sábado, 6 de dezembro de 2008

Há gente que faz pela vida, que circula e que se agarra à caixa registadora como o Arlindo. Há outra gente como eu que vai andando por aí, que mete uns livros na tola, que não se preocupa com o amanhã. Entre uns e outros é possível alguma simpatia, alguma amabilidade de viagem, nada mais.

HAKIM BEY E NIETZSCHE


A TARDE 26/07/2003 - Cultural
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Filosofia
HAKIM BEY/NIETZSCHE

A odisséia do Caos

Pérsio Menezes

Eu vos digo: é preciso ainda ter caos dentro de si, para dar a luz a uma estrela
bailarina". Esta é uma das passagens mais famosas da obra de Nietzsche. Citada
exaustivamente nos contextos mais inesperados. No entanto, continua, toda vez
que é repetida, a transmitir a beleza e a precisão com os quais a idéia foi
exposta. Nietzsche chegou a afirmar certa vez que as primeiras pessoas que
poderiam compreender verdadeiramente sua obra só apareceriam por volta da virada
do século XXI.

Saber desta declaração faz perguntar-se se a escolha da música Assim Falou
Zaratustra, de Strauss, para as cenas iniciais do filme 2001 Uma Odisséia no
Espaço, de Stanley Kubrick, foi proposital neste sentido. O fato é que passamos
a virada do século e circulam pela Internet uma série de textos assinados pelo
pseudônimo Hakim Bey, que estão aglutinando em torno de si os aspirantes ao que
Nietzsche chamava de "espíritos livres".

A autoria destes textos, no entanto, não é certa: a revista Time tentou
entrevistar Bey e não o localizou. Cogita-se que ele seja o autor Peter Lamborn
Wilson, mas não há certeza. O pseudônimo tem um aposto: Profeta do Caos. A
editora Conrad lançou agora o segundo livro do tal profeta: Caos - Terrorismo
Poético e Outros Crimes Exemplares. O livro reúne escritos que vêm publicados e
reproduzidos em diversos sítios da Internet, em inglês, desde meados da década
de 90, e têm recebido cada vez mais audiência e comentários tanto por parte do
meio acadêmico (principalmente nos campos ligados à cibercultura e nos círculos
dos chamados estudos culturais), da cultura pop de uma maneira geral, da mídia
alternativa e da parte mais cool da mídia mainstream.

Os escritos de Bey ecoam fontes heterogêneas - e não são poucas: Artaud,
Bakunin, Khayyam, os poetas beatnik, Rumi, Rabelais, Burton, o situacionismo,
etc -, mas entre todas, com certeza a mais proeminente é Nietzsche. Abundam
referências explícitas ou sutis ao autor de Além do Bem e do Mal. E mais: um dos
pontos mais fortes do pensamento de Bey é a apropriação dele da idéia de moral
do filósofo alemão, como explicita nesta passagem:

"O super-homem nietzschiano, se existisse, teria de compartilhar, até certo
grau, desta criminalidade, mesmo se superasse todas as suas obsessões e
compulsões, simplesmente porque sua lei nunca poderia concordar com a lei das
massas, do Estado e da sociedade. Sua necessidade de guerra (seja literal ou
metafórica) poderia até mesmo persuadi-lo a participar da revolta, tenha ela
assumido a forma de insurreição ou apenas de uma boemia orgulhosa".

Um dos melhores textos do livro tem como título Nietzsche e os Devirxes, no qual
a comparação com os místicos sufis sintetiza e amplifica alguns pontos do
pensamento de Nietzsche: "Uma pessoa precisa provar (para si mesma e não para
alguém mais) sua capacidade de romper com as regras do rebanho, de fazer sua
própria lei e ainda assim não cair presa do rancor e do ressentimento próprios
das almas inferiores que definem a lei e os costumes em qualquer sociedade".

RETÓRICA AFIADA - A partir desta apologia do indivíduo, Bey vai desconstruindo,
com retórica afiada, várias das máximas que compõem o panteão de idéias dos
pretensamente revolucionários, mas que são na verdade apenas reformuladores de
leis: "A pessoa precisa (...) de uma estupidez inerte contra a qual possa medir
seu movimento e inteligência".

Outro ponto de estreitamento entre as palavras de Nietzsche e as de Bey é a
recorrente citação (em Bey) do nome de Hassan-i-Sabbah. Trata-se do líder da
seita místico-política Hashishins, que atuou na Pérsia por volta do século XII
trabalhando com o objetivo de minar o poder imperial. O lema da seita é o famoso
"nada é verdadeiro, tudo é permitido". Nietzsche trata dele no parágrafo 24 da
terceira dissertação de Genealogia da Moral, mas a seita de Sabbah aparece como
a síntese da idéia nietzschiana de moral, os espíritos livres por excelência.
Nos anos 60, os beatniks William Burroughs e Brian Gysin deram fama a Sabbah ao
associar o lema da seita à percepção de realidades múltiplas proporcionada pela
ingestão de substâncias psicotrópicas, traço que marcou a contracultura desde
então. Bey tem dupla ligação com Sabbah: além de síntese das idéias dos
precursores, Bey o toma como um expoente da cultura moura, à qual se alinha.

Ao tratar de Sabbah, Bey sempre adquire um tom poético: "Ao cair da noite,
Hassan-I-Sabbah, como lobo civilizado de turbante, debruça-se no parapeito e
contempla o céu, estudando pequenos asterismos de heresia no ar seco e sem rumo
do deserto". Nietzsche também fazia da expressão parte integrante das mensagens.
Não há como expressar novos pensamentos com frases velhas. E é justamente nos
trechos em que Bey aproxima a prosa da lírica da poesia que sua forma mais se
aproxima da de Nietzsche:

"Dar voltas sem destino na velha picape, pescar e coletar alimentos, deitar na
sombra lendo quadrinhos e comendo uvas - essa é nossa Economia. A realidade das
coisas quando libertas da Lei, cada molécula uma orquídea, cada átomo, uma
pérola para a consciência alerta - esse é nosso culto. O Airstream tem tapetes
persas em todas as paredes, a grama está cheia de ervas satisfeitas". Compare-se
com esta passagem do prólogo de Ecce Homo: "Os figos caem das árvores, são bons
e doces: e ao caírem rasgam-se sua pele rubra. Um vento do norte sou para os
figos maduros. Assim como os figos vos caem esses ensinamentos, meus amigos:
bebei seu sumo e sua doce polpa! E outono em torno e puro o céu da tarde".

Além da afinidade de idéias, de determinados temas em comum e dos pontos de
aproximação da forma, ambos são pensadores cujas obras dão margem a uma série de
interpretações contraditórias. Eles não aspiram produzir opiniões bem
fundamentadas e ponderadas. Antes, eles são uma máquina para despertar a
reflexão.

DESPERTAR O MAINSTREAM - Para ler Bey, é necessário aceitar que em um momento
ele deseja colocar o pescoço em risco somente para quebrar os hábitos
instaurados, como propõe em Terrorismo Poético (também para divertir-se, é bem
verdade) e num momento seguinte ele despreze quaisquer tipos de manifestações
revolucionárias. Naquele texto ele sugestiona a ação de uma série de
intervenções culturais na sociedade, no formato dos happenings, do teatro dos
anos 60/70, e outros tipos de "chistes" para chocar e despertar as pessoas do
senso comum:

"Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não
satisfazerem sua necessidade de indolência e beleza espiritual" ou ainda:
"Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda". Já em
Nietzsche e os Devirxes, ele diz: "(...) esse espírito livre teria desdenhado
perder tempo com agitações para reformas, com protestos, com sonhos visionários,
com todo tipo de "martírio revolucionário" (...).

SOBRE O CAOS - Porém, a despeito de todo o prestígio e veneração que Bey concede
a Nietzsche, há uma divergência que os separa: a própria idéia de caos, que
aparece como o laço de união entre todos os textos desta coletânea. Para o
pensamento aristocrata de Nietzsche, o caos é uma inquietação, uma busca por
algo que nem se sabe exatamente o que é, mas sempre caracterizado, marcado e
determinado pela necessidade de auto-superação, como nesta passagem de Ecce
Homo:

"Hierarquia das faculdades; distância; a arte de separar sem incompatibilizar;
nada de misturar, nada de conciliar; uma imensa multiplicidade que, no entanto,
é contrária ao caos - esta foi a precondição, a longa e secreta lavra e arte do
meu instinto" (note-se que ele usou a palavra multiplicidade para designar a
mesma idéia que na passagem da estrela bailarina ele chama de caos, e usou a
palavra caos no sentido de desorganização, algo a ser evitado).

Já em Bey, a idéia de caos aproxima do niilismo dos poetas beatnik, mais
precisamente ao niilismo iconoclasta de Willian Burroughs. No texto Teoria do
Caos e a família Nuclear, Bey torna-se um outsider, no melhor estilo Ginsberg, a
observar crianças num parque, até o momento que troca olhares com um menino que
capta o que ele descreve como o cheiro do tempo, liberto de todas as amarras da
escola, das lições de música, dos acampamentos de férias, das noites familiares
ao redor da TV, dos domingos no parque com papai - tempo autêntico, tempo
caótico. "Nietzsche não desejaria libertar o menino das tarefas de casa e das
aulas de música. Ele acredita que a auto-superação passa pelo aprendizado de
obedecer a si próprio e coloca na autodisciplina este conhecimento.

Esta tradução editada pela Conrad já tinha sido publicada no site
www.baderna.org (Baderna é o selo da editora para livros na área da
contracultura). Com o lançamento do livro, foram retirados, provavelmente por
razões comerciais. É impressionante o poder que a indústria tem de apropriar-se
dos elementos mais proscritos. Em determinado momento, Bey diz: "(este livro)
não abana o rabo e não grunhe, mas morde e estraga a mobília. Ele não tem um
número ISBN e não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos". A
despeito do enorme serviço à cultura que a Conrad presta ao publicar Caos, o
ISBN de Caos é 85-97193-93-7.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

CONSIDERAÇÕES METAFÍSICAS ACERCA DE UMA TOSTA-MISTA


Sento-me na confeitaria
e a palavra não sai
penso em reis, criadores, artistas
naqueles que andam na corda-bamba
e entra um homem que insulta o mundo
e que pede uma tosta-mista
de que magia se faz o poema?

A D. Rosa dormita diante da folha de papel
porque raio será que isto tem de ter uma lógica?
Deveríamos passar a vida a dançar
a fazer coisas sem sentido e sem objectivo
a D. Rosa escreve um poema
medita longamente
mas a coisa lá vai saindo
que ganho eu com isto,
para além de umas presumíveis palmas
no Púcaros e noutros tascos?
Que é isto senão a arte pela arte,
a criatividade pela criatividade?
O homem come a tosta-mista
e a D. Rosa escreve o poema
cisma
demora uma eternidade
e a coisa começa a dar-me gozo
o gozo com que o homem
devora a tosta-mista
e paga
o dinheiro circula
das mãos de uns para a caixa registadora
de outros
será isto a vida?
A D. Rosa levanta-se
também dá dinheiro para a caixa registadora
a caixa registadora é sagrada
todos se lhe dirigem
e prestam vassalagem

De repente, as pessoas soltam a língua
falam de casas, dos tubos entupidos,
do 2º andar
e das paredes que rebentam
a coisa torna-se violenta
apesar das iluminações natalícias
começam a dissertar acerca da pobreza,
dos pobres de juízo, da Maria Badalhoca
aprende-se muito por estas bandas

Levanto-me
também eu presto vassalagem
à caixa registadora.

A. Pedro Ribeiro, "Motina", 4.12.2008
Este exercício de escrever todos os dias. Chegar à confeitaria e pegar no caderno e na caneta. Há pessoas que nos cumprimentam afectuosamente. Há mulheres que nos excitam. As gajas boas gostam do que escrevo. É um facto. Escrever é um acto erótico, responde a pulsões eróticas. Escrever é um prazer. Como o outro que conta as rifas com volúpia.

A SOCIEDADE DO DINHEIRO




Qual é o sentido da vida? Não há Deus nem deuses, apenas o Homem. Que sentido há em estar sempre atrás do dinheiro? Que sentido há em estar sempre atrás da bola? O que é que isso tem de belo, de bom, de transcendente? A vida não pode ser isso! A vida é a volúpia, o prazer, a alegria, o amor, a criação, a celebração. A vida é a conquista da felicidade. Não podemos ser felizes se andamos sempre a fazer contas, não podemos ser felizes se somos escravos do dinheiro, da bola, do que quer que seja. O capitalismo e o mercantilismo são inimigos da liberdade e da felicidade. O capitalismo e a sociedade do dinheiro condenam o homem ao tédio e à depressão. O capitalismo e a sociedade do dinheiro castram os instintos vitais. O capitalismo e a sociedade do dinheiro são a morte. O capitalismo e a sociedade do dinheiro transformam tudo em merda. É com a nossa vida que eles jogam. É a nossa vida que eles destroem. É da nossa vida que vos falo. É a nossa vida que eles nos tiram.

DO LADO DA VIDA












Não vim ao mundo para ganhar dinheiro. Vim ao mundo para criar, para passar a mensagem. Aliás, o dinheiro, a economia, a sobrevivência matam-me. A economia e o dinheiro reduzem o homem às suas pulsões mais baixas, mais estúpidas, mais mesquinhas. Os economistas são os profetas da morte, do cálculo mesquinho, da vidinha. É uma vida contrária à alegria, à exuberância, às pulsões vitais aquele que nos vendem. O Deus-dinheiro mata a vida. O Deus-dinheiro é inimigo do amor, da emoção, da criação, da liberdade. Reduz tudo a cálculos mesquinhos, à lei absurda e fascista do mercado. Tudo se compra, tudo se vende. É esta a lei dos economistas. Eles e o Deus-dinheiro intrometem-se em tudo, no mais ínfimo pormenor da nossa vida. O Deus-dinheiro é a morte! É absurdo ser comandado pela morte. Não me venham falar em realismo! O homem deveria poder desenvolver as suas potencialidades criadoras sem pensar no dinheiro, sem pensar na morte. Não me peçam para contar o dinheiro. Não faço contas. Recuso-me a fazer contas. Estou do lado da vida.



Leio Platão enquanto mico o cu da gaja boa do lado. Os quiosques estão cheios de gajas boas nas capas das revistas a exibirem-se para nós. Parece que estão ali ao nosso alcance, à mão de semear mas não estão. É a sociedade-espectáculo onde somos meros espectadores, observamos a coisa mas a coisa é, ao mesmo tempo, inacessível, virtual.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O MENINO


Bem diz a Cláudia que eu sou muito mais assertivo a escrever do que a falar. A falar enrolo tudo, tropeço nas palavras, fico mole ou amável em demasia. Mesmo depois de ler Nietzsche não consigo expressar o entusiasmo que a leitura me causa. E nietzsche é uma pedra. São muitas pedras. E dá-nos a volta à cabeça, uma vez mais. And now I'm so alone, just looking for a home in every place I see, I' m the freedom man, that's how lucky I am. Sou o homem da liberdade, tal é a minha sorte, canta o Morrison. É inevitável. Volto sempre a Morrison e a Nietzsche. Foram os dois gajos que mais voltas me deram à cabeça. E continuam a dar. E umas gajas boas transportam as bandeiras do futebol. E os polícias controlam o café. Só os loucos atingem a divindade da vida, dizia Nietzsche. É preciso ser louco, louco divino como os poetas, como Morrison, como Nietzsche. É preciso celebrar a loucura. E os polícias bebem cerveja. Agora que a Cláudia partiu nada me resta senão a loucura. A loucura no meio dos alinhadinhos, dos normaizinhos. Posso não manifestá-la, mas ela está dentro de mim. E também a divindade. Posso não manifestá-la agora mas ela está cá e opõe-se à lógica dos negócios, da compra e venda, da moeda. O que roça o divino é a dádiva, a bondade, não a troca mercantil. A dádiva pela dádiva, o bem pelo bem, como dizia Sócrates e não o ficar à espera da recompensa no além como os cristãos. O céu só pode estar aqui, tal como o inferno. O céu está aqui no sorriso do inglês que me sorri sem razão aparente. O céu está nas atitudes desinteressadas, o céu está no bem, na bondade, no amor. Sócrates dizia que o amor é um gajo que anda esfarrapado. Um gajo esfarrapado, sem eira nem beira, sem direcção definida, como eu, neste momento. Neste mundo não podemos ser dóceis para toda a gente, não podemos ser carneiros, camelos, temos de ser a vontade, temos de rugir "eu quero!" como os leões. Temos de chegar ao menino, à criança sábia que joga e que ama.

1ª escrita em Geneve, Suiça


Sou o que sou. Fico calado. Nada encontro para dizer. Ainda não é a depressão. Mas podem ser os sinais. Não era suposto estar com estas questões numa estadia na Suiça.
Sou o que sou. Fico calado. Se estivesse com amigas e amigos seria diferente. Sou o que sou. Fico atado. É o álcool que falta. Poderia falar da catedral, da cidade velha, como aqueles que dizem maravilhas das suas viagens quando regressam. É porreiro. É interessante. Mas preferia apanhar uma bela bebedeira. Sou o que sou. Esteja onde estiver. E a palavra não sai. Mesmo sem estar deprimido. Para brilhar preciso do palco. Sou o que sou. Fico calado. Penso até que me torno chato. Ouves, ó poeta maldito? Já não és o deus que tanto apregoavas. Já não estás em cima e tens problemas de auto-estima. Não é por estares na Suiça que escreves de maneira diferente. Não é por estares na Suíça que te tornas outro. A verdade é que te estás a tornar tremendamente chato e maçador. Não é com esta conversa que engatas as gajas. Sou o que sou. Fico calado. Digo cinco frases por dia. Não entro nas conversas. Aos gajos e às gajas que me admiram peço desculpa.

Geneve, 22.11.2008

sábado, 29 de novembro de 2008

POETA DE CAFÉ












Sim, sou um poeta de café. Só consigo escrever no café. Muito raramente escrevo em casa. Ir ao café não é só tomar café. Estar no café é observar as coisas, as pessoas, encontrar amigos e conhecidos e alguns chatos que nos vêm foder a cabeça. É ler e criar, trabalhar até. Faço do café o meu escritório. Estar no café é estar só, é tocar a vida (à falta de gajas que se deixem apalpar...). Estar no café é olhar para as gajas, oferecer-lhes poemas, flores, fazer-lhes declarações de amor, desejá-las. Estar no café é olhar para os bêbados. Invejar-lhes a coerência. Beber copos também. Apanhar borracheiras quando há cacau ou quando alguém paga. Estar no café é ouvir a conversa dos empregados e das empregadas que dizem aquelas coisas óbvias do senso comum como, por exemplo, que a vida não está fácil para ninguém mas que não se pode estar parado. Parar é morrer- já dizia o outro. Mas estar no café também é estar parado e cumprimentar a D. Rosa que nos saúda afectuosamente, religiosamente. Estar no café é ouvir os U2, que tocam "With or Without You" e nos fazem pensar na gaja. Se não permanecesse tanto tempo nos cafés seria outro que não sou. Herdei a coisa do meu pai. Sim, sou definitivamente um poeta de café e até um revolucionário de café, com todo o gosto. Aliás, não compreendo bem os poetas e os revolucionários que não vão ao café.

Inspirado na tertúlia das Quartas Mal Ditas no Clube Literário do Porto sobre os cafés com Manuel António Pina e Tomás Magalhães Carneiro (revista "Um Café"), organizada por Anthero Monteiro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

OS BANQUEIROS PROVOCAM A CRISE E DEPOIS RECEBEM O CACAU E AS BENESSES DO ESTADO


Ministério das Finanças
Governo aprova concessão de garantia ao BES e à CGD
27.11.2008 - 20h27
Por PÚBLICO
Daniel Rocha (arquivo)

O anúncio foi feito em comunicado no site da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários
O Ministério das Finanças deu hoje luz verde à concessão de garantias ao Banco Espírito Santo (BES), no valor de 1,5 mil milhões de euros, com prazo de três anos, e à Caixa Geral de Depósitos (CGD), no valor de dois mil milhões de euros, pelo mesmo prazo.

O anúncio foi feito em comunicado no site da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). O pedido do BES visa o “cumprimento das obrigações de capital e de juros no âmbito de um empréstimo obrigacionista”. Já a CGD não definiu, ainda, prazos ou formas específicas de utilização da garantia.

"Na sequência do comunicado emitido em 24 de Outubro de 2008, o Banco Espírito Santo, S.A. informa ter sido hoje notificado do Despacho n.º 1024/08-SETF, do Senhor Secretário de Estado do Tesouro e Finanças e ainda não publicado em Diário da República, que autoriza a concessão da garantia pessoal do Estado para cumprimento das obrigações de capital e de juros no âmbito de um empréstimo obrigacionista a emitir pelo BES, no montante de até Euro1.500.000.000,00, com prazo de 3 anos", refere o comunicado do BES à entidade reguladora. Desta forma, o BES poderá obter financiamentos no mercado interbancário internacional com a garantia do Estado português.

Também em comunicado divulgado no site da CMVM "vem a Caixa Geral de Depósitos, S.A. divulgar que o pedido de concessão de garantia pessoal dirigido por este banco ao Estado Português, no âmbito da Lei 60-A/2008, de 20 de Outubro, e da Portaria 1219-A/2008, de 23 de Outubro de 2008, foi decidido favoravelmente. O Despacho n.º 30830- A/2008 do Secretário de Estado do Tesouro e Finanças, que autoriza a concessão da garantia para um montante máximo de 2 mil milhões de euros, encontra-se publicado no Diário da República, 2ª série - N.º 231, de 27 Novembro de 2008". A Caixa poderá assim contrair empréstimos no mercado interbancário com a garantia do Estado português, o que facilita a obtenção de financiamento.

www.publico.clix.pt

OUTRA VEZ O ROCHA

Regresso ao "Piolho"
e o empregado atira-me o fino
com afectividade
o Rocha tarda mas vem
as palavras fluem
e os diálogos tornam-se fáceis
às vezes preciso de aquecer os motores
durante uns dias
para depois rebentar
e o Rocha tarda mas ainda vem
e veio mesmo
e assim acaba o poema.

A CRISE NAS PUTAS

A crise também chegou às putas. Agora só levam 15 euros para ir ao quarto e cinco por um broche no parque automóvel. Dei 50 cêntimos a uma que era alta e bonita e fiz-lhe uma festa. Falou-me da filha, do dinheiro que não tinha para o autocarro, que queria muito ir ter com a filha, do frio, que só fazia mais um homem hoje. Se tivesse dinheiro ia com ela. As gajas estudantes gritam que querem foder a toda a hora. É só conversa fiada. Ao menos as putas assumem-se e chamam-nos à distância. E esta era bem bonita. Nunca mais me esquecerei dela.

ESSA É QUE É ESSA

Portugueses estão entre os europeus que mais desconfiam do próximo, revela inquérito
27.11.2008 - 10h46 Lusa
Portugal é um dos países europeus onde os cidadãos menos confiam nos outros, revelam os resultados do Inquérito Social Europeu, um projecto que desde 2001 estuda e compara os valores e atitudes sociais na Europa. Os portugueses são ainda dos europeus mais tristes e descontentes com a política.

Em Portugal, a realização do inquérito é assegurada por um consórcio constituído pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). A terceira fase do estudo, iniciada em 2006, é hoje apresentada no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e tem duas temáticas principais: os tempos de vida e o bem-estar na Europa.

A partir de entrevistas face-a-face realizadas em casa de 2222 portugueses, entre Outubro de 2006 e Fevereiro de 2007, o ESS III (na sigla em inglês) conclui que "desde 2002 que Portugal faz parte do grupo de países com menores níveis de confiança" e que apresenta sempre "níveis de confiança abaixo do ponto médio da escala", tal como a Polónia, a Hungria e a Eslovénia.

O trabalho, coordenado em Portugal pelo professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Jorge Vala, procedeu a "uma análise longitudinal (2002 até 2006) dos padrões de confiança interpessoal em 17 países europeus, procurando aferir variações nos níveis de confiança e identificar antecedentes e consequentes da confiança interpessoal".

Os resultados relativos à confiança interpessoal foram obtidos a partir das respostas às questões: "de uma forma geral, acha que todo o cuidado é pouco quando se lida com pessoas ou acha que se pode confiar na maioria das pessoas?"; "acha que a maior parte das pessoas tentam aproveitar-se de si sempre que podem, ou pensa que a maior parte das pessoas são honestas?" e "acha que, na maior parte das vezes, as pessoas estão preocupadas com elas próprias ou acha que tentam ajudar os outros?".

Tal como os portugueses, também os polacos, húngaros e eslovenos tendem a desconfiar da honestidade dos outros, ao contrário dos nórdicos. Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca são os países com os níveis mais elevados de confiança entre as pessoas.

Num nível intermédio, estão Espanha, França, Bélgica, Áustria, Reino Unido, Holanda, Suíça e Irlanda, que completam os 17 países europeus que participaram em todos os três momentos de inquirição do ESS: 2002, 2004 e 2006.

Os autores do estudo associam a grande desconfiança interpessoal a uma "baixa interajuda e associativismo que é frequente verificar na nossa sociedade".

A confiança no futuro também tem níveis baixos em Portugal. "Os resultados mostram que os inquiridos portugueses evidenciam uma confiança no futuro mais baixa do que aquela que se verifica em média nos países com um PIB (Produto Interno Bruto) inferior", indicam.

No que diz respeito à confiança nas instituições, os portugueses manifestaram uma confiança maior do que a reportada por países com PIB inferior, mas, mesmo assim, muito abaixo de estados com uma produção de riqueza média.

"De um modo geral, a baixa confiança interpessoal e a baixa confiança no futuro podem ser fruto da baixa confiança depositada nas instituições, uma vez que estas possuem um papel referencial das relações que se estabelecem em sociedade", concluem.

Sair tarde do ninho

Segundo este Inquérito Social Europeu , os portugueses são também os europeus que começam a trabalhar mais cedo, mas estão entre os que saem mais tarde de casa dos pais.

"Portugal é o país onde, em média, a primeira experiência laboral acontece mais cedo, em torno dos 17,7 anos", revela o estudo que conclui que as "entradas no mercado de trabalho mais precoces não se traduzem, no entanto, em imediata transição residencial".

Em Portugal, a saída de casa dos pais só ocorre, em média, quatro anos depois da primeira experiência laboral, ou seja, aos 21 anos.

A idade para a entrada no mercado de trabalho em Portugal está muito perto da média do que acontece na Alemanha e na Suíça - ligeiramente abaixo dos 18 anos -, mas no extremo oposto de países com sistemas de ensino obrigatório mais longos e consolidados há mais tempo, como a Estónia, a Eslovénia e a Bulgária, onde o primeiro emprego só aparece depois dos 20 anos de idade.

"Já na Bulgária ou no Chipre, à entrada no mercado de trabalho, apesar de tardia, sucede a independência da casa parental, não chegando a um ano o intervalo que medeia essas transições", refere o estudo desenvolvido em países comunitários e não-comunitários.

A Estónia é o único país onde esta transição é "invertida", ou seja, o abandono da casa dos pais acontece mesmo antes da entrada no mercado de trabalho.

Nos países nórdicos como a Noruega, a Dinamarca e a Suécia, as experiências de entrada no mercado de trabalho e de saída de casa dos pais tendem a ser praticamente simultâneas, sendo estes os países onde a independência residencial tende a ocorrer mais cedo na Europa, dentro da casa dos 19 anos.

Ainda no capítulo "Os Tempos de Vida", o inquérito revela que os portugueses esperam, em média, dois anos depois da saída de casa dos pais para a primeira experiência de conjugalidade, que na maior parte dos casos coincide com o primeiro casamento.

Mas se os portugueses avançam decididamente para o casamento, o mesmo já não acontece com a constituição de família. Segundo o estudo, Portugal, Holanda e Bélgica são "os países onde os inquiridos revelam mais tempo a tomar a decisão de ter o primeiro filho, depois de consagrado o casamento formal".

No caso dos países nórdicos, ao contrário, a transição do primeiro casamento para o primeiro filho é "justaposta, revelando que o casamento, quando acontece, tende a estar associado à constituição de uma família, depois de um período de experimentação conjugal a dois".

No que diz respeito à importância atribuída a cada um dos marcadores do "tempo de vida" para que se seja considerado adulto, a autonomia residencial é o mais valorizado nos países nórdicos, ao passo que em Portugal é o primeiro filho.

O estudo procurou também descobrir até que ponto se continuam a apontar idades ideais para casar, ter filhos ou sair de casa dos pais.

"Genericamente, ter relações sexuais antes dos 16 anos, viver com um parceiro antes dos 18 ou ter um filho antes dos 20 constituem eventos normativamente transgressores face ao padrão aceitável de ciclo de vida", refere.

No entanto, há marcos de vida que para os europeus não estão associados a qualquer idade ideal, como a entrada na conjugalidade ou a saída de casa dos pais.

Mas para a maioria dos portugueses, só é aceitável continuar a viver em casa dos pais até aos 30 anos idade.

Os mais tristes com a vida...

Os portugueses estão ainda entre os europeus que manifestam menor satisfação com a vida e felicidade, de acordo com este Inquérito Social Europeu de 2006.

Comparando com os resultados de inquéritos semelhantes realizados em 23 países europeus, Portugal ocupa "o quinto lugar mais baixo em bem-estar subjectivo, isto é, em felicidade e satisfação com a vida", revela.

Além do bem-estar subjectivo - que compreende avaliações acerca do grau de agradibilidade da vida -, o inquérito debruça-se igualmente sobre o bem-estar psicológico dos europeus, entendido como a visão mais profunda da qualidade de vida e o bem-estar social, equivalente à qualidade do funcionamento pessoal ao nível das relações com os outros e com a sociedade.

No que diz respeito ao bem-estar psicológico, Portugal está também abaixo da média europeia, ocupando o 16º lugar, entre 23, só à frente da Hungria, Federação Russa, Estónia, Eslováquia, Bulgária, Polónia e Ucrânia, que encerra a tabela.

No capítulo do bem-estar social, a posição portuguesa também não é brilhante. Numa tabela liderada pela Noruega, Portugal ocupa o 17º lugar, à frente da França, Rússia, Polónia, Ucrânia e Bulgária.

Os autores relacionam estes valores com o nível de desenvolvimento do país. "De facto, quanto maior o nível de desenvolvimento avaliado pelo índice de desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2007, maior o bem-estar subjectivo, psicológico e social", referem no estudo.

...e com a política

Os cidadãos portugueses estão também descontentes com a qualidade da democracia. Segundo o ESS só os russos, húngaros, ucranianos e búlgaros estão mais descontentes que os portugueses com o funcionamento da democracia e politicamente mais desinteressados. No extremo oposto encontram-se a Dinamarca, a Suíça e a Finlândia.

Estes resultados são semelhantes aos alcançados em edições anteriores do inquérito que é desenvolvido desde 2001 e mereceu em 2005 o prémio Descartes para a Investigação.

"É interessante constatar que a participação cívica e política está fortemente associada com todas as dimensões do bem-estar: os indivíduos com maiores índices de confiança interpessoal, interesse político, envolvimento comunitário e participação em actividades políticas e mais satisfeitos com a qualidade da democracia são também os que expressam maior bem-estar social, subjectivo e psicológico", referem os autores do estudo.

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HINO AO BÊBADO


O HINO AO BÊBADO

O bêbado na confeitaria
pergunta ao senhor Carneiro
quantas vezes foi à lua

Esta tirada é um achado
verdadeiramente genial
diria o Jaime Lousa
que também se embebedava
muitas vezes
Os bêbados são muito mais interessantes
do que os sóbrios
a vida dos sóbrios é, muitas vezes,
absolutamente insípida, sisuda, previsível
já Baudelaire dizia que deveríamos
estar sempre embriagados
Os bêbados cantam, riem e discursam
e fazem os outros rir
Hoje só não apanho uma bebedeira
porque vomitei no avião
vim há pouco da Suiça
e lá há bêbados como aqui
e o bêbado continua a discursar
pode ser que lhe saia outra tirada genial
e o bêbado volta a cantar
o patrão começa a irritar-se
os bêbados cantam e os patrões irritam-se
é uma cena que vem da antiguidade
há-de haver sempre bêbados e patrões
a menos que os cafés passem a ser
auto-geridos pelos bêbados
o que até nem era má ideia
olha, alliás, todos os negócios deveriam
ser geridos por bêbados
e era a festa completa
Agora o homem fala do Cavaco
temos discurso à nação
um bêbado à presidência da República!
um bêbado a primeiro-ministro!
O homem até fala que é preciso sentido de Estado
e civismo
o homem está a preparar a candidatura
a disparar à esquerda e à direita
a piscar o olho ao eleitorado central
um bêbado à presidência
e acabava-se a crise

Álcool gratuito para toda a gente!
Uma cerveja para comemorar!



Porto, Boa Vida, 24.11.2008