segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Acordei bem disposto. Fui ao café ler o jornal. Estou mesmo como nas melhores alturas dos anos 80 e 90. Cheio de pedal e de criatividade. A depressão está longe, mesmo longe. Os deuses sorriem para mim. Ouço Cure, como nos anos 80. Isto vai mesmo dar uma volta. Acredito. Agora acredito.

domingo, 29 de novembro de 2009

BEBES E ENVENENAS-TE


Bebes e envenenas-te
cumpres as horas
no café central

falta-te alguém
com quem falar
com quem manter
uma conversa
se tivesses ido ao Porto
ao café filosófico
não terias esse problema
mas não quiseste ir
não foste
não quiseste apanhar chuva
e agora eis-te aqui
sem ninguém com quem falar
só um ou dois conhecidos
nem o barbeiro nem a D. Rosa
e como tens dinheiro
envenenas-te
já fizeste as leituras de hoje
acabaste o Sade e o Ginsberg
interrompeste o padre Mário
não se passa nada
aqui no café central
nem te apetece ir para casa
o dia já vai longo
começou de manhã
e não há grande coisa a dizer
só tédio e televisão
bebes e envenenas-te
a barriga inchada
como nunca
a vida sem leitura
é uma seca
e não há gajas para micar.

ÀGUA DAS PEDRAS


Ando a àgua das pedras
tenho bebido muito
só ontem foram nove
antes do jantar
na sexta
até deitei cerveja fora
naquele intervalo
entre o metro das 0,30
e o das seis da manhã
são horas que tenho de preencher
queimei o dinheiro todo
das minis do "77"
à burguesia das galerias
com incursões ao "Piolho"
e ao "Pipa Velha"
e o grande final
no "Big Ben"
à conversa com um travesti
cheio de humanidade

ando a àgua das pedras
saí de casa de manhã
normalmente só saio de manhã
para ir ao médico
ou se rebentar uma revolução
ontem o "Púcaros" apareceu na TVI
e eu não estava lá
acabei agora mesmo de ler o marquês
que comprei no "Gato Vadio"
entre o vício e a virtude
a hipocrisia dos magistrados
dos senhores da lei e do poder
tenho de cortar na bebida
além do fígado
estou a ficar sem cacau
os enjoos são frequentes
um gajo perde o pedal
agora até durmo
com um aparelho
por causa da apneia
durmo melhor
por isso me levanto tão cedo
vejo os misseiros da manhã
aqui no "Natural"
não se está nada mal
o gerente também é daqueles
que se quer dar com toda a gente
parece um lacaio do Senhor
um adepto dessas seitas
que dizem que "Deus é Amor"
a mim saúda-me
porque não sabe
das minhas actividades subversivas
das minhas curvas
ultimamente nem tenho feito nada de mais
limito-me a beber e a olhar para os outros
a analisar in loco a sociedade consumista
até parece que voltámos à Idade Média
dou uma moeda de dois ao mendigo
e pressinto o Santo Graal
talvez esteja finalmente no meu tempo
na Era do Espírito
e eu sou um dos eleitos
um daqueles que fala
à multidão.


"Natural", 29.11.2009

XENOFOBIA NA SUIÇA

A Suíça aprovou hoje, por mais de 57 por cento, os apelos da extrema-direita a que seja proibida a construção de novos minaretes no país, indicam os resultados oficiais do referendo efectuado nos 26 cantões.Dario Bianchi/REUTERS


Há alguns dias, só 37 por cento das pessoas consultadas pela televisão DRS se diziam dispostas a apoiar a proibição
O maior partido nacional, o Partido do Povo da Suíça (SVP, segundo as iniciais em alemão), alega que os minaretes ou torres erguidos no topo dos templos muçulmanos são um símbolo do islão militante.

O SVP, que é contra a forte imigração existente neste país europeu de 7,6 milhões de habitantes, crê que as torres a partir das quais os crentes são normalmente chamados à oração, nos países muçulmanos, representam uma reivindicação político-religiosa de se alcançar mais poder.

No entanto, das 180 mesquitas existentes na Suíça, para servir uma comunidade de 400.000 muçulmanos, só quatro é que têm minaretes; e nenhum deles está a ser actualmente utilizado para o apelo à oração.

Alguns dias antes desta ida às urnas, apenas 37 por cento das pessoas consultadas pela televisão estatal DRS se diziam dispostas a apoiar a proibição dos minaretes.

Os primeiros resultados vão no sentido de que a votação favorável às pretensões da extrema-direita foi essencialmente nos cantões de língua alemã, enquanto nos de língua francesa se votou preferencialmente contra.

O Governo de Berna pedira à população que votasse contra a proposta apresentada, pois que isso causaria “incompreensão no estrangeiro e prejudicaria a imagem da Suíça”.

QUANDO GINSBERG TE SOBE À CABEÇA


Quando Ginsberg
te sobe à cabeça
e estás no café central
de Vilar do Pinheiro
a beber cerveja
e agora até olham para ti
como se fosses
uma celebridade
com vários livros
em cima da mesa
Ginsberg, Sade,
"Literatura Marginalizada"
de Arnaldo Saraiva,
a revista Cráse do Nuno Brito
e uns escritos
do amigo Cláudio Mur
são 6,30
já é noite
e o dia a começar
já li o "Jornal de Notícias"
já me informei acerca
da derrota do Sócrates
no Parlamento

interrompi a leitura do Ginsberg
já me deu a volta à cabeça
outra vez
muito mais que o filme rasca
e adolescente
que passa na TV
e que ninguém vê
vou fazer como ontem
vou andar de tasco em tasco
à deriva
como os situacionistas
e que se foda a chuva!
Não somos daqueles
merdosos com medo de tudo
não há gajas em Vilar do Pinheiro
só as empregadas do café
aqui as gajas não saem à rua
ficam em casa a masturbar-se
mais logo vem o Sporting-Benfica
disso depende o futuro da humanidade
de resto, só se vêem velhotes
a dormir em frente ao jornal
alguns falam
trocam impressões
acerca da chuva
e Ginsberg
sobe-me à cabeça
no café central.

ESPERO POR TI, GORETI-2

Espero por ti, Goreti
e ainda há gajos que dão
as boas noites
a toda a gente
que se armam
em presidente
e o Sócrates
e o Vara
e o Godinho
são todos um docinho
deviam ir todos presos
apesar do Reinaldo
e dos indefesos
ide todos dar uma volta
o homem controla
e ordena
e isto está uma bruta seca
espero por ti, Goreti
e vou ter de pedir mais cerveja
é mais forte do que eu
estes gajos fazem-me a cama
e só me pedem cartão
e eu vou até
ao fim do filão
este pessoal dos bares
desconhece o "Big Ben"
fica mesmo junto à estação
não há que enganar
está tudo fodido
mas é o que está a dar
espero por ti, Goreti
e aparecem gajas
para um gajo olhar
não são grande coisa
até vou mijar
espero por ti, Goreti
e até dou espectáculo
faço piruetas
equilibrismo
e até nem fui dançar
as putas falam comigo
mas eu já gastei o cacau
sou o maior
sou um carapau
espero por ti, Goreti
e nunca escrevi como hoje
se me tivesses ligado
era outra dose
espero por ti, Goreti,
não sou o Pablo Neruda
sou mais como o Ginsberg
levo tudo à bruta
espero por ti, Goreti
e esta merda não muda
um gajo bem diz umas coisas
mas a gaja é surda
espero por ti, Goreti
e não se passa nada
o cabrão fala, fala
e nunca mais é
de madrugada
o gerente inteligente
mas põe-me doente
e anda tudo com
um sorriso "pepsodent"
espero por ti, Goreti
e isto nunca mais acaba
o relógio não avança
e não se passa nada
ninguém fala do Sócrates
nem do Vara
anda tudo de tola avariada
espero por ti, Goreti
e sabes que te espero
e sabes que te quero
até ao fim.


Porto, "Big Ben", Novembro de 2009.

sábado, 28 de novembro de 2009

ESPERO POR TI, GORETI

Espero por ti, Goreti
às quatro da manhã no "Big Ben"
espero por ti, Goreti
apesar de saber que estás na Madeira
a mares de mim
a mares das àguas
que bebo aqui
espero por ti, Goreti
no meio da fala da puta
da puta que fala
e dos chulos que se amontoam
em redor
espero por ti, Goreti
apesar de ter gasto o cacau todo
nos bares das redondezas
depois da entrevista na Rádio Casa Viva
depois da Idade Média
no "Armazém do Chá"
e dos outros sítios da moda
onde um gajo se sente como o Lou Reed
Take a walk on the wild side
espero por ti, Goreti
porque hoje até vi o Santo Graal
no "Piolho"
e dei dois euros ao mendigo
espero por ti, Goreti
no meio dos rufias da noite
após uma hora de conversa
com o Zé Pacheco
o escultor
que me passou três euros para a mão
sem eu lhe pedir nada
e a puta que fala
e não se cala
já as conheces há 2000 anos
e continuas a andar
a entrar nas casas
como entravas
e a puta que beija
e a puta que vai
e o empregado
que fala nos quintos do inferno
e até já me sinto nas minhas quintas
e até já volto a pedir cerveja
sou a estrela
e a barriga enche
e o Adriano goza
e o marquês de Sade
já ninguém se escandaliza
mal sabem elas
as palavras do divino
espero por ti, Goreti
e ando a estoirar o dinheiro
do Campo Alegre
assim
como se fosse nada
e a puta fala
e a outra puta não vem
não há aqui
estrelas do rock n' roll
só o gajo
a escrever à mesa
e o pessoal que fala
como a puta
de boina
brasileira
que bebe
e já não saca
mas dá lições de moral
à clientela
e que se vai
e nos deixa sós
com umas estranjas insossas
espero por ti, Goreti
e inauguro o caderno
e sinto-me como Allen Ginsberg
sabes, tens razão
há pessoas que não valem mesmo nada
e o Socrates hoje até foi derrotado
na Assembleia da República
e os gajos só falam
da pen e das gigas
e já não há putas
nem travestis
para animar esta merda

resta-me esperar pelo metro
e aturar estes matrecos
que não dizem
a ponta de um corno
espero por ti, Goreti
e o "Big Ben" já não é
o que era
por todo o lado
me tratam
como ao príncipe da Baviera
já não sou o que era
quando armava confusões
e não tinha um tostão
amanhã não vou sair da aldeia
~vou dar dinheiro aos de lá
sempre é a terra do meu pai
não me fica mal
o pessoal junta-se todo nos sítios
e os outros ficam ás moscas
é tudo uma questão de moda
top-model
como tu poderias ser
e entram os freaks
e pedem sanduíches
e o rock n' roll rola
e telefonei a horas á minha mãe
agora durmo com máscara
por causa da apneia
vai-te deitar, mãe
não fiques á minha espera
que eu hoje estou no rock
andei a fazer observação participante
como se dizia na Faculdade
e já só tenho vontade
de continuar a escrever
espero por ti, Goreti
e já não há putas
no "Big Ben"
anda tudo bem comportadinho
a falar de cabos
e playstations
como o Rocha
que apareceu no "Orfeuzinho"
e me pagou o cafézinho
não suporta o Red e o Dick
mas eu não tenho preconceitos
aprendi com o Nietzsche
já o disse na entevista
espero por ti, Goreti
e a mulher e a namorada
está entretida com o computador
enquanto o gajo olha para a TVI
até parece que os gajos
me querem filmar
sou uma estrela
há gajos que me reconhecem
mas as gajas não me dão
beijos na boca
deve ser por causa da barriga
é por causa dos fritos
e do pão
a cerveja já não conta
até a deito fora
a partir de certa hora
é veneno
mas juro que no "Piolho"
bebi o Graal
estava a micar uma gaja
que estava a escrever
eu conheço-a
não sei de onde
até ensaiei em Vila do Conde
na praia
onde há gajos a pescar
não sei o quê
vá-se lá perceber o homem
“"Portugal tornou-se uma gigantesca face oculta. Mudar este estado de coisas é tão difícil como imperativo".

Maria José Nogueira Pinto, "Diário de Notícias", 26-11-2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

MICHAEL MOORE

Os seus documentários rendem muito dinheiro aos estúdios. É por isso que o filme se chama "Capitalismo: Uma História de Amor"? O ex-seminarista tem resposta para a ironia.


Michael Moore está cansado.
Está cansado de ser a única pessoa que pode responder pelos seus filmes e de ter constantemente de se defender do que considera acusações violentas. Claro que se expõe ao enfrentar o colapso do Sistema em "Capitalismo: Uma História de Amor", a Saúde norte-americana em "Sicko" e o ex-Presidente George W. Bush em "Farenheit 9/11". Com "Capitalismo: Uma História de Amor", porém, as coisas mudaram. O público americano tem estado a apoiá-lo como nunca antes.
"Eu fazia parte de uma pequena minoria de americanos que se opunham à Guerra do Iraque. Eu não ia mudar. O país é que tinha de mudar. E mudou de tal modo que elegeu um negro para Presidente. Por isso, dêem vivas à América!"
Então Moore não deveria ter entrevistado o Presidente Obama para este filme? "Pensei nisso, mas seria outro filme. E ele está no cargo há pouco tempo, por isso dêem-lhe tempo. Tenho esperança de que vai fazer como deve ser."

Moore chorou como uma criança na noite das eleições quando alguém que ele considera um homem honesto, originário da classe trabalhadora como ele, foi eleito para o cargo mais importante da América.
"Obama foi criado por uma mãe solteira, depois pelos avós, e é um negro nos EUA. Depois de tudo isso, vai para Harvard e, a seguir, depois decide ir viver para Chicago. Podia ter-se tornado rico, mas decide viver num gueto e trabalhar com os pobres. Quem é que faz isso? Alguém com consciência, alguém com coração. Um homem que mudou o seu nome de Barry [que escolhera para se diluir no "melting pot" americano] de volta para Barack não parece ser alguém que está a planear candidatar-se a Presidente, como não o parece alguém que manteve o nome Hussein. Este tipo tem fibra, pá, e é esperto. E penso que é um jogador de basquetebol bom."

O palhaço da turma

Esta tirada é típica de Michael Moore: muita informação posta ao alcance de todos e humor no fim.
"Na escola secundária fui eleito palhaço da turma por ser capaz de fazer as pessoas partirem-se a rir. É apenas o irlandês em mim: temos uma visão negra do mundo e temos muita raiva. Alguns dos nossos melhores comediantes foram pessoas zangadas: Lenny Bruce, Richard Pryor, Groucho Marx, Charlie Chaplin. Estavam politicamente preocupados com o que estava a passar-se, e tentaram usar o humor como arma. Alguns dirão que o facto de eu adoptar esta táctica está a tornar a questão menos séria, mas, na realidade, o humor, o ridículo e a sátira, quando usados com audiências maciças, são eficazes do ponto de vista político."
A maior contradição relativa aos filmes de Moore é que eles renderam muito dinheiro aos estúdios que o apoiaram. É por isso que se chama "Capitalismo: Uma História de Amor"? "Sim, porque eu amo-os por me deixarem fazer este filme", brinca. "Podemos perguntar porque é que estas empresas dão dinheiro a um tipo que defende coisas diametralmente opostas a tudo o que eles defendem. Permitem-me fazer estes filmes porque tiro partido de uma das falhas bonitas do capitalismo: o capitalista vende-nos a corda com que se há-de enforcar se puder ganhar um dólar com isso."

Nestes 20 anos a fazer os seus documentários, nunca fez um filme com prejuízo. "Isso coloca-me numa posição desejável para os estúdios. Sou capaz de fazer um documentário por dois milhões que pode render 50 ou 70 milhões, ou, no caso de ‘Farenheit 9/11', 120 milhões, e isso apenas nos EUA. Se se acrescentar vídeos, televisões e vendas em todo o mundo, ‘Farenheit' valeu, bruto, 500 milhões de dólares. Por isso eles não se importam com o que penso. Mas tenho estado a poupar de modo a conseguir chegar ao dia em que poderei produzir os meus filmes e não ficar em dívida para com eles."

Em "Capitalismo: Um História de Amor" Moore pinta Wall Street como o grande vilão desta história.
"Nos anos 90, todos os meus amigos me diziam que investisse, não conseguiam acreditar que eu não estava a comprar acções. Disse-lhes que não queria fazer dinheiro a partir de dinheiro; quero ganhar dinheiro a partir das minhas ideias e do meu trabalho. Não quero gastar um segundo do meu dia a verificar o mercado bolsista para ver o que ganhei. No fim, eles perderam uma data de dinheiro e eu continuei, sem sobressaltos."

Cem por cento verdade

Moore orgulha-se quando salienta que abandonou a universidade e que não é um intelectual. O tipo simplório do Mid West dos seus filmes, diz, é ele próprio. É tudo verdade. E as cenas não são ensaiadas. "Em geral não tenho um guião para os meus filmes. Quero apenas ver o que acontece. A melhor matéria acontece sem estar planeada. Por exemplo, neste meu filme encontrei um miúdo que perdeu a mãe e descobriu que a Walmart [cadeia de lojas] tirou proveito da sua morte. Penso que é importante mostrar isso."

Moore refere-se a um rapaz que se viu confrontado com o aproveitamento de um "buraco" legal relativo ao seguro, chamado "Dead Peasants", o qual permite que uma empresa americana tenha seguros de vida sobre os seus trabalhadores. Era o que acontecia no caso da mãe desse rapaz e, quando ela morreu, a empresa recebeu milhões de indemnização, livre de impostos.
"Eu pesquiso e confirmo os factos minuciosamente, não só porque creio que se deve fazer assim, mas porque já fui sujeito a um escrutínio semelhante. Não posso pôr nada num filme que não seja 100 por cento verdade e confirmado por três fontes."

Mas vinte anos a andar nestas batalhas começam a ter as suas consequências. A certa altura, durante a entrevista, a agente do realizador vem discretamente por trás dele arrumar as coisas. "Não te ponhas por trás de mim, faz favor!", diz-lhe Moorre com brusquidão, claramente enervado e assustado devido a experiências anteriores - não adianta mais, refere apenas que os ataques contra ele não são apenas verbais; hoje, tem quatro guarda-costas a protegê-lo.
Como pode viver assim? Aos 55 anos, tenta tomar conta da sua vida. Está a fazer dieta, vai fazer um filme de ficção e está a levar a sério ser uma individualidade local em Traverse City, Michigan (onde vive com Kathleen Glynn, sua mulher de 18 anos, e onde gere um cinema local de filmes independentes) como cruzado global.

"Perdi trinta e um quilos desde o Natal e tenho mais trinta e seis a perder, mas estou no bom caminho. Apenas cortei algumas coisas que ninguém devia comer e exercito-me na bicicleta elíptica duas vezes por dia. E... ah, eis a coisa importante: tento dormir sete a oito horas todas as noites."
Claro que o abstémio e não fumador tem predilecção por gelados e pizzas, o que pode ter algo a ver com o seu tamanho.
"Nunca bebi álcool, não gosto do sabor. Não consumo drogas. Cresci nos anos 60 e tinha cabelo comprido e todos os meus amigos andavam pedrados. Eu ficava a assistir e era como se já estivesse como eles. Não sou contra a ‘marijuana'. As pessoas que a usam parecem estar bem. Não batem nas mulheres, não provocam acidentes de automóvel. O efeito que o álcool tem na pessoa é que é uma loucura. Nunca compreendi porque é que as pessoas bebem."

Moore ainda é católico praticante. "Vou à missa, mas não todas as semanas." Aos 14 anos, até entrou para o seminário, embora só lá ficasse um ano. Estava a preparar-se para anunciar que se ia embora, mas no seminário pediram-lhe primeiro que não voltasse. "Disseram que eu fazia demasiadas perguntas; é a história da minha vida", reflecte. Encontrou "a sua própria maneira de estar" relativamente à religião. "Não gosto da Igreja Católica como instituição. De facto, alguém devia fazer um filme sobre isso." Ele não está interessado; talvez esteja demasiado próximo. "É um assunto que mexe comigo porque o catolicismo tem sido parte importante da minha vida. Mas tenho tantas ideias para filmes que gostaria de fazer, incluindo dois filmes de ficção. Estou a planear fazer um deles a seguir."

Não diz do que se trata, mas age como se não fosse assim tão diferente dos seus documentários. "Estou a tentar homenagear a arte do cinema ao produzir um filme que conta uma boa história, com personagens interessantes e com princípio, meio e fim."
Por falar de fim, "Capitalismo: Uma História de Amor" termina com uma versão da "Internacional".
"É uma canção bonita, do século XIX, mas os americanos foram amedrontados com ela. Disseram-lhes que significa comunismo" - e baixa sinistramente a voz para causar efeito. "Por isso, pensei: porque não um cantor de música ambiente para a interpretar, assim, os americanos talvez a escutem. Pensei que juntaria a colher de açúcar para ajudar a engolir o remédio - se me entende."


Links Relacionados
Crítica do filme "Capitalismo: Uma História de Amor"
Vídeo: "Capitalism", trailer


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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

E ANDA AQUI UM GAJO A CONTAR OS TROCOS

Ex-presidente do BPN
Oliveira e Costa acusado de montar esquema ilegal com ajuda de mais 23 arguidos
25.11.2009 - 19h29
Por Lusa
Pedro Cunha

Oliveira e Costa é acusado de nove crimes
O Ministério Público considerou que o ex-presidente do BPN Oliveira e Costa, em prisão domiciliária e acusado de sete crimes económicos, concebeu um esquema ilícito para obter poder pessoal e proveitos financeiros com o apoio de mais 23 arguidos.

O Ministério Público (MP) deduziu no sábado acusação contra 24 arguidos, um dos quais um laboratório industrial de cerâmica (Labicer), sendo Oliveira e Costa o único arguido detido em regime de prisão domiciliária.

No despacho de acusação, a que a agência Lusa teve hoje acesso, o MP refere que o ex-banqueiro aceitava conceder, a quem com ele colaborasse, dividendos retirados do BPN, apesar de isso prejudicar financeiramente o banco.

Para isso, montou uma estratégia baseada no controlo accionista do banco, na secreta criação de sociedades offshore, cujos últimos beneficiários eram empresas da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), antiga proprietária do BPN, e na instrumentalização de uma entidade bancária com sede no estrangeiro (Banco Insular), fora do controlo do Banco de Portugal.

Oliveira e Costa é acusado de um crime de abuso de confiança, um de burla qualificada, um de falsificação de documento, um de infidelidade, dois de branqueamento de capitais, dois de fraude fiscal qualificada e um crime de aquisição ilícita de acções.

O arguido José Vaz de Mascarenhas, antigo presidente do Banco Insular de Cabo Verde, é acusado de dois crimes de abuso de confiança, um de burla qualificada e um de falsificação de documento.

Os antigos administradores da SLN Luís Caprichoso e Francisco Sanches estão acusados de dois crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação de documento, infidelidade e aquisição ilícita de acções.

Entre os 23 arguidos está também José Monteverde, que é acusado de dois crimes de abuso de confiança, como autor material, bem como um crime de burla qualificada sob a forma de cumplicidade.

Ricardo Oliveira cometeu, de acordo com o MP, um crime de burla qualificada e um crime de falsificação de documento, sendo acusado como autor material.

António Franco é também acusado por um crime de burla qualificada e outro de falsificação de documento, sob a forma de cumplicidade, enquanto Manuel Silva Santos é acusado de ser autor material de um crime de branqueamento de capitais.

Rui Guimarães Costa é visado pelos crimes de fraude fiscal qualificada e burla qualificada, enquanto Hernâni Ferreira é acusado por um crime de burla qualificada.

O MP concluiu ainda que Fernando Cordeiro, Almiro Silva, António Marques Cavaco, Manuel Marques Cavaco, Rui Almeida Fonseca e Manuel António Sousa cometeram, em cumplicidade, um crime de burla qualificada.

Por seu turno, a empresa Labicer é acusada como autor material de um crime de fraude fiscal qualificada.

Os dois procuradores titulares do processo deduziram também um pedido de indemnização cível a seis dos 24 arguidos - Oliveira e Costa, Telmo Belino Reis, Labicer, Luís Ferreira Alves, Rui Dias da Costa e Filipe Baião do Nascimento - no montante próximo de 105 mil euros, alegando que lesaram o Estado através de fraude fiscal.

FILHOS DA PUTA!

José Penedos está suspenso das funções que desempenhava na REN (Redes Energéticas Nacionais), onde assumia a presidência. Está ainda obrigado a pagar uma caução de 40 mil euros.Adriano Miranda


José Penedos é acusado de corrupção passiva
As medidas de coação foram divulgadas esta tarde no Juízo de Instrução Criminal de Aveiro. A estas medidas acrescem ainda a proibição de contactar com os outros arguidos à excepção do filho, Paulo Penedos, e também a interdição de contactar com funcionários da REN.

Rui Patrício, um dos advogados que o defende, assegurou que irá interpor recurso das medidas de coacção. José Penedos não quis falar aos jornalistas, remetendo qualquer declarção para o final do processo.

À saida do tribunal, Galvão Teles, outro dos seus advogados, não deixou de fazer uma declaração pública para referir que em 50 anos de profissão nunca encontrou uma decisão tão contraditória em relação aos factos.

José Penedos está indiciado por um crime de corrupção passiva no âmbito do processo "Face Oculta".

ILUMINAÇÃO


ILUMINAÇÃO

António Pedro Ribeiro

É de novo madrugada. E escrevo. Ao som dos Led Zeppelin. Não sei o que passa comigo. Será o Graal? Será o Quinto Império? Será o Jesus do padre Mário? Há várias noites seguidas que não prego olho. A música dos Zeppelin em vez de me fazer adormecer põe-me em cima. Apetece-me berrar. Acordar a aldeia toda. Despertá-los da vidinha e do trabalhinho de todos os dias. Bem era preciso um abanão desses. A ver se esta gente ACORDA. Dormem. Estão todos mortos e eu aqui cheio de pedal. ACOOOOOOOOOOOOOORDEM! Um desses berros à Jim Morrison. Para despertar as consciências. Para os fazer ver a vidinha estúpida e fútil que levam. Casa-trabalho-família e pouco mais. Estais mortos! Comunicais mortos. Amais mortos. Assim permanecereis por mil anos até ao romper do feitiço. Escrevi isto há muitos anos. E está cinco estrelas. E é a verdade. Estais mesmo mortos. Viveis mortos. A vossa vida não tem sentido. Por quanto mais tempo deixareis que vos enterrem a cara na merda? Por quanto mais tempo permanecereis mortos? Não escutais o amor, não vêdes o Graal, como eu? Porque não me seguis? Porque tendes medo da liberdade? Porque não me acompanhais? Porque não sois como eu? Será que sou feito de matéria diferente? Será que já estive morto e voltei à vida? Será que sou o cavaleiro do Graal? Porque é que tenho iluminações? Alucinações? Delírios? Mas é tão bom ser irmão dos deuses. É tão bom partilhar com os meus companheiros a Boa Nova. É tão bom ser humano. Não pensar nas coisas em que os outros passam a vida a pensar. É tão bom conseguir passar a mensagem. Conciliar Jesus com Zaratustra e com Artur. Esta noite renasço. Definitivamente, renasço. Não mais mesquinhez, não mais inveja, não mais rivalidades. Sou o rei que procura. Sou o poeta do bem e da eternidade. Estas palavras não são minhas: são-me ditadas por alguém que desconheço. Estou iluminado pelos deuses, como dizia Platão. E que importa dormir se estou às portas do paraíso? Que importa dormir se me estou a encontrar, a tornar-me naquilo que sou, como dizia Nietzsche. Era bom que este estado fosse eterno, que nunca mais voltasse à terra da bruma e da desolação. Mas eu tenho de regressar, de descer à montanha, de ir ter com a populaça ao mercado. Porque é o mercado que comanda tudo. E eu odeio o mercado e por isso tenho de o combater. Estou do lado da Vida.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A LEI DA ROLHA

"Acto de medo e de censura" que origina "suspeição" e "desconfiança". É assim que os subscritores do Manifesto Anti-Silêncio na Câmara de Coimbra classificam a decisão do executivo municipal de afastar a comunicação social das reuniões camarárias fechadas, às quais, nos últimos 20 anos, os jornalistas sempre tiveram acesso. O documento de protesto, que foi tornado público ontem, é assinado por várias figuras políticas de esquerda da cidade, que dizem que a autarquia se está a transformar num bunker. Paulo Ricca


Jornalistas passam a assistir apenas a reuniões abertas ao público
O primeiro subscritor do manifesto é o ex-vereador do PS na Câmara de Coimbra João Silva, que assume a iniciativa como uma "tomada de posição cívica" que reúne "várias vozes da cidade". O objectivo é "censurar publicamente" a decisão aprovada pelo executivo camarário, liderado por Carlos Encarnação. "Este manifesto é um acto de cidadania devido a Coimbra. Não sabemos como vai evoluir, mas o objectivo principal é não deixar passar em claro uma decisão como esta", defende João Silva.

Entre os cerca de trinta assinantes há várias figuras ligadas ao PS, como o ex-presidente da autarquia, Manuel Machado, a ex-vereadora Teresa Alegre Portugal e o actual vereador no executivo, Carlos Cidade. Mas há também outras figuras ligadas à política e à sociedade civil, como o actual líder parlamentar do Bloco de Esquerda (BE), José Manuel Pureza, o professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, e a presidente da direcção da associação cívica Pró-Urbe, Ana Pires.

José Manuel Pureza, líder parlamentar do BE, considera que a posição da autarquia "não faz qualquer sentido" e mostra-se preocupado com os efeitos que pode ter "na saúde da democracia local". "O debate público sobre as questões municipais já é reduzido. Esta decisão ainda vem agravar mais esse fechamento do poder local em Coimbra que se tem acentuado muito nos últimos anos", lamenta. Por não perceber as "razões" que estão na base da posição da autarquia, José Manuel Pureza considera que a decisão do executivo liderado por Carlos Encarnação "é estranha" e "pouco saudável".

Uma opinião partilhada pela presidente da associação Pró-Urbe, Ana Pires, que olha para a decisão como uma atitude de "desrespeito em relação a todos os cidadãos" de Coimbra. "É uma atitude inadmissível. Do que é que têm medo? O que é que se pretende esconder? Porquê fechar a porta aos jornalistas?", questiona Ana Pires, dizendo estar "incomodada" e "desgostosa" com a decisão.

A deliberação que decretou o afastamento da comunicação social das reuniões camarárias fechadas, colocando Coimbra numa situação idêntica à da esmagadora maioria das autarquias do país, rompe com a tradição que vigorava na autarquia desde o início da década de 1980. A partir de agora, os jornalistas podem apenas assistir às reuniões públicas - as primeiras de cada mês -, abertas a todos os munícipes. E, no final de todas as reuniões, o presidente da autarquia passa a realizar encontros com a comunicação social para falar sobre as principais decisões.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

PROFETA


. "Estou à espera de um guia que me leve pela mão". Estou à espera de um guia que me conduza ao Graal. Ao reino da fraternidade e da abundãncia. Não mais esta terra inóspita. "Consegues imaginar o que será de nós, ilimitados e livres, desesperadamente necessitados da mão de um estranho num mundo desesperado?". Consegues imaginar-nos, ilimitados e livres? Tens de te abstrair do mundo das trocas, da economia. Tens de pensar, de acreditar no reino da luz. Tens de sair das trevas do dinheiro e do mercado para chegar à luz. Segue-me. Vamos ter com Zaratustra à montanha. Esquece a cidade, esquece o mercado. Vamos ver o profeta maldito. Este é o caminho que conduz a nós mesmos. Este é o caminho do solitário, do cavaleiro da Demanda. É o único que tens. Já te afastas-te do reino da economia e do mercado. Talvez encontres Jesus pelo caminho. Mas Jesus não é mais do que Zaratustra. Sente o amor, companheiro. Sente o amor, aqui nas alturas. A eternidade que amo. Ilimitados e libertos, como cantou o Jim. O outro profeta. Estou a escrever o livro. Estou a escrever o livro da vida e da celebração. Não há volta a dar-lhe. Bebo o Graal com Jesus, Morrison e Zaratustra. No alto da montanha. São quase nove da manhã. E eu não sei se estou completamente louco. Ainda não provoquei cenas maradas no meio da rua. Mas pouco falta. O menino direitinho está a milhas. Do alto da montanha contemplo o mundo. És minha, ó eternidade! Vou escrever o livro, o grande livro, que muitos lerão. Ó leão, ó menino! Desceste às profundezas de ti mesmo e agora é-te difícil regressar ao mundo da norma e do trabalho. Detestas o mundo da norma e do trabalho! Vieste para algo de diferente, algo de superior. Vieste para quebrar as cadeias. Vieste para libertar os cativos. Vieste trazer a mensagem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

DEUSES


Deuses, que quereis de mim?
Porque me apoquentais?
Dizei-me!
De que reinos venho?
Porque não sou igual aos outros?
Porque vou atrás do infinito?
Porque é que os olhos falham
e a alma é insaciável?
Que quereis de mim?
Porque me atirais para a loucura?
Deuses, porque nasci?
Porque estou aqui?
Porque tive de atravessar o deserto?
Porque é que os homens e as mulheres
não me ouvem nem se dirigem a mim?
Deuses, que devo dizer-lhes?
Deuses, qual a palavra que mudará
o mundo?
Deuses, porque ouço o meu Pai?
Deuses, porque não choro?
Deuses, dizei-me o que tenho de fazer!


"Padeirinha", 23.11.2009