quinta-feira, 28 de maio de 2009

MINHA AMADA


Esperei por ti séculos
e vieste
sentaste-te à minha mesa
comeste uma torrada
olhaste a criança
e eu, finalmente,
fui capaz de dizer a palavra

esperei por ti séculos
e vieste
no meio do caos financeiro
e da economia parasitária
trouxeste a mala e a canção
e até o telemóvel
tantas horas,
minha amada

esperei por ti séculos
e vieste
natural e livre
devolveste-me à vida

esperei por ti séculos
e vieste
Dulcineia
minha sereia,
minha amada.

ERNESTO CHE GUEVARA


Admiro Ernesto Che Guevara. Gostava de ser como ele. Mas não sou. O Che era um guerrilheiro. Eu, quando muito, sou um guerrilheiro da palavra. Não sou organizado nem atino com organizações. Já o disse. Quando muito acredito em pequenos grupos, em movimentos espontâneos. E tenho uma concepção dionisíaca, algo messiânica das coisas. Acredito que se for passando a palavra a coisa pode ir. Acredito no xamã, acredito no papel revolucionário do poeta. Acredito que incomodo, que posso abalar as consciências. É esse o meu papel. Em vez de ir combater para a floresta, vou combater para os bares.

PALAS ATENA


Este exercício de escrever todos os dias. Ontem estava cheio de pedal e hoje já não estou. Podia-me dar para escrever diálogos, romances e ganhava dinheiro. Tornava-me um escritor profissional como Hemingway. Mas não. Só me dá para escrever estas merdas. Vá lá que há uns gajos do sindicato dos professores que mas publicam. Os professores devem estar tão em baixo que até publicam as minhas coisas. Corações ao alto. Nada de desãnimos. Ulisses já está em Ítaca. Escreve algo de sublime. De sublime, meu, de sublime. Não te deixes arrastar para a cama. Bebe copos, conversa com o mundo. Diz algo de sublime. Algo que surpreenda o mundo. Algo que enfeitice as gajas. Algo que mude a face da Terra. Vem ter comigo, deusa. Sai das trevas que te retém há mil anos, vem ter comigo, ilumina os meus passos, faz de mim um rei. Vem amar-me, deusa. Já que as outras não vêm porque me vêem teso, vem tu. Torna-me sublime, irmão dos deuses. Que se foda o quotidiano banal, que se foda a mesquinhice, que se fodam as telenovelas. Esta merda das coisinhas, das conversinhas, dos grupos fechados dá cabo de mim! Como disse no outro dia uma gaja devo começar a pregar para toda a gente. Dá-me forças, como deste a Ulisses, Palas Atena! Acredito em ti mais do que nas gajas do café. Acredito em ti mais do que no café. Acredito em ti mais do que na aldeia. Acredito em ti, Palas Atena. Ajuda-me. Vem ter comigo. O mundo, salvo algumas ocasiões, é uma merda. Não sou menos do que Ulisses. Já fiz muitas viagens, já vi muitos filmes, já enfrentei muitos demónios, já andei vestido de mendigo, dá-me a glória, Palas Atena. É a glória que eu quero, ó deusa. Para mim e para a Humanidade. Há gajas bonitas na televisão. Saí da televisão, sede as minhas bacantes. Ontem estava em glória mas hoje já não estou. Merda! Palas Atena, porque me abandonas? Estarei condenado a sofrer todas as provações?

Posted by apedroribeiro at 4:20 PM 1 comments

CRISE


Prossegue a crise. As bolsas ainda estão em baixa. Essa merda das bolsas sempre me meteu nojo. Para que é que serve essa merda? Mais uma daquelas merdas absurdas que o capitalismo inventou. Fico feliz por estarem em baixa. Fico feliz por o capitalismo estar em baixa. Esta merda deveria rebentar toda. Deveria começar tudo de novo.

ARTISTAS


ARTISTAS

Há artistas que recebem subsídios. E há artistas que andam por aí, pela rua, aos pontapés, acima, abaixo, acima, sem subsídios, sem eira nem beira, a berrar poesia e outros textos, a ensaiar na praia, a pregar a utopia.

FACADAS NA MORAL

Vêm ao rio
carregadas de bebés

Gin puro
beijam os putos
enchem-nos de tesão
e rock n' roll

cravos vermelhos
na Junta de Freguesia
bacantes em guerra
antónio
dionisos
na imagem
no BI
no papel

hei-de morrer de tédio
ao quarto dia
num quarto de hotel
mães que choram
cães danados
irmãos irmãs
partilhas pastilhas
fantasias

em Braga sem nada
sem mulheres

no cu na cona
da Flávia
10 da noite
nada na roleta
bate a punheta
primeiro-ministro
Jesus na cruz

aulas
professoras
aguas das pedras
pedrada salgada
Carla em Braga
em Bragança
nos Passos da dança
nos paços da Sé
Che ébrio
luz de morte
coca cola cao
cão cabrão
equilibrista, não!
Saloon exibicionista
estoirar
bar aberto canção
tiro aos bonecos
aos mortos
aos matrecos
badamecos
noitadas
gargantas secas

TER O MUNDO NA MÃO
E ANDAR AOS TROCOS
aos rotos
às facadas na moral!

A. Pedro Ribeiro, Braga, 2010.

DYONISOS


Dyonisos senta-se
em plena crise
não há mulheres
à sua mesa
elas refugiam-se à sombra
do conforto da segurança

Dyonisos sabe
que está a chegar
a sua hora
em breve terá início
a corrida aos bancos
o caos o desespero
o fim desta era

Dyonisos sabe
que as bacantes
vão dançar
à sua mesa

Dyonisos sabe
que é ele o poeta
e que tudo
vai ficar
sem cheta.

A. Pedro Ribeiro, Vilar do Pinheiro, 7.10.2008

quarta-feira, 27 de maio de 2009

PLATÃO, ÍON


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.

NERO


Agora chove lá fora. As ideias do bem e do mal guerreiam no meu cérebro. Tenho medo de me deixar levar pelas ideias demoníacas. Pareço um Nero. Roma arde. Já não sei quem ateou o fogo. Agarro-me aos poemas e canto. As pessoas correm desesperadas, tentando por-se a salvo. É o caos. Roma em chamas. O fogo consome tudo. E eu danço com a minha amada. É a imagem que vem. Tenho medo.

Um mundo novo
abre-se à minha frente
o caos criador ilumina-me
nunca mais andarei deprimido
as ideias fervilham
as ideias dançam
as ideias fazem acrobacias
festas
orgias
bacanais sem fim.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Não há movimento nesta terra
estou só no café
nem o bêbado ficou
ao menos no "Miss Simpatia"
rio-me com o Rocha
e não está tudo morto
coitado do Rocha!
Sempre sozinho
sem ninguém para partilhar
as suas análises sociológicas
e futebolísticas
a mim as gajas só me dão cortes
e os jornais telefonam
quando me esqueço do telemóvel em casa
a brasileira masturba-se na copa
e há vates que me irritam
solenemente.

A LOIRA


Já sou conhecido por estas bandas. Já sabem que por aqui eu tomo sempre café. Mas o que eu queria realmente era escrever poesia automática à boa maneira de Breton. O que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
Prometi a mim próprio que ia escrever todos os dias. Prometi a mim próprio que iria escrever divinamente, que iria aparecer nos jornais e na televisão. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
No entanto, sei que a minha poesia não dá para ganhar prémios e dificilmente aparecerá na televisão. Estou condenado a ser o poeta maldito que, de vez em quando, escreve bem. Estou condenado ao "underground". Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
As amigas falam comigo, dão-me conselhos, gostam de mim. As amigas preocupam-se comigo. As amigas não querem que eu acabe a mendigar. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
Já li muitos livros. Já conheci muita gente. Já tive visões. Já vi o céu e o inferno. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.

SOU O POETA


Sou o poeta
que não aparece
nas colectâneas
sou o poeta
que não se adapta
à vida prática
que não atina
com as leis
do dinheiro, do trabalho, do mercado
que se aborrece com o quotidiano
com a fala fácil
com a piada a propósito
sou o poeta
que não se reduz à mercadoria
que permanece à mesa
que tem os livros na livraria
sou o poeta
que vive como poeta
que ama os surrealistas
que vem ter com a amiga
sou o poeta
que escreve nos cafés
que vai aos bares
e bebe copos
(e que só não bebe mais
porque não há cacau)
sou o poeta que grita
que insulta
que amaldiçoa
sou o poeta
que traz a magia
que vomita a poesia
que traz a revolta.

Porto, 14.9.2008

AI LOUREIRO, LOUREIRO

Oliveira Costa acusa Dias Loureiro de mentir
26.05.2009 - 18h13
Por Cristina Ferreira, Ana Brito
Pedro Cunha

Oliveira e Costa
Oliveira Costa acusou hoje Dias Loureiro de ter mentido quanto ao teor das suas declarações sobre a reunião com António Marta, ex-vice-presidente do Banco de Portugal, a propósito do BPN. "A verdade está com António Marta", disse.

A acusação do ex-presidente do BPN contraria declarações de Dias Loureiro, que defendeu na comissão de inquérito que foi ao Banco de Portugal pedir uma atenção especial sobre o BPN porque estava preocupado com alguma práticas de gestão. Já Marta defendeu que Loureiro lhe foi perguntar porque razão andava o Banco de Portugal (BdP) "sempre em cima do BPN".
Oliveira Costa disse que o antigo ministro tem uma "problemática do ego" e que as declarações que prestou na comissão de inquérito "correspondem ao modelo que Dias Loureiro idealizou ser o seu papel na SLN, que tem uma forte componente heróica".
O ex-banqueiro disse ainda que Dias Loureiro "suportou a sua versão [sobre a reunião no BdP] numa descarada deslealdade".

domingo, 24 de maio de 2009

QUEIMAI O DINHEIRO


MANIFESTO CONTRA O CONFORMISMO

Publicado no "Jornal de Notícias" de 11.5.2009

Novo livro de poemas de António Pedro Ribeiro, "Queimai o Dinheiro" é uma ode contundente acerca dos malefícios provocados pela sociedade de consumo, regida por valores estritamente monetaristas. Sem tibiezas, o autor de "Saloon" e "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" critica o modo como o Homem é transacionado, qual mercadoria sem valor, e afirma a repulsa por tudo o que contribui para o aniquilamento da individualidade, criticando de permeio os economistas, que tudo reduzem "à mesquinhez da conta, do orçamento, do défice". Nem todos os poemas estão imbuídos de forte cunho político. Em "O Amor" ou "A Gaja Não Vem Mais", o autor detém-se na enunciação dos prazeres hedonistas.

S.A.

O PREÇO DA FAMA


Uma loira boazona de mamas à mostra esteve à minha frente no "Piolho" mas desapareceu. O pessoal está todo lá fora. Está um calor do caralho e eu ainda não sou suficientemente reconhecido como poeta e escritor. É claro que sempre estarei um bocado à margem. Até poderia montar uma livraria. Passava a tarde a olhar para os livros. Os imbecis da tarde preenchem os programas da tarde da televisão. Há gajos que querem tocar comigo mas o dinheiro não vem, nunca mais vem. Talvez amanhã ganhe algum. Estou farto de actuar de borla! Estou farto de fazer coisas à borla. Estou farto de bolas no poste. Hoje deve ter saído a entrevista na "Voz da Póvoa". Não sei que selecção o Peixoto fez. Realmente preocupo-me pouco com a correcção dos textos. Deveria preocupar-me mais. Deixo-os andar, entregues à vida deles. Eles fazem o seu percurso. Eu limito-me a seleccioná-los. O Bloco de Esquerda sobe nas sondagens. O discurso messiânico do Louçã ganha adeptos. Eu também sou um bocado messiânico mas á minha maneira. Tenho escrito coisas messiânicas, é certo. A Plataforma contra a Obesidade toma conta da TV. Morte aos obesos! Sejamos todos magros. Faça-se exercício, corram-se maratonas. Nada de ficar alapado no "Piolho" a escrever. Que o mundo se encha de "Top Models"! O Ronaldo deixa-se dominar na cama, diz a ex-namorada. O Ronaldo não é um deus infalível. Eis o preço da fama.