sábado, 27 de dezembro de 2008
NIETZSCHE
Enviai-me a loucura, habitantes dos céus. A loucura para que finalmente eu acredite em mim.

Estou só na confeitaria
com o bêbado
os outros agarram-se ao bolo-rei
e ao Natal
o bêbado acende o cigarro
gesto proibido
que provoca a ira da Maria
o bêbado fuma lá fora
e o Rocha não atende o telefone
chateou-se comigo o Rocha
por causa do baiano e do guitarrista
sinto falta do Rocha
e das suas análises futebolísticas
o bêbado reentra
coloca a cerveja no balcão
paga a despesa
estou-me a ver daqui a uns anos
se continuar assim
o bêbado tolerado pela gerência
com um pouco mais de literatura, claro,
com umas ideias
mas bem sei que, a partir de certo ponto,
as Marias deixam de nos respeitar
deixamos de pertencer ao círculo
dos cidadãos respeitáveis
passamos a estar completamente à margem
e isso é triste, muito triste.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
MANIFESTO CONTRA OS GOVERNANTES E CONTRA OS POLÍTICOS
Vós, governantes,
que amais o gado eleitor
que o mantendes cativo
que o converteis à mansidão
ao ram-ram da compra e venda
que o seduzis com as leis do dinheiro,
do trabalho e do relógio
vós, governantes,
que odiais a vida e o espírito livre
que tudo reduzis à mesquinhez
da percentagem e da conta
que amais o cidadão cumpridor
que vos masturbais com a bolsa
vós, políticos,
que invejais tudo quanto é grande,
tudo quanto é belo,
que o mantendes afastado do rebanho
que tudo tendes normalizado,
formatado, castrado
que sois incapazes de olhar o além
vós, políticos,
que redigis discursos ocos
que seduzis bacocos
que vendeis sabonetes
que vos escondeis nos gabinetes
vós, políticos,
que fornicais o poder
que vos guerreais pelo poder
que vos aliais pelo poder
sabei que a vossa hora
está a chegar
vós, políticos,
que pregais a morte
que apelais à doença
que instituis a crença
no mercado salvador
sabei que a vossa hora
está a chegar
vós, políticos,
que sois uma merda
que deixais os outros na merda
que fazeis do mundo uma merda
sabei que a vossa hora
está a chegar...
NATAL
É Natal
o brasileiro saúda-me
é Natal
e o Natal nada me diz
as bolas, as árvores, os pais natais
os apelos à bondade, à fraternidade
tudo isso me passa ao lado
tudo isso me soa a falso
se o meu pai estivesse vivo
se estivesse na infância
as coisas seriam diferentes
é Natal
e o Natal nada me diz.
o brasileiro saúda-me
é Natal
e o Natal nada me diz
as bolas, as árvores, os pais natais
os apelos à bondade, à fraternidade
tudo isso me passa ao lado
tudo isso me soa a falso
se o meu pai estivesse vivo
se estivesse na infância
as coisas seriam diferentes
é Natal
e o Natal nada me diz.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
MAMAS E FUTEBOL
Nada há na inteligência destes primatas
senão futebol
o que vale é que há as mamas da empregada
para me entreter
pouso nelas
apalpo-as
agarro-me à vida
a vida que tu, o genial poeta-filósofo, amas
não o ecrã onde a bola rola
que produz todos os discursos dos primatas
o seu único passatempo
a sua filosofia
a sua essência
quão pobres são os teus semelhantes, ó poeta
incapazes de sentir, de compreender
o teu trovão
às vezes pergunto-me se vale a pena
cantar a humanidade
se vale a pena trazer a boa nova
a estes imbecis
ou se não será melhor
dirigir-me apenas a alguns companheiros
aos espíritos livres
e às mamas, claro,
à carne tenra
que se insunua para nós
De súbito, entra um polícia
traz consigo as forças da proibição, da repressão
mestre, que fazer?
Atirar-lhe pedras como na Grécia
dar-lhe um tiro
as mamas dizem-me que não
são piedosas
trazem o amor
e põem-me louco, mestre
põem-me louco
não sei o que fazer
os homens de génio, mestre
estão sempre demasiado avançados
para os seus contemporâneos
mas aquelas mamas, mestre
aquelas mamas põem-me louco
louco que sou no fim de contas
absolutamente fora do senso comum
há bolas por todo o lado, mestre
os futeboleiros primatas afogam-se
em bolas e golos
e eu danço, mestre
eu danço
danço com as mamas em cima do balcão
danço com os gregos a minha rebelião
danço sobre o vosso tédio
dinamito as vossas bolas e o vosso coração
sou aquele que não esperais
sou aquele que vem dos séculos
que percorre a estrada do excesso
vira-te para a frente, filha,
para eu te ver bem as mamas.
GAJAS BOAS

Gajas boas, vós amais o poeta
deixai os bares e as discotecas da moda
deixai as passerelles e as revistas cor-de-rosa
deixai as conversas superficiais e os futebolistas
gajas boas, ide ter com o poeta
olhai que ele se afoga no àlcool e na solidão
olhai que ele se perde no riso do Do Vale
olhai que ele está prestes a cair ao chão
gajas boas, vós amais o poeta
ide ter com ele aos tascos,
aos cafés, às esplanadas
falai com ele
animai-lhe o espírito
dai-lhe beijos na boca
gajas boas,
estais na Terra para salvar o poeta
deixai os executivos
dai-lhe amor
de vós depende a Obra
gajas boas, fornicai o poeta
A CASA VIVA COM A GRÉCIA

O espectro da liberdade surge sempre com uma faca nos dentes
Ao contrário do que nos querem fazer crer os meios de comunicação, o assassinato, às mãos da polícia grega, no passado dia 6 de Dezembro, do jovem de 15 anos Alexandros Grigoropoulos (Alexis) não foi um incidente isolado. Tratou-se, antes, duma explosão do Estado repressivo que, de forma sistemática e organizada, aponta para os que resistem, os que se revoltam, os que combatem o estado actual das coisas e a autoridade que lhe dá corpo. Tratou-se, enfim, da escalada do ataque generalizado a toda a sociedade, que pretende impor formas mais rígidas de controlo e exploração e que se reflecte diariamente nos “acidentes de trabalho”, na perseguição e encarceramento de imigrantes, na pobreza, na exclusão social, na chantagem para que nos integremos num mundo de divisões sociais, todos crimes daquilo a que, geralmente, se chama o Sistema.
Tudo, claro, bem regado pela guerra ideológica coordenada entre os mecanismos dominantes de comunicação e os poderes, que nos convencem de que não há alternativa, pelo menos até que uma crise ponha a nu as contradições do seu modelo, altura em que decidem que serão novamente eles, os arquitectos do modelo falhado, a guiar-nos para novos paradigmas.
Das escolas transformadas em armazéns de putos, às universidades onde se tenta criar carreiristas acríticos, passando pelos espaços tétricos da escravidão assalariada em que nos encerram e pelas fronteiras de arame farpado onde se impede que os deserdados apoquentem o banquete, a democracia e o capitalismo mostram a sua verdadeira face.
Da mesma forma, as chamas nas ruas de várias cidades gregas não são uma uma resposta unicamente direccionada ao assassinato policial. Sem o sufoco social crescente que acompanha a raiva que agudiza a revolta contra a norte de Alexis, não haveria essa característica fundamental que os protestos gregos trazem em si, a de se voltarem contra a estrutura vigente e não apenas contra a conjuntura governamental ou repressiva do momento.
Neste contexto, as pedras arrancadas das ruas gregas e atiradas à polícia ou às catedrais do mundo-feira, as garrafas ardentes que recortam os céus, as universidades ocupadas e transformadas em assembleias de debate aberto, todas as acções e tentativas, são pedaços do mundo insubmisso, livre, fraterno e justo com que, eles e nós, sonhamos. A sua coragem para continuarem a resistir apesar da porrada, da prisão, das nuvens de gás lacrimogéneo e das balas, são um exemplo para que não nos calemos nunca perante o medo e o silêncio que nos querem impor e que, ao invés, os utilizemos como detonador do levantamento contra o terrorismo de legal que pratica o Estado e da criação de algo novo, fundado em novos princípios.
Utilizando as leis “anti-terroristas” que, por toda a europa, se têm imposto da forma como sempre as têm utilizado, as autoridades estão, neste preciso momento, a deter os que lutam e a confrontá-los com acusações como “associação criminosa”, num ambiente devidamente temperado pelos meios de comunicação, verdadeiros guardiões do status quo, que, com a sua propaganda que vê “violência” numa montra partida e “normalidade” num ser humano a morrer à fome, pavimenta o caminho à repressão, de forma a que tudo volte à fatalidade da injustiça e da submissão.
Daqui, queremos deixar bem claro que não temos dúvidas sobre o lado em que estamos. Ao lado dos que apelam “não deixem este hálito flamejante de poesia atenuar-se ou extinguir-se”. Solidários com os que lutam, com os detidos nos confrontos dos últimos dias, com todos os que se juntaram à mesma luta no Chipre, Alemanha, Espanha, Dinamarca, Holanda, Reino Unido, França, Itália, Polónia, Turquia, Estados Unidos, Irlanda, Suécia, Suíça, Austrália, Eslováquia, Croácia, Rússia, Bulgária, Roménia, Bélgica, Nova Zelândia, Argentina, México, Chile e, certamente, muitos outros locais deste planeta que é nosso.
CASA VIVA
domingo, 21 de dezembro de 2008
O POETA E AS GAJAS BOAS

E cá está o poeta de café, só, diante da folha que já não é branca. E cá está o poeta a olhar, a ver se gajas que o entusiasmem, que o façam cavalgar. As gajas boas são as musas que lhe dão tesão, que o fazem sair da letargia. Mesmo que nunca as conheça, que nunca fale com elas, o poeta depende das gajas. São elas que se insinuam, são elas as ancas que gingam, são elas as mamas que abanam. O poeta sem as gajas não é nada. O poeta não cria, o poeta não escreve, o poeta não vibra sem as gajas. O poeta pensa no assunto e bebe. Bebe cada vez mais, fino após fino mas as gajas boas não aparecem. Só entram gajas feias e engravatados. O poeta aborrece-se e bebe. Bebe, bebe, bebe, até que rebenta.
- A culpa é vossa, gajas boas,
só aparecestes agora que o poeta está rebentado, feito em pedaços
olhai que perda para a Humanidade
olhai que se tivesses aparecido a tempo
o poeta teria escrito a obra imortal
de agora em diante ide, ide pelos campos
à procura dos poetas
ide dar-lhes de comer e de beber
a vida dos poetas está na vossa mão
e nas vossas mamas
e na vossa pássara
sede dignas dos poetas, ò gajas boas.
O POETA

O poeta vai ao consumismo
o poeta senta-se
apetece-lhe berrar
olha para as gajas
quer-lhes o sangue
sem o sangue delas
não consegue escrever
escrever é tudo para ele
é a sua razão de ser
o poeta agora brinca
dá cambalhotas
olha para as gajas
come-lhes o cu
o poeta é doido
não tem limites
gosta de sobressair
o poeta caga, mija
masturba-se na àrvore de Natal
o poeta odeia o cidadão normal
o poeta não trabalha
o poeta não obedece
o poeta só quer saber das gajas
o poeta é um ser àparte.
"Norteshopping", Dezembro 2008.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
JIM MORRISON

JIM MORRISON, PROFETA DA REVOLTA
Jim Morrison, o poeta/cantor dos Doors. Fascina-me desde os 16/17 anos. Nessa altura do liceu ouvia muito os Pink Floyd. Conhecia as letras subversivas do Roger Waters, as críticas mordazes à Thatcher e ao sistema. Mas quando um amigo meu me emprestou o disco “Strange Days” e a longa canção “When The Music’s Over” houve uma explosão. Tem piada que à primeira audição estranhei a coisa. Mas depois, bem depois havia aquele órgão e aquela bateria e o Jim cantava: “estamos fartos de tantos rodeios/ fartos de esperar com o ouvido colado ao chão/ queremos o mundo e exigimo-lo… AGORA!” Todas as infâncias, todas as antigas convicções, todas as missas, todos os preconceitos acabavam ali. Quando o Jim Morrison gritou “NOW!” eu tornava-me outro. Não há aqui misticismos baratos. É aquela urgência de quem não pode esperar mais. Tem de ser “agora” ou então está tudo perdido. Terminou o tempo das “risadas” e das “doces mentiras”, como diz o outro épico dos Doors, “The End”, que esteve na base do “Apocalipse Now” de Coppola. Tem piada que as palavras proféticas de Morrison voltam agora a fazer todo o sentido com as revoltas na Grécia. É uma revolta que ultrapassa os sindicatos e os partidos, uma revolta com pedras e “cocktails molotov” que não se limita à exigência do derrube de um governo, uma revolta de raiva que põe tudo em causa, uma revolta sem negociações, uma revolta morrisoniana, daqueles que estão “fartos de tantos rodeios”, que exigem nada mais, nada menos do que o próprio mundo.
A postura de Jim Morrison em palco ajuda à lenda. Os concertos dos Doors eram celebrações dionisíacas, num terreno nietzscheano que transcende o bem e o mal. Jim Morrison era o xamã que provocava o público até à loucura. Havia mulheres que se despiam, que tiravam os soutiens, que dançavam como nos antigos bacanais. Jim também era Dionisos com a ajuda do álcool e de outras drogas, era o “deus” que achava os “hippies” e o “flower power” ingénuos, que falava do amor no meio do caos, que dizia aos jovens que não passavam de escravos que faziam tudo o que lhes mandavam fazer.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
O POEMA

Quando vou dizer poesia
não vou apenas dizer poesia
vou passar mensagens
sinto que estou próximo
de escrever "o poema"
o poema à Nietzsche, divino,
que vá muito para lá das bolas de Natal
que incorpore a raiva, a revolta
que vai nas ruas de Atenas
e que se vai estender por toda a Europa
o poema que está no sexo, nas mamas das gajas
que permanentemente se insinuam para mim
e me acendem
o poema que está nas vozes dos deserdados da vida,
dos que dormem à chuva e ao frio nas ruas,
nas cabines telefónicas, onde calha
o poema dos poetas malditos que insultam a vida imbecil
dos burgueses, que dizem não às convenções e às normas,
que sobem à montanha da àguia e da serpente porque estão fartos
do rebanho e da populaça, porque estão fartos dos cegos
que se deixam governar por imbecis, como dizia Shakespeare
o poema daqueles que não se contentam com a lógica do dinheirinho
e do trabalhinho, daqueles que vão ao fundo deles mesmos e do mundo,
daqueles que odeiam o mercado e os contabilistas que governam,
daqueles que se tornam neles mesmos e que dizem que o melhor governo
é não existir governo nenhum
o poema daqueles que amam o caos porque sabem que é do caos
que nasce a criação, daqueles que amam as alturas e o perigo,
daqueles que se entediam com o paleio imbecil do dinheiro
e do sucesso mediático
o poema daqueles que amam vertiginosamente sem limites, daqueles que
procuram o sublime, o céu na Terra e que sabem que pode estar ao virar
da esquina
o poema daqueles que amam a vida, a vida pura, autêntica, a vida que não está
nos bancos nem nos governos nem nas Igrejas nem no quotidiano imbecil
e previsível
o poema daqueles que vivem em rebelião, que não suportam mais a existência quadrada e vazia, a existência de percentagens, bolsas e estatísticas que esses cabrões
contabilistas nos vendem
o poema daqueles que já nada têm a perder, que atiram pedras e cocktails molotov
aos cães da polícia, aos representantes dos contabilistas e dos economistas, que
combatem a morte em nome da vida e que sabem que só assim a coisa é possível, sem
dirigentes nem vanguardas, sem negociações, mediações ou sindicatos,
já se fizeram todas as negociações possíveis, já se esgotaram todos os entendimentos,
as negociações quase mataram o Homem, quase tornaram o Homem numa espécie falhada
é tempo de reagir
agora ou nunca!
WE WANT THE WORLD AND WE WANT IT NOW!
Não aqui meios-termos
não há meias palavras
ou...ou...
ou és nosso ou és deles
estou a falar da vida
estou a falar da celebração
estou a falar da liberdade
estou a falar do amor
do amor que não está nos negócios, do amor que não está no mercado, do amor que não está no dinheiro, no amor que não está no senso comum
este é o poema
o poema que não está no mercado
o poema que não vale 4,3% nem 9%, nem 15,5% nem 18 valores
o poema que não é nota, o poema que não vai a exame
o poema que vai ao mar e se deixa levar
o poema que te ama
e que não quer saber do Natal
o poema que dança
e que não grama prisões
o poema que canta
e não quer saber de cifrões
o poema armado
que vai à luta
que vai até ao fim
o poema que vai à lua
que não tem fim
o poema que te chama
que te acena
ao lado de Merlin
o poema que procura
que anda às turras
até encontrar
o poema que conquista
que se lança ao mar
sem medos
o poema-torpedo
o poema que perfura
até conseguir
o poema que incomoda
que não está na moda
e que, se calhar, até está
o poema que cria
o poema que destrói
o poema que inaugura
e que dói
olha, alguns fogem
viram a cara
outros ficam
siderados, talvez
nunca tinhas escrito bem assim...
Vilar do Pinheiro, "Motina", 16.12.2008
domingo, 14 de dezembro de 2008
A MINHA VIDA É

Continuo na "Motina"
e o bêbado continua a dormir
em frente ao copo
parece que dorme num barraco
não consegue dormir de noite
e vem para aqui dormir
a empregada, de vez em quando, desperta-o
mas o homem volta a adormecer
não se passa mais nada
senão o bêbado a adormecer
em frente ao copo
e as empregadas a lavar a loiça
e a falar da vida
comigo é que elas não falam
não sei o que dizem de mim
nas minhas costas
mas devo ter fama de cidadão respeitável
por estas bandas
mal sabem elas das minhas actividades subversivas
e das minhas ligações aos anarquistas da Grécia
mal sabem elas do que penso do Sócrates
e dos governos em geral
-o melhor governo é não existir governo nenhum-
isto para não falar dos versos flipados que escrevo
fica tudo de pernas para o ar
é certo que, em tempos, fiquei famoso
por atirar umas pedras à Junta de Freguesia
e por aparecer caído na estrada podre de bêbado
de madrugada mas isso são histórias do passado
já ninguém fala nelas
devem pensar que sou um estudioso
que vem para aqui
estudar teses filosóficas obscuras
e escrever romances
um intelectual distante das coisas do povo
um homem de poucas palavras
que vai à cidade falar com outros intelectuais
que, de vez em quando, tem umas saídas
que ninguém entende
mal sabem as coisas que me passam pela cabeça
olha! O bêbado levantou-se e foi embora
finalmente alguma acção!
Mal sabem elas que quando fico bêbado
- e há séculos que não estou-
sou cem vezes pior do que este
este não incomoda ninguém
quando fico bêbado
o mundo treme
fica de pernas para o ar
a questão é que quando estou bêbado incomodo
mas, se calhar, sou muito mais interessante
do que sóbrio
vou à essência
atingo o Nirvana, sabes
as àguas correm livres
as deusas beijam-me na boca
não tenho limites
faço a revolução sózinho
já estive assim em palco, sabes
mesmo sem estar completamente bêbado
sabes o que é um gajo estar para lá
completamente passado
é uma experiência única
algumas gajas acham piada
muita piada mesmo
outras fogem
sabes o que é seres uma espécie de deus
capaz de tudo
para lá do bem e do mal
cagares para as normas e para a polícia
acima das convenções
acima da própria vida
seres o Ubermeinsch de Nietzsche
saber que podes estar
a uma garrafa de whisky de atingi-lo
isto porque nunca experimentaste os ácidos
tanto quanto sabes
que se foda a conversa das velhas!
Que se fodam todas as conversas imbecis do rebanho!
Se podes atingir a coisa
se a coisa existe
e acena para ti
talvez a consigas mesmo atingir
sem beber
talvez a coisa esteja já em ti
talvez não precises de ir mais longe
talvez te bastes a ti mesmo
para atingir o sublime
talvez tires os óculos
talvez comeces a ver tudo distorcido
talvez ouças as canções dos 22 anos
quando paraste o filme em Braga
quando disseram que o Che Guevara
tinha mandado fechar o hipermercado
quando os velhotes te faziam continência
na rua
já lá vão 18 anos
acreditaste que estava tudo feito
que já tinhas feito a revolução
de calças de ganga e uma faca de plástico
na mão
a coisa saiu nos jornais ou na rádio
nunca soubeste bem
voltas a pôr os óculos
entram umas gajas
apetece-te comê-las
chegaste a um ponto
onde já não há preconceitos
"o homem superior é aquele que não tem preconceitos,
que faz da vida um experimento permanente,
que se passeia na corda-bamba do devir,
o homem superior é um menino e um grande bailarino."
A Alexandra também diz que tu és sempre o menino,
já a Paula o dizia, a Gotucha diz que o Nietzsche
te deu a volta à cabeça
e tu gostas de dançar
ah, se gostas
-bailarino, há quanto tempo não danças?-
ias para a discoteca dar espectáculo
dançar com o Morrison e com o Curtis
com os índios e com as bacantes
uma vez até foste agredido no "Clube 84"
nunca soubeste bem porquê,
pensaste que foi por razões políticas
porque tinhas falado para a televisão
num debate contra o racismo
mas não, não foi apenas isso
bateram-me porque ficaram incomodados
com a tua dança
ficaste em tronco nu
ficaste possesso
completamente fora
as gajas também
e os gajos ficaram incomodados
ficaram com medo que as gajas lhes fugissem
lhes fugissem para Dionisos
eras Dionisos
por isso te bateram
a tua sorte era que os porteiros eram pretos
se não tinham-te desfeito,
ó Dionisos
também a polícia já te topou
também já te ameaçaram de porrada
sabes, tu realmente
não estás aqui
para sacar dinheiro
nem para trabalhar
em empregos rotineiros
tu és o menino
que inventava personagens
tu és o menino
em que o teu pai depositava muitas esperanças
com quem o teu pai se irritava sobremaneira
quando não conseguias falar
porque guardavas tudo para ti
és esse menino
que brincava com as meninas
e que quer que elas voltem
a brincar agora
as meninas que te atraem, claro,
às outras não ligas
não sei se isto é sublime
mas isto é a minha vida
a minha vida, porra!
A menina traz-me o café
mas, sei lá, não há aquela coisa
a gaja não me bate
é simpática, sei lá
não me posso atirar a todas
quiseram crucificar-me
naquela noite no "Clube 84"
mas eu lá me safei
como das outras vezes
não sei como
sei lá, acho que não sou bem como os outros,
já quando era puto me destacava
depois tive muitas dificuldades de afirmação
na adolescência
aos 17, 18 anos despertei- sei lá
mas depois vieram as depressões longas
e voltava a fechar-me na concha
não sou bem como os outros
a minha mãe ensinou-me a ler aos 4 anos
tinha uma memória prodigiosa
um "rasta" entra na confeitaria
entra também a Arlinda
o "rasta" tinha o peito cheio de "piercings"
assustou a Maria
e o poema nunca mais acaba
já o meu pai
vinha para a confeitaria
fazer cálculos matemáticos
também era, à sua maneira,
um incompreendido
com o seu Fermat, o seu Pitágoras
herdei muitas coisas dele
mas segui por outros caminhos
rumo à noite
rumo ao underground
esta coisa do ram-ram
da vidinha do senso comum
das coisinhas
dos troquinhos
do trabalhinho
aborrece-me de morte
vou ler o jornal.
Vilar do Pinheiro, 14.12.2008
AOS PARTIDOS
É indiferente impor uma opinião ao rebanho ou permitir-lhe cinco opiniões diferentes: quem discordar das cinco opiniões públicas e se puser à margem terá sempre contra si todo o rebanho. (Nietzsche)
AS PUTAS AO PODER

Olho triunfal para o vidro da confeitaria
e vejo os carros passar
as empregadas lavam a loiça e a roupa suja
como sempre o assunto
é o dinheiro e a falta dele
não me apetece pensar em dinheiro!
Apetece-me antes cavalgar a Bretanha
em busca do Santo Graal
apetece-me antes cortejar as damas bonitas
dar-lhes flores, poemas, diamantes
e claro sexo também
que isto de romantismos
tem os seus limites
não me apetece pensar em dinheiro
nem em coisas úteis
utilitarista que chegue já é o primeiro-ministro
esse cabrão cinzentão
sem coração
faz falta uma revolução como na Grécia
bancos pilhados
automóveis incendiados
faculdades ocupadas
ou nós ou eles!
Aqui o pessoal ainda não acordou
anda tudo à espera do Natal
talvez o menino Jesus vá ao cu ao Pai Natal
isto para não sermos pedófilos
se não dizíamos o verso ao contrário
ainda nos resta alguma moralidade
nada temos a ver com os cabrões
da Casa Pia
nem comemos criancinhas ao pequeno-almoço
nem ao almoço
nem ao jantar
também não somos gatunos
mas nada temos contra os ladrões de bancos
afinal de contas, os outros figurões
também andam a roubar
o Dias Loureiro, o Jardim Gonçalves,
o Teixeira Pinto
quem sabe se até o Cavaco
o mundo seria melhor sem presidentes
e sem governos
dos deputados nem se fala
esses quase nem põem lá os pés
as putas ao poder!
As putas ao poder
que os filhos já lá estão!
Vamos aí noite fora
convocar as putas da rua da Alegria à Trindade
organizar comícios e sovietes
o soviete da Alegria
o soviete da Trindade
e nos intervalos dá-se uma foda
estas, ao menos, não são difíceis
as putas ao poder!
Mobilizem-se também os bêbados e os mendigos
dê-se-lhes de comer e de beber
organizem-se banquetes pela cidade
estamos próximos da "República" de Platão
é claro que Platão era um defensor
da ética, da harmonia e da ordem
e nós não
nós só na etapa final
depois de passar o caos todo
depois de uns estrondos aqui e ali
é evidente que isto não é conversa para velhas
a juventude ouve-nos mais
talvez, por paradoxal que pareça, estejamos na moda
as velhas só falam de crimes hediondos com facas
coisas muito violentas para gajos pacíficos
como nós
tem piada que aos 20 e aos 30 poucos nos acompanhavam
e agora, aos 40, estamos na moda
tem piada que nunca liguei a essas merdas da moda
quando ia com as gajas às lojas de roupa
e elas me perguntavam qual era o vestido
ou a camisola de que gostava mais
eu dizia sempre o amarelo ou o vermelho
só para as satisfazer
pronto, a velha estragou tudo
agora fala de suícidios
lá se foi a boa disposição
lembro-me da Gotucha na Madeira
já não me liga desde que arranjou namorado
a rádio passa uma música melada
já não me apetece estudar alemão.
Vilar do Pinheiro, "Motina", 13.12.2008
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