sábado, 31 de janeiro de 2009

COMEÇAS A FICAR MESMO LIXADO, Ó ARROGANTE

Conversas em 2002 e 2003 repetidas a várias pessoas
Testemunhas ouviram Manuel Pedro dizer que pagou 500 mil contos a Sócrates
31.01.2009 - 12h27 PÚBLICO
Duas pessoas ligadas à empresa Smith & Pedro testemunham que Manuel Pedro, o sócio português da empresa de consultoria Simth & Pedro, disse várias vezes que pagou 500 mil contos (2,5 milhões de euros) ao então ministro do Ambiente e actual primeiro-ministro, José Sócrates, para que o projecto do centro comercial Freeport fosse autorizado do ponto de vista ambiental, para que pudesse avançar o processo de licenciamento, noticia hoje o semanário “Expresso”.

O jornal conta que esta semana ouviu pessoalmente as duas testemunhas, que disseram ter ouvido várias vezes, e na presença de outras pessoas, entre 2002 e 2003, aquela afirmação da parte de Manuel Pedro. As testemunhas não são identificadas pelo jornal.

O euro já tinha sido introduzido como moeda única, mas as notas e moedas de euros só começaram a circular em 2002, por isso nessa altura muita gente ainda falava em quantias em escudos e contos. A Smith & Pedro intermediou o negócio do Freeport e fechou as portas após o início das investigações ao caso.

O “Expresso” conta que soube que esta afirmação de Manuel Pedro a admitir uma comissão ilegal ao então ministro do Ambiente do primeiro-ministro socialista António Guterres não foi ainda denunciada aos procurados do DCIAP (Departamento Central de Investigação e Acção Penal, dirigido por Cândida Almeida) que assumiram o caso no final do Verão passado.

Em Alcochete começaram mais tarde a correr boatos sobre avultados pagamentos em “luvas” pela aprovação do Freeport, que as testemunhas do “Expresso” ligam àquelas repetidas afirmações de Manuel Pedro.

No mesmo artigo, fala-se de “um sentimento generalizado de medo e retracção” entre as pessoas que tiveram relações profissionais com o empresário, “pelo facto de o nome do actual primeiro-ministro estar envolvido no processo e do que isso poderá significar para o futuro das suas carreiras caso se comprometam com depoimentos tão graves e directos.”

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

POETA PANFLETÁRIO


Chove, sem parar, lá fora
e eu cá dentro co Pacheco e Al Berto
mantenho a conversa em dia
antes que feche a confeitaria
à falta de amigos reais
fala-se com os poetas
não está mal
sempre se aprende alguma coisa
as técnicas, a arte da literatura
com os mestres
não estou interessado em guerrilhas
com os meus iguais
como o Castro
e há uns tempos
que não me apresento a eleições
apesar de ter ultimado
mais um manifesto do PSSL
que vou mandar à Carlinha
que me quer entrevistar
no Jornal de Amarante
terra onde espero voltar
em Fevereiro
e a caneta foi-se
mas a D. Maria, de pronto,
me arranjou outra
os poetas panfletários
também podem ter maneiras
não andam sempre
a insultar toda a gente
a amaldiçoar o presidente
e vão jantar a horas
lêem o jornal
vêem o Telejornal
e adormecem pouco depois da meia-noite.

MANIFESTO DO PSSL

O Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL) opõe-se à vidinha do rebanho, previsível, rotineira, sem interesse de todos os dias. O PSSL opõe-se à não-vida do mercado, da economia, do dinheiro, do lucro, do governo, do défice, das décimas, das percentagens. O PSSL recusa que o homem se reduza à condção de número, de mercadoria, de objecto de compra e venda, o PSSL abomina a troca mercantil "que emporcalha as relações humanas". O PSSL quer silenciar o discurso assexuado dos economistas. O PSSL acredita no amor, na liberdade e na poesia como forças inaugurais de um mundo onde o homem seja criador, deus, poeta. O PSSL acredita na vida autêntica, plena, divina tornada banquete permanente, onde sejamos profetas e afirmadores da vida. O PSSL quer acrescentar caos ao caos actual de forma a atingir a revolução. O PSSL entende que a culpa da crise do capitalismo é do próprio capitalismo e que, portanto, é preciso derrubá-lo mas sem as tácticas eleitoralistas dos partidos e organizações tradicionais que apenas contribuem para o reformar. O PSSL não acredita em transições pacíficas para o socialismo nem para o anarquismo por isso defende a revolta permanente.

OS MEUS AMIGOS


Ao André


os meus amigos
pagam-me jantares
e dão-me cerveja
se não fosse isso
levava uma vida casa-café
café-casa
como aqui em Vilar do Pinheiro
apesar da Maria e das outras senhoras
serem muito simpáticas
e de nunca me perguntarem qual a minha profissão
e de me deixarem ficar a dever 10 cêntimos

as últimas vezes
que tenho bebido
não me tenho sentido eufórico
limito-me a observar os outros
a cantar e a tocar viola
já quase esqueci a euforia do ano novo
ouvia vozes
o que vale é esta história do primeiro-ministro
para um gajo se rir um bocado
senão era a pasmaceira do costume
com uns copos a mais
com uns copos a menos
bem, sempre é melhor
do que andar por aqui
movido a café
sem movida nenhuma
quando um gajo sai à noite
sempre há a perspectiva da diversão
e os amigos
que nos pagam
copos e jantares.


Vilar do Pinheiro, 30.1.2009

MANA CALÓRICA


A banda Mana Calórica dá um concerto no Centro Português de Fotografia, antiga Cadeia da Relação, no Porto, amanhã, sábado, pelas 18 horas. O evento inser-se no lançamento da revista "Maioclaro".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

AI SÓCRATES, SÓCRATES, QUE CAIS

Caso Freeport
Autoridades inglesas consideram Sócrates suspeito e querem ver contas bancárias do primeiro-ministro
28.01.2009 - 19h22 Sérgio B. Gomes, São José Almeida, Romana Borja-Santos
As autoridades inglesas consideram o primeiro-ministro José Sócrates suspeito no caso Freeport, de acordo com a próxima edição da revista "Visão" que sairá para as bancas amanhã. Por seu lado, a revista "Sábado" afirma na edição que também será publicada amanhã que "os investigadores ingleses querem ver as contas bancárias do primeiro-ministro". A Procuradoria-Geral da República informou que amanhã será divulgado um comunicado sobre o caso.

Ainda de acordo com a "Sábado", "as autoridades portuguesas estão a investigar um email que terá sido enviado pela empresa Smith & Pedro [intermediária no processo de licenciamento do "outlet"] para um alegado domínio pessoal de Sócrates". Este pedido, avança a mesma revista, "consta da carta rogatória que chegou este mês à Procuradoria-Geral da República" e "implicaria a quebra do sigilo bancário relativo às contas do primeiro-ministro".

Na carta rogatória, enviada às autoridades portuguesas pelo Serious Fraud Office - a unidade da justiça inglesa que investiga crimes económicos mais complexos -, a polícia quer ainda saber se José Sócrates terá “solicitado, recebido ou facilitado” pagamentos no âmbito do licenciamento do "outlet", diz a "Visão". Ainda de acordo com na revista, “os investigadores também apontam o dedo a Manuel Pedro e Charles Smith”, consultores contratados pelo Freeport para ajudarem nos trâmites necessários ao licenciamento do processo, e a quatro responsáveis ingleses ligados à empresa promotora.

A “Visão” recorda ainda o DVD com uma conversa entre Charles Smith e um administrador do Freeport, em que o primeiro terá confessado o pagamento de luvas e referido o nome de José Sócrates, na altura ministro do Ambiente . A alegada prova terá sido dada a conhecer às autoridades portuguesas em Novembro, mas a procuradora Cândida Almeida terá dito que aquele material nunca poderia ser incluído num processo em Portugal. Charles Smith já desmentiu também o pagamento de quaisquer luvas.

No artigo é ainda referida uma carta enviada pelas autoridades portuguesas, em que pedem aos ingleses para dizerem se Júlio Monteiro, tio de Sócrates, Charles Smith ou Manuel Pedro (sócio da consultora) tinham contas bancárias em Inglaterra ou em “paraísos fiscais”. A resposta nunca chegou mas a insistência sobre Sócrates manteve-se o que, segundo a “Visão”, pode dever-se aos conflitos institucionais que ficaram depois do caso Maddie e ao convite a Robert Mugabe para estar presente na Cimeira UE/África, sabendo que isso implicaria a ausência no primeiro-ministro inglês,

Perante as novas informações divulgadas hoje, o assessor de José Sócrates, Luís Bernardo, declarou ao PÚBLICO: “Remetemos qualquer questão sobre essas notícias para as declarações de hoje da procuradora Cândida Almeida e também para as declarações do próprio José Sócrates no hemiciclo da Assembleia da República e ainda para o comunicado anteriormente divulgado”.

José Sócrates nega assim, através da declaração do seu assessor qualquer actuação irregular em relação ao caso de aprovação da construção do complexo do Freeport em Alcochete, tal como tem feito desde o primeiro momento deste caso.

Alterações à Zona de Protecção Especial

O caso Freeport tornou-se público em Fevereiro de 2005, quando uma notícia do jornal “O Independente”, a escassos dias das eleições legislativas, divulgou um documento da Polícia Judiciária (PJ) que mencionava José Sócrates, então líder da oposição, como um dos suspeitos, por ter sido um dos subscritores daquele decreto-lei quando era ministro do Ambiente. Posteriormente, a PJ e a Procuradoria-Geral da República (PGR) negaram qualquer envolvimento do então candidato a primeiro-ministro no caso Freeport. Em Setembro passado, o processo do Freeport passou do Tribunal do Montijo para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).

Já este ano, a 10 e 17 de Janeiro, o Ministério Público emitiu comunicados a esclarecer que, até àquele momento, não havia indícios do envolvimento de qualquer ministro português, do actual governo ou de anteriores, em eventuais crimes de corrupção relacionados como o caso e, na semana passada, prometeu levar a investigação até ao fim.

O processo relativo ao espaço comercial do Freeport de Alcochete está relacionado com suspeitas de corrupção na alteração à Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo decidida três dias antes das eleições legislativas de 2002 através de um decreto-lei. Apesar disso, no fim-de-semana passado, o primeiro-ministro garantiu que participou em apenas uma reunião relacionada com o empreendimento Freeport, na Câmara Municipal de Alcochete, que teve como único objectivo "a apresentação das exigências ambientais que tinham levado ao chumbo do projecto".

www.publico.clix.pt

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

DEUSES


Despedacemos os carneiros
rebentemos com a economia
rebentemos com o real
demos o caos ao caos
tornemo-nos deuses

Olha! Somos deuses!
Dancemos
dancemos com as bacantes
loucos
em delírio
até ao fim dos dias
até que chegue Ariadne

naveguemos até à ilha

Olha! Somos deuses!
Nada nos pode deter
somos deuses
nada há a perder.

DEMOS CAOS AO CAOS


Nestes tempos de crise das bolsas, dos bancos, dos negócios, nestes tempos de falência, de desemprego em massa, em que a vida perde o seu valor, a mensagem de Nietzsche e de Jim Morrison ganha uma actualidade única. Ao homem-mercadoria, ao homem-percentagem, ao homem-número, ao homem vencido, há que opôr o homem criador, o homem que diz sim à vida, não à vidinha da submissão, não à vidinha da rotina, não à vidinha do rebanho, mas sim à vida plena, à vida alegre, à vida autêntica. É possível passar do sub-homem ao super-homem se acreditarmos que, como disse Jim Morrison, isto não passa de um jogo, de um jogo imbecil. Se num desafio de futebol um jogador, uma estrela qualquer, decidir, de repente, pontapear a bola para fora e, pura e simplesmente, abandonar o campo toda a gente vai dizer: ponham esse palhaço na rua! Mas ele responde: ora, isto não passa de um jogo, da merda de um jogo, não sei porque lhe dão tanta importância. E o que temos de fazer é isso: abandonar o jogo, deixar que façam de nós escravos, imbecis. Temos de fazer alguns sacrifícios, seguir a nossa via ("solitário, segue o caminho que conduz a ti mesmo", diz Nietzsche), descurar a sobrevivência, abandonar a máquina mas o ganho será muito superior: tornar-nos-emos livres, poetas, filósofos, super-homens. Temos de nos juntar, fazer a revolução, mas não uma mera revolução política como a de 1917, como a de 25 de Abril, uma revolução global do espírito, das consciências. Teremos de ser até algo irracionais contra a pretensa racionalidade das bolsas, dos bancos, das empresas, da economia. TEmos de derrubar todos os governos. Destruir para construir. Começar do zero. Não ouçamos os jogos eleitoralistas e tácticos dos partidos políticos, dos sindicatos e das outras organizações. Sejamos nietzscheanos, morrisonianos. Punhamos à prova os limites da realidade. SEjamos doidos! Sejamos poetas! Superemos o homem, superemos o real. Construamos a vida. Sejamos afirmadores da vida. Afastemos a morte! Afastemos Deus, o capital e o dinheiro! Brindemos a Dionisos. Construamos o Céu na Terra, o Paraíso na Terra. O mundo é nosso. Não há regras. Não há limites. Queimemos o dinheiro! Queimemos a economia! Calemos para sempre os economistas. Sejamos, como disse Nietzsche, "decifradores de enigmas". Tornemo-nos deuses em vez de carneiros. Demos caos ao caos.

domingo, 25 de janeiro de 2009

DIÁRIO


Lê-se
e não sobra nada
fica a pacatez de uma confeitaria vazia
e uma cerveja que se vai bebendo
na ausência do bêbado proscrito
há palavras que ficam
mulheres que ficam presas ás palavras
ainda há livros meus nas livrarias
a chuva bate lá fora
sou o poeta que, de vez em quando,
sai nos jornais
mas que está sem editora
as empregadas riem
e eu tenho o grande Luiz Pacheco
à minha frente
não tenho dinheiro para continuar a beber
como em Braga
a Idolátrica
apesar de tudo, sinto-me próximo da luz
apesar de tudo, há algo que me conduz
rumo ao sublime
mas a cerveja está a acabar
pouco mais há a contar
numa confeitaria pacata e vazia
as velhas barulhentas já saíram
e os carros continuam a passar
tal como o "Circo de Feras" do Xutos
tantas vezes ouvi isto
tantas vezes enamorado a pensar nisto
e a cerveja acaba
não há cacau para mais
resta-me regressar a casa.

POESIA


PUBLICO.PT

PÚBLICO: Edição Impressa Versão para cegos
18 de Janeiro de 2009 - 05h21

Secções PÚBLICO Edição Impressa: SUP. PÚBLICA, Destaque, Opinião, Portugal, Mundo, Temas, Economia, Desporto, Local Lisboa, Local Porto

Suplementos PÚBLICO: PÚBLICA, ÍPSILON, FUGAS, ECONOMIA,

Esta rua podia chamar-se "Rua da Poesia"
José Pedro Barros


As palavras de Cesariny ou de Eugénio de Andrade dão o mote a uma artéria onde
há bares, restaurantes, artesanato português e muita cultura despretensiosa

a Não se sabe bem como, mas o vírus da poesia parece ter contagiado toda a Rua Nova da Alfândega. Senão, vejamos: aqui temos o Clube Literário do Porto, onde há vários eventos ligados à arte de fazer versos, e as noites poéticas do bar Púcaros e do Clube das Avós. Para além disso, o café Porto Rosa e a loja de artesanato português Coração Habitado devem pelo menos o nome à poesia. Antes que o portuense mais atento comece a abanar a cabeça com um ar reprovador, assumimos a batota: neste texto, "anexamos" a Rua de Miragaia e o Largo da Alfândega. Não nos parece nada disparatado: foi a abertura da Rua Nova da Alfândega (entre 1869 e 1871), necessária para a ligação do edifício ao centro da cidade, que desenhou a actual configuração da Rua de Miragaia. Agora, é uma espécie de cave, amparada por um muro e dividida a meio pelo Largo da Alfândega.
A área geográfica aqui abordada, dividida entre as freguesias de São Nicolau e de Miragaia, é uma das mais rústicas da cidade e mantém um ambiente de bairro. "Ainda se ouvem as mães à janela a chamar os miúdos", nota Maria Inês Castanheira, programadora do Clube Literário do Porto. São esses mesmos miúdos que andam pendurados no eléctrico da Linha 1 - "o condutor até pára o veículo para lhes ralhar" - e que descem a vizinha Rua do Comércio do Porto de bicicleta, a alta velocidade, sem muita preocupação pelos transeuntes. Jorge Andrade, proprietário do atelier de escultura e cerâmica Arcos de Miragaia, prefere destacar que os habitantes são "pobres, mas solidários". No seu espaço, recebe crianças da zona ou dos problemáticos bairros do Aleixo e do Lagarteiro, especialmente durante o Verão, e também vende as suas obras, a partir de 10 euros. Até 2001, Jorge Andrade nunca tinha modelado uma única peça, mas um curso desenvolvido no âmbito da extinta Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto despertou-lhe a curiosidade. No entanto, confessa que é o único dos 16 alunos, com "problemas de droga e marginalidade", que "sobreviveu" com os ensinamentos daí retirados. As suas curiosas e despretensiosas criações justificam uma visita.

A tertúlia mais antiga
Mas retomemos o tema principal, a poesia, pelo exemplo do Clube Literário do Porto. Pertença da Fundação Luís Araújo, e inaugurado em 2005, este é um espaço multifuncional que combina livraria, piano-bar, duas galerias, auditório e uma agenda cultural diversificada e de entrada gratuita. Às sextas e sábados à noite, há música clássica ou jazz e os eventos poéticos permanentes são mensais: a tertúlia Quartas mal ditas, na última semana de cada mês, e Poesia de choque. Nestes eventos, cruzam-se alguns dos nomes que fazem a mais famosa noite de poesia do Porto: é no bar Púcaros, nas arcadas da Rua de Miragaia, e dá-se religiosamente às quartas-feiras, depois do toque de uma sineta, para lá das 23h00. De acordo com o proprietário, Carlos Pinto, trata-se da "tertúlia poética ininterrupta mais antiga da cidade", levando já 12 anos. Os novatos que queiram declamar são sempre bem-vindos. Para ajudar a descontrair, o ex libris é a sangria, servida nos púcaros que dão o nome à casa. Para terminar, há o Clube das Avós, que na primeira sexta-feira de cada mês organiza sessões de poesia, na Junta de Freguesia de São Nicolau. O evento é aberto ao público em geral.
Mas a torrente poética não acaba aqui. O café Porto Rosa, no Largo da Alfândega, tem nos vidros dois dos versos mais famosos de Mário Cesariny: "Queria de ti um país de bondade e de bruma/ queria de ti o mar de uma rosa de espuma". Lá dentro, há serviço de cafetaria e pratos do dia, com alguma sofisticação, ao almoço. Perto do Clube Literário, temos a Corações Habitados, designação inspirada no poema Coração Habitado, de Eugénio de Andrade. A proprietária, Isabel Dores, fez uma pesquisa por todo o país, em busca de objectos de artesão portugueses, desde os tradicionais aos mais urbanos. Aqui há livros, produtos gourmet, vestuário e sabonetes da Ach. Brito ou Confiança.
O Rádio Bar é uma alternativa no capítulo da noite. É um sítio pequeno, com paredes de pedra, calmo durante a semana, animado e mais electrónico nas noites de sexta-feira e sábado. O Giroflée, no número 1 da rua, é o espaço de restauração mais requintado das redondezas, sem ter um preço exorbitante (uma média de 20 euros por pessoa). A cozinha é de raiz portuguesa, mas com uma apresentação contemporânea. Se estiver numa de tapas, o La Pausa, uns passos à frente, é mais económico.
Falta falar do edifício que dá o nome à rua: a Alfandega Nova, construída sobre estacaria no antigo areal de Miragaia, e inaugurada em 1869. Em 1993, foi restaurada para instalar o Museu dos Transportes e Comunicações, de acordo com um projecto do arquitecto Souto Moura. Por 3 euros, é possível visitar duas exposições permanentes (O Automóvel no Espaço e no Tempo e o Museu das Alfândegas) e a temporária Duas Arquitecturas Alemãs: 1949-1989, até 5 de Fevereiro. Aqui também há uma bela e pouco conhecida biblioteca, onde é possível estudar com o rio Douro como pano de fundo.

sábado, 24 de janeiro de 2009


As mãos o medo a loucura
na fotografia do Rui Sousa
já não o vejo há uns tempos
tenho de lhe fazer uma visita
aqui na "Motina"
as coisas correm mornas
como uma meia-de-leite
leite que vem da teta
das mamas que apetece chupar
e a velha que não larga o jornal
nem os casos da polícia
que fazem a delícia
do cidadão comum.

MENINA BONITA


Uma menina bonita, afectuosa e comunicativa surge no café. Os gajos da "Voz da Póvoa" aligeiraram a minha prosa. É bom haver meninas tão simpáticas no meio deste marasmo. É bom haver meninas que nos olham quando dizemos poesia. E ela vai, pega nos cafés, arruma as mesas. Mal sabe que sou o poeta a que alguns chamam de maldito. Mal sabe que sou um poeta e que venho para o café olhar para as meninas e escrever sobre elas. POr falar nisso, vou pedir outro café para aguentar a leitura do Jim Morrison. Como há 21, 22 anos. Em Braga. Na Faculdade de Economia do Porto. A fazer que estudava. A vida às voltas. A vida que não está na TV nem nas séries juvenis. A vida vertiginosa, perigosa, sem limites que, às vezes, vem ter com a minha vida pacata.

AI, JOSÉ

Tio e primo do chefe do Executivo terão tentado cobrar favor por promover encontro com intermediário do empreendimento
Licenciamento do outlet de Alcochete põe primeiro-ministro em xeque
24.01.2009 - 00h18 PÚBLICO
José Sócrates viu-se ontem à noite no centro da polémica do licenciamento do Freeport de Alcochete, depois de a TVI ter posto no ar partes de uma entrevista dada ao semanário "Sol" pelo seu tio, Júlio Eduardo Coelho Monteiro, onde este afirma ter proporcionado uma reunião entre o promotor do empreendimento, o britânico Charles Smith, e o último ministro do Ambiente do Governo Guterres. Já perto das 22h00, o primeiro-ministro emitiu um comunicado em nome pessoal garantindo que “a aprovação ambiental do empreendimento Freeport cumpriu todas as regras legais aplicáveis à época”, rejeitando “todas as insinuações e afirmações caluniosas que envolvem o meu nome a propósito deste caso”.

Júlio Monteiro, tio de José Sócrates, reconheceu numa entrevista ao "Sol" que viabilizou uma reunião entre o responsável da consultora encarregue de conseguir o licenciamento do Freeport, Charles Smith, e o seu sobrinho, então ministro do Ambiente. Júlio Monteiro, que conhecia Smith porque a mulher era administradora na Quinta do Lago, diz que este se queixou que um gabinete de advogados lhe estava a pedir quatro milhões de contos pelo licenciamento do outlet. Incrédulo com a situação, Júlio Monteiro aconselhou o inglês a falar com o sobrinho e colocou Sócrates a par do assunto. “Foi através de mim que ele [Charles Smith] conseguiu esta audiência”, sustenta Júlio Monteiro, que garante nunca mais ter sabido do assunto. “Eu até fiquei chateado. Usam o meu nome e depois nem um obrigado.”

Na edição de hoje, o "Sol" revela pela primeira vez que o ministro de Guterres referido numa conversa entre Charles Smith e um administrador do Freeport é José Sócrates. Nessa conversa, gravada pelo administrador com recurso a uma câmara oculta, Smith diz que gastou avultadas quantias em “pagamentos corruptos”, de acordo com o que ficou combinado numa reunião com Sócrates. Este vídeo fará parte do processo de investigação que corre no Reino Unido, onde estará igualmente um e-mail enviado para o Freeport a pedir uma recompensa pelo desbloqueamento do licenciamento.

Essa mensagem electrónica é também notícia do semanário "Expresso" de hoje. Na edição online de ontem, o filho de Júlio Monteiro, Nuno Carvalho Monteiro, confirma a existência de um encontro entre um intermediário do negócio do Freeport e o então ministro do Ambiente. Ao Expresso, Nuno confirmou que, na sequência dessa reunião, a empresa de publicidade da família enviou um e-mail aos responsáveis do outlet “a cobrar o favor”. A intenção era, segundo contou ao "Expresso", que a empresa britânica usasse a agência de publicidade para promover o empreendimento.

O Freeport nunca terá respondido ao correio electrónico, mas terá sido este documento — acrescenta o "Expresso" — que levou as autoridades judiciais britânicas e portuguesas a relacionarem o tio de José Sócrates ao alegado pagamento de luvas para a aprovação do empreendimento de Alcochete. Contactadas pelo PÚBLICO, as autoridades inglesas continuam, contudo, a não fazer qualquer comentário sobre este caso.

José Sócrates confirma, no seu comunicado, ter havido uma reunião alargada no Ministério do Ambiente com os promotores do empreendimento, vários dirigentes do ministério e o secretário de Estado do Ambiente, Rui Gonçalves, assim como a Câmara de Alcochete, à qual atribui o pedido da reunião. “Admito, embora não recorde esse facto, que também o meu tio, Júlio Monteiro, me tenha pedido para receber os promotores de modo a esclarecer a posição do Ministério do Ambiente sobre o projecto”, acrescenta.

O governante esclarece que essa reunião — única em que diz ter participado — serviu apenas para os promotores afirmarem a sua intenção de reformular o projecto e para o ministério esclarecer as condições ambientais exigidas pela última declaração de impacte ambiental. De resto, acrescenta Sócrates, esta declaração “foi emitida pelo secretário de Estado do Ambiente [...] sem qualquer interferência da minha parte”.

A 14 de Março de 2002, três dias antes das eleições legislativas que retiraram o PS do poder, o Conselho de Ministros aprovou o decreto-lei que procedia à redefinição dos limites da Zona de Protecção Especial do estuário do Tejo. Aprovou-se igualmente o terceiro Estudo de Impacto Ambiental, essencial para licenciar a construção naquela área.

Em 2004, o Ministério Público do Montijo começa a investigar suspeitas de corrupção no licenciamento do Freeport de Alcochete, com base numa denúncia anónima. No ano passado o processo passa para a tutela do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, onde está actualmente. Esta quinta-feira, depois de no início da semana ter recebido das autoridades britânicas uma carta rogatória a pedir novas diligências, o DCIAP e a Polícia Judiciária realizaram buscas ao domicílio e escritório de Júlio Monteiro (onde apreenderam documentos), à sede da sociedade de advogados Vieira de Almeida e ao gabinete de arquitectura Capinha Lopes, que concebeu o Freeport de Alcochete.

POETA


Estou no "Piolho"
e escrevo
enquanto a TV fala de perseguições a funcionários
também eu, às vezes, me sinto perseguido
mas não por instituições nem por funcionários
por vozes
por pessoas concretas
que entram na minha cabeça
de resto, não sou funcionário de coisa nenhuma
e provavelmente nunca serei
sou apenas o gajo que escreve
o poeta
sim, posso dizer que sou poeta
apesar de ultimamente as relações com as editoras
não serem famosas
e a recessão, dizem
a recessão chegou à edição
e as gajas não param de entrar
quantas mais melhor
pode ser que alguma se sente à minha frente
e comece a falar:
"ah, então és tu o poeta
que costuma ir ao Púcaros,
e que há pouco esteve no Clube Literário?"
Sim, sou eu, sou o homem
àparte isso não sou mais nada
escrevo, digo poemas e sei umas coisas de política
nada mais
tudo o resto me passa ao lado
como o fado
e as teses do Rocha
e lá se foi a gaja que tu até conheces
não a chamaste
chapéu!
Continuas sózinho
e já bebeste o teu copo de vinho
enquanto os outros se empanturram
com francesinhas
se ao menos a Gotucha estivesse aqui
nem os chatos do costume aparecem~
és o poeta
não há dúvida
às vezes até te acham piada
tens a luz, o espírito
mas não és o deus que às vezes te julgas
nem és melhor do que os outros
escreves estes poemas longos
porque te saem
nada mais
não quer dizer que escrevas melhor
do que há 10 anos
apenas escreves mais
estás sempre a escrever
e isso também te ajuda a combater
as depressões
até já te dizem para teres cuidado
com os poemas que recitas
não vás escandalizar a populaça
não és como o Jim Morrison
não és bem como ele
mas herdaste algo de transgressor, de excessivo
as miúdas perguntam-te como vais ser no espectáculo
e tu lá te explicas
não te saem grandes explicações
e desconfias do Obama
achas que o colocaram nos píncaros
e agora a coisa vai doer
esta merda é a doer
e tu sabes que estás do lado da vida
és uma espécie de profeta da liberdade
por estranho e pouco organizado
que possa parecer
dentro de momentos tens a coisa no "Gato Vadio"
e depois ainda vais ao "Púcaros"
é sempre a abrir
ao menos quando estás assim estás activo
não é como quando ficas em casa deprimido
a olhar para as paredes
por muito que leias
por muito que te deixes levar pela leitura
por muito que queiras saber mais
és o poeta
és definitivamente um poeta
ninguém o pode negar
nem os puristas da literatura
nem os versejadores da corte
és um poeta
e, uma vez mais,
vais para o palco
amas o palco
amas que te olhem
que te batam palmas
que te amem
vieste ao mundo para ser
o centro das atenções
vieste ao mundo para ser amado
escreves um bocado à Álvaro de Campos
um Álvaro de Campos beatnick
um Álvaro de Campos no sec. XXI
e não consegues parar
falta-te uma gaja
falta-te definitivamente uma gaja
senão andarás sempre desiquilibrado
senão andarás sempre desorganizado
senão vais continuar a atirar-te contra a parede
convencido de que atravessas para o outro lado
como o Jim
convencido de que aguentas sempre
na estrada da subversão
convencido de que vais cantar a canção
convencido de que tudo está a rolar
como o rock n' roll
e que, na verdade, te afundas.



A. Pedro Ribeiro, 21.1.2009, Porto, Piolho.

Tenho a consciência de que estou a escrever uma tese filosófica. Talvez ela venha aos repelões, aos aforismos. Mas ela está a vir, tenho a certeza. Há bocado saiu daqui uma gaja jeitosa mas entrou muda e saiu calada. Estas tardes em Vilar do Pinheiro entediam-me. Nada se passa a não ser as minhas leituras. Desta feita, "Mensagens Revolucionárias" de Artaud e os "Últimos Escritos de Jim Morrison". Falta-me uma cerveja para acelerar. Mas não há cacau, gastei-o em fotocópias para a sessão de quarta-feira no "Gato Vadio". Mais uma oportunidade para brilhar. Só falta que as gajas venham ter comigo no fim do espectáculo e me amem e me beijem na boca. Começo a ficar com uma certa fama. AS pessoas reconhecem-me nos cafés e nas ruas. AS pessoas saúdam-me e eu não me lembro de onde as conheço. Mas a vida continua uma seca. Amanhã estarei em Famalicão. Agora lembraram-se de misturar o fado com a poesia. Isso não me afecta. Não sou fadista. A criança sorri para mim. Não há gajas para comer. Só automóveis a passar. E troféus expostos para a melhor confeitaria da zona. As pessoas falam com as crianças e parecem atrasadas mentais. Aliás, as pessoas parecem atrasadas mentais de qualquer forma. E chega a D. Rosa e suaviza-me a prosa.