A Internacional Situacionista (IS) foi fundada em 1958 e dissolvida em 1972 (o último número da revista do movimento, num total de doze edições, é de 1969). Fundada e dissolvida por Guy Debord, a Internacional Situacionista no período de sua existência, não reuniu mais que setenta membros. Desses, dezenove desligaram-se e quarenta e cinco foram expulsos (expulsos, obviamente, por Debord). Tal característica, a de pequeno grupo, atendia bem aos propósitos do movimento:
“a I.S. só poderá ser uma conspiração dos Iguais, um Estado - Maior que não quer tropas (...). Nós apenas organizamos o detonador; a livre explosão deverá subtrair-se-nos e subtrair-se também qualquer outro controle” (Revista Internacional Situacionista, n. 08, 1963 - in HENRIQUES, 1997: 11).
E qual foi o projeto político do situacionismo francês? A crítica radical da vida cotidiana no capitalismo. Da crítica da vida cotidiana propunha-se a desmontagem do capitalismo enquanto civilização (HENRIQUES, 1999: 15). E do cotidiano a disseminação revolucionária generalizada da autogestão conselhista, o único termo político possível para um cotidiano livre de suas formas reificadas.
A “sociedade - espetáculo” é o mundo das pseudo-necessidades, o mundo da economia do consumo, o mundo do espaço-tempo da “monotonia imóvel”, o mundo em que o viver tornou-se uma representação caricata da própria forma-mercadoria, enfim, o mundo em que o valor de troca das mercadorias acabou por dirigir o seu uso (DEBORD, 1997: 33) - a mercadoria como o centro absoluto da vida social (GOMBIN, 1972: 82). O movimento do ser para o ter, degradando-se ainda mais, no movimento do “parecer” ter (JAPPÉ, 1999: 19). Ou seja, o espetáculo é a afirmação ulterior de um outro momento da reificação social, a confirmação da “baixa tendencial do valor de uso”, em que a “fabricação ininterrupta de pseudo-necessidades” impõe a lógica da contemplação passiva sobre o todo social (DEBORD, 1997: 33-35). É preciso que se ressalve que os situacionistas não negam o consumo em si, mas a escolha condicionada das pseudo necessidades (GOMBIN, 1972: 83).
Se para Marx a vida social no capitalismo se reduz ao valor, à economia e suas leis, para Debord, o espetáculo absolutiza a economia à sua própria imagem e essa, tautologicamente, impõe a circularidade da imagem-mercadoria como a entificação do pseudo-desejo de consumo contemplativo da “geologia” mercantil, a mercadoria no seu auto-movimento aparece à sociedade como uma segunda natureza. Como afirma Debord: “O espetáculo estende a toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebeu como o do dinheiro: é ‘a vida do que está morto se movendo em si mesma’” (DEBORD, 1997: 138 -139).
domingo, 5 de fevereiro de 2006
Poema Dadaísta
Receita para fazer um poema dadaísta:
Pegue num jornal.
Pegue na tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida, com atenção, algumas palavras que formam esse artigo e mete-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que as palavras são tiradas do saco.
E assim temos um escritor infinitamente original e de sensibilidade fascinante, mesmo que incompreendido.
(Tristan Tzara)
Pegue num jornal.
Pegue na tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida, com atenção, algumas palavras que formam esse artigo e mete-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que as palavras são tiradas do saco.
E assim temos um escritor infinitamente original e de sensibilidade fascinante, mesmo que incompreendido.
(Tristan Tzara)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
Em Palco
Ser um e ser outro em cima do palco. A glória de mocrofone à frente e guitarra atrás. O aplauso. O transpor da fronteira.
Confeitaria
Os cafés da aldeia aborrecem-me. Falta-lhes a vida, o rodopio do "Piolho", da "Brasileira", do "Oceano". Se vens ler um livro ou escrever és logo olhado com desconfiança. Hoje pareço ter-me rendido à confeitaria. Ao menos tem uma menina bonita para se olhar. Como dizia o Pessoa as confeitarias ensinam mais que todas as religiões.
Os Anarquistas
Não chegam ao 1% e, no entanto, existem
a maior parte espanhóis, vá lá saber-se porquê
parece que em Espanha não os compreendem
os anarquistas.
Deram-lhes com tudo
bombas e granadas
têm o coração à frente
e os sonhos partidos
a alma roída pelas suas ideias malditas.
Não chegam a 1% e, no entanto, existem
a maioria filhos de nada
ou filhos de muito pouco
só são vistos quando se tem medo deles
os anarquistas.
Centenas de vezes morreram
por isto ou por aquilo
empunhando a força do amor
sobre a mesa ou no ar
com o semblante triste
que dá o sangue derramado.
Não chegam ao 1% e, no entanto, existem
e há que começar a dar patadas no cu
convém não esquecer que também sabem sair à rua
os anarquistas.
Agitam a bandeira negra
carregam a esperança
e têm a melancolia
de andar pela vida
canivetes para cortar
o pão da amizade
e as armas oxidadas para nunca esquecer.
Não chegam a 1% e existem
mantêm-se firmes e enlaçados pelos braços
estão contentes
e por isso seguem confiantes como sempre
os anarquistas.
(Léo Ferré)
a maior parte espanhóis, vá lá saber-se porquê
parece que em Espanha não os compreendem
os anarquistas.
Deram-lhes com tudo
bombas e granadas
têm o coração à frente
e os sonhos partidos
a alma roída pelas suas ideias malditas.
Não chegam a 1% e, no entanto, existem
a maioria filhos de nada
ou filhos de muito pouco
só são vistos quando se tem medo deles
os anarquistas.
Centenas de vezes morreram
por isto ou por aquilo
empunhando a força do amor
sobre a mesa ou no ar
com o semblante triste
que dá o sangue derramado.
Não chegam ao 1% e, no entanto, existem
e há que começar a dar patadas no cu
convém não esquecer que também sabem sair à rua
os anarquistas.
Agitam a bandeira negra
carregam a esperança
e têm a melancolia
de andar pela vida
canivetes para cortar
o pão da amizade
e as armas oxidadas para nunca esquecer.
Não chegam a 1% e existem
mantêm-se firmes e enlaçados pelos braços
estão contentes
e por isso seguem confiantes como sempre
os anarquistas.
(Léo Ferré)
terça-feira, 31 de janeiro de 2006
Futebol-Dada
O futebol dá de comer a 10 milhões de portugueses
o futebol comeu os portugueses
o futebol e os portugueses comeram-se
a velha comeu o interruptor
o interruptor interrompeu a refeição da velha no estádio do dragão
o dragão, a mando do interruptor, perseguiu 10 milhões de portugueses
a velha mordeu o futebol na orelha
os portugueses bateram palmas na televisão
os portugueses, o dragão e o interruptor jogam no euromilhões
a cabeça da velha foi atacada por milhões de formigas
as formigas vão ao futebol e aparecem na televisão
o cavaco seduziu os portugueses e aderiu ao dadaísmo
dada e o futebol colaram o cavaco ao interruptor
o televisor anda com dores intestinais
o futebol dá de comer
o dragão comeu a televisão.
o futebol comeu os portugueses
o futebol e os portugueses comeram-se
a velha comeu o interruptor
o interruptor interrompeu a refeição da velha no estádio do dragão
o dragão, a mando do interruptor, perseguiu 10 milhões de portugueses
a velha mordeu o futebol na orelha
os portugueses bateram palmas na televisão
os portugueses, o dragão e o interruptor jogam no euromilhões
a cabeça da velha foi atacada por milhões de formigas
as formigas vão ao futebol e aparecem na televisão
o cavaco seduziu os portugueses e aderiu ao dadaísmo
dada e o futebol colaram o cavaco ao interruptor
o televisor anda com dores intestinais
o futebol dá de comer
o dragão comeu a televisão.
Canção Dada
a canção de um dadaísta
que tinha dada no coração
cansava demasiado o seu motor
que tinha dada no coração
o elevador levava um rei
pesado frágil e autónomo
cortou o seu grande braço direito
e enviou-o ao papa em roma
(Tristan Tzara)
que tinha dada no coração
cansava demasiado o seu motor
que tinha dada no coração
o elevador levava um rei
pesado frágil e autónomo
cortou o seu grande braço direito
e enviou-o ao papa em roma
(Tristan Tzara)
sábado, 28 de janeiro de 2006
Jim Morrison
Antes de mergulhar
no grande sono
quero escutar
o grito da borboleta.
("When The Music's Over")
no grande sono
quero escutar
o grito da borboleta.
("When The Music's Over")
Nietzsche
O homem superior é um menino e um grande bailarino. O menino não tem preconceitos, joga apenas com a vida; quanto ao bailarino, faz do jogo um risco permanente, passeia-se pela corda-bamba do devir, faz da sua vida um contínuo experimentar-se de si mesmo.
terça-feira, 24 de janeiro de 2006
wc
w.h. cortou as veias no w.c. do palace hotel
tens de me apresentar a adília lopes
os críticos literários lembram o rui melro
tirei a paula do poema "minka"
substitui-a pela kátia
confesso que não estou a ser autêntico
mas estava a ser cruel para a miúda
também eu caio em lamechices
o artur cóia é o administrativo do jornal
o artur cocó é o intriguista profissional
w.h. contratou serafim morcela para jogar no benfica
cavaco silva afogou-se no w.c.
tens de me apresentar a adília lopes
os críticos literários lembram o rui melro
tirei a paula do poema "minka"
substitui-a pela kátia
confesso que não estou a ser autêntico
mas estava a ser cruel para a miúda
também eu caio em lamechices
o artur cóia é o administrativo do jornal
o artur cocó é o intriguista profissional
w.h. contratou serafim morcela para jogar no benfica
cavaco silva afogou-se no w.c.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2006
Cavaco
Cavaco ganhou por uma unha negra. O país é outro de Santarém para baixo. Apesar de tudo, a candidatura de Manuel Alegre foi uma pedrada no charco.
Heroína
Já não sei para onde vou
mas vou tentar chegar ao reino
se puder, porque me faz sentir um homem
quando injecto uma agulha na veia
então, digo-te, as coisas mudam de figura
quando vou lançado a correr
e me sinto filho de Jesus
e suponho que nem sequer sei
e suponho que nem sequer sei.
Lou Reed, "Heroin".
mas vou tentar chegar ao reino
se puder, porque me faz sentir um homem
quando injecto uma agulha na veia
então, digo-te, as coisas mudam de figura
quando vou lançado a correr
e me sinto filho de Jesus
e suponho que nem sequer sei
e suponho que nem sequer sei.
Lou Reed, "Heroin".
sábado, 21 de janeiro de 2006
O Sermão da Montanha
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
do outro lado das palavras do outro lado do tempo
Alguém há-de falar no meio do deserto
dizer o quando o como o para quê
´Não é possível que as tribos não se encontrem
não é possível que se percam sem sentido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém com doze tábuas e um poema
Não é possível ficar onde se está
despojados de luz despojados do ser
O deus que está em Delfos mandará o oráculo
a àgua que fala há-de falar de novo
Não é possível o homem tão perdido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém há-de gritar: deixa passar meu povo
Alguém com doze tábuas e um sentido.
Manuel Alegre, "Babilónia".
do outro lado das palavras do outro lado do tempo
Alguém há-de falar no meio do deserto
dizer o quando o como o para quê
´Não é possível que as tribos não se encontrem
não é possível que se percam sem sentido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém com doze tábuas e um poema
Não é possível ficar onde se está
despojados de luz despojados do ser
O deus que está em Delfos mandará o oráculo
a àgua que fala há-de falar de novo
Não é possível o homem tão perdido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém há-de gritar: deixa passar meu povo
Alguém com doze tábuas e um sentido.
Manuel Alegre, "Babilónia".
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
Ciclos
De novo
entregue a mim próprio
e aos meus versos
Os livros tardam a sair
tal como o raciocínio
a mulher na parede sorri
e o "Piolho" está em obras
Na memória
a verve fácil
a escrita automática
o frenesim do verão
tão distantes desta lentidão do gesto
desta paralisia dos sentidos
que me empurra para a cama
e para o tédio da TV
Malditos ciclos!
entregue a mim próprio
e aos meus versos
Os livros tardam a sair
tal como o raciocínio
a mulher na parede sorri
e o "Piolho" está em obras
Na memória
a verve fácil
a escrita automática
o frenesim do verão
tão distantes desta lentidão do gesto
desta paralisia dos sentidos
que me empurra para a cama
e para o tédio da TV
Malditos ciclos!
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