terça-feira, 31 de março de 2009

UTOPIAS PIRATAS

Esta semana no Gato Vadio,





Utopias Piratas, Peter Lamborn Wilson

Apresentação e debate

Com a presença de Miguel Mendonça e António Alves da Silva

Quinta-feira, 2 de Abril, às 22h




Mulheres Traídas – [Making Of], de Miguel Marques
Documentário




Sexta-feira, dia 3 de Abril, 22h15

Gato Vadio

Entrada livre




(Programa completo)

Utopias Piratas, Peter Lamborn Wilson

Apresentação e debate

Com a presença de Miguel Mendonça e António Alves da Silva

Quinta-feira, 2 de Abril, às 22h

Gato Vadio





Peter Lamborn Wilson, (também conhecido pelo pseudónimo literário Hakim Bey) é o autor da fleumática obra TAZ (Zona Temporária Autónoma) onde incita à criação de espaços livres e plenamente autónomos que escapem à lógica das entidades hierarquizadas e opressivas que regulam as sociedades actuais.






Investigador, ensaísta e poeta norte-americano com vasta obra editada, escreveu «Sacred Drift: Essays on The Margins of Islam», na City Lights e «Scandal: in Islamic Heresy», Autonomedia.

Utopias Piratas (Pirate Utopias: Moorish Corsairs & European Renegadoes, 1995), obra editada pela Deriva e traduzida por Miguel Mendonça, é um estudo histórico e filosófico sobre a pirataria moura do século XVII e o papel muito particular da República de Salé. Corsários, sufis, pederastas, mulheres mouras «irresistíveis», escravos, aventureiros, rebeldes irlandeses, judeus hereges, espiões britânicos, heróis populares da classe trabalhadora e até um pirata mouro em Nova Iorque, emprestam a este livro um ambiente livre constituído por comunidades insurrectas nunca verdadeiramente dominadas e portadoras de uma praxis de resistência social que abalou seriamente os estados europeus.

«O islamismo, no fim de contas, é o mais recente dos três monoteísmos ocidentais, e contém por isso a sua dose de crítica revolucionária do judaísmo e do cristianismo. A apostasia de um autoproclamado Messias ou de um pobre e anónimo marinheiro seria invariavelmente vista, nesta perspectiva, como um acto de revolta. O islão, em certa medida, foi a Internacional do século XVII – e Salé talvez o seu único e verdadeiro “Soviete”. À primeira vista, Salé aparenta ser um lugar ímpio, um ninho de piratas ateístas e violentos – mas assim que observamos e escutamos com mais atenção, quase podemos ouvir o eco das suas vozes distantes, recortadas em apaixonados debates e exaltadas oratórias. Os textos perderam-se ou talvez nunca tenham existido; era uma cultura oral, uma cultura auditiva… é difícil discernir os seus últimos murmúrios… mas não totalmente impossível!». Peter Lamborn Wilson




Convidamos os piratas e os vadios, integrados e desintegrados, a avivar a conversa!

sábado, 28 de março de 2009

QUEIMAI O DINHEIRO

"QUEIMAI O DINHEIRO" DE A. PEDRO RIBEIRO



O livro "Queimai o Dinheiro" (Corpos Editora) de A. Pedro Ribeiro vai ser apresentado na próxima sexta, 3 de Abril, às 21,00 horas, no Clube Literário do Porto. O evento conta com a presença do autor, do poeta e crítico Rui Lage e do editor Ricardo de Pinho Teixeira. A. Pedro Ribeiro nasceu no Porto em Maio de 1968 e é autor dos livros de poesia "Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro" (Objecto Cardíaco, 2006), "Um Poeta a Mijar" (Corpos Editora, 2007), "Saloon" (Edições Mortas, 2007) e "Á Mesa do Homem Só. Estórias" (Silêncio da Gaveta, 2001). Foi fundador da revista Aguasfurtadas e diz regularmente poesia há mais de 20 anos. "Queimai o Dinheiro" fala da sociedade contemporânea onde o dinheiro se elevou à condição de deus, onde o mercado e a economia tudo condicionam e convertem numa paisagem de servilismo e de morte, onde o homem não pode ser livre. "Queimai o Dinheiro" é uma crítica mordaz ao império do rebanho e dos economistas, daí o "Manifesto Contra os Economistas", daí os apelos à revolução e à anarquia. "Queimai o Dinheiro" fala também das mulheres, do sexo que espreita, das peregrinações nocturnas do poeta e de uma vida alternativa ao tédio e à rotina do capitalismo. Durante a apresentação A. Pedro Ribeiro vai rasgar uma nota de 20 euros.

quinta-feira, 26 de março de 2009

DO AMARAL


O Amaral encontrou-me no "Ceuta". Falámos da arte e da vida. Depois o Amaral foi comprar fruta. Sim, os poetas e os escritores também compram fruta. Não passam a vida a ter discussões metafísicas. Não passam a vida a olhar para as gajas e a comentá-las. Eu próprio tive um teste de Alemão. E correu-me mal. Logo agora que tudo parece correr bem. Logo agora que tenho namorada. Logo agora que tenho fãs. Bem, o que importa é que encontrei o Amaral no Ceuta. Não é normal acontecer nos dias normais. Normalmente só nos encontramos em eventos. O Amaral que tem uma banda de sucesso e um livro de sucesso. "Caravana". Aqui no "Piolho" há um empregado que está sempre a mudar. Estranho fenómeno. Há sempre um empregado que não aguenta mais do que duas semanas. Os outros vão-se mantendo. ESte ano o "piolho" faz 100 anos. E eu já venho aqui há mais de 20. ERa puto nesta terra e vinha cá. Acho que mesmo no tempo da Faculdade de Economia. Tertúlias, noitadas, conversas acesas. Depois conheci o Amaral. ERam os tempos do PSR. Os tempos em que acreditava no partido. Em Marx, Trotsky, Lenine. DEpois o Amaral deixou o partido. E eu continuei. Até 2005. Aliás, já em 2004 anunciei uma candidatura à Presidência da República à revelia do partido. E o Amaral ia aparecendo: por carta, por mail, ao telefone, pessoalmente. Dava forças à minha poesia. Fazia-me acreditar nela. E há serenata lá fora. Nunca liguei muito a essas coisas académicas. Mas tocam "A TRova do Vento que Passa". "Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não". E o gajo nunca mais traz a cerveja.

terça-feira, 24 de março de 2009

GUARDA-SOL


Venho ao "Guarda-Sol"
e tenho a recepção entusiástica
do costume por parte de um dos empregados
que me veio falar do papel revolucionário
dos poetas
que a revolução começa nos poetas
e nos intelectuais
disse também que a minha escrita
faz falta
por outro lado, apareceu uma notícia
no "Jornal de Notícias"
a propósito do lançamento do livro
a dizer que eu sou o poeta
que está contra o rebanho e contra os merceeiros
o meu amigo Rui Sousa ofereceu-me um livro dele
os casais caminham na areia
a vida corre ás mil maravilhas
tenho que vir mais vezes à Póvoa.

Póvoa, Guarda-Sol, 24.3.2009

domingo, 22 de março de 2009

O SENHOR PROFESSOR DE BASILEIA


O senhor professor de Basileia pede mais um café. É um animal de café. EScreve no café. Não passa o dia emborrachado mas não se importava de passar. Escreve sobre a vida quotidiana. Tem saudades do Rocha. O Rocha que pôs fim à amizade. As velhas falam de compras e vendas. Não páram de falar. O senhor professor de Basileia já não dá aulas. Recebe uma pensão. Vem ao café provar a vida. Espera pelo café da menina. O senhor professor de Basileia é um incompreendido. Lê livros que quase ninguém lê. As conversas quotidianas do rebanho não lhe dizem respeito. Escreve sem parar. Escreve com o próprio sangue. Ouve as conversas. Passa ao lado das conversas. A menina do café sorri. O senhor professor de Basileia traz a revolta contra o espírito da gentalha mas não deixa de ser amável. Ouve a música. EStá no sec. XXI. Aqui as pessoas tratam-no bem. Há quem lhe chame santo. Tem muito a dizer do muNDO: diz que temos de amar a Terra mas que este ainda é o tempo do homem pequeno. A menina esqueceu-se do café do senhor professor mas pede desculpa e trá-lo. O senhor professor de Basileia tem ideias sublimes. Pensa no Super-Homem que dominará a Terra. Pensa no espírito livre, no Artista que enfrenta o perigo. Pensa no menino e no bailarino. Pensa que é preciso combater os profetas da morte, os economistas. Pensa que é preciso abandonar o espírito merceeiro, das pequenas vantagens, do rebanho. O senhor professor de Basileia bebe café. Não prega a igualdade. Entende que há espíritos nobres que se destacam dos outros. O senhor professor de Basileia é amável. Fica horrorizado se vê maltratar um animal. O senhor professor de Basileia ama a Vida, é um afirmador da Vida. O senhor professor de Basileia escreve. De vez em quando desce à cdade. Observa as gentes. Poderia discursar para elas. Não o faz. Prefere um pequeno núcleo de fiéis. O senhor professor de Basileia é um filósofo. Vocifera contra o dinheiro, rasga as notas em público, critica os escravos do deus-dinheiro e da posse. O senhor professor de Basileia aparentemente leva uma vida pacata mas é um vulcão. O senhor proclama a morte de Deus e do deus-dinheiro! Diz que esses deuses são um apelo ao servilismo. Diz que amaria um Deus que dançasse como Zaratustra. O senhor professor de Basileia vê cair a noite e não se pronuncia. O senhor professor de Basileia é um profeta.

POEMAS DE AMOR


Regresso ao "Orfeuzinho"
o empregado ciranda e recolhe os trocos
a gaja do quiosque fala com um barbudo
o empregado pede-me para pagar
ponho a nota na mesa e aguardo
agora sou eu que recolho os trocos
o Lúcio berra demais
estou cheio de sono
não preguei olho esta noite
estou constipado
preciso de outro café
senão não aguento
é o terceiro café que bebo hoje
ontem em Famalicão estava cheio de pedal
hoje não vou estar
deveria escrever poemas de amor
mas não estou para aí virado.

quarta-feira, 18 de março de 2009

MANIFESTOS POR A. DA SILVA O

MANIFESTOS, uma teoria*
a. dasilva o.
apresentada no passado dia 14 de Março 2009
na Gato Vadio livraria e tudo
referindo-se aos manifestos do Poeta
A. Pedro Ribeiro

O que é que vos posso dizer de PR que vocês não saibam?
Desfaz-se, melhor sacrifidesfaz-se em manifestos como anunciasse uma nova linguagem, e uma nova filosofia da desmistificação
Utilizando os velhos utensílios da revolta para melhor socorrer todas as vítimas de injustiça dando razões aos seus pares a sensação de histerismo mas esses académicos com a sua longa memória curta esquecem-se que desde 1928 “ O histerismo não é um fenómeno patológico e pode sob todos os aspectos, ser considerado como um meio supremo meio de expressão (Aragon, Breton no 2 manifesto do surrealismo)
Oitenta anos depois da comemoração do cinquentenário da histeria, tendo como base os estudos realizados pelo dr Charlot no hospital de Salpêtrière, estes Manifestos representam para mim, também, que «este comportamento expressivo tido por aberrante e patológico como “uma das maiores descobertas poéticas do fim do século XIX.”»
Cem anos depois, e mais umas décadas, estamos perante uma sociedade, em toda a sua interdisciplinaridade, aberrante e patologicamente domesticada por um proselitismo, previamente preparado desinfectado nos grandes laboratórios da Misologia.
Este ódio à Razão é contestado por estes Manifestos que um pouco por todo o discurso poético se manifestam ridiculamente para nada. Necessariamente fruto do monstruoso que quer regressar ao útero e o inumano que tenta aniquilar o fantástico, o mágico e o fabuloso.
A nossa linguagem exige uma outra realidade prática, um outro humor negro que não nos reduza à afasia, ao silêncio ou ao suicídio.
PR a isso nos sacrfi-se-desfaz, tentando e invocando anti-publicitariamente a esse anticorpo e antijogo para que a poesia não passe dum mero lamento nos intervalos da revolta.

http://edicoes-mortas.blogspot.com

HOMEM LIVRE


Sinto-me indiscutivelmente melhor do que há uma semana. Há uma semana estava muito metido comigo mesmo, tinha medo do palco, tinha medo das pessoas. Agora não. Apetece-me speedar por aí fora. Gritar. Mesmo sem perder a compostura perante os cavalheiros respeitáveis que aparecem. Até bebo cerveja na confeitaria. Não é muito habitual. Mas a coisa flui mais rapidamente. EStá um calor do caralho. As gajas vêm mais descascadas. A cerveja desliza. Anda lá, ó poeta da corte, desafiar-me. Estou pronto para ti. Vós, trabalhadores, trabalhai. O meu mundo não é o vosso. O meu trabalho é este. Pensais que não custa escrever um poema? Olhai que ando cheio de speed. Olhai que não há limites. Olhai que cago no Sócrates e na verborreia dos políticos. Olhai que estou para lá. Olhai que estou farto de discursos conciliadores. OLhai que ando pela noite. Olhai que agarro a vida. OLhai que cago das notícias. Olhai que não tenho preconceitos. Olhai que estou cheio de speed. Olhai que o pedal vai durar. Olhai que grito. Olhai que estou vivo. Olhai que me estou a cagar para as convenções. Olhai que sou um poeta. OLhai que deixei de ser pateta. OLhai que bebo até ao fim. OLhai que cago na economia. Olhai que não vou no discurso da Maria. OLhai que sou livre. Olhai que sou um homem. OLhai que sou livre. Aqui e agora. E pouco me importam as panelinhas e as capelinhas. Sou um homem livre.

ESCREVO. SOU UM POETA


Regresso ao "Piolho". Estou cheio de speed. Comprei o "Macaco Nu" de Desmond Morris por um euro. Apareceu o Oliveira. Falámos da arte e da vida. O Oliveira saiu. Um gajo bebe canecas de cerveja. Outras gajas entram. Mas a maior parte da clientela está lá fora. É mais caro. E não há amigas. Tenho o Alemão e logo encontro-me aqui com a JOana e o outro pessoal do "Um Café". Escrevo. Sou um poeta. OLho para as gajas. O empregado satisfeito com a minha despesa. Agora não me posso atirar às gajas por causa da Cláudia. Escrevo. Sou um poeta. Apareço nos blogues e, de passagem, nos jornais. Há quem me chame muitas coisas. Fascista, inclusivé. Egocêntrico- sou-o concerteza. As horas passam. Também me convidaram para ir a São João da Madeira no fim-de-semana. É preciso espalhar a mensagem. A mensagem e algumas brincadeiras com as gajas. Escrevo. Sou um poeta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO


Discurso no mercado do desemprego ( por Samith Al-Qassim, poeta palestiniano)

DISCURSO NO MERCADO DO DESEMPREGO

"Talvez eu perca — se desejares — a minha subsistência
Talvez venda as minhas roupas e o meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones a minha juventude
Talvez me roubes a herança dos meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes os meus poemas e os meus livros
Talvez atires o meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre a nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes da minha noite
Talvez me prives da ternura da minha mãe
Talvez falsifiques a minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar os meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas em meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... do meu povo exilado
E para os seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação das minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei "


Samih Al-Qassim
(poeta palestiniano proibido de exercer a profissão docente pelos israelitas)

http://en.wikipedia.org/wiki/Samih_al-Qasim

Retirado do blogue:
http://daliedaqui.blogspot.com/

plataforma abstencionista

Entrevista com a Plataforma abstencionista




O (não) voto é uma arma? (Entrevista com a Plataforma Abstencionista)

Pode o não voto ser uma forma de luta anticapitalista?
Entrevista com a Plataforma Abstencionista que apela ao não-voto em massa, neste ano eleitoral em Portugal.

http://plataforma-abstencionista.blogspot.com/






texto retirado de:http://passapalavra.info/?p=1417

Passa Palavra (PP) - A Plataforma abstencionista visa sistematizar a expressão abstencionista. Como tenciona fazê-lo? Por outras palavras, em que consiste o conceito de «abstenção activa»?

Plataforma Abstencionista (PA) - Para as pessoas que fazem parte da PA o conceito de “não voto” implica mais qualquer coisa do que a simples não ida às urnas no dia das eleições. Implica, por exemplo, a promoção do abstencionismo como forma de luta consciente, a ligação desta atitude às lutas populares que vão sendo desencadeadas nas mais diversas áreas e também a divulgação de que é possível e indispensável uma nova organização social e económica da sociedade, em que capitalismo, hierarquia e dominação sejam conceitos e práticas não existentes. Uma sociedade em que as decisões sejam tomadas de forma participada e horizontal, sem que ninguém tenha de delegar a sua opinião de forma sistemática e irrevogável.


PP - Sendo a abstenção (tal como o voto, de resto) um acto de consciência individual, faz sentido torná-la matéria de campanha?


PA - Faz todo o sentido. É uma forma de luta contra esta sociedade capitalista como outra qualquer. Se os partidos fazem do apelo ao voto matéria de campanha, porque é que o apelo à abstenção não pode ser também feito? Numa frase, as campanhas servem, exactamente, para tentar mudar consciências.

PP - Que críticas fundamentais dirigis ao sistema eleitoral representativo e por que devem, em vosso entender, as pessoas recusá-lo?

PA - Porque na chamada democracia representativa os cidadãos não significam nada. Os cidadãos são chamados periodicamente a pronunciarem-se sobre ideias e projectos já preparados por outros e para os quais não tiveram, nem vão ter, qualquer participação. Ao longo da História, as democracias representativas têm inculcado na cabeça dos cidadãos que os resultados dos actos eleitorais significam uma procuração irrevogável para o Estado e seus representantes agirem em seu nome de forma omnipotente e omnipresente. A representatividade como modelo parece-nos, aliás, um atestado de infantilidade às pessoas em geral, que necessitam de entregar a decisão sobre o que afecta as suas vidas a pretensos especialistas, abdicando da sua individualidade, da sua autonomia e da sua capacidade de análise e decisão. Ao contrário, a democracia directa promove a criação de ideias e a sua aprovação de forma colectiva e participativa. Os delegados que daqui emanam são eleitos apenas para representar uma decisão específica, não tendo o direito de alterar uma decisão tomada numa assembleia popular e podendo ser demitidos dos seus mandatos em qualquer altura.

PP - A luta pela igualdade do direito ao sufrágio foi uma das mais encarniçadas batalhas da esquerda europeia e americana na modernidade. Um dos factores seus distintivos, até, relativamente à direita censitária (que preconizava o voto exclusivo para certas classes de cidadãos e camadas sociais, económicas ou intelectuais, ou ainda o valor diferenciado do voto de cada pessoa pela sua posição sócio-económica e política). A vossa posição é, hoje, uma posição de esquerda, ou isso não vos preocupa?

PA - Será que os governos têm posições de esquerda ou de direita? Consideramos que o apelo a que as pessoas deixem de legitimar elites e tomem as suas próprias vidas é uma posição que pode ser catalogada no que, habitualmente, se designa por “esquerda”, mas é uma questão que não nos preocupa.

PP - Gerações de pessoas foram impedidas de votar em Portugal pela ditadura do Estado Novo. Que dizeis a essas pessoas que, até a partir da sua própria experiência passada, criticam o não voto e associam apelos como o vosso a uma natureza de coisas idêntica à que as privou durante décadas da escolha eleitoral?

PA - Dizemos que a luta pelo direito ao voto, em que alguns de nós participaram, significa sempre o direito ao “não voto”! Em termos estritamente políticos são duas situações não comparáveis. Durante o fascismo, a luta pelo direito ao voto foi uma das formas possíveis para pôr fim a um regime político ditatorial e opressivo. Actualmente, somos de opinião que existem outras formas de luta para acabar com esta sociedade capitalista e hierarquizada, sendo o abstencionismo uma delas.

PP - Como responde a Plataforma Abstencionista à crítica de que, se nada muda com o voto, também nada muda com a recusa do voto?

PA - Como é referido na resposta anterior, a luta pelo direito ao voto significa também o direito ao “não voto”. Por isso, consideramos que é uma crítica que não está correcta. É óbvio que haverá sempre pessoas a votar, mas uma abstenção massiva é um claro sinal de rejeição dado às estruturas do poder político. No entanto, não chega a simples recusa do voto, se esta atitude não for acompanhada pela recusa activa ao capitalismo e a todas as outras formas de dominação. E é esta atitude que se procurará incentivar nas acções a desenvolver pela PA. Em suma, a recusa massiva do voto, desde que acompanhada por atitudes e acções onde as pessoas se apercebam que têm capacidade suficiente para, juntas, tratar dos assuntos comuns, parece-nos um bom caminho revolucionário e, assim, potenciador de mudança.

PP - Para alguns sectores de opinião, a mobilização em torno da abstenção é um processo secundário, em relação à «luta de classes» nos processos de combate ao capitalismo. Estão errados, esses sectores? Porquê?

PA - Estarão errados se considerarem o apelo à abstenção como um processo secundário. Consideramos que no combate ao capitalismo não existem processos principais ou secundários. Todos são necessários nesse combate, dependendo apenas a sua utilização do foro individual de cada um.

PP - Conhecem, na vossa plataforma, algum método mais democrático do que as eleições? Há alguma metodologia eleitoral com a qual estivésseis de acordo?

PA - Os abstencionistas opõem-se a eleições, defendendo que a acção directa e outras alternativas são soluções mais democráticas para uma sociedade mais justa do que eleger o Candidato X para um cargo qualquer. Assim sendo, não concordamos com qualquer metodologia eleitoral que delegue noutros o poder de decisão – usado posteriormente como poder omnipotente – e sem possibilidade de revogação.

PP - Que proposta alternativa, para que modelo de organização da sociedade aponta a vossa política? Que há de mais democrático do que eleições?

PA - No entendimento das pessoas subscritoras da PA não é forçoso termos de apresentar alternativas ao sistema actual. Isso seria entrar na lógica de actuação dos partidos, o que recusamos. A PA não tem de ter “política”, nem tem de propor um modelo de organização da sociedade. Isso é uma coisa que tem de ser construída dia-a-dia pelas pessoas, com avanços e recuos, com erros e sucessos. No entanto, somos de opinião que a alternativa mais consistente a esta sociedade tem de passar por uma sociedade autogestionada e anticapitalista, na qual as pessoas participem activamente nos processos de tomada de decisões.

PP - Que entidades, pessoas, movimentos incluem a vossa plataforma e quais os vossos projectos de acção e iniciativas futuras? Como pode a Plataforma ser contactada por quem nela esteja interessado?

PA - As pessoas e grupos que subscreveram a PA estão mencionados na lista de subscritores. Projectos de acção: reuniões, debates públicos, apoio a lutas e reivindicações populares.




A PA pode ser contactada através do respectivo blogue:


http://plataforma-abstencionista.blogspot.com

retirado de http://pimentanegra.blogspot.com

REVOLUÇÃO


Eis no que deu a ganância, eis no que deu o capitalismo. Um sistema que premeia a rapina, que premeia a negociata, que premeia o lucro, que premeia o passar por cima do outro a qualquer preço não poderia durar eternamente. É desumano, é cruel e agora entrega-se nas mãos do Estado. Não é mais possível o homem lobo do homem. Não escondemos que nos dá gozo ver os capitalistas e os aprendizes de capitalistas aos papéis. Quereis o capitalismo, não quereis? Aí o tendes. O barco está a afundar-se. Salve-se quem puder. Eis onde o sistema havia de chegar. O mundo baseado na troca mercantil deu o que tinha a dar. Chegamos ao caos. Há que cantá-lo. Eis no que deu o cântico dos profetas da morte! Eis no que deu o império do mercado.
Agora há que cantar a vida. A vida para lá da não-vida, da sobrevida, do discurso e da prática financeira e economicista. Há que cantar o amor e a liberdade. O amor e a liberdade sem limites. O amor e a liberdade que vêm do espírito, que vêm da divindade. Não mais a morte! Não mais os cifrões! Não mais a ganância! Revolução!

MANIFESTO DOS POETAS


O poeta é o mentor da revolução. O poeta xamãnico, dionisíaco, irracional, iluminado pelos deuses, como dizia Platão, é a vanguarda que acende o rastilho, que choca, que provoca, que age como detonador da revolução. As suas palavras, os seus gritos, o seu canto, entram nas consciências e despoletam a raiva, a revolta, o movimento espontâneo. O poeta não pode ser um mero animador da corte que diz umas coisas bonitas para sossegar os espíritos. O poeta deve unir-se a outros poetas, a outros espíritos livres, para, em conjunto, prosseguir a tarefa de desassossegar o mundo. O poeta só pode ser revolucionário, como diz Benjamin Péret. O poeta deve andar à solta, deve levar uma vida desprendida, não deve ter limites, deve pôr tudo em causa. O poeta deve ser imoderado, deve trazer em si os mistérios do mundo e, qual xamã, deve transmiti-los aos outros. O poeta deve ser um caminheiro dos céus, como dizia Henry Miller.

DA ECONOMIA

O capitalismo actual significa a submissão total à economia. A economia penetra em todos os domínios, deixando em todo o lado o rasto da eficácia, da selecção entre aptos e inaptos, da mecanicidade, do quantitativo, da frieza, da ausência de sentimentos. Tudo se reduz a números, percentagens, estatísticas, balanços, contas, gráficos, cálculos mesquinhos. A economia é a ciência do mesquinho, do avaro, do poupadinho, de todos aqueles que vivem sem prazer e sem volúpia. A economia é a negação do desejo, da vontade, da emoção. À religião da economia e do dinheiro, à religião da morte temos de opôr a "religião" do prazer, da criação- o espírito dionisíaco.

domingo, 15 de março de 2009

NOITE FORA


Ontem andei noite fora. Cerveja após cerveja sem parar. Já não fazia isso a algum tempo. VI-me com algum cacau nos bolsos e pronto. Vi as mulheres insinuarem-se. Vi o jogo dos olhares. Noite fora. Alguns amigos e amigas. Falar com eles, ficar calado, depois deixá-lo. Ser o gajo que dança. Na minha. Dançar ao som da música. Vadiar. Encontrar este e aquela. Vender livros. Andar à solta pela cidade. Sem horas. Deixar a vida correr. NOite fora. COmo um dandy. Um libertino contra a corrente. Que vai apresentar os seus manifestos ao Gato Vadio. Houve diálogo, participação. A coisa correu bem. Rasguei a nota em público. Estou bem. As empregadas da "Motina" cirandam e riem. Ontem andei noite fora. Estoirei o dinheiro todo e não estou arrependido. A Cláudia que me desculpe. Apesar de ter as minhas depressões, houve sempre noites em que pus à prova os meus limites. Há um livro novo. Há uma namorada(não sei até quando ela me vai aturar...). Ofereci um livro a um jornalista do "Jornal de Notícias" que tinha escrito sobre mim. Fiz bem, já diz o Oliveira. O que interessa é que a coisa corre. Noite fora. Até presto mais atenção às conversas. Porque raio me hei-de diminuir perante os outros? Há sempre os que se safam sempre. Não pertenço a essa tribo. O rapaz pede as guloseimas. E eu escrevo. Estou condenado a escrever. Mas hoje escrevo com vontade. O que importa é manter o ritmo. E dizer umas coisas sobre as gajas. As gajas ontem na "Tendinha" apareciam por todos os lados. Carne que se dá e se mistura. Sou o poeta. O poeta que escreve e está só ao fundo da confeitaria. Sou o poeta que observa e anda noite fora. Bebo cerveja após cerveja, sem parar. A Gotucha liga e eu quase não consigo ouvir por causa do barulho da multidão à porta do "Piolho". A rádio passa música melada. E eu continuo a escrever porque não consigo fazer outra coisa. Não tenho conseguido escrever aquelas coisas com piada, que fazem rir a audiência. Mas que se foda! O que importa é que continuo a escrever. Passei uns dias em que não saía nada. Sou o poeta que observa as empregadas de amarelo. Vão-me convidando para ir a uns lados. Só é pena que o Rocha tenha deixado de ser meu amigo. Coisas do Rocha. Também não vou andar a mendigar. O Rocha que fique sozinho com as suas análises sociológicas. O Rocha é um egoísta. O Rocha é um preconceituoso. Raios partam o Rocha! Que fique com todos os futebóis e todas as tácticas! Ó Rocha, tu não me fazes falta nenhuma! Apesar de tudo, tenho saudades tuas, ó técnico. O meu livro fala de ti mas já não to dou. Sinto uma estranha alEgria. Uma sensação de dever cumprido. Apetece-me saltar, dançar, dar berros de contentamento. Hoje o dia começou tarde. Mas sinto-me realmente bem. Apetece-me rasgar notas. E lá entra a Maria. Aproximam-se as horas do fecho. A música puxa por mim. Estou cheio de speed. Quem diria. As depressões estão a conhecer estranhas variações. Cumpri uma semana exigente. É claro que há sempre quem discorde das minhas posições acerca do dinheiro, do mercado e da economia. Há sempre uns merceeiros e uns economistas. Morte à economia! Merda de praga que está por todo o lado. Ontem andei noite fora. Hoje escrevo. Sinto-me bem mesmo estando sozinho. Há uns tempos que não me sentia assim. Nietzsche está em mim. Digo sim à vida, aos afirmadores da vida, aos que têm o sentido da Terra. Afastai-vos profetas da morte, economistas! Vós que trazeis a linguagem do servilismo, das décimas, das estatísticas. Vós que provocais a crise com o vosso jogo das bolsas. Vós que sois o absurdo.