quarta-feira, 17 de junho de 2009

COM OS AGREDECIMENTOS AO RICARDO CONTRA

Ao Poeta das Gajas

Ao António Pedro Ribeiro!!!

A.P.Ribeiro,
moi o cérebro ao pessoal...
Milho na mó do moleiro...
Dá na cabeça,
ao artista,
ao banqueiro...

Caga no dinheiro,
queremos é gajas,
diz o poeta...

Engano...
As gajas é que sabem o que querem...
Querem o beijo do poeta e a carteira do banqueiro...
Ao contrário não é de certeza.

Bota e vira,
venha mais uma de cerveja!!!
E estás a financiar a revolução!!!

A.P.Ribeiro,
Estamos fodidos...
Não é com a força da caneta,
que mudamos o mundo inteiro...

O poeta é crente,
dá cabo da figadeira,
e fica todo comido da mente....

NIETZSCHE


Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.

NIETZSCHE

Contra as Leis

A partir de hoje penduro ao pescoço
Com uma corda de crina o relógio que marca as horas;
A partir de hoje cessam o curso das estrelas
E do sol, e o canto do galo e a sombra;
E tudo aquilo que a hora nunca anunciou
Está agora mudo, surdo e cego:
Toda a natureza se cala para mim
Diante do tiquetaque da lei e da hora.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

NIETZSCHE


Ó Minha Felicidade

Revejo os pombos de São Marcos:
A praça está silenciosa; ali se repousa a manhã.
Indolentemente envio os meus cantos para o seio da suave
frescura,
Como enxames de pombos para o azul
Depois torno a chamá-los
Para prender mais uma rima às suas penas.
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Calmo céu, céu azul-claro, céu de seda,
Planas, protector, sobre o edifício multicor
De que gosto, que digo eu?... Que receio, que invejo...
Como seria feliz bebendo-lhe a alma!
Alguma vez lha devolveria?
Não, não falemos disso, ó maravilha dos olhos!
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Severa torre, que impulso leonino
Te levantou ali, triunfante e sem custo!
Dominas a praça com o som profundo dos teus sinos...
Serias, em francês, o seu «accent aigu»!
Se, como tu, eu ficasse aqui,
Saberia a seda que me prende...
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Afasta-te, música. Deixa primeiro as sombras engrossar
E crescer até à noite escura e tépida.
É ainda muito cedo para ti, os teus arabescos de ouro
Ainda não cintilam no seu esplendor de rosa;
Resta ainda muito dia,
Muito dia para os poetas, fantasmas e solitários.
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

terça-feira, 16 de junho de 2009

O SUBLIME-2


Alguns interrogar-se-ão porque é que
os meus últimos escritos
nada tem a ver com raiva ou sexo
a verdade é que nos últimos tempos
encontrei um fio condutor
uma maneira prosaica de escrever
poeticamente

não há dúvida que hoje foi um dia
daqueles de mão cheia
e limitei-me a ir a dois cafés
e a gastar 1,15 euros
de resto, só falei com a minha mãe
encontrei a paz e a serenidade
da criança sábia
ultrapassei a fase do leão
daí a ausência da raiva
daí a ausência do sexo
bem sei que este estado não é eterno
a noite cai
a luz começa a faltar
e eu sentado no banco da mesa do jardim
este foi o dia em que toquei o sublime.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

MISSÃO


Ás vezes esqueço-me que tenho jardim e quintal
e árvores e frutos e flores e gatos e cão e pássaros
não dou importância à riqueza que tenho
depois de ter lido quase Nietzsche todo
dedico-me agora a Henry Miller
não há dúvida que são dois autores
que nos aproximam do sublime
ao mesmo tempo que nos alertam
para o mundo cão dos burgueses
e até dos proletários
Nietzsche fala na morte de Deus
no super-homem
Miller fala do deus em nós
e assim me sinto pleno e culto
à menina que vai anoitecendo
e os sinos batem lá longe na igreja

não há dúvida que hoje não preciso
de fazer mais nada
já cumpri a minha tarefa
a tarefa do poeta é escrever e observar o mundo
os pássaros cantam
e até os gritos das vizinhas deixam de me incomodar
foi esta a vida que escolhi
não tenho de voltar ao jornal e ao trabalho
é esta a minha missão.

SÍNTESE


Não me digas que esta tarde vai ser daquelas
em que produzo poema atrás de poema
os meus livros na Feira do Livro-
quase ninguém os compra
mas eu continuo a escrever
sei que vou ter leitores
sou uma espécie de fábrica da poesia
produzo poemas em doses industriais
isto sem cair na poesia "fast-food"
deveria ganhar a vida com isto
mas o que é isso, ganhar a vida?
A vida está ganha
hoje estou a ganhar a vida
a vida vem ter comigo
a vida vem no poema
hoje todos os mestres estão em mim
todos os livros que li,
todas as experiências por que passei
estão em mim
hoje faço a síntese
volto a fazer a síntese
sou um poeta
é isso que sou
profissão: poeta
não tenho de ter problemas em dizê-lo
nasci para isto
vivo como poeta
amo como poeta
bebo como poeta
não tenho que ser funcionário ou empregado
de coisa nenhuma
esta é a minha vida
e hoje está a ser um dia triunfal
escrevo em triunfo
amo o papel e a caneta
depois passo para o blogue
mas quase sempre há o papel e a caneta
há esta relação mágica
é isto a criação:
a mão, o papel e a caneta
e isto ninguém me tira
e a rádio até passa os Clash
"Police on my Back"
nem de propósito
a liberdade contra os polícias
o grito da liberdade
a liberdade da criação.

Vilar do Pinheiro, "Motina", 15.6.2009

EM PAZ


Parece que a pastilha fez efeito
hoje sinto-me um homem novo
acredito no divino que está no homem
não em todos os homens, claro
há homens pequenos, já dizia Nietzsche
a pastilha acordou o divino
já vejo o mundo com outros olhos
bem sei que ele está cheio de rapina e sofrimento
mas não deixo de sentir a ternura
aquela ternura que sinto por ti
aquela ternura do tamanho do mundo
aquela ternura que vence o tédio
há pessoas que levam uma vida absolutamente previsível
não é o meu caso
tenho dias de tédio, claro,
mas também tenho tardes em que a divindade
se senta comigo na confeitaria
e para tal só preciso de papel, caneta
e 55 cêntimos para o café
mais nada, absolutamente mais nada
estou em paz
a música bate suave
e até me apetece beijar a empregada
há instantes como este
instantes eternos
em que vivemos 1000 anos em poucos segundos
em que agradecemos aos livros e aos poetas
e a algumas pessoas
não somos mais do que os outros
somos apenas diferentes
pertencemos a outra tribo
até parece que o cérebro trabalha mais depressa

amamos a loucura
não temos de andar sempre a exteriorizá-la
mas podemos agarrá-la
é isso que nos distingue
não temos medo dela
mas agora estou em paz
não preciso de subir ao palco
observo o espectáculo do mundo
os carros passam cheios de pressa
e eu aqui na minha
não tenho pressa nenhuma
não tenho de cumprir horários
nem tarefas
limito-me a estar aqui
a escrever, a observar, a ouvir a música
sinto-me uma espécie de rei
reino sobre estas terras
nem preciso de dar ordens
nem de impôr coisa nenhuma
basto-me a mim próprio
cheguei onde quero chegar
já ao acordar senti alguma coisa diferente
de madrugada fui ao computador
clamar por uma pastilha que me curasse
e cá estou, de novo, em cima
de novo em paz
o divino está no homem
só pode estar no homem.


Vilar do Pinheiro, "Motina", 15.6.2009

A DIVINDADE


A genialidade de Henry Miller
a procura da divindade no homem
eis a busca autêntica do Graal
não me venham falar do trabalho
nem da vidinha do tédio
para isso também eu vim ao mundo,
caro Henry Miller,
a busca da divindade
daquilo que é verdadeiramente humano
a dádiva, a partilha
Quixote Zaratustra
o céu na Terra
a nossos pés
sem controleiros
nem polícias
"a liberdade cor de homem"
nunca mais a derrota
nunca mais a depressão
só o sublime
só o divino
aquilo em que acredito
aquilo que me faz caminhar
aquilo que verdadeiramente sou.

A DEPRESSÃO


E ela vem
volta sempre
a depressão
ainda há dias
estava próximo
da euforia
e ela vem
volta sempre
a depressão
é difícil
o contacto
com as pessoas
valham-me os livros
o namoro
sou eu que estou certo
não é o mundo
mas ela vem
volta sempre
a depressão
mesmo que me excites
que te sentes no meu colo
que me beijes loucamente
ela vem
volta sempre
a depressão.


Porto, 14.6.2009

A PASTILHA


Quero uma pastilha que me ponha bom
que dê a volta à depressão
que me faça pular e dançar
e me faça voltar à rebelião

quero uma pastilha que me ponha bom
que dê a volta à depressão
o mundo lá fora enche-me de tédio
parece não ter remédio
mas eu não tenho de carregar essa cruz

quero uma pastilha que me ponha bom
que me traga, de novo, a luz
que me faça erguer a taça
não tenho de cair em desgraça
não tenho de carregar a cruz

sexta-feira, 12 de junho de 2009

VERDADEIRAMENTE PURO


Há livros, escritores, poetas que nos dão a volta à cabeça,
que nos abrem a cabeça
Henry Miller é um deles
as suas reflexões acerca da Humanidade, da civilização
engrandecem-me, fazem-me crescer
existe algo de puro, de divino no Homem
que a civilização tem tentado destruir,
que quase destruiu
mas que permanece vivo em alguns homens,
em alguns poetas
eu sinto-o: é o Uno Primordial
está vivo em mim
para lá de toda a mesquinhice, de toda a cretinice,
de toda a canalhice,
de toda a usura, de toda a competição
existe algo de puro,
a descoberta de nós mesmos
o experimento permanente
algo que nos eleva até aos céus
que faz de nós "caminheiros dos céus"
algo que o teu dinheiro
que todo o dinheiro do mundo
não compra
sabe, D. Rosa,
eu não acredito em comunhões nem em missas
mas acho, tenho a certeza
que o homem foi talhado para algo de superior
que esta merda não pode ser só comer e beber
nem andar atrás do trabalho e do dinheiro
sabe, D. Rosa,
eu acredito na criação
e só de dizê-lo, e só de escrevê-lo
me sinto em paz comigo próprio
me sinto alguém melhor
verdadeiramente capaz de passar a mensagem
alguém verdadeiramente puro
verdadeiramente sem limites.

Vilar do pinheiro, "Motina", 11.6.2009
Vêm mulheres
mas não vêm para mim.

PIOLHO


Tenho de escrever no "Piolho"
porque me prometeram publicar
um livro de poemas sobre o "Piolho"
venho cá há mais de 20 anos
já passei muita coisa aqui no "Piolho"
conversas, tertúlias, namoros
dias solitários
frente à folha de papel
ou a ler
no fundo, o que eu queria
era que certas meninas
viessem falar comigo:
"Gosto do que tu escreves..."
e etc e tal
é aquilo que eu escrevo
e não o que digo ou insinuo
que pode ficar para a História
o "Piolho" não é um café qualquer
aqui há vida, aqui há História
aqui as pessoas não vêm tratar
da vidinha
nem da vida do vizinho
nem do Rendimento Mínimo
aqui há uma certa elevação
aqui há liberdade
aqui pode-se falar de tudo
desde as coxas da gaja do lado
até à revolução mundial
aqui pode-se falar de Henry Miller,
Nietzsche ou Breton
sem que nos olhem de soslaio
aqui um gajo pode ser ele próprio
e pode ler e escrever
sem ser considerado um OVNI
aqui respira-se a cidade
aqui um gajo sente-se
cidadão do mundo
mesmo que esteja só
não se sente só
vai pedindo mais cerveja
enquanto houver cerveja
há humanidade
enquanto houver cerveja
os deuses estão do meu lado
enquanto houver cerveja
continuarei a escrever
e viva o "Piolho"!


Piolho, 10.6.2009

CEUTA

Regresso ao "Ceuta". Este café é fadado para o poeta solitário. Uns velhotes a ler o jornal, uns jovens agarrados ao computador. Enfim. Um paraíso! Daqui a bocado vou ver o Amaral e o Costa à Feira do Livro. Já lá passei mas não tenho dinheiro para comprar mais livros. Este é um belo café para ler e escrever e estar sozinho.