quinta-feira, 28 de maio de 2009

FACADAS NA MORAL

Vêm ao rio
carregadas de bebés

Gin puro
beijam os putos
enchem-nos de tesão
e rock n' roll

cravos vermelhos
na Junta de Freguesia
bacantes em guerra
antónio
dionisos
na imagem
no BI
no papel

hei-de morrer de tédio
ao quarto dia
num quarto de hotel
mães que choram
cães danados
irmãos irmãs
partilhas pastilhas
fantasias

em Braga sem nada
sem mulheres

no cu na cona
da Flávia
10 da noite
nada na roleta
bate a punheta
primeiro-ministro
Jesus na cruz

aulas
professoras
aguas das pedras
pedrada salgada
Carla em Braga
em Bragança
nos Passos da dança
nos paços da Sé
Che ébrio
luz de morte
coca cola cao
cão cabrão
equilibrista, não!
Saloon exibicionista
estoirar
bar aberto canção
tiro aos bonecos
aos mortos
aos matrecos
badamecos
noitadas
gargantas secas

TER O MUNDO NA MÃO
E ANDAR AOS TROCOS
aos rotos
às facadas na moral!

A. Pedro Ribeiro, Braga, 2010.

DYONISOS


Dyonisos senta-se
em plena crise
não há mulheres
à sua mesa
elas refugiam-se à sombra
do conforto da segurança

Dyonisos sabe
que está a chegar
a sua hora
em breve terá início
a corrida aos bancos
o caos o desespero
o fim desta era

Dyonisos sabe
que as bacantes
vão dançar
à sua mesa

Dyonisos sabe
que é ele o poeta
e que tudo
vai ficar
sem cheta.

A. Pedro Ribeiro, Vilar do Pinheiro, 7.10.2008

quarta-feira, 27 de maio de 2009

PLATÃO, ÍON


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.

NERO


Agora chove lá fora. As ideias do bem e do mal guerreiam no meu cérebro. Tenho medo de me deixar levar pelas ideias demoníacas. Pareço um Nero. Roma arde. Já não sei quem ateou o fogo. Agarro-me aos poemas e canto. As pessoas correm desesperadas, tentando por-se a salvo. É o caos. Roma em chamas. O fogo consome tudo. E eu danço com a minha amada. É a imagem que vem. Tenho medo.

Um mundo novo
abre-se à minha frente
o caos criador ilumina-me
nunca mais andarei deprimido
as ideias fervilham
as ideias dançam
as ideias fazem acrobacias
festas
orgias
bacanais sem fim.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Não há movimento nesta terra
estou só no café
nem o bêbado ficou
ao menos no "Miss Simpatia"
rio-me com o Rocha
e não está tudo morto
coitado do Rocha!
Sempre sozinho
sem ninguém para partilhar
as suas análises sociológicas
e futebolísticas
a mim as gajas só me dão cortes
e os jornais telefonam
quando me esqueço do telemóvel em casa
a brasileira masturba-se na copa
e há vates que me irritam
solenemente.

A LOIRA


Já sou conhecido por estas bandas. Já sabem que por aqui eu tomo sempre café. Mas o que eu queria realmente era escrever poesia automática à boa maneira de Breton. O que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
Prometi a mim próprio que ia escrever todos os dias. Prometi a mim próprio que iria escrever divinamente, que iria aparecer nos jornais e na televisão. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
No entanto, sei que a minha poesia não dá para ganhar prémios e dificilmente aparecerá na televisão. Estou condenado a ser o poeta maldito que, de vez em quando, escreve bem. Estou condenado ao "underground". Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
As amigas falam comigo, dão-me conselhos, gostam de mim. As amigas preocupam-se comigo. As amigas não querem que eu acabe a mendigar. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.
Já li muitos livros. Já conheci muita gente. Já tive visões. Já vi o céu e o inferno. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que está à minha frente.

SOU O POETA


Sou o poeta
que não aparece
nas colectâneas
sou o poeta
que não se adapta
à vida prática
que não atina
com as leis
do dinheiro, do trabalho, do mercado
que se aborrece com o quotidiano
com a fala fácil
com a piada a propósito
sou o poeta
que não se reduz à mercadoria
que permanece à mesa
que tem os livros na livraria
sou o poeta
que vive como poeta
que ama os surrealistas
que vem ter com a amiga
sou o poeta
que escreve nos cafés
que vai aos bares
e bebe copos
(e que só não bebe mais
porque não há cacau)
sou o poeta que grita
que insulta
que amaldiçoa
sou o poeta
que traz a magia
que vomita a poesia
que traz a revolta.

Porto, 14.9.2008

AI LOUREIRO, LOUREIRO

Oliveira Costa acusa Dias Loureiro de mentir
26.05.2009 - 18h13
Por Cristina Ferreira, Ana Brito
Pedro Cunha

Oliveira e Costa
Oliveira Costa acusou hoje Dias Loureiro de ter mentido quanto ao teor das suas declarações sobre a reunião com António Marta, ex-vice-presidente do Banco de Portugal, a propósito do BPN. "A verdade está com António Marta", disse.

A acusação do ex-presidente do BPN contraria declarações de Dias Loureiro, que defendeu na comissão de inquérito que foi ao Banco de Portugal pedir uma atenção especial sobre o BPN porque estava preocupado com alguma práticas de gestão. Já Marta defendeu que Loureiro lhe foi perguntar porque razão andava o Banco de Portugal (BdP) "sempre em cima do BPN".
Oliveira Costa disse que o antigo ministro tem uma "problemática do ego" e que as declarações que prestou na comissão de inquérito "correspondem ao modelo que Dias Loureiro idealizou ser o seu papel na SLN, que tem uma forte componente heróica".
O ex-banqueiro disse ainda que Dias Loureiro "suportou a sua versão [sobre a reunião no BdP] numa descarada deslealdade".

domingo, 24 de maio de 2009

QUEIMAI O DINHEIRO


MANIFESTO CONTRA O CONFORMISMO

Publicado no "Jornal de Notícias" de 11.5.2009

Novo livro de poemas de António Pedro Ribeiro, "Queimai o Dinheiro" é uma ode contundente acerca dos malefícios provocados pela sociedade de consumo, regida por valores estritamente monetaristas. Sem tibiezas, o autor de "Saloon" e "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" critica o modo como o Homem é transacionado, qual mercadoria sem valor, e afirma a repulsa por tudo o que contribui para o aniquilamento da individualidade, criticando de permeio os economistas, que tudo reduzem "à mesquinhez da conta, do orçamento, do défice". Nem todos os poemas estão imbuídos de forte cunho político. Em "O Amor" ou "A Gaja Não Vem Mais", o autor detém-se na enunciação dos prazeres hedonistas.

S.A.

O PREÇO DA FAMA


Uma loira boazona de mamas à mostra esteve à minha frente no "Piolho" mas desapareceu. O pessoal está todo lá fora. Está um calor do caralho e eu ainda não sou suficientemente reconhecido como poeta e escritor. É claro que sempre estarei um bocado à margem. Até poderia montar uma livraria. Passava a tarde a olhar para os livros. Os imbecis da tarde preenchem os programas da tarde da televisão. Há gajos que querem tocar comigo mas o dinheiro não vem, nunca mais vem. Talvez amanhã ganhe algum. Estou farto de actuar de borla! Estou farto de fazer coisas à borla. Estou farto de bolas no poste. Hoje deve ter saído a entrevista na "Voz da Póvoa". Não sei que selecção o Peixoto fez. Realmente preocupo-me pouco com a correcção dos textos. Deveria preocupar-me mais. Deixo-os andar, entregues à vida deles. Eles fazem o seu percurso. Eu limito-me a seleccioná-los. O Bloco de Esquerda sobe nas sondagens. O discurso messiânico do Louçã ganha adeptos. Eu também sou um bocado messiânico mas á minha maneira. Tenho escrito coisas messiânicas, é certo. A Plataforma contra a Obesidade toma conta da TV. Morte aos obesos! Sejamos todos magros. Faça-se exercício, corram-se maratonas. Nada de ficar alapado no "Piolho" a escrever. Que o mundo se encha de "Top Models"! O Ronaldo deixa-se dominar na cama, diz a ex-namorada. O Ronaldo não é um deus infalível. Eis o preço da fama.

DIAS LOUREIRO

O Dias Loureiro foi à televisão e ao Parlamento dizer que sempre se guiou pelos valores do trabalho, do sacrifício e da honestidade. O Dias Loureiro que andou a gamar no BPN é um trabalhador honesto e sacrificado. Coitado do Dias Loureiro! Tenho uma pena do homem. Só falta ir chorar para a televisão. Trabalho e sacrifício. Eis os valores que nos regem. Que se sacrifique o Loureiro, que trabalhe o Sócrates que eu cá continuo na minha. Que continuem a sacrificar-se e a trabalhar e a serem honestos e a darem o cu como até agora. O povo continua a votar neles. Eu cá não me sacrifico. Quando muito sacrifico-me pela revolução. Mas não me sacrifico pela pátria nem pelo trabalho como o Dias Loureiro, como o Sócrates e como o Cavaco têm feito ou dizem que têm feito até agora. Acho que qualquer gajo deve ser recompensado pelo que faz nem que se passe a vida a bater punhetas. E já que elevaram o dinheiro à condição de medida de todas as coisas então deve ser recompensado em dinheiro. E nada de sacrifícios nem de trabalhinho! Isso é para o Dias Loureiro, para o Sócrates, para o Cavaco. Todos cidadãos honrados e honestíssimos. Podem ir todos dar uma volta! O nosso mundo não é o deles. Não falamos a mesma linguagem. Nem sequer pertencemos à mesma galáxia. O Salazar também apelava ao trabalho, ao sacrifício e à honestidade. Essa é que é essa.

EM NOME DA VIDA


EM NOME DA VIDA



António Pedro Ribeiro



O dinheiro, o mercado e a economia matam a vida. Transformam-na em tédio, competição, exploração, sub-vida, morte. É isto que é preciso dizer. É isto que os candidatos às eleições europeias e legislativas não dizem, ancorados em jogos mediáticos e eleitoralistas. É a nossa vida que está em jogo. E a nossa vida não se resume a um boletim de voto. A construção de uma sociedade que exalte a vida passa pela abolição da sociedade mercantil, como defende Raoul Vaneigen. Não aqui meios-termos, nem meias-palavras, nem reformas. A nossa única riqueza é a própria vida. Não podemos deixar que constantemente dêem cabo dela com a lei do mais forte, do mais esperto, do mercado e da espculação bolsista. Todo o ser humano tem direito aos meios que garantam a própria subsistência e algo mais. É o mínimo que se pode exigir. A vida tem de vencer o dinheiro e a economia. Estamos perante uma questão de vida ou de morte e não perante uma questão eleitoralista. E esta é uma luta a travar nas ruas, nas casas, nas escolas e não nos parlamentos. Esta é uma luta que implica a substituição do trabalho pela criação. Que implica a dessacralização do trabalho, da queda de algumas bandeiras da esquerda. As crises só acabam se o capitalismo cair.

sábado, 23 de maio de 2009

LAS TEQUILLAS NO YOUTUBE


O nosso amigo Ricardo Contra-Martelo gravou o concerto dos Las Tequillas no Art 7 do Angel e do Vitó em São João da Madeira. O resultado está no Youtube e pode pesquisar-se em lastequillas6, lastequillas5, lastequillas4, lastequillas3, lastequillas2, lastequillas1. "Menina", "Anjo em Chamas", "Diz a Palavra", "Anarquia" e "Beber por Beber" são os temas disponíveis.

GLÓRIA (CANÇÃO)


Eu quero a Glória
é a Glória que eu quero
vestida de aplausos
estou a ser sincero

eu quero a glória
a plateia cheia
o grito do povo
o abraço do mundo

eu quero a glória
é a glória que eu espero
a mulher de vida fácil
a mulher toda de negro

eu quero a Glória
não tenho de ser humilde
não quero mendigar
não venhas com a história
do tem que ser
e do saber estar

quero a Glória
é a Glória que eu amo
atiro-lhe poemas
esta rotina
é que eu não gramo

eu quero a Glória
sou narciso, confesso
farto de falinhas mansas
sou do rock, ser possesso

eu quero a Glória
é a Glória que eu quero
esta porra não avança
e eu a arder por dentro

eu quero a glória
é a glória que eu quero
danço na pista
só estou bem no inferno

eu quero a glória
é a glória que eu quero
fora do palco
eu tenho medo

eu quero a glória
é a glória que eu quero
o Henrique na guitarra
e o mundo insurrecto

eu quero a glória
é a glória que eu quero
falas de mais
e eu estou farto.