domingo, 31 de maio de 2009

ABSOLUTAMENTE LIVRE


Não me venhas falar do trabalho!
A vida foi-me dada gratuitamente
a vida é de graça- já o disse
e repito-o mil vezes
a vida é de graça
não me venhas com a conversa do sistema
o meu trabalho é este:
escrever e dizer o que escrevo publicamente
até pode ser que me perca
que me deixe levar pelo entusiasmo
quando as palmas são muitas
e as pessoas vêm falar comigo no fim
o trabalho é apenas um meio de ganhar dinheiro
de assegurar a sobrevivência
eu não vim ao mundo para sobreviver
sabes, as coisas que eu escrevo
não são apenas para ficar no papel
o trabalho é sacrifício
o trabalho é inimigo da vida
a vida não é sacrifício
a vida não pode ser sacrifício
"o trabalho encontra-se em toda a parte
onde as pessoas nada fazem da sua própria vida"
(Raoul Vaneigem)
eu faço, tenho feito alguma coisa da minha vida
eu tenho orgulho naquilo que faço, ouviste?
Eu estou a contribuir para mudar a vida
as coisas que eu digo, as coisas que eu escrevo
não são mera retórica
não são palavras em vão, espero eu
eu vim ao mundo para criar e destruir
não vim para vegetar
nem para falar dos vizinhos
nem da vidinha
nem do trabalho
nem do caralho que seja
eu vim para a vida
e isso nada tem a ver
com horários, regras ou disciplina
faço o que quero
vou fazendo o que quero
confesso que gostaria de ter mais uns trocos
no bolso
para beber e estoirar
para ficar noite fora
talvez esteja a entrar em contradição
mas sei que o melhor da vida é de graça
o divertimento
o amor
a amizade
a fraternidade
não têm preço
porque raio há-de tudo ter um preço?
DIz-se que Jesus Cristo e Sócrates não usavam dinheiro
eu quero ser como eles
quanto vale este poema?
Será que este poema tem um preço?
Provavelmente um dia será publicado em livro
e aí terá um preço
mas isso parece-me secundário
o poema tem um valor de uso
tem uma missão
mesmo que eu morra esta noite
alguém pegará neste caderno
e divulgará o que nele está escrito
a criação não tem preço
e é do lado da criação que eu me situo
porque raio me hei-de sujeitar aos horários
e sacrifícios de trabalhos que pouco ou nada me dizem?
Estou bem assim
estou bem assim a criar
sinto-me livre
ah!Ah! Sinto-me absolutamente livre
às cinco da tarde na confeitaria
a conversa das velhas não me perturba
a multidão de Serralves não me atrai
nem sequer me apetece ver muita gente~
talvez um dia tenha de enfrentar essa gente toda
num palco qualquer
mas esse dia não é hoje
hoje crio, hoje escrevo
isso basta-me
sou absolutamente livre
há uns tempos que não me sentia assim
há realmente livros que nos abrem a cabeça
ah, grande Vaneigem! Profeta situacionista!
A "Economia Parasitária" deu-me a volta à cabeça
é realmente nas mulheres que está o mundo novo
é certo que as mulheres dizem muitos disparates
é certo que as mulheres, de uma maneira geral,
ligam muito aos bens materiais e à subsistência
é certo que as mulheres são, muitas vezes, inacessíveis
mas também é certo que ligam menos ao poder e à glória
talvez elas me compreendam melhor
desde que não se deixem controlar pelo trabalho
desde que não se deixem contaminar pelo dinheiro
as mulheres criam a vida
e eu crio esta merda
não preciso de horários
para criar esta merda
não preciso de regras
para criar esta merda
não preciso de trabalhos
sou absolutamente livre
e isso basta-me
para me sentir absolutamente livre
nem sequer preciso de sair da confeitaria
para me sentir absolutamente livre
até aguento a conversa das velhas
para me sentir absolutamente livre
não preciso dos milhões do Belmiro
nem dos paraísos fiscais
nem dos chulos da bolsa
nem do cabrão cinzentão do primeiro-ministro
para me sentir absolutamente livre
nem sequer preciso das mamas das gajas
nem do "Jornal de Notícias"
nem do Pinto da Costa
para me sentir absolutamente livre
basta-me a paz
a viagem interior
o espírito livre

e estou bem assim
e nada me tira daqui
e vou continuar assim
mesmo que isso não te agrade
mesmo que isso te faça confusão
é a vida que me empurra
é a vida que me quer
venha quem vier
doa a quem doer.


Vilar do Pinheiro, "Motina", 30.5.2009

A GLÓRIA É UMA GAJA FODIDA


A Glória é uma gaja fodida
não se dá a qualquer um
nem a todo o momento
mas, neste momento, estou a tocá-la
mesmo sem sair de casa
mesmo a ouvir os concursos imbecis
da televisão
"Duelo Final", "Um Contra Todos",
é o apelo ao espírito predador dos concorrentes
comem-se uns aos outros
como se vão comendo na vida
e não estou a falar de sexo
já percebi que o sexo vende
sempre que se fala de sexo a coisa resulta
bem, mas estava eu a falar da Glória
ela hoje veio ter comigo
demos uma bela queca
de tal maneira que não páro de escrever
estou trôpego de tanto escrever
direi mesmo: estou embriagado
sem ter tocado numa gota de àlcool
e o concurso imbecil prossegue
agora falam dos jovens de sucesso
jovem de sucesso é que eu não sou
apesar de estar amantizado com a Glória
este mundo capitalista é que, de facto,
não me diz nada
e sabes que mais:
a Glória é uma gaja fodida.


Vilar do Pinheiro, 30 de Maio de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

EM COMUNHÃO

Sabes, eu sou daqueles gajos que é capaz do melhor e do pior
hoje basta-me dar uma volta pelo quintal
e as ideias vêm logo ter comigo
mas também há dias em que não sou capaz de criar
ou em que repito obsessivamente a mesma coisa
em que chego ao palco
e não consigo transmitir algo de novo
perco-me- como já disse alguém
não sou um gajo de regularidades
de picar o ponto todos os dias
de ter sempre a piadinha a propósito
há dias em que estou taciturno
e sou incapaz de passar a mensagem
hoje não, hoje fui dar de comer aos gatos
e até me esqueço do meu próprio jantar
hoje até seria capaz de dar
uma conferência de duas horas
sem chatear ninguém
escrevo como se estivesse a falar com alguém
e a linguagem é directa, simples
sem hermetismos
não gosto daqueles escritores e filósofos
complicados a escrever
não suporto rendilhados
a minha linguagem é directa
talvez por isso os empregados de mesa
apreciem os meus livros
e até os comprem
há dias, noites em que tudo me corre bem
em que as pessoas me aplaudem entusiasticamente
em que se riem dos meus textos
e vêm ter comigo
há dias em que estou em harmonia com o mundo
há outros em que a comunicação se torna difícil

a noite cai no quintal
uma folha cai
e eu continuo agarrado às folhas do caderno
as folhas do caderno são a vida
a vida a que me agarro
para combater o tédio
vou comer
estou em comunhão com o universo.

Vilar do Pinheiro, 30.5.2009

NO QUINTAL


Sabes, é nestes dias em que parece que não conseguimos
parar de escrever
que somos mais autênticos
até parece que estamos a dizer "a verdade"
de tal forma nos sentimos em comunhão
até com os animais cá de casa
sobre os quais raramente escrevo
o que é estranho
tenho um quintal cheio de gatos, cães e pássaros
e quase nunca escrevo sobre eles
e olha! Os animais não precisam de dinheiro
para sobreviver
precisam de comer e de beber
e bastam-se a eles próprios
para quê complicar a coisa com notas e moedas
e sacrifício e trabalho
se podemos ser livres como os animais?
Sabes, estou a escrever no quintal
e vou escrever até ser noite
em comunhão com os animais
hoje nem sequer vou olhar para o Telejornal
não quero saber da campanha eleitoral
nem dos políticos a insultarem-se
uns aos outros
a darem o cu pelo voto
vou votar no MRPP
mas é por saber que os gajos
não têm hipótese nenhuma
porque o marxismo primário
e os hinos à classe operária
já não me convencem
mas enfim,
talvez fizesse melhor se me abstivesse
sempre engrossaria a abstenção
e ficaria a rir nas barbas do Durão
mas vou votar no MRPP
até já foi o partido dele
faço um percurso completamente inverso
ao Durão Barroso
ele: do MRPP para a alta burguesia
eu: da aristocracia para o MRPP
tudo vai dar ao MRPP, afinal
o MRPP é o partido mais poético e filosófico
por isso voto nele
há que ser incisivo, querida,
no fundo também estou a fazer campanha
a minha campanha
a campanha que não passa nos telejornais
a campanha que vai aos tascos e aos bares
estava eu a falar dos animais
e onde já vou
estou a produzir, querida,
não produzo computadores nem automóveis
mas produzo versos
já estou como o Álvaro de Campos na "Tabacaria"
porque raio é que os versos
hão-de valer menos que os computadores
e os automóveis?
Produzo
e para tal só preciso de papel e de caneta
de resto, estou muito bem aqui
no quintal com os animais, as flores e as àrvores
não preciso de bancos nem de multinacionais
é claro que tenho de prestar homenagem
aos produtores de papel e de canetas
àqueles que produziram os meus instrumentos de trabalho
de trabalho, sim, minha querida
de trabalho livre, não alienado
criador
e tocam os sinos da igreja
até os sinos da igreja estão em sintonia comigo
os sinos da igreja abençoam o meu trabalho
os sinos da igreja abençoam o papel e a caneta
palavra de honra
há muito tempo que não me sentia assim
em harmonia com a natureza
pouso a caneta
as coisas rolam como nunca
até voltei a escrever em casa.


Vilar do Pinheiro, 30.5.2009

O SUBLIME


As coisas que escrevo não são só para ficar no papel
eu acredito nas coisas que escrevo
as coisas que escrevo fazem-me crescer
fazem-me ficar para além
deste aquém medíocre
desta existência de macacos e macacas
que trepam uns para cima dos outros
deste mundo do trabalho e do desemprego
é preciso que a vida mude
que volte a ser ela própria
como no início
acredito nas coisas que escrevo
acredito em mim
acredito nas coisas em que acredito
não tenho que me dar com toda a gente
não vim para agradar a toda a gente
já o disse e repito-o
não tenho de me andar sempre a justificar
sou eu que estou certo
não é o mundo
tenho a certeza
já tenho tido provas de apreço
apesar de os meus livros venderem pouco
com excepção de um
não escondo
que quero a glória
mas quero a glória
para a espalhar pelo mundo
há sempre um "hit"
eu sei
com as bandas também é assim
não podemos viver eternamente à sombra dele
embora ele se aplique perfeitamente
à conjuntura presente
"Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro"
não é o melhor livro
o melhor é o último
"Queimai o Dinheiro"
o mais completo
o mais honesto
o mais sincero
acho eu
já disse: acredito naquilo que escrevo
e escrevo, cada vez mais,
com o meu próprio sangue
como defendia Nietzsche
e estou próximo do mestre
se bem que Nietzsche não quisesse ser mestre de ninguém
nem conduzir nem ser conduzido
eis a máxima
e eu preciso de falar com as mulheres
com as mulheres que interessam
com as mulheres que me possam compreender
o presente é das mulheres
tenho de me identificar com elas
falar com elas no café, na rua,
em todo o lado
e assim ficarei bem
e assim me sentirei em comunhão comigo mesmo
e com as mulheres
e com o mundo
não este
mas com o mundo que quero
que sei que está aqui
dentro de mim
e, se calhar, dentro de mais gente
do que possa imaginar
e o rock rola na rádio
e eu vou ao ritmo do rock
estou sempre ao ritmo do rock
dos Doors, dos Zeppelin, dos UHF
eu próprio faço umas performances
disponíveis no Youtube
e entra uma gaja boa
há-de haver sempre uma gaja boa
esta vem ao pão
deveria ter sempre esta lata
quando as gajas boas estão junto de mim
assim a mensagem propaga-se
as gajas boas são o exército do poeta
é a elas que compete prosseguir viagem
só vi uma hoje
ontem, no Porto, fartei-me de ver gajas boas
quase me apaixonei por uma
esteve muito tempo sentada na mesa do lado
enquanto eu falava com os amigos
senti mesmo aquela coisa
aquela coisa indefinível
a gaja nunca mais acabava de beber o fino
não era só olhar para as mamas
que saíam da t-shirt
era algo mais, muito mais
a comunhão
a identificação
talvez mesmo o amor
mas ela depois desapareceu
quem sabe para sempre
talvez nunca mais a veja
mas houve qualquer coisa que ficou
- bem sei que a minha namorada não pode
ler isto, mas que querem?
É assim o homem livre
é assim o criador
não pode ter preconceitos-
qualquer coisa de sublime
- o próprio sublime
de que falava com o Sindulfo-
qualquer coisa que fica para sempre

Sabes, as coisas que escrevo
não são apenas literárias, são filosóficas
proféticas até
há coisas que eu escrevo
que são mesmo para ficar
cada vez me convenço mais disso
não são meros escritos
são uma forma de vida
e há dias como hoje
em que nada de relevante se passa lá fora
em que estou há horas, literalmente há horas,
a escrever na confeitaria
em que as palavras saem perfeitamente naturais,
perfeitamente espontâneas
em que são criação pura
de tal forma que me sinto, isso mesmo,
um criador
mesmo que só tenha dinheiro para o café
e é isto que te queria dizer
há forças irresistíveis dentro de nós
forças que quando se libertam
nos aproximam disso mesmo,
da felicidade
mesmo que sejamos o único cliente
da confeitaria prestes a fechar
mesmo que o resto do dia
não prometa gajas nem grande coisa
mesmo que ainda, ao princípio da tarde,
estivessemos consumidos pela angústia
mesmo que as empregadas da confeitaria
não compreendam a nossa missão na Terra
é isso mesmo, o sublime
estou a tocá-lo neste momento
estou a vivê-lo
queria compartilhá-lo contigo
não sei se sou capaz
a verdade é que este rapaz
alcançou a coisa
ou anda lá perto.

Vilar do pinheiro, 30.5.2009

AI O CAVACO, E OS GAJOS CORREM A DEFENDÊ-LO

Compra e venda de acções da SLN, ex-dona do BPN, entre 2001 e 2003
PCP, BE e PP vieram hoje defender Cavaco Silva
30.05.2009 - 19h41
Por Lusa
Pedro Cunha

Cavaco Silva registou uma mais valia de 147.500 euros
Os líderes do PCP, Jerónimo Sousa, e do CDS/PP, Paulo Portas, e o cabeça de lista do Bloco de Esquerda às europeias, Miguel Portas, já vieram defender o Presidente da República, Cavaco Silva, considerando “legitima” a operação de aquisição e de venda das acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), ex-proprietária do BPN. Hoje, o semanário "Expresso" noticia que o Presidente da República comprou e vendeu acções da SLN entre 2001 e 2003, tendo registado uma mais valia de 147.500 euros.

Trata-se de “uma questão do foro privado” de Cavaco Silva, afirmou Jerónimo de Sousa durante uma iniciativa da CDU que está a decorrer em Braga. Para o líder comunista “não há ali qualquer dose de ilegalidade ou de comprometimento no plano da corrupção”, salientando que “há que ter sentido da medida”, pois “foi um negócio privado”.

Do mesmo modo o presidente do CDS-PP, Paulo Portas, classificou como “um facto normal” que o Presidente da República tenha tido acções da SLN, negócio que não se confundo com “o crime e a fraude” registada no BPN. “O facto de uma pessoa ter acções, comprar, vender, fazer uma mais-valia e declarar no seu imposto, que é o que sucedeu, é um facto normal”, declarou Paulo Portas, salientando que a operação não constitui um “delito”.

Por seu turno o candidato do BE às eleições europeias, Miguel Portas, no final de uma iniciativa de campanha, na Marateca, salientou que ter sido accionista do BPN não é “pecado” e que Cavaco Silva já vendeu as suas acções em 2003, pelo que a “história já é antiga” e não existe qualquer novidade. "É sabido que no BPN, muitas pessoas dos círculos do PSD e na altura do cavaquismo, quando o cavaquismo era Governo, se interessaram por esse banco, mas, também até prova em contrário ainda não é pecado ter sido accionista do BPN, coisa que actualmente o Presidente da República não é”, referiu Miguel Portas instado a comentar a notícia de primeira página do "Expresso".

O QUE EU QUERIA MESMO ERA FICAR A NOITE TODA

O que eu queria mesmo era ficar a noite toda
beber até fartar
conhecer umas gajas
falar com elas
o que eu queria mesmo era ficar a noite toda
andar de tasco em tasco
e não pensar em literaturas
o que eu queria mesmo era ficar a noite toda
não ir para casa murcho e teso
gozar esta vida
é a única que tenho
olhar para as mamas das gajas
que com o calor se descascam todas
o que eu queria mesmo era ficar a noite toda
andar à solta
perder o juízo
ir às putas
como nos dias de outrora
o que eu queria mesmo era ficar toda a noite

Posso falar com as tuas mamas?
Diz lá, querida,
posso falar com as tuas mamas?
Sou um poeta perdido e só
preciso de alguma atenção
senão vou ao fundo
diz-me lá, querida,
posso falar com as tuas mamas?

ABENÇOADAS


Não vim ao mundo para ficar na vidinha
vim ao mundo para gozar a vida e as mulheres
abençoadas mulheres
abençoadas que nos dais à luz
e nos dais a luz
a salvação está nas mulheres
e na criança
na criança sábia
que apenas joga com a vida
que faz da vida
um experimento permanente

não vim ao mundo para trabalhar
vim para criar
para passar a mensagem
em todos os palcos onde vá
não vim ao mundo para o tédio
nem para ficar no rebanho
vim ao mundo para agitar
em busca dos céus
em busca da glória
não vim ao mundo para ser espectador
vim para dinamitar
para desafiar os poderes
para destruir os velhos valores
sou a vaidade e a humildade
sou o sangue que corre
a alma que não morre
o poema que prossegue
sou tudo isso e mais alguma coisa
sou o gajo só
no café a meio da tarde
sou a chama que arde
e que se apaga
sou o gajo atormentado
pelas depressões
o gajo inseguro e calado
que bebe para se sentir bem
sou o gajo que te quer
mulher da minha vida
vou abaixo e vou acima
eis a minha sina

não vim ao mundo para ser mais um
não vim ao mundo para ser igual aos outros
vim para algo mais
não vim para ser um cidadão cumpridor
e colectável
não me conformo com o papel de eleitor
de depositante de boletins na urna
nem sequer tenho conta no banco
não confio nesses trapaceiros
a vida é de graça- acredito
e é uma graça
não de Deus
mas de algo que está no fundo do homem
que o distingue dos outros animais
que o afasta da podridão do mercado
vim ao mundo para transmitir isto
vim ao mundo para transformar isto
e começo a ver a luz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

CANDIDATURA DO PSSL À CÂMARA DA PÓVOA DE VARZIM


CANDIDATURA DO PSSL À CÂMARA DA PÓVOA DE VARZIM

O Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL) e a Frente Guevarista Libertária (FGL) anunciam a candidatura do camarada António Pedro Ribeiro à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. O PSSL apresenta-se a eleições por considerar que o actual presidente da Câmara da Póvoa, Macedo Vieira, tem tido uma actuação pedante, pidesca e fascizante. Para Macedo Vieira qualquer um que lhe dirija um crítica é logo catalogado de esquizofrénico, sendo desde logo objecto de processo judicial. Macedo Vieira considera-se o detentor da verdade e o único benfeitor da Póvoa, o que, isso sim, revela tiques de esquizofrenia.

Macedo Vieira revelou tiques pidescos e fascizantes ao perseguir os blogues povoaonline e povoaoffline, hoje povoadevarzimonline, conseguindo a sua censura através dos tribunais, num processo sem par em Portugal. Macedo Vieira não sabe conviver com a crítica e com as oposições. A sua gestão é responsável pela edificação da estátua do Major Mota na Rua da Junqueira, uma homenagem a um fascista assumido, Comandante da Legião Portuguesa, o que constitui um atentado ao 25 de Abril. Macedo Vieira quer perpertuar-se no cargo, à imagem de outros autarcas e dinossauros exemplares como Mesquita Machado, Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres ou Isaltino Morais. Macedo Vieira é absolutamente cinzento. O PSSL toma o partido da vida contra o partido das grandes negociatas, dos empreiteiros, dos chicos-espertos, da bolsa, do mercado, do dinheiro. O PSSL entende que a vida deve ser vivida livremente, gratuitamente, sem autarcas providenciais nem merceeiros, nem controleiros.

António Pedro Ribeiro é poeta, performer e sociólogo e é autor dos livros "Queimai o Dinheiro" (Corpos, 2009), "Um Poeta a Mijar" (Corpos, 2007), "Saloon" (Edições Mortas, 2007), "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (Objecto Cardíaco, 2006) e "Á Mesa do Homem Só" (Silêncio da Gaveta, 2001).



Pelo Comité Central do PSSL/FGL,



António Pedro Ribeiro

tel. 965045714



http://partido-surrealista.blogspot.com

http://povoaonoffline.blogspot.com

GLÓRIA

A loira ginga na estrada. O farmacêutico saúda-me. Cá estou eu na "Motina" a escrever. Eis a minha sina. Não me dá sequer para escrever poemas. Só estas merdas. Há qualquer coisa que me atormenta. A escrita não flui desbragada. Começo a repetir-me. Que maçada! Preciso de ler para escrever. Tenho, de novo, Platão à minha frente. Divino Platão, traz-me a chama dos deuses. Divino Platão, faz de mim um Poeta a valer. Não me faças apenas escrever coisas com alguma piada que fazem o pessoal rir. Mas é importante que o pessoal ria. É importante pôr o pessoal a divertir-se. Não quero contribuir para a pasmaceira. Eu, que tanto critico o tédio, não posso contribuir para o tédio. Eh, pá, agora vou ser narcisista. Gostais de mim, gostais mesmo de mim? Ou estais apenas a aturar-me? Quem sou eu nesta confeitaria, neste bar? Tenho o mundo a meus pés ou não passo de um pobre desgraçado? Ou não serei uma coisa nem outra, qualquer coisa de intermédio? Porque raio estar sempre entre a merda e o sublime? Era bom estar sempre em glória, receber palmas a todo o momento. Mas não. As palmas tornar-se-iam rotina. Cansar-me-ia das palmas e da glória. Por falar em Glória, há aqui alguma gaja que se chame Glória? Bem sei que o texto se está a tornar comprido para ser lido em público. Anda cá, Glória!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A VIDA É DE GRAÇA


A vida foi-me dada gratuitamente
pelos meus pais
não tenho de pagá-la

não me conformo a ser governado
por bolsas, bancos, estatísticas e contabilistas
que nada me dizem
nem sequer tenho conta no banco!

Não nasci para isto
não sirvo para isto
largai-me, ó democratas de rebanho
largai-me, ó burocratas do partido!
O meu partido é o partido da vida
não aguento mais os vossos discursos
não aguento mais as vossas falinhas mansas
ficai na vossa
ficai na fossa
que eu fico na minha

Não sou colectável
não sou rentável
não sou mercadoria
largai-me, ó merceeiros
largai-me, ó trapaceiros
largai-me, ó economistas
estou farto das vossas teorias, dos vossos
gráficos e das vossas curvas
podeis ir todos dar uma curva!
Estou farto desta merda!
A vida só pode ser gratuita
quero gozá-la livremente
quero curtir a minha gaja
não tenho que vos pedir licença
não tenho que vos adular
não tenho que vos pagar a ponta de um chavo
não pago!
Recuso pagar a minha vida
rejeito a mera sobrevivência
não tenho de trabalhar para ninguém
a vida é de borla
a vida só pode ser de graça
como quando nasci
porque raio não hei-de querer a gaja
que está à minha frente?
Porque raio não posso amá-la?
Há alguma lei que o impeça?
Não tenho de me sentir culpado
por coisa nenhuma
não tenho de me sentir diminuído
ou deprimido por coisa nenhuma
estou vivo, porra!
Não me entreguei ao mercado
não me diluí na televisão
não voto no grande cabrão
não me deixei levar pela engrenagem
continuo na vadiagem
estou vivo, porra!
Não troco a vida por coisa nenhuma.


Vilar do Pinheiro, "Motina", 28.5.2009

MINHA AMADA


Esperei por ti séculos
e vieste
sentaste-te à minha mesa
comeste uma torrada
olhaste a criança
e eu, finalmente,
fui capaz de dizer a palavra

esperei por ti séculos
e vieste
no meio do caos financeiro
e da economia parasitária
trouxeste a mala e a canção
e até o telemóvel
tantas horas,
minha amada

esperei por ti séculos
e vieste
natural e livre
devolveste-me à vida

esperei por ti séculos
e vieste
Dulcineia
minha sereia,
minha amada.

ERNESTO CHE GUEVARA


Admiro Ernesto Che Guevara. Gostava de ser como ele. Mas não sou. O Che era um guerrilheiro. Eu, quando muito, sou um guerrilheiro da palavra. Não sou organizado nem atino com organizações. Já o disse. Quando muito acredito em pequenos grupos, em movimentos espontâneos. E tenho uma concepção dionisíaca, algo messiânica das coisas. Acredito que se for passando a palavra a coisa pode ir. Acredito no xamã, acredito no papel revolucionário do poeta. Acredito que incomodo, que posso abalar as consciências. É esse o meu papel. Em vez de ir combater para a floresta, vou combater para os bares.

PALAS ATENA


Este exercício de escrever todos os dias. Ontem estava cheio de pedal e hoje já não estou. Podia-me dar para escrever diálogos, romances e ganhava dinheiro. Tornava-me um escritor profissional como Hemingway. Mas não. Só me dá para escrever estas merdas. Vá lá que há uns gajos do sindicato dos professores que mas publicam. Os professores devem estar tão em baixo que até publicam as minhas coisas. Corações ao alto. Nada de desãnimos. Ulisses já está em Ítaca. Escreve algo de sublime. De sublime, meu, de sublime. Não te deixes arrastar para a cama. Bebe copos, conversa com o mundo. Diz algo de sublime. Algo que surpreenda o mundo. Algo que enfeitice as gajas. Algo que mude a face da Terra. Vem ter comigo, deusa. Sai das trevas que te retém há mil anos, vem ter comigo, ilumina os meus passos, faz de mim um rei. Vem amar-me, deusa. Já que as outras não vêm porque me vêem teso, vem tu. Torna-me sublime, irmão dos deuses. Que se foda o quotidiano banal, que se foda a mesquinhice, que se fodam as telenovelas. Esta merda das coisinhas, das conversinhas, dos grupos fechados dá cabo de mim! Como disse no outro dia uma gaja devo começar a pregar para toda a gente. Dá-me forças, como deste a Ulisses, Palas Atena! Acredito em ti mais do que nas gajas do café. Acredito em ti mais do que no café. Acredito em ti mais do que na aldeia. Acredito em ti, Palas Atena. Ajuda-me. Vem ter comigo. O mundo, salvo algumas ocasiões, é uma merda. Não sou menos do que Ulisses. Já fiz muitas viagens, já vi muitos filmes, já enfrentei muitos demónios, já andei vestido de mendigo, dá-me a glória, Palas Atena. É a glória que eu quero, ó deusa. Para mim e para a Humanidade. Há gajas bonitas na televisão. Saí da televisão, sede as minhas bacantes. Ontem estava em glória mas hoje já não estou. Merda! Palas Atena, porque me abandonas? Estarei condenado a sofrer todas as provações?

Posted by apedroribeiro at 4:20 PM 1 comments

CRISE


Prossegue a crise. As bolsas ainda estão em baixa. Essa merda das bolsas sempre me meteu nojo. Para que é que serve essa merda? Mais uma daquelas merdas absurdas que o capitalismo inventou. Fico feliz por estarem em baixa. Fico feliz por o capitalismo estar em baixa. Esta merda deveria rebentar toda. Deveria começar tudo de novo.