronais e os sindicatos, assinaram um acordo para, em 2010, aumentar o salário mínimo de 450 para 475 euros. Menos de 1 euro por dia! Mas agora, as tais confederações patronais – que assistem mudas e quedas ao escândalo dos vencimentos dos gestores – vêm ameaçar que se o salário mínimo subir para 475 euros será um desastre nacional. E, em contrapartida, propõem 460 euros! Isto é, uma subida de 33 cêntimos por dia!
4. O relatório da CMVM revela que o salário anual médio dos administradores da banca e empresas cotadas na bolsa foi, em 2008, de 777 mil euros, isto é, de 64.750 euros por mês (cerca de 13 mil contos mensais ou 426 contos/dia).
64.750 euros por mês equivalem a 136 salários mínimos. Isto é, para atingir o valor do ordenado mensal de um desses gestores, um trabalhador que receba o ordenado mínimo terá de trabalhar mais de 11 anos!!!
5. Mas ainda não é tudo. Há mais, bastante mais.
2008 – como todos nós sabemos – foi um ano de crise, de falências, de desemprego galopante, de apertar o cinto. Mas, enquanto a esmagadora maioria dos Portugueses fazia contas à vida, cortava nos gastos, fazia sacrifícios ou – nos casos mais dramáticos – passava fome, os senhores do dinheiro tiveram, em média, aumentos de 13 %.
13% sobre 777 mil euros são cerca de 100 mil euros, qualquer coisa como 20 mil contos por ano e para cada um. Só de aumentos!
2009 – um ano que agora se vai embora sem deixar saudades – foi também um ano de enorme crise na indústria automóvel. Mas nem tudo foram desgraças: no Vale do Ave, território dos têxteis e do mais alto desemprego do País, nunca se venderam tantos Porches. Quanto mais desempregados na rua, mais Porches na estrada!
Como se tudo isto ainda não bastasse, os próprios ex-administradores da banca – como é o caso do BCP – têm regalias e mordomias que ultrapassam todos os limites do imaginável: jactos privados para viajarem, seguranças, automóveis de luxo, motoristas, etc. Foi-me contado um caso em que a excelsa esposa de um banqueiro se deslocava regularmente a Nova Iorque – em Falcon privado pago pelo BCP – para ir ao dentista e fazer compras! E que o seu excelso marido (ex-presidente do BCP e membro da Opus Dei) dispunha de um batalhão de seguranças 24 horas por dia, também pagos pelo banco.
Será que uma pessoa com a consciência tranquila precisa da protecção de 40 seguranças? Nem Sadam Hussein tinha tantos…
6. Mas, afinal de contas, quem paga tudo isto?
Para além dos pequenos accionistas, é óbvio que são os clientes dos bancos, essa espécie sub-humana que a banca submete à escravatura e trata a chicote, essa legião de explorados que ainda olha para os bancos – e sobretudo para os banqueiros – com o temor reverencial de quem vê um santo como Jardim Gonçalves em cima de uma azinheira.
Quando um banco remunera um depósito a prazo com 1% de juros e cobra 33% nos cartões de crédito, é-lhe fácil conseguir dinheiro para cobrir todos os excessos e bacanais financeiros do sistema bancário. Quando um banco paga metade dos impostos de qualquer empresa em situação difícil, o dinheiro jorra, enche os cofres dos bancos e os bolsos dos banqueiros.
É nisto que estamos. Até quando?
Será que a um sistema que assim existe e que assim funciona – encostado ao Poder e protegido pela Lei – se pode chamar Democracia?
PS – E que ninguém, de má consciência, tenha a desvergonha de me vir dizer que isto é demagogia!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

AUMENTAR A VIDA


Aumentar a vida. Eis a missão do artista, segundo Henry Miller. De facto não estamos aqui para outra coisa. A "vida" quotidiana, a vidinha do trabalho é essencialmente tédio, rotina. O artista, ao ultrapassar-se a si próprio, ultrapassa também a vidinha. Quando lemos Henry Miller, quando lemos algo que aumenta a vida, quando criamos algo que aumenta a vida, estamos a alimentar-nos, estamos a alimentar a nossa alma. Enchemo-nos de júbilo. Engrandecemo-nos. É isso que nos faz estar aqui, é isso que nos faz continuar.