Vêm mulheres
mas não vêm para mim.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
PIOLHO

Tenho de escrever no "Piolho"
porque me prometeram publicar
um livro de poemas sobre o "Piolho"
venho cá há mais de 20 anos
já passei muita coisa aqui no "Piolho"
conversas, tertúlias, namoros
dias solitários
frente à folha de papel
ou a ler
no fundo, o que eu queria
era que certas meninas
viessem falar comigo:
"Gosto do que tu escreves..."
e etc e tal
é aquilo que eu escrevo
e não o que digo ou insinuo
que pode ficar para a História
o "Piolho" não é um café qualquer
aqui há vida, aqui há História
aqui as pessoas não vêm tratar
da vidinha
nem da vida do vizinho
nem do Rendimento Mínimo
aqui há uma certa elevação
aqui há liberdade
aqui pode-se falar de tudo
desde as coxas da gaja do lado
até à revolução mundial
aqui pode-se falar de Henry Miller,
Nietzsche ou Breton
sem que nos olhem de soslaio
aqui um gajo pode ser ele próprio
e pode ler e escrever
sem ser considerado um OVNI
aqui respira-se a cidade
aqui um gajo sente-se
cidadão do mundo
mesmo que esteja só
não se sente só
vai pedindo mais cerveja
enquanto houver cerveja
há humanidade
enquanto houver cerveja
os deuses estão do meu lado
enquanto houver cerveja
continuarei a escrever
e viva o "Piolho"!
Piolho, 10.6.2009
CEUTA
Regresso ao "Ceuta". Este café é fadado para o poeta solitário. Uns velhotes a ler o jornal, uns jovens agarrados ao computador. Enfim. Um paraíso! Daqui a bocado vou ver o Amaral e o Costa à Feira do Livro. Já lá passei mas não tenho dinheiro para comprar mais livros. Este é um belo café para ler e escrever e estar sozinho.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
HENRY MILLER
Se pudéssemos fazer todos greve e, sinceramente, negar todo e qualquer interesse naquilo que o nosso vizinho está a fazer, poderíamos conseguir novas esperanças. Poderíamos aprender a passar sem telefones, rádios e jornais, sem máquinas de qualquer espécie, sem fábricas, sem minas, sem explosivos, sem navios de guerra, sem políticos, sem davogados, sem produtos enlatados nem engenhocas, até mesmo sem lâminas de barbear, ou celofane, ou cigarros, ou dinheiro.
(Henry Miller, "O Colosso de Maroussi")
(Henry Miller, "O Colosso de Maroussi")
MEU BOM HENRY MILLER

Miller, meu bom Henry Miller,
estava eu quase na merda
e trouxeste-me o sublime
as tuas palavras são o desprendimento
o céu na Terra
a que temos direito
qualquer coisa de mágico
que me faz acreditar no Homem
o homem sem obrigações nem rotinas
o homem livre
em paz consigo mesmo
Miller, meu bom Henry Miller,
a tua leitura cura-me
cada página tua é uma bênção
que me põe em cima
e me faz acreditar
Miller, meu bom Henry Miller,
um mundo sem televisões nem jornais
um mundo sem dinheiro e sem políticos
um mundo sem mercado e sem multinacionais
o mundo em que acredito
em que me fazes acreditar
não é uma fantasia
está aqui à minha frente
e eu acredito
acredito em ti, meu bom Henry Miller,
os teus livros fazem-me crescer
e enfrentar a vidinha
que me querem vender
os teus livros fazem de mim
um homem melhor
um homem mais puro
um homem que acredita nele próprio
e na transformação do mundo.
o homem que se dá com toda a gente
permanece lá dentro
não gosto dessa gente
que está de bem com Deus e com o Diabo
que tem sempre a piada a propósito
e que inventa teorias
não gosto dessa gente
mesmo que esteja em estado de euforia
mesmo que esteja próximo da glória e do sublime
nada tenho a ver com essa gente.
permanece lá dentro
não gosto dessa gente
que está de bem com Deus e com o Diabo
que tem sempre a piada a propósito
e que inventa teorias
não gosto dessa gente
mesmo que esteja em estado de euforia
mesmo que esteja próximo da glória e do sublime
nada tenho a ver com essa gente.
sábado, 6 de junho de 2009
PARTILHA

De há uns tempos para cá
há uns gajos que vêm ter comigo
que me elogiam
que me oferecem coisas
às vezes um gajo sente-se tão só
tão encerrado nas suas ideias
tão absorto na sua criação
que não se apercebe que vai
espalhando obra pelos tascos
que os seus escritos e ditos
vão deixando rasto
vão percorrendo o seu caminho
rumo à posteridade
e há aqueles gestos límpidos
fraternos integrais
essa partilha sincera
que está muito para lá
da compra e venda.
Estou no bar, bebo e escrevo. Há anos que a situação se repete. Mas não tenho escrito nos bares. As gajas da mesa da frente falam. O bar começa a noite. Pelo menos aqui não tenho de aturar os chatos do costume. Escrevo. Ponto final. EScrevo sem objectivos. Sem pensar em livros nem em noites no Púcaros. Escrevo. A caneta vai avançando. Há malta que entra. As gajas da frente saem. Deixam as chávenas vazias. Sou o gajo só que escreve. A diferença é que já deixei obra. Apetece-me uma gaja. Uma gaja que venha sem eu a conhecer de lado nenhum. Uma gaja doida, passada que venha beber uns copos comigo. Que se esteja a cagar para o facto de eu não ter dinheiro nem trabalho. Que me venha amar ao inferno. QUe venha entre copos e noitadas. Que venha venha ao sabor da música. Que venha dentro da cerveja. Que venha até ao fim. Que venha absolutamente divina. Que venha na passerelle. Que venha no "Deslize". Que venha a deslizar. Que venha para ficar. Sou o poeta que escreve e tem horas para o metro. Sou o poeta que escreve e que tem dúvidas se vai ficar. Sou o poeta que se mete na retrete. Sou o poeta que saúda o Jesualdo. Sou o poeta à frente do cassetete. Sou o poeta Tebaldo. A minha escrita está doente. A minha escrita monta o cavalo e a Maria. A minha escrita vem-se na sacristia. Sou o bêbado que berra e canta na rua. Sou o ser que incomoda o vizinho. Sou o gajo que sobe ao palco e diz blasfémias. Sou o gajo que come a Ifigénia. Sou o mestre que queres conhecer. SOu o gajo que vai desaparecer. Sou a rebeldia que se mistura com os jovens. Sou o vampiro que te chupa o sangue. Sou o gajo que transforma a rotina num acontecimento. Sou o animal que destrói o teu casamento. Sou o monstro que vagueia pela cidade. Sou a tua identidade. Sou o gajo que está ao balcão. Sou o teu irmão. Sou o gajo que olha para as gajas. Sou o gajo que saca a canção.
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Sunday, December 21, 2008
Teoricamente 5000 pessoas podem ler os meus escritos. A revista "Um Café" publicou o meu texto "Poetas de Café" e traz uma prosa com referências ao meu livro "Saloon" e às minhas idas ao "Púcaros". Já era suficiente para me sentir nas nuvens. Só que as gajas não aparecem. As gajas não aparecem e eu estou só no "Piolho" a escrever numa sexta á noite. O argumento para o hipotético filme rola. A cerveja também.
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Sunday, December 21, 2008
Teoricamente 5000 pessoas podem ler os meus escritos. A revista "Um Café" publicou o meu texto "Poetas de Café" e traz uma prosa com referências ao meu livro "Saloon" e às minhas idas ao "Púcaros". Já era suficiente para me sentir nas nuvens. Só que as gajas não aparecem. As gajas não aparecem e eu estou só no "Piolho" a escrever numa sexta á noite. O argumento para o hipotético filme rola. A cerveja também.
CRIAÇÃO E CASTRAÇÃO

CRIAÇÃO E CASTRAÇÃO
“Por poetas entendo aqui todos os que habitam nas regiões do espírito e da imaginação. É sua missão seduzir-nos, tornar intolerável este limitado mundo que nos aprisiona”, escreveu Henry Miller em “O Tempo dos Assassinos”. Os poetas, os grandes poetas são magos, emissários de um outro mundo, são “caminheiros do céu” que nos falam de coisas que hão-de vir e de coisas há muito passadas.
“O que pertence ao domínio do espírito, do eterno, escapa a toda e qualquer explicação. A linguagem do poeta corre paralelamente à voz interior quando esta se aproxima da infinitude do espírito”, prossegue Miller. Os poetas vêm do Uno Primordial de Nietzsche e de Dionisos, daquela idade áurea perdida em que a vida era, nas palavras de Arthur Rimbaud, “um banquete em que todos os corações se abriam e em que todos os vinhos corriam”. E continua o poeta das “Iluminações”: “Vamos fazer o Natal sobre a Terra…agora, já, estão-me a ouvir? Não queremos esperar por caramelos no céu!”, o que remete para o grito de Jim Morrison : “We Want The World And We WAnt it…Now!” (“When The Music’s Over”).
Criar é uma festa mas pressupõe a descida aos infernos. “Aprendi a minha profissão no inferno”, confessou Léo Ferré. “A estrada que conduz ao Céu passa pelo Inferno”, acrescenta Henry Miller. Mas não há alegria comparável à do criador, do poeta, porque a criação não tem outra finalidade para lá de si própria. E esse poeta é um criador, um xamã, um feiticeiro ébrio que canta, dança e ri, que faz da arte uma festa e que torna absurda a sociedade capitalista e castradora.
Posted by apedroribeiro at 12:57 PM 0 comments
Tuesday, December 9, 2008
ENGRAVATADOS
Três engravatados arrastam três gajas bonitas para o café. Estou a ver que é preciso andar engravatado para arrastar gajas bonitas. Nada me move contra os engravatados. Não se deve avaliar as pessoas pela gravata. Simplesmente, não gosto que me imponham regras de conduta.
HÁ UMA SEMANA

Há uma semana estava com aquele pedal
hoje nem por isso
podia ter ido ao Porto
mas não fui
vão pintar um poema meu na parede
e eu não vou ver
paciência
há uma semana estava com aquele pedal
hoje nem por isso
até escrevi cinco poemas
até voltei a escrever no quintal
hoje, nada
ou quase nada
as palavras custam a sair
as senhoras queixam-se que não têm
ninguém para conversar
a D. Rosa conversa comigo
sou o gajo solitário
que vem à confeitaria
há uma semana estava próximo do sublime
hoje nem por isso
apenas escrevo umas coisas
cumpro o exercício diário
nem sequer procuro ser incisivo ou mordaz
é o que sai
a D. Rosa conversa com toda a gente
e eu aqui a lamentar-me
está um gajo sempre a lamentar-se- já diz o Oliveira
mas há gente mesmo mesquinha
sempre a meter-se na vida dos outros
sempre a comentar
é certo que quando um gajo escreve
também está a comentar
mas não é da mesma forma
se toda a gente fosse como a D. Rosa
o mundo seria melhor
continuo a alongar-me muito nos poemas
são poemas filosóficos
Ah! Se isto me desse para viver
se me pagassem o que escrevo
se me comprassem os livros todos
deveria ter ido ao Porto
nem sei porque não fui
amanhã vou votar no MRPP
1% já não está mau
1% é um bom "score" para o partido revolucionário
era o que tinha o PSR nos bons velhos tempos
talvez até dê para eleger o Garcia Pereira
nas legislativas
1% é um bom "score", mais uns votos
e convertemo-nos ao sistema
foi o que aconteceu ao Bloco
há uma semana estava com aquele pedal
hoje nem por isso.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
A GAJA BOA

um café agradável
uma gaja boa
mais nada
absolutamente mais nada
o mundo sorri ao poeta
mas parece que vai fechar
a gaja boa lê
o poeta escreve sobre ela
é bem bonita
oxalá lhe viesse parar aos braços
o poeta bebe e pensa
o empregado limpa o chão
isto está prestes a fechar
mas o poeta ainda escreve
se fosse a outro café
não via a gaja boa
não teria o prazer de partilhar
o mesmo espaço com ela
isto está a fechar
mas não deixa de ser uma bênção
poder olhar para as gajas boas e bonitas.
O REI

Escrevo, pura e simplesmente, escrevo
acabo de beber duas cervejas
e continuo a ler o "tratado do Estilo" de Aragon
observo a campanha eleitoral
nunca liguei tão pouco a uma campanha como a esta
só me interessam o POUS, o MRPP e o PPM
estes últimos dizem que está tudo mal
o que faz falta é um rei
não deixam de ter a sua razão
um rei sim, mas não um rei qualquer
um rei como Artur
um rei místico, um rei surreal
um rei que dance na pista
um rei que dê a volta
um rei que comande a revolta
um rei que mande foder
os direitinhos e os amigos da finança
um rei que dança
um rei que canta
um rei que espeta a lança
um rei com pança
escrevo, pura e simplesmente, escrevo
e isto não precisa de ter uma explicação lógica
por acaso até descendo de um rei
e não quero saber do politicamente correcto
quando dizemos os nossos poemas
certo tipo de poemas
expômo-nos mais
essa é que é essa
há gajos que estão sempre à defesa
não os suporto
nem às suas falinhas mansas
que se fodam!
O que é preciso é curtir
curtir a noite toda
sem papas na língua
não é questão de taxar as bolsas e o capitalismo
como defende o Bloco de Esquerda
há que dar cabo das bolsas e do capitalismo
dinamitar as bolsas e o capitalismo!
É a única solução que vejo para esta merda
se for preciso um rei para isso
que venha esse rei
de uma vez por todas
acabemos com isto
basta de conversa
acabemos com isto
basta de conversa
acabemos com isto
basta de conversa...
quinta-feira, 4 de junho de 2009
DAI-ME NOTÍCIAS

O velhote demora uma eternidade a ler o jornal
e eu aqui ávido de notícias frescas
quero comer e beber notícias
sem notícias não existo
estou nas vossas mãos, ó jornalistas
jornalistas, alimentai-me!
Eu não como pão nem carne
como notícias
desespero pelo Telejornal
as notícias fazem-me escrever
são a minha matéria-prima
dai-me notícias!
Dai-me notícias que eu sufoco
o velhote nunca mais sai da página 7
e eu a precisar do jornal como de pão para a boca
dai-me notícias!
Não vivo sem elas
as notícias são a minha vida
dai-me políticos, desastres, crimes
alimentai o meu espírito consumista
dai-me notícias
de manhã até à noite
dai-me notícias
para eu me sentir gente
dai-me notícias
e eu até beijo o Presidente
dai-me notícias
senão fico doente
dai-me notícias
tenho de estar a par do mundo
dai-me notícias
senão vou ao fundo
dai-me notícias
as notícias são a minha vida.
INCISIVO
Tenho de ser incisivo
escrever com uma certa raiva
tenho de ser incisivo
matar com as palavras
deixar o público KO
mandar tudo às urtigas
tenho de ser incisivo
escrever frases curtas
provocar explosões
soltar as rédeas
tenho de ser incisivo
provocar gargalhadas
dizer maluquices
e algumas caralhadas.
escrever com uma certa raiva
tenho de ser incisivo
matar com as palavras
deixar o público KO
mandar tudo às urtigas
tenho de ser incisivo
escrever frases curtas
provocar explosões
soltar as rédeas
tenho de ser incisivo
provocar gargalhadas
dizer maluquices
e algumas caralhadas.
A FELICIDADE É UMA MULHER

Há realmente livros que literalmente
nos abrem a cabeça
"Tratado do Estilo" de Louis Aragon
"A Economia Parasitária" de Raoul Vaneigem
e isto não é conversa de telenovela!
Há frases de Aragon, de Vaneigem, de Nietzsche
que nos fazem avançar anos e anos
o paraíso natural não existe
só existem paraísos artificiais
isto entra em contradição com o que tenho escrito
ultimamente
o futebol é uma droga, a religião é uma droga
os efeitos variam de pessoa para pessoa
é tudo uma questão de carência
há bocado aqui no café estava um gajo
a discorrer sobre os malefícios da Europa,
sobre os malefícios do capitalismo
e o homem tem razão!
Afinal nesta terra sempre há gente que pensa!
Nem tudo se resume ao comer e beber
e ao ram-ram da vidinha
há algo mais do que isso
eu acredito no paraíso natural, caro Aragon!
Não o paraíso dos cristãos ou dos muçulmanos
não sei se é preciso alguma droga para lá chegar
Pronto, chega uma loira
e cá temos o Paraíso!
E até agora só bebi uma cerveja!
A felicidade é uma mulher,
já dizia Nietzsche
é isso: a felicidade é uma mulher!
Mas não qualquer uma!
Há mulheres que estão cá para nos fazerem felizes
ou para termos a ilusão disso
há realmente livros que nos abrem a cabeça
e a felicidade aqui tão perto
aparentemente tão à mão de semear
mas é uma ilusão
a gaja é inacessível
foi somente um instante de felicidade
instantes de felicidade- é o que temos!
Mas continuamos a sentir aquela coisa
não sei
e eis que se arma uma bruta discussão!
A mulher não quer Seguro!
Os gajos dos Seguros são todos uns aldrabôes!
Porra! Mas a gaja era mesmo linda
era a felicidade
devia chamar-se Felicidade!
Eu vi a Felicidade
tive a Felicidade diante dos olhos,
meu caro Aragon!
A Felicidae é uma mulher.
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