sexta-feira, 31 de outubro de 2008


O capitalismo é a negação do Homem. Só os espíritos livres dionisíacos que cantam e dançam o podem combater.

ESTRATÉGIA REVOLUCIONÁRIA


Escrevo e bebo. Volta a velha sina. Estou num café ao lado da sede do PCP e por isso vou falar de política. São legítimas as preocupações do PCP com os baixos salários, com a luta dos professores. Mas falta alguma coisa. Falta dizer que o capitalismo não serve. Há que dizer que as palavras mercado, dinheiro, investimento, empresário só por si metem nojo. Perante esta crise há que pôr tudo em causa. Há que questionar a mentalidade do proletariado e da pequena burguesia que tudo aceitam passivamente na vida quotidiana. Não chega exigir aumentos salariais. Há que ir mais além, muito mais além, questionar a essência do capitalismo: a avidez, a ganância, o lucro, a filha da putice. É impossível o homem ser pleno dentro deste sistema. Só a revolução, a revolução dionisíaca nos salvará.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

DYONISOS

Vem, Dyonisos,
vem reinar
entre as bacantes

Vem, Dyonisos,
traz-nos o vinho
e o prazer

Vem, Dyonisos,
afasta o tédio e a morte
faz da vida
uma festa permanente

Vem, Dyonisos,
atravessa os mares
atravessa os séculos
traz-nos os céus.

AEDO


O aedo chegou à cidade e proclamou:
-Ouvi, ó multidão! Deixastes-vos levar pelos profetas da morte! Sois os seus escravos! Fechai-vos em grupos, temeis o homem livre. Entretei-vos a intrujar o vosso semelhante, a passar por cima do vosso semelhante, a ir atrás do estatuto, do lucro, do sucesso! As vossas festas têm o sabor da morte, celebrais o dinheiro, o mercado, a opulência, não conheceis a diversão pura, não conheceis Dionisos que bebe sem pagar!
Uma voz na multidão:
- Quem és tu que te dizes juíz e profeta? Com que direito exibes a tua superioridade moral?
Aedo:
- Dizem que ando por cá há séculos, que de tempos a tempos desço à cidade para me dirigir à multidão. Habitualmente fico na montanha junto dos animais. Não venho pregar qualquer moral, só vos digo que estão de volta os tempos de Dionisos.
Uma voz na multidão:
-E que tempos são esses, ó poeta?
Aedo:
- A era do mercado está a dar as últimas. Começa a instalar-se o caos. A bolsa vai arder, os bancos serão pilhados, o dinheiro perderá o valor, todos os impérios vão cair. Poetas-profetas percorrerão as cidades a cantar o caos e o renascimento da humanidade perante gentes desesperadas. Virá então Dionisos entre as bacantes, subirá ao palco, cantará a canção. Aqueles que o seguirem serão criadores, espíritos livres e terão o Céu na Terra: uma vida de prazeres e delícias, nunca mais a vidinha previsível feita de tédio e rotina que vós levais.

A REVOLUÇÃO DIONISÍACA


Aqueles que tanto pregam a lógica, a racionalidade são os mesmos que nos impõem um sistema sem sentido que gira ao sabor das bolsas e dos mercados, entidades abstractas que obedecem a leis transcendentes sem lógica aparente, a não ser a própria rapina, o lucro, a especulação, a agiotagem. Aqueles que pregam o mercado são os mesmos que pregam a morte, ou seja, a vidinha quotidiana sem qualquer ponta de novidade que se reduz ao tédio, à rotina, à própria morte. A este estado de coisas opomos uma revolução dionisíaca, uma revolução sem dirigentes nem dirigidos, uma revolução que nasce do caos, que em boa parte prescinde da racionalidade, que vai ao espírito, ao Uno Primordial do Homem. Uma revolução que combate os grupos fechados, que age na vida quotidiana, que provoca esteticamente, que procura o Homem enquanto criador, enquanto poeta, que questiona o mundo do trabalho e do dinheiro. À morte opomos a vida, a vida autêntica, a busca do prazer não artificial, não consumista, o prazer criador, sem preconceitos. Os espíritos livres dionisíacos infiltram-se na sociedade de consumo e de mercado e combatem-na.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

ALAIN KRIVINE


Quebrando o ciclo infernal metro-trabalho-cama, as multidões anónimas que, na rua, no mercado ou na estação, se empurram e correm ignorando-se, bestas anónimas acotovelando-se para conseguirem lugar no metro, aperceberam-se de que caminhavam lado a lado sem se conhecerem mas que tinham na verdade uma quantidade de coisas a dizerem umas às outras. A rua desatou a falar e não se pode esquecer os grupos que aí ficavam noites inteiras a discutir; a boleia tornou-se um serviço natural- um lugar ocupado para quatro vazios passou a ser um absurdo. Embora isto fosse apenas uma amostra de revolução, já se respirava a liberdade, a libertação dos homens.
(Alain Krivine, "Questões Sobre a Revolução", pp. 104, Biblioteca Arcádia)

COM A REVOLUÇÃO NA MINHA MÃO


COM A REVOLUÇÃO NA MÃO

Saio do metro com a revolução na mão
os outros permanecem acorrentados ao regime
metro-trabalho-cama
A rapariga solta os cabelos
e torna-se sexy
O Soares e o Alegre falam da refundação da esquerda
tijolos parem montras
grupúsculos de hereges queimam dinheiro nas ruas

O xamã sobe ao palco
benvindos à celebração!

O foco existe na confeitaria “Motina”
Vilar do Pinheiro
Estrada Nacional 13, Km 13
Dizem que o Che Guevara se encontrou
com o Marquês de Sade
Dizem que as milícias revolucionárias
se coligaram com as bacantes
Dizem que as velhas olham desconfiadas
para a mesa do poeta
Eh, pá! O gajo lê tantos livros!
Um deles era vermelho e tinha inscrita a palavra “revolução”
outro tinha mulheres nuas
que indecência!
Deve ser pornográfico
O melhor é avisar o presidente da Junta
e a GNR
não vá a coisa propagar-se
não vá aparecer mais gente a ler livros vermelhos e pretos
e pornográficos
e a gente a pensar que aquilo era só para bater umas punhetas
Até andam para aí a dizer que o capitalismo vai acabar
por causa da crise
que vai ser de nós?
Vêm para aí os guerrilheiros da Colômbia
e esses gajos todos
parece que são machistas-leninistas e anarco não sei quê
li no “Jornal de Notícias”
Vêm para aqui corromper a nossa juventude
incitar ao deboche
Diz que aprenderam com um grego chamado Sócrates
mas não é o ainda primeiro-ministro
esse é um ingénuo
não sabe de nada
temos de ser nós a agir
Irmãs, a situação é altamente preocupante
Falam também de outro grego chamado Dionisos
parece que é um deus que faz concorrência a Deus Nosso Senhor
dizem que passa o dia a beber
- desconfiai dos bêbados, minhas irmãs-
e que canta aí numas bandas satânicas de garagem
e que vai dançar para a floresta
com as depravadas das bacantes
que aparecem nos sites pornográficos
- afastai-vos dos sites pornográficos, minhas irmãs-
dizem que se dá com um tal de Nietzsche
que diz que ficou maluco
e que decretou a morte de Deus Nosso Senhor
esse tal de Nietzsche joga às cartas com um tal de marquês
não sei de quê
que anda sempre a olhar para as gajas
e que deles é o pior de todos pois tem um pacto
com o Grande Satã
mas diz também que andam para aí outros hereges que dizem
que querem queimar o dinheiro
o nosso rico dinheirinho que tanto nos custou a ganhar
devem estar feitos com os do Rendimento Mínimo
essa corja que não quer trabalhar
são como os poetas
não trabalham
não sabem o que a vida custa
querem viver à custa dos outros e da Segurança Social
é o que é
passa-se a vida a trabalhar
para esses gandulos nos virem queimar o dinheiro
até dizem que Nosso Senhor Jesus Cristo não usava dinheiro
ai! Nosso Senhor!
Onde isto vai parar?

Posto isto, a D. Rosa entra na confeitaria
e dá-me as boas tardes.




A.Pedro Ribeiro
In “Queimai o Dinheiro!”

55 Horas de Poesia Non-Stop


Ler poesia durante 55 horas
11 OUT 02
Virados para o mar, com o ar fresco da noite, seis portugueses vão tentar entrar para o Guinness a ler poesia durante 55 horas. Uma iniciativa da Galeria Cais Arts, em Vila do Conde, que teve início às 17:00 e se prolonga até às 24:00 de dia 13 de Outubro.
Já começou em Vila do Conde a corrida para entrar no Guinness Book. Trata-se de uma corrida especial, que conta com a voz de seis pessoas que vão ler poesia durante 55 horas. A iniciativa é da Galeria Cais Arts, começou às 17:00 desta sexta-feira e termina dia 13, às 24.00.

A Galeria está situada em frente ao mar, um cenário aproveitado para iniciar esta «maratona de poesia», com a leitura dos pemas épicos de Luís Vaz de Camões e de Fernando Pessoa.

«Poesia até à morte» foi o nome escolhido para a iniciativa porque «vai ler-se até não se poder mais», explicou Ângelo Vaz, um dos declamadores, à TSF.

Entre os poetas, portugueses e estrangeiros, que vão ser declamados estão Manuel Alegre, Joaquim Castro Caldas, Agostinho da Silva, Mussa Ture, Pablo Neruda.

A Bíblia também vai ser lida neste evento, porque, segundo Ângelo Vaz, é uma obra «na qual se encontram situações poéticas».

Além de Ângelo Vaz, pintor e professor na escola de pintura Cais Arts, os outros declamadores são Inês Neiva, actriz de teatro, Pedro Ribeiro, jornalista da «Voz da Póvoa», José Nunes, escritor, César Ramos, participante em muitos saraus de poesia, Abraão Soares, escritor e barbeiro de profissão.

Meia hora antes do início do evento, e com os nervos a apertar, Ângelo Vaz explicou à TSF que inicialmente o objectivo era preparar um sarau de poesia com a duração de 24 horas. Contudo, um aluno da escola de Pintura Cais Arts, Carlos Santos, fez a sugestão de tentar bater o actual recorde de leitura de poesia que é de 52 horas.

O recorde pertence a um grupo de alunos da universidade da Luisiana, nos Estados Unidos, com a leitura dos quatro volumes do Harry Potter, «Harry Potter e a Pedra Filosofal», «Harry Potter e a Câmara Secreta», «Harry Potter e o prisioneiro de Azkhaban», «Harry Potter e o Cálice de Fogo».

O público pode estar sentado, ou de pé, e até mesmo andar pela Galeria como «num dia igual a tantos outros».

Os declamadores é que terão de agir com uma certa indiferença estando apenas atentos aos sinais, já planeados, quando for altura de dar a palavra ao seu substituto.

A duração da leitura vai variando à medida que as horas vão avançando. Primeiro e para ganharem fôlego, os declamadores vão ler cada um 15 minutos de poesia, depois seguem-se períodos de 30 minutos que vão aumentar para 45 minutos, até uma hora de leitura contínua.

A avaliar o sucesso ou não do evento estará um júri constituído por um membro da autarquia, um médico e um jornalista. Estes elementos deverão então testemunhar a autenticidade do acontecimento, para depois enviarem uma acta à organização do Guiness Book.

PERSEGUIÇÃO

Luiz Alberto Machado

Ah quando ela chega andeja afável, linda corada e amável, despida inefável como uma visão celeste com toda formosura agreste de sua apetitosa carnadura que eu persigo insone e vexado, sempre levado ao seu encalço pela febril paixão estrondosa e armado de meu falo rijo para invadir sua reclusa abissal, a sua fenda, a sua colossal borboleta mágica ventral, a relva úmida do seu sexo imantado.

E persigo noitedia indômito e sagaz até espreitar a fera acuada contumaz, até capturar sua sanha selvagem de presa irrequieta, arreada e domada, de bruços, inquieta, as mãos ao rebuço entre os cicios de deleites e festas.

Dominada, faz a viagem do pavio aceso entre as pernas e mais aperta o desejo até ser acometida pelos tremores de todos os prazeres adiados que me levam passageiro viajante pela imensidão sideral do éden na satisfação carnal.

VEJA MAIS:
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
POESIA & MÚSICA

Fonte: http://novobloguerotico.blogspot.com/2008/10/crnica-de-amor-por-ela_27.html

domingo, 26 de outubro de 2008

A GAJA NÃO VEM MAIS


Estou no "Piolho" e a praxe cerca-me por todos os lados. Sempre fui contra estas coisas, empenhei-me militantemente, redigi manifestos. O que me chateia é que os praxados gostam de ser praxados. Mas, enfim. O vento bate no caderno e a gaja que ficou de vir não dá sinais de vida. Ando com azar. As gajas ficam de aparecer e não aparecem. Não sei se é alguma maldição. E pronto, lá está um gajo a lamentar-se. Até tenho aparecido nos jornais, há gajos que me reconhecem, no sábado vou apresentar uma revista ao Gato Vadio. Pronto, como diz o Reinaldo, sou um gajo polémico. Não vim ao mundo para agradar a gregos e a troianos. Há quem me ame e quem me odeie. As gajas boas podiam amar-me mais. Escrevo e recito, eis a minha missão. Já ando a recitar há três dias. Deveria conhecer todos os tiques do público. Mais uma vez a gaja não vem. Tantas gajas à minha beira e nenhuma fala comigo. Porra, acabei o trabalho, estou de fim de semana! Eh, pá! Não há aqui deuses. Sou apenas o gajo que escreve. Os namorados devoram-se à minha frente. A namorada mostra as mamas. Que venho eu aqui fazer esta noite? Ireis gostar das minhas palavras? Quem é o gajo que vem dizer poemas? Será feliz? Infeliz? As gajas gostam dele ou faltam aos encontros? Teve uma infância feliz? Era tímido na adolescência? Porque é que agora se expõe tanto e vem dizer estas merdas? Acredita em ideais? Teve desilusões políticas? Voltará a ser candidato à Presidência da República ou a outra coisa qualquer? Deitará mais estátuas abaixo? Será ouvido pela Judiciária? Apanhará muitas bebediras ou já está fodido do fígado? Amará muitas gajas? A verdade é que o homem está numa encruzilhada. Não sabe bem onde está. Qual o caminho a seguir. O que é que o filme te reserva a ti que já passaste por tantos filmes? Os namorados devoram-se e a gaja não vem mais.

INFINITO


Ir além de mim mesmo
ultrapassar todos os limites
atingir a morada dos deuses
ser tocado pelo infinito.

DIÁRIO


Este exercício de escrever todos os dias tem-me feito bem. De qualquer forma, há coisas que só são para publicar no blog, não têm outro destino. O difícil é seleccionar. No outro dia o Amaral publicou um texto a que eu inicialmente não dei grande importância. E, por outro lado, há textos e poemas que eu acho geniais e que depois...Esta merda dos sábados e domingos passados na aldeia é desastroso. Fico logo em baixo. As minhas amigas ou estão longe ou não atendem o telefone. Lá está um gajo a lamentar-se, como diz o Oliveira. As velhas desatam às gargalhadas. Quem chora, mama. E lá vem a história do Rendimento Mínimo. A conversa satura. O meu trabalho é escrever. Sou escritor. Merda! Não tenho culpa se os meus escritos não chegam a mais gente. Não escrevo para o mercado! O mercado mete-me nojo.

sábado, 18 de outubro de 2008


Sabes o que é não ter nada a dizer às pessoas, ter medo que elas nos interpelem? Ainda bem que não estou deprimido. Mas já estive e voltarei a estar, sei-o bem. Tenho de aproveitar bem esta fase. Gozar com esta merda. Olhar para o cu das gajas. Tenho pena de alguns cidadãos comuns. Levantar-se cedo. Trabalho. Casa. Casa. Trabalho. Os lazeres, se os há, impostos. Não, não quero a vossa vida. Não vou embarcar na vossa viagem. "Não passais de um bando de escravos. Deixais que eles vos digam o que fazer e fazeis". Fazeis o que os chefes, o Governo e a polícia vos mandam fazer. "Pegai no vosso companheiro e amai-o", assim falava Jim Morrison. O caos começa a instalar-se. Não quero saber da razão, da normalidade, do tem que ser. O discurso do tem que ser é castrador. O discurso do tem que ser é fascista. O discurso do tem que ser é imbecil. Porra. Não tenho que ser. não tenho de aceitar a realidade castradora. Posso mudá-la. Posso revolucioná-la. Mulher, olha para mim! Enfeitiço-te. És minha. Mulher, anda para mim, enfeitiço-te, és minha.

Mas o feitiço não resulta. Continuas ao balcão a lavar a loiça. Pões em causa a minha divindade de poeta. Mas hás-de vir. Até ao fim dos séculos hás-de vir. Nem que eu mande incendiar Roma. Não tenho de usar a razão. Só o espírito, só a loucura. Mas tu prossegues a saga, encostas-te aos gajos para me provocar. Hoje passa o "oito e Meio" do Fellini. Verei atentamente. Não é só o meu blog que tem gajas nuas e semi-nuas. Gajas nuas e semi-nuas no ecrã e no papel. Gajas nuas e semi-nuas em todo o lado. Antes isso do que futebolistas e futeboleiros. Já disse. O meu raciocínio não tem de ser racional. Nem tenho de ter raciocínio. A gaja aos beijos. Sinto ciúmes. Que se foda! Há outras.

Desatar aos berros pelo café
pregar a boa nova
beijar o umbigo da brasileira
irritar o gerente
espantar a clientela

Começo a ficar farto da normalidade
do império do tédio e da rotina
vinde loucos, maníacos, profetas
está a chegar a vossa hora
não tenho de engolir a realidade
se não gosto dela.

LUÍS GRAÇA


ROMEU

Julieta em Verona
pagava 500 euros
a quem lhe fosse
à cona.

Luís Graça

quinta-feira, 16 de outubro de 2008


Para quê desperdiçar a palavra sublime num mundo de merda? Para quê dar-me a quem não merece? Para quê ligar tanto às gajas? Se tenho a ideia de quem sou porque não deixar correr o marfim? Por que não aproveitar a onda até à próxima depressão? Escrevo e já estou a falar comigo mesmo, não preciso de falar com os outros e com as outras. Masturbações, diria o Luís. Andamos sempre a masturbar-nos, de uma forma ou de outra. Assim vai o artista. Ó, minha rica, que passas, deixa lá o conforto e os bens materiais e anda amar-me, anda amar-me ao inferno. Pronto, pode ser que agora saibas quem sou. Não sou aquilo que pensas. Sou apenas um anjo rejeitado porque era mais belo do que os outros. Mas depois aparece Sócrates e fala-me do bem pelo bem e eu fico convencido. Sabes, um gajo começa a escrever e depois não consegue parar. Até parece que o consumismo do "Norteshopping" faz bem à escrita. Agora já não passo de um gajo que escreve umas coisas e que, de vez em quando, aparece nos jornais. Qual Lúcifer! Qual Cristo! Qual Musa! Apenas um gajo que escreve umas coisas a que alguns acham piada. Nada mais. Um gajo que de vez em quando faz uns disparates, um gajo com um bocado mais de sensibilidade, como diz o psiquiatra. Não há deuses nem semi-deuses, só esta merda do consumismo e a crise da finança. Oxalá o capitalismo acabasse.

OS REINOS DE OUTRORA


Estarão próximos os meus reinos de outrora?
Virás para mim, Dulcineia?
Ou será que os vendilhões também te fizeram
a cabeça?
Começo a ficar farto de lutar contra os moinhos,
Dulcineia,
começo a ficar farto de andar para aqui e para ali
a pregar a Boa Nova
será que eles me ouvem, Dulcineia?
Será que eles me seguem?
Ou será que me chamam nomes, Dulcineia?

Estão próximos os meus reinos de outrora?
Elas passam, elas olham, mas será que sabem
quem eu sou?
Nem eu sei quem sou, Dulcineia,
dizes-me tu quem sou?
Dizem que tenho vários nomes, que adopto várias formas,
que dispo e visto a pele da cobra
dizem que ando por cá há eternidades
estão próximos os meus reinos de outrora?
Ou isto é apenas mais uma trip?
Sinto-me próximo dos grandes, Dulcineia,
sinto-me na antiga Grécia
à mesa de Sócrates, Platão, Homero e Nietzsche
sinto-me numa nova era
mas hesito, hesito
será que devo dizer a palavra?

A. Pedro Ribeiro, Norteshopping, 16 de Outubro de 2008.

LUZ


Em busca da luz
percorro estradas de excesso
palcos inflamados
caras espantadas

Em busca da luz
atiro-me contra as paredes
corto as veias
rebento cavernas

Em busca da luz
procuro-te nas sombras
musa dos sonhos
reino de outrora.

PREGAÇÃO


Ontem fui pregar ao "Púcaros". As pessoas riem, reagem mas não vêm ter comigo no final. Tem piada. Achava que as pessoas iam ficar muito sérias, perturbadas, e afinal desataram a rir. Outros dizem que não estou neste mundo quando digo que os poetas, bem, alguns poetas deveriam ser pagos a peso de ouro. Não é verdade que somos emissários, enviados dos deuses como diz Platão? A verdade é que estou e não estou neste mundo. Porque raio hei-de aceitar a realidade se ela me oprime? Mas, por outro lado, quero o mundo e quero-o agora, como o Jim. É este mundo que eu quero e não o mundo dos sonhos ou dos céus. Eu quero o reino dos céus aqui. Será que devo pregar isso na rua? Será que devo dirigir-me ao povo? Ou será que devo continuar a pregar nos bares à espera de seguidores? Come, follow me, cross the sea, endlessly.

PIOLHO

Regresso ao "Piolho". Oxalá não se lembrem que no outro dia saí sem pagar um bolo de arroz. A maioria das pessoas está na esplanada. Ninguém com quem conversar. Há gajos que ainda almoçam. E eu vou regressar à "Odisseia" de Homero. Estou preocupado. Ando enjoado e até vomito demasiadas vezes. É o fígado. Será que a cerveja está a dar cabo de mim?

ANTÓNIO JOSÉ FORTE E ÁLVARO DE CAMPOS NO GATO VADIO



http://poesiaemvozalta.blogspot.com/

?Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-la.?, António José Forte


António José Forte, Com Uma Faca nos Dentes

Pressente-se, mais do que noutros poetas do surrealismo português, que António José Forte (1937 ? 1988) escreve de credo na boca:

?não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar?

O lirismo presente na poesia de Forte ? surrealizado-insuflado na obra dos mais ?visíveis? surrealistas portugueses, como Mário Cesariny ou Cruzeiro Seixas ? não atenua a insurgência existencial, mas corre ao lado da raiva, da revolta, da violência com que Forte trata tudo aquilo que espezinha a liberdade e precariza a criação do indivíduo. Nesse confronto consciente e (solitário) do sujeito ?criar-se? contra o mundo, Forte traz a faca no dentes:

?Aos dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. (?) No meu reino apenas palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.?

Insurge-se, por isso, não contra (ou só) a realidade medíocre do fascismo salazarento, mas contra todas as formas possíveis da peste do espírito e do tempo. O horizonte de revolta e realização existencial de Forte supera as fronteiras do tempo e espaço. Ele próprio diz sobre a poesia: ?a arte de traduzir em palavras a possibilidade do absoluto.?
E vai ainda mais longe, onde poucos que escrevem arriscam chegar, pois sabe que o gume do risco e o eixo da liberdade começa e acaba dentro de cada um e nem sempre se cumpre essa passagem sagrada-infernal sem ter pronto um esgar de sublevação contra o hediondo que espreita em nós.

?O mais belo espectáculo de horror somos nós. Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. (?) Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída ? a real, a única ? e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.?

O Gato Vadio orgulha-se de poder dizer a poesia de António José Forte, já que de credo na boca andamos há muito tempo.


António José Forte
Sessão de Poesia
Por Nuno Meireles e Júlio Gomes
Sábado, 18 de Outubro, 23h




Local:
Livraria-bar Gato Vadio


Rua do rosário, 281 ? Porto


tel. 220131894





Entrada livre



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No Domingo, dia 19 de Outubro, às 18h.:



Sessão de poesia dedicada a Álvaro de Campos - "Que náusea de vida..."



Vimos por este meio fazer saber que o Ex.mo Sr. Engenheiro Naval Álvaro de Campos (por Glasgow), autor de várias poesias e auto-designado escritor Sensacionista, será ora homenageado com leituras de vários dos seus textos poéticos por ocasião (tardia) do seu aniversário, celebrado a dia 15 do corrente mês.

Muito nos honraria com a sua presença

A administração,


Sessão de Poesia
Por Nuno Meireles e Júlio Gomes
Domingo, 19 de Outubro, 18h





http://gatovadiolivraria.blogspot.com/


Fonte: http://pimentanegra.blogspot.com/2008/10/sesses-de-poesia-no-bar-livraria-gato.html

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

AQUI


Aqui as gajas boas vêm sempre acompanhadas
aqui a tarde arde na cabeça
aqui o Alba e o Lousa têm os dias contados
aqui as empregadas são simpáticas
mas não sabem quem tu és
aqui um gajo escreve freneticamente
aqui não cravas trocos aos amigos
aqui, por enquanto, não te fodem a cabeça
aqui simpatizas com o bêbado
aqui olhas para as caras
aqui até podes ser o grande poeta, o grande profeta
mas não te reconhecem
aqui é a terra do teu Pai
há quanto tempo não vais visitá-lo ao cemitério?
Será que lá consegues falar com ele?
Será que ia gostar do que escreves?
Porque choras agora?
Será mesmo a Idade do Ouro
ou é apenas mais uma trip?
Será que te afastaste assim tanto do teu Pai?
Ou será que te estás a aproximar dele com a idade?
Será que ele te deixará acabar na miséria?
Ou será que ouves a voz da tua Mãe agora?
Ou será que estás condenado a ouvir vozes?
Será que deves dizer estas merdas em público
ou não te estarás a expôr demasiado?

A. Pedro Ribeiro.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A COISA-2


O que eu realmente odeio é o espírito moedeiro, merceeiro. Essa coisa de sacar o lucro a todo o momento. A agiotagem, a sacanagem, a usura, a ganância, a mesquinhez. Pobres imbecis. Coitados. Não passais de uns pobres imbecis. Não sabeis que aquilo que é grande é a dádiva, a partilha, o amor? O homem não nasceu para trabalhar mas para criar, disse Agostinho da Silva. Bem, alguns nasceram para trabalhar. Coitados. Porque raio tudo há-de ter um preço? Quem inventou a merda dos preços? Quem inventou a merda da moeda? Quantos dormem na rua, quantos passam fome por causa da merda da moeda? QUAL É O PREÇO DA VIDA? DIGAM LÁ! FAÇAM AS CONTAS! É FÁCIL! 5 EUROS? 10 EUROS? 100 EUROS? 1000 EUROS? 5 CÊNTIMOS? QUANTO? DIGAM LÁ! QUANTO VALE A PORRA DA VIDA? QUANTO VALE A PORRA DA LIBERDADE? QUANTO VALE A PORRA DO AMOR? DIGAM LÁ OU PERGUNTEM A ESSES ECONOMISTAS DE MERDA, A ESSES FINANCEIROS DE MERDA, QUE FAZEM AS CONTAS TODAS, QUANTO VALE? Falais dinheiro, comeis dinheiro, cagais dinheiro? É isso que sois? É isso que quereis ser? É a isso que vos aceitais reduzir? Sois a Ana Dinheiro, o João Notas, a Marta Multibanco? Sois a vossa conta bancária? Ou sois seres humanos? Porra, por uma vez! NÃO BATEI PALMAS! NÃO QUERO PALMAS! SÓ QUERO A HUMANIDADE!

CONTA-ME HISTÓRIAS


Apresentação do OE para 2009 no Ministério das Finanças
Teixeira dos Santos: inflação será de 2,5 por cento e desemprego estabilizará nos 7,6 por cento
14.10.2008 - 20h43
Por Eduardo Melo
O ministro de Estado e das Finanças afirmou hoje que a proposta do Orçamento do Estado para 2009 prevê uma inflação média de 2,5 por cento e uma taxa de desemprego que se manterá estabilizada neste e no próximo ano nos 7,6 por cento.

Em conferência de imprensa realizada no Ministério das Finanças, Teixeira dos Santos traçou um cenário macroeconómico de crescimento real de 0,8 por cento este ano e de 0,6 por cento no próximo.
PÚBLICO
Conta-me histórias que eu não vi...

A VISÃO


Estava eu na minha vida ginga que ginga, baila que baila, há várias horas sem comer e sem beber e eis que me aparece uma gaja gorda a propôr-me para fazer um daqueles testes de cerveja. Ah! Suprema visão para um faminto! Beber cerveja de borla a troco de umas perguntas estúpidas acerca da leveza, da espuma e do sabor da cerveja. Bem, lá fui bebendo a cerveja toda e respondendo a todas as perguntas estúpidas. Há coisas que realmente só podem cair do céu.
Estou aqui pateticamente à espera de uma gaja que já não vem.

UM POEMA


Quero escrever um poema
que não seja banal
um poema que morda
e não me deixe mal
um poema incisivo
que convença as gajas
e as faça vir ter comigo
um poema à Do Vale
que ria sarcasticamente
um poema estridente
que ponha toda a gente demente
um poema que entre
nos soutiens
um poema dadá
que fique por cá
um poema-bomba
que rebente com o Governo
um poema terno e violento.

SHELLEY


CANÇÃO PARA OS HOMENS DE INGLATERRA

Homens de Inglaterra, porquê lavrar
Para os senhores que vos derrubam?
Porquê tecer com esforço e cuidado
As ricas roupas que vestem os vossos tiranos?

Porquê alimentar, e vestir, e proteger,
Do berço até à sepultura,
Aqueles ingratos zângãos que
Exauririam o vosso suor como beberiam também o vosso sangue?

Porquê, Abelhas de Inglaterra, forjar
Tantas armas, grilhetas e chicotes
Se esses zângãos sem ferrão podem destruir
O produto forçado da vossa labuta?

Será que tendes lazer, conforto, calma,
Abrigo, comida, o doce bálsamo do amor?
O que é então que comprais tão caro
Com a vossa dor e com o vosso medo?

O grão que semeais, colhe-o outro;
A riqueza que encontrais, fica outro com ela;
As roupas que teceis, outro as veste;
As armas que forjais, as usa outro.

Semeai grão, ? mas não deixeis que nenhum tirano o colha;
Encontrai riqueza, ? não deixeis nenhum impostor acumulá-la;
Tecei roupas, ? não deixeis nenhum ocioso usá-las;
Forjai armas, ? a usar em vossa defesa.

Recolhei às vossas caves, buracos e cubículos;
Nas mansões que embelezais, outro lá vive.
Porquê sacudir as grilhetas que forjastes? Vedes
O aço que temperastes brilhar sobre vós.

Com o arado e a pá, e a enxada e o tear,
Cavai a vossa sepultura e construí o vosso túmulo,
E tecei a vossa mortalha, até que a bela
Inglaterra seja o vosso sepulcro.

Percy B. Shelley, in "A Máscara da Anarquia seguido de cinco poemas de 1819" & etc, 2008

trad. Célia Henriques e Eduarda Dionísio


( poesia e imagem retiradas do blogue http://ocafedosloucos.blogspot.com/)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

SEBASTIÃO ALBA

Leio as prosas de Sebastião Alba e esqueço as mulheres. Como é que um homem destes acabou assim?

AS GAJAS E A CRIAÇÃO


António Pedro Ribeiro

Há gajas que, à falta de melhor, nos fazem escrever. É uma forma de descarregar a líbido. Mas as gajas brasileiras têm aquele jeito especial, aquele à vontade gingão que nos faz sonhar. Até falam da noitada anterior, do inferno, não sei bem a que inferno se referem. Esse jeito de ocupar o café todo com a conversa. Mas pronto. Começam a falar em empregos e trabalhos e fodem tudo! Está tudo fodido. Lá se vai a poesia. Bem, mas pronto um gajo às gajas perdoa tudo. Depois lá aparece o gajo com a conversa do tem que ser. E as gajas com sinais. Mal sabem que ando a escrever sobre elas. Se calhar, já desconfiam. Sabes lá o que vai na cabeça das gajas. Nunca saberás o que vai na cabeça das gajas. É esse o mistério, é esse o encanto. Agora foram lá para fora fumar. Até tens algum historial com as gajas dos cafés e dos bares. Escreves sobre as gajas. De vez em quando lá aparece uma que se interessa por ti, que gosta realmente de ti mas que depois fica cheia de dúvidas porque andas teso e dificilmente deixarás de andar teso se continuares assim. Tens 10 anos para arranjar uma gaja. Depois dos 50 será difícil a não ser que fiques realmente famoso, ó poeta de combate. Isto se chegares aos 50. Viste bem o que aconteceu aos teus amigos. Sais à noite para ver gajas e só os gajos é que vêm ter contigo, ó bardo underground. E, de repente, mamas à vista. Mamas à tua frente, ao teu lado, em todo o lado. Mas depois só vêm ter contigo os cromos do costume, os loucos, os psicopatas, os desenraízados. Alguns deles vêm-te falar do fim do capitalismo, da nova era, do caos global. Outros só falam de conas e mamas e comentam as conas e as mamas à beira das conas e das mamas e o Rocha sente-se envergonhado. Outros ainda vêm-me contar a vida toda como se viessem ao psiquiatra. A verdade é que estou a perder todos os preconceitos na escrita. Até as gajas feias vêm de mamas à mostra. Há 20 anos não era assim. Às vezes dizes que nasceste no século errado, no tempo errado mas, se calhar, tu é que andas errado. Se calhar este é o teu tempo, o teu século, ó poeta dionisíaco. Começas a ficar com a língua de fora, ó poeta dionisíaco. Terás as mulheres que quiseres, ó poeta dionisíaco. Fodes as gajas com os olhos e com a caneta, ó Dionisos. Agora sim, és sublime. Se calhar há já algum tempo que não se escrevia assim. Que importa se te publicam ou não se te sentes sublime. Abençoados os olhos que te deram, ó poeta imoral. Já não usas a razão. A caneta corre automática. Há fêmeas em vilar do Pinheiro, finalmente. Hoje é o dia. O dia da viragem. Nunca mais andarás teso. Nunca mais obecederás. Regressas hoje ao Uno Primordial. Fodes as gajas com os olhos e com a caneta. Mas ama-las. Todas as mulheres são tuas irmãs. Todas as mulheres são tuas irmãs. Irmãs, dai-me o vosso amor. Irmãs, dai-me o Amor. Dançai para mim em redor da fogueira. O mundo novo começa aqui. O mundo novo começa agora. À nossa frente abrem-se eternidades. Podemos ficar tão bem juntos, querida. Podemos ficar tão bem juntos. Amo-te com os olhos e com a caneta. Amo-te com os olhos e com a caneta. Criei-te. És minha. Criei-te. Vieste. És minha. Criei-te. Lês revistas. És minha. Nunca mais escreverei assim.

PROFECIA


Apetece-me berrar bem alto como um profeta. Dizer a toda a gente que estamos no caos. Dizer a toda a gente que este é o fim de uma era. Dizer às gajas que as amo loucamente a ver se as saco. Sobressair no anonimato. DIzer as coisas que ninguém tem a coragem de dizer. Dizer que era necessário chegar até aqui. Dizer que um novo mundo está à porta. Dizer que para chegar ao novo mundo é necessário passar pela loucura. Dizer que vem aí o reino do Amor e da Liberdade. Dizer que para entrar no reino temos de estar livres de preconceitos. Dizer que estamos à porta da era do espírito.

sábado, 11 de outubro de 2008

ATÉ CAIR


Nova Iorque continua a contagiar congéneres internacionais
Bolsa de Lisboa cai quase seis por cento, menos que resto da Europa
10.10.2008 - 16h47
Por Eduardo Melo
José Manuel Ribeiro (arquivo)

Dez títulos da bolsa nacional caíram entre 6,4 por cento do BES e os 11,7 por cento da Galp Energia
A Bolsa de Lisboa encerrou a sessão a perder 5,9 por cento, para 6281 pontos, acumulando uma queda de 14,75 por cento na semana e de 20,8 por cento no mês. O resto da Europa afundou entre 7,5 por cento de Frankfurt e os 9,1 por cento de Madrid, numa altura em que Nova Iorque perdia entre três e quase quatro por cento (Dow Jones e Nasdaq Composite).

Os 20 títulos nacionais terminaram o dia a perder valor, tendo metade caído mais de seis por cento. A Galp liderou as quedas, terminando a sessão a cair 11,72 por cento, para oito euros. A Portugal Telecom acompanhou essa tendência e baixou 9,2 por cento, para 5,2 euros, enquanto a EDP limitou as quedas a 2,5 por cento, para 2,24 euros.

Na banca, o BES recuou 6,4 por cento, o BCP escorregou 4,6 por cento, para 0,93 euros por cada acção, e o BPI acabou por ser o menos penalizado deste trio, caindo 3,2 por cento, para 1,78 euros.

O valor do fecho de Lisboa, que transaccionou 101,4 milhões de títulos, acabou por ser menos penalizador do que a tendência do meio da sessão, na qual o índice PSI20 chegou a cair mais de sete por cento, condicionado pelo colapso generalizado das congéneres internacionais, incluindo os EUA, a Ásia e os mercados mais próximos do resto da Europa.

Aqui ao lado, o índice Ibex-35 de Madrid concluiu o dia a liderar os mercados internacionais, apenas suplantado pelo índice Nikkei 225, que afundou 9,6 por cento.
PÚBLICO

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O CÂNTICO DA VIDA


Eis no que deu a ganância, eis no que deu o capitalismo. Um sistema que premeia a rapina, que premeia a negociata, que premeia o lucro, que premeia o passar por cima do outro a qualquer preço não poderia durar eternamente. É desumano, é cruel e agora entrega-se nas mãos do Estado. Não é mais possível o homem lobo do homem. Não escondemos que nos dá gozo ver os capitalistas e os aprendizes de capitalistas aos papéis. Quereis o capitalismo, não quereis? Aí o tendes. O barco está a afundar-se. Salve-se quem puder. Eis onde o sistema havia de chegar. O mundo baseado na troca mercantil deu o que tinha a dar. Chegamos ao caos. Há que cantá-lo. Eis no que deu o cântico dos profetas da morte! Eis no que deu o império do mercado.
Agora há que cantar a vida. A vida para lá da não-vida, da sobrevida, do discurso e da prática financeira e economicista. Há que cantar o amor e a liberdade. O amor e a liberdade sem limites. O amor e a liberdade que vêm do espírito, que vêm da divindade. Não mais a morte! Não mais os cifrões! Não mais a ganância! Revolução!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

DO AMOR


O amor, diz Sócrates, é o desejo de possuir o bem para sempre. O amor, diz Sócrates, é gerar e criar no belo. É a nós, criadores, que cumpre zelar pelo amor. Nós, criadores, desejamos a imortalidade, tentamos perpetuar-nos através da obra. Daí que tenhamos de cantar o amor, de imortalizar o amor. É certo que não temos de sentir amor pelos financeiros, pelos agiotas. Por esses individuos só podemos sentir desprezo. Mas, no restante, podemos pregar o amor. Não temos de ser moderados como os filósofos, como os educadores. Para as mulheres cantarenmos o amor louco de Breton e de Hakim Bey. Vamos cantá-las como deusas, faremos hinos ao seu corpo, à sua alma, à sua beleza. Cantaremos também a fraternidade, o amor entre os homens, a generosidade. Vamos abster-nos de todo e qualquer discurso economicista. Cantaremos o despojamento, a liberdade, a utopia. Diremos que a felicidade é aqui e não nos céus. Que é possível um mundo sem dinheiro e sem trabalho. Que o amor e a liberdade coexistem nos espíritos livres. Que o amor é a solução.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E CONTINUA

Falta de respostas conjuntas à crise da UE
Bolsas europeias de novo em pânico
08.10.2008 - 09h13
Por PÚBLICO

As principais bolsas europeias negociavam em forte queda após quase uma hora de negociação, face à ausência de respostas firmes e conjuntas da União Europeia à crise financeira que se alastrou à economia real.

Paris, Londres, Bruxelas e Frankfurt perdiam entre cinco e oito por cento, trazendo os principais índices europeus para níveis mínimos de há vários anos. Lisboa negociava igualmente no vermelho, a perder 4,6 por cento.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

PLATÃO


O mar é bastante grato como companhia diária, mas tem um não sei quê de amargo e de salobro, pois enche as ruas de mercadores e comerciantes e semeia no ânimo dos homens desconfiança e mentira, fazendo com que o Estado seja de pouca confiança e inimigo para os seus próprios cidadãos e também para os restantes homens. (Platão)

O POVO TRABALHADOR


Toda a gente, até o mais analfabeto dos homens, sabe lidar com o dinheiro. Só eu não sei ganhar dinheiro. Não nasci com esse "dom" nem me preocupo com ele. Posso vir a acabar como o Jaime Lousa ou como o Sebastião Alba. Nestes cinco anos habituei-me a andar sem trabalho fixo. A verdade é que nestes cinco anos mudei. Vejo a organização do dinheiro e do trabalho duma forma muito mais crítica. Como já disse, essa história da glorificação do povo trabalhador não me diz nada. Que se foda o povo trabalhador se for imbecil! Não cantarei hinos ao povo trabalhador. O povo trabalhador vê-me a mim, poeta, como um parasita. O povo trabalhador passa a vida a maldizer o vizinho do lado, em vez de criticar os ladrões capitalistas. O povo trabalhador tem uma mente muito estreita. O povo trabalhador agarra-se ao dinheirinho. O povo trabalhador só pensa no dinheirinho. O povo trabalhador não pensa na revolução.

MULHERES

As mulheres, de facto, fazem falta. Acendem a coisa. Fazem-nos rir e sorrir.

DIÁRIO


A conversa das velhas impede-me de aprofundar Platão. Vou mudar de pouso. Hoje ando meio sonolento. Não consigo ler nem criar. As mães trazem as crias. Deveria ir ao "Pinguim" mas não vou.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

VIL METAL


É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. E a boazona que não sai da toca. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Ouço-a rir. é estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Hora do Telejornal. é estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Como ela ri. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. E os jovens que chegam. Carne fresca a devorar. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Sócrates e Platão. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. A gaja nunca mais sai. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Escândalo nacional. é estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Helton fora dos convocados. É ESTÚPIDO que tudo se reuma ao vil metal. Capitalismo infernal. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Ela, mesmo ausente, faz-me escrever. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Àgua mineral. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Camões. Portugal. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Colhões de Portugal. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. E ela vem. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Paraíso tropical. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Contigo a vida é um carnaval. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Comité central. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Dá-me tintol. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Dá-me o jornal. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Crise mundial. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Família dominical. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. És linda. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Viva o Brasil! é estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Escrevo por ti, para ti. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Não está nada mal. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. És boa, deixas-me à toa, leoa na cama, na noite má. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Foges. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Voltas. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Sais. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Olhas. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Os futeboleiros saem. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Onde vais? É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Quem és? É estúpido que tudo se resuma ao vil metal. Dá-me o amor. É estúpido que tudo se resuma ao vil metal.

POVO E TRABALHO


Essa coisa do povo e da glorificação do trabalho, sabes, já me faz confusão. POrque raio terei eu de defender o povo quando o povo é imbecil e ignorante por culpa própria? O povo perde-se em intriguices, o povo come fofoquices, o povo come bola, o povo come tudo o que lhe dão das revistas cor de rosa à televisão. Afasta-te do rebanho, da multidão! O povo é comido de cebolada, só reage quando lhe mexem no bolso. Quando está em causa o dinheirinho qualquer analfabeto se agarra à carteira. Podem não saber mais nada mas sabem lidar com o dinheirinho. O povo não tem consciência que anda a ser comido pela sociedade-espectáculo, pela especulação financeira, pelos media. Se não queres ler, o problema é teu! Não sabes o que perdes! Tenho pena dos que não sabem ler nem escrever, dos outros não. É tempo de acabar com a glorificação do povo, do povo trabalhador. Essas velhas bandeiras da esquerda e até de alguns libertários são obsoletas. O povo não merece ser glorificado. O povo rejeita o filósofo e o poeta, sobretudo quando eles aparecem com as vestes da pobreza. Ah, Nietzsche! Ah, Zaratustra! Como és sublime! Afasta-te do rebanho! Afasta-te da multidão! Eles não te merecem. Fala apenas com os poucos que te ouvem. Não trabalhes! Não te sujeites a chefes, a regras repressivas, ao Estado! Cria!

domingo, 5 de outubro de 2008

ABSTENÇÃO


18 de Outubro na CasaViva
Convite para uma plataforma abstencionista

"Se não votei não foi por ter preferido ir à praia, nem porque estava a chover muito, nem por ter tido preguiça de sair da cama. Se não votei foi porque sou fundamentalmente contra a democracia representativa, porque as eleições são uma palhaçada e eu, aquele a quem pretendem fazer de palhaço, quando me convocam de tempos a tempos para passar um cheque em branco aos que desgovernam a vida colectiva das nações. Querem que eu vá exercer o que chamam de "dever cívico" para poderem chamar democracia a um sistema onde eu, os meus direitos, as minhas necessidades e as minhas opiniões são ignorados e espezinhados para dar lugar às negociatas e interesses económicos dos amigos do partido e das corporações internacionais. Montam periodicamente um circo espalhafatoso, pago com o meu trabalho, onde dois partidos, de retóricas ligeiramente variadas nas promessas eleitorais mas que em nada são diferentes quando se apanham no poder, pretendem dar-me a ilusão de pluralidade e direito de escolha. Pois não faço parte desse circo, que mais não faz que renovar ciclicamente a legalização da desgovernação sem qualquer plano organizado, senão o de encher os bolsos às minorias de sempre, perpetuando a abjecta injustiça social que caracteriza o capitalismo." (anónima abstencionista, séc. XXI)

sábado, 4 de outubro de 2008

JOSÉ AFONSO


Algarve Notícias
De como eu me cruzei com o José Afonso em Aljustrel

Posted: 03 Oct 2008 02:15 AM CDT

É curioso verificar quantos herdeiros tem o José Afonso. De facto, só à sua sombra contam-se largas centenas de sobreviventes, fora aqueles que se arvoraram em ser a sua alma cantante, imitando os seus discos até à exaustão, sem esquecer os movimentos respiratórios e as inflexões vocálicas do mestre. Há mesmo tipos, que, qual culto Menphis (Elvis Presley), com as caras mais exóticas e com um ar de seminaristas inocentes, que nada tinha a ver com o José, mas que, apesar de tudo, cantam as suas canções com respeito e interesse pela obra do mestre.
Mas por acaso sabem quem foi o José Afonso? O Homem simples e sensível? O professor que sabia falar das histórias da história? O rebelde inflexível na denúncia das injustiças? O político que não voltava costas à luta? O Homem que cantava para os operários, para os camponeses, para os humilhados e oprimidos? O preso político? O homem que nunca pediu nada e que nada lhe deram no seu sofrimento?
Alguém por acaso sentiu o momento maravilhoso da sua criatividade? E a felicidade que ele sentia quando via o fluir dos seus sonhos? E a dor na sua morte?
Vamos lá, meus amigos, sejamos sinceros, vamos erguer bem alto a figura do Zeca, sem oportunismos e sem desvirtuar a personalidade dessa grande figura dos nossos tempos, nem a sua obra, que foi feita para o povo e só para o povo simples e oprimido. Até dá vontade de perguntar: Se ele estivesse cá de que lado estaria, contra quem estaria? A resposta é bem evidente! Mas aposto que estaria desprezado pela maioria dos que agora o homenageiam imitam e cuja obra sabujam. Já para não falar nas editoras que nunca o respeitaram, e até o recusaram gravar, apesar de, em cada Abril, se encherem de dinheiro com as suas reedições ou gravação de discos oportunistas, sem que os seus direitos sejam devidamente resguardados. É de mais…
Conheci o Professor José Afonso em Aljustrel. Fui seu aluno no Externato Filipa de Vilhena. Foi o meu professor da disciplina de História. Eu tinha 14 anos e frequentava o 4º. Ano do ensino liceal. Ele teria 22 ou 23 anos. Recém-licenciado, convidado a ir leccionar para aquele colégio por um professor, seu amigo e ex. colega, que também lá ensinava: o Dr. Delgado.
O professor José Afonso era muito simpático, muito aéreo e sorridente. Por vezes andava triste e distante, outras vezes cantarolava nas aulas e nos intervalos até cantava e, ainda, por vezes, escrevinhava aquilo que trauteava. Como deve calcular-se aquilo despertava a nossa curiosidade, nomeadamente e minha dada a minha educação musical no seio da minha família.
O meu pai era O Chefe da Estação Dos caminhos-de-ferro de Aljustrel e, simultaneamente, maestro. Dava aulas de música, participava em muitas actividades culturais e, até tinha uma pequena orquestra formada pelos meus irmãos e outros amigos (a orquestra Tonicher). Eu gostava de cantar, mas, como era o mais novo, não tinha a formação dos meus irmãos, tinha-me escapado àquela disciplina dos concertos.
O professor José Afonso, naturalmente aproximou-se da minha família musical e de um grande poeta aljustrelense, homem de esquerda, o Sr. Edmundo Silva – pai do Edmundo Silva baixista dos “Sheiks”, que com ele também contactou.
Entretanto, através do Dr. Delgado, que acima citei, soubemos na turma que aquele professor era um dos grandes cantores de fados e baladas de Coimbra. Ficámos banzados de admiração. Então era Cantor aquele professor que nos despertava tanta curiosidade e nos ensinava a ver a História com outros olhos?
De facto falava-nos da liberdade, da democracia, da igualdade e da fraternidade. Ensinou-nos muito sobre a divisão das classes sociais, do significado de exploração e de opressão. Também nos falava dos trabalhadores, dos camponeses, dos mineiros, dos sindicatos e do que era reivindicar por uma sociedade mais justa. Falou-nos das prisões e dos prisioneiros, do que era a polícia política e do seu papel em certos países.
A História do manual era uma, mas a verdade histórica era outra. Eu e, muitos outros alunos sentimos que algo de diferente se passava à nossa volta, como se nos estivessem a mentir, apesar de sermos putos e de acharmos tudo bem. E às vezes até falávamos disso e íamos tirar dúvidas com o Professor. José Afonso.
Chegou por fim o dia de tirarmos nabos da púcara durante uma aula e ele, muito humildemente, confirmou-nos ser verdade aquilo que o Dr. Delgado nos havia dito. E pronto, entramos no ciclo das canções e dos fados de Coimbra. Algo de maravilhoso!
Eu tinha uma guitarra acústica, velhota, com dois ou três buracos, que eu tapara com fita adesiva e algodão, a imitar o tratamento de ferimentos, mas que tinha um som e uma afinação excelente… E lá levei a guitarra para o colégio. E Ele cantou, libertou-se, sorriu sem parar – Cantou e ensinou-nos. Eu aprendi logo fados novos, baladas que ele alguns anos depois gravou em disco.
Aljustrel rejubilava. O Zeca Afonso, já assim chamado, cantou nas colectividades, em associações em pequenas festas e encontros informais ao ar livre. Eu e alguns amigos lá estávamos sempre a acompanhá-lo e a cantar com ele. Dizia que gostava de me ouvir cantar, mal sabendo que eu e ele, anos depois, nos encontraríamos do mesmo lado da barricada. (Curiosamente, um dia, num recital em Setúbal chamou-me o “trovão da Planície”)
O tempo correu e, como diria o Fernando namora no seu livro a Noite e a Madrugada: De trás dos tempos vêm tempos e outros tempos vêm… O povo de Aljustrel rejubilou! Muitos dos estudantes desse tempo vieram a seguir após o 25 de Abril, rumos no campo da política, como autarcas, deputados, dirigentes partidários professores etc. O professor José Afonso apesar do pouco tempo que lá esteve a dar aulas, ensinou-nos bem a Lição da Liberdade e da Justiça Social. E no dia da sua partida, de comboio, esteve uma imensa multidão de estudantes, seus familiares e muitos mineiros. Houve cantos e choros e muitos lenços a dizer-lhe adeus e chapéus a acenar. Ele nunca se esqueceu deste momento. Aljustrel ficou-lhe grato!
Orgulho-me muito de tê-lo conhecido e compreendido, de tê-lo cantado na tropa – na guerra em Angola, onde estive como Alferes Miliciano – e, após o meu regresso da guerra e ter reingressado na universidade, com ele convivido durante todos estes anos, desde 68 até ele ter partido. Estivemos em tudo o que era sítio, apanhámos muitos sustos, mas tivemos e demos muitas alegrias a muita gente oprimida.

Por Francisco Naia
“In Revista Memória Alentejana, Out.2007”

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


Sai!
Sai da cidade!
Sai da multidão!
Sai dos olhares
que te seguem
dos juízes da moral
do paleio mesquinho das beatas
de toda a corja mercantil

Sai! Não tenhas medo!
O mundo começa hoje
estás a regressar a ti mesmo
estás a jogar o teu jogo
estás na Idade do Ouro
no Uno Primordial
não tenhas medo!
Deixaste de ouvir a voz da multidão
e todos os deuses te iluminam.

CRISE


Esta crise da finança cada vez mais dá vontade de rir. Agora somos todos socialistas. Os capitalistas converteram-se ao socialismo, estão todos nas mãos do Estado. É o regresso em força das nacionalizações, do PREC, do 11 de Março. Somos todos socialistas ou, pelo menos, capitalistas de Estado. Marx e Lenine riem-se no túmulo.

NEM DEUS, NEM ESTADO, NEM TRABALHO, NEM MERCADO, NEM DINHEIRO!

DEUS E DEUSES


Chego à "Motina" e a Joana sorri radiante e trata-me como se eu fosse uma estrela. Antes assim. Nunca tinha sido antipática comigo mas hoje...
Sabes, essa estória do Deus e dos deuses...compreendo que as pessoas acreditem num deus ou em vários deuses. Os antigos acreditavam que o sol era um deus porque nós dá a luz. É natural. É natural que se procure um sentido para a existência, a causa primeira de todas as coisas. E aí as pessoas acreditam em Deus ou em vários deuses. É compreensível. Henry Miller dizia que o céu só pode estar aqui na Terra, tal como o inferno já está, e que não faz sentido procurá-lo no além. Henry Miller dizia que esse céu, esse "deus" está dentro de nós, Poetas. Platão também diz que somos enviados, intérpretes dos deuses. Somos caminheiros dos céus. Loucos divinos. E temos a grande responsabilidade de dizer aos outros que também somos deuses e que todos podemos ser deuses.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A FELICIDADE

O autor deste texto é João Pereira Coutinho, jornalista. Vale a pena ler!

'Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas.Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade! '

AINDA A CRISE


Artigo de opinião publicado no jornal Público:


Subprime: a democratização do crédito?



O subprime não surgiu devido a um fervor democrático ou um desejo igualitarista por parte dos bancos e de outras instituições de crédito de estender também aos mais pobres os benefícios do crédito de que apenas os ricos e os remediados tinham beneficiado durante séculos.
O subprime surgiu porque um banqueiro um dia olhou para um gráfico da população nos Estados Unidos e constatou que havia umas dezenas de milhões de pessoas que os bancos não estavam a espremer - apesar de, esporadicamente, estas pessoas terem uns dólares a mais no bolso e de possuírem as mesmas aspirações e desejos dos outros seres humanos: uma casa para morar, por exemplo.
A questão era: por que razão extorquir apenas o dinheiro dos mais endinheirados? Porque não tentar sacar aqueles escassos dólares que se amontoavam nos bolsos dos mais pobres? Porque não ordenhar também os mais pobres (para usar uma expressão que os gestores apreciam, ainda que usualmente em inglês, to milk the costumers)? Afinal, aqueles dólares todos juntos representavam uma maquia apetecível.
Havia o pequeno problema de estes clientes poderem não conseguir pagar, mas isso não era nada que uma taxa de juro mais elevada não pudesse compensar. Bastava cobrar aos mais pobres um juro mais alto de forma a obrigá-los a pagar, digamos, cinquenta por cento acima do que se cobrava aos mais abastados (sim, acima). Para mais, havia sempre a possibilidade de o banco retomar possessão da casa, caso a hipoteca não fosse paga.
E assim se fez. É claro que este mercado (a eufemística expressão inglesa subprime significa "não é bife do lombo") teve os seus problemas, revelando a Mortgage Bankers Association dos EUA, no final de 2007, que se verificavam sete vezes mais execuções de hipotecas neste segmento que nos restantes, mas o essencial foi conseguido: os pobres estavam a ficar realmente mais pobres e os dólares que lhes saíam dos bolsos estavam a entrar nos bolsos dos bancos. O segmento subprime estava finalmente a ser explorado.
O problema foi que, como os bancos transaccionam estes empréstimos na bolsa e esta revelou um enorme apetite pela avalanche de hipotecas fresquinhas, os bancos entusiasmaram-se e começaram a emprestar a juros cada vez mais altos a quem não tinha emprego nem dinheiro, para comprar casas que não valiam nada. Como os bancos e os gestores eram avaliados (pelas bolsas e pelos seus accionistas) pelos resultados imediatos e não pelos efeitos de longo prazo, estas manobras foram uma bênção para o sector financeiro durante uns anos: havia mais "clientes", mais "valor bolsista". Mas o mercado imobiliário acabaria por cair e a catástrofe adiada aconteceu, dando origem à bola de neve que se conhece. A bomba acabou por estoirar no bolso do sistema financeiro.
Dizer que a crise do subprime foi provocada pela "democratização do crédito" é não só falso como desonesto. O poder estava e continua a estar apenas de um dos lados da equação. Os pobres que conseguiram ir pagando a sua casa pagaram-na mais cara que os ricos (mesmo os que nunca falharam uma prestação) e muitos deles perderam simplesmente as suas prestações para os bolsos de gestores e accionistas dos bancos - e perderam as casas. Houve um robindosbosquismo ao contrário e nenhum benefício para a economia. O facto de as coisas não terem resultado para os bancos - ainda que tenha resultado para muitos dos vilões - não faz deles as vítimas. E o facto de alguns indigentes terem tido crédito não torna o episódio "democrático" - é apenas um sinal da falta de escrúpulos das empresas envolvidas e da falta de controlos do sistema financeiro. Jornalista

23.09.2008, José Vítor Malheiros

AI, AI, COMO ELES ESTÃO


Esta crise financeira dá-nos um gozo imenso. Os poderes e os capitalistas andam aos papéis. O Estado e o capital a comerem-se. Paraíso dos anarquistas!

Crise financeira
Senado dos EUA aprova plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares
02.10.2008 - 08h03
Por Lusa
U.S. Senate TV/Reuters

O plano foi aprovado com 74 votos a favor e 25 contra
O Senado dos Estados Unidos aprovou na noite de quarta-feira, por 74 votos contra 25, o plano rectificado de injecção de 700 mil milhões de dólares (501 mil milhões de euros) no mercado monetário.

A situação económica exige que o Plano Paulson de salvação financeira aprovado pelo Senado o seja também pela Câmara dos Representantes, declarou na quarta-feira, em comunicado, o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

"Os americanos esperam e a nossa economia exige que a Câmara [dos Representantes] adopte esta semana esta boa lei e a reenvie ao meu gabinete", comentou Bush após a aprovação no Senado do plano.

O Presidente aplaudiu o voto do Senado rejubilando-se pelo facto de republicanos e democratas terem superado as divergências partidárias para adoptarem o plano do secretário do Tesouro, Henry Paulson.

"Depois melhoramentos introduzidos pelo Senado, creio que os membros dos dois partidos na Câmara podem apoiar esta lei", acrescentou Bush.

A Câmara dos Representantes deverá votar na sexta-feira o texto rectificado, após haver rejeitado na segunda-feira a primeira versão por 228 votos contra 205, fazendo cair a pique o índice Dow Jones e as bolsas mundiais.

O texto aprovado na quarta-feira pelo Senado introduz um aumento da garantia pelo Estados dos depósitos dos clientes dos bancos, subindo o limiar garantido de 100.000 para 250.000 dólares (de 71.500 a 179.000 euros).

Foram também introduzidos créditos de impostos sobre a classe média e empresas.

Estas alterações constituem melhoramentos ao projecto e "ajudarão a proteger as economias das famílias americanas e das pequenas empresas", sublinhou Bush.

Esta lei "é essencial para a segurança financeira de todos os americanos", explicou o Presidente dos EUA. "Ela tem por fim ajudar as famílias americanas que tenham necessidade de pedir dinheiro emprestado para comprar um automóvel ou financiar estudos superiores, bem como as pequenas empresas que dependem de financiamentos para pagarem as suas facturas."

in PÚBLICO

LEVI CONDINHO

Ia no 115 com uma dor metafísica nos colhões
à procura da morte em diagonal perfeita
a música é a música é a música
disse a tia Gertrudes quando compunha o programa
da máquina de lavar
não me digas que não há beleza no ar que ela tem
essa putinha
sapatos rasos com talas de tortura para a sífilis
nas unhas
e o mugir da bicicleta quando lhe sugam o leite
das tetas gordas
sobre o Popocatepetl em pedaladas à Gino Bartalli-o-Católico
e o cardeal com um osso buço entalado no recto purpúreo
a muralha de urtigas na labareda dos teus olhos travessos
oh meu amor de qualquer dia
ámen disse a gazela fintando o rinoceronte
estúpido hipocondríaco
ámen disse o gatinho no colo do útero
acaso o acaso faz rima com o acaso do acaso?
rima de merda numa sublime exaltação escatológica
e o reviralho da altitude em voracidade alarmante
para a consolação dos mortais e o desconsolo
dos que partiram
maldito seja quem te inventou oh spleen oh letargia
vou-me embora quando a porta rebentar
bom dia



Levi Condinho nasceu em Alcobaça no ano de 1941. Foi viver para Lisboa em 1972, tendo militado no PCP entre 1970 e esse ano. Jornalista, cronista, empregado bancário, publicou Para Que Alguns Me Possam Amar, em 1977, ao qual se seguiram Saxofone e Tentáculos, em 1981. Autor incluído na antologia Sião, organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, publicada na frenesi em 1987.

retirado de http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

LEVI CONDINHO

Com um abraço ao Anthero Monteiro

DIREITO À PROPRIEDADE


Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas


retirado de http://doriff.blogspot.com

CANTOS

Cantarei também o caos. Cantarei também a decadência do mercado e do capitalismo. Cantarei o fim do dinheiro e da bolsa. Cantarei o fim do império.

MANIFESTO/CÂNTICO ÀS GAJAS (BOAS)

Ontem tive uma daquelas conversas intermináveis acerca do destino do Homem e da Humanidade. O meu amigo diz que estamos aqui para sofrer o menos possível. Mas para quem tem sede de infinito, para quem acredita no Amor e na Liberdade sem limites isso não deixa de fazer confusão. A verdade é que quase ninguém tem este tipo de conversas. A verdade é que para ser um profeta tenho de partir muita pedra. Falar para milhares de pessoas: eis a meta. Chegar à televisão e dizer a palavra. A palavra-chave é o tédio. Eis o que vejo: TÉDIO. Com ou sem trabalho. Com ou sem dinheiro. Talvez as gajas façam a diferença. Mas elas têm de ser generosas para nós poetas. Mesmo que estejamos na miséria, sobretudo aí. Mesmo que estejamos na loucura. Elas (gajas) têm de dar-se a nós poetas e pensarem menos no conforto e na segurança. Têm de se dar a nós porque nós trazemos a divindade e a sabedoria. Têm de se dar a nós em vez de se darem aos futebolistas. Têm de se dar a nós como se dão a Dionisos porque ficam loucas como as bacantes. Têm de perceber que o trabalho não serve para nada. Têm de perder o medo que sentem de nós, têm de dançar na montanha, na floresta e na cidade, têm de fazer fogueiras e queimar o dinheiro. Sim, talvez a salvação esteja nas gajas. As gajas têm de se deixar levar pela loucura, têm de ser xamânicas e dionisíacas. Por isso, cantarei loucamente as mulheres. Por isso, lhes dedicarei hinos. Por isso, serei Dionisos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


A importância histórica na obra de Hesíodo


A importância histórica na obra de Hesíodo

Jéferson Dantas¹

A poética grega é um dos grandes mananciais da literatura ocidental. Nela se fundem ou se ressignificam os elementos estudados por poetas das gerações posteriores, ou seja, escritores dos períodos medieval, moderno e contemporâneo. Os temas da poesia grega vão da Epopéia à Lírica e desta última para a Alexandrina, já no período helênico. Um dos grandes nomes da poesia grega, sem dúvida, foi Hesíodo.

Acredita-se que Hesíodo nasceu na Beócia, em Ascra, deixando como legado duas importantes obras para a humanidade: Teogonia e os Trabalhos e os Dias.
É possível observar na escrita de Hesíodo um estilo semelhante ao de Homero, embora de temáticas opostas. Hesíodo é o poeta do período arcaico grego, época de intensas turbulências no meio agrário. Se, por um lado, Hesíodo se afasta da temática social descompromissada de Homero, por outro ele vai empregar a mesma métrica e, praticamente, o mesmo vocabulário de Homero em suas narrativas. Supõe-se que 80% do vocabulário utilizado por Hesíodo sejam comuns àquelas utilizadas por Homero na Ilíada e na Odisséia.

Além disso, fica patente nas obras de Hesíodo o caráter didático. Na Teogonia ele faz uma explanação do universo a partir das divindades mitológicas. Metaforicamente, o poeta quer nos contar a origem do universo, servindo-se para tanto destas divindades perenes e austeras. No interior daquele contexto histórico (século VIII a.C. aproximadamente), Hesíodo nos traz com a pujança de sua poesia a manifestação de uma época de lutas entre grandes latifundiários e a população expropriada de qualquer espécie de privilégio. Cabe ressaltar que os desprivilegiados não são apenas os camponeses, mas todos os pastores e pequenos artesãos que começam a formar uma classe cada vez mais numerosa. Conforme o crítico literário e escritor Donaldo Schüller, "já não é possível silenciar a luta de classes, abafada nos poemas homéricos com o predomínio absoluto dos aristocratas e seus nobres".

Embora didático Teogonia tem fortes elementos morais, formalizada pelo perjúrio dos deuses. As divindades gregas são as responsáveis pela 'justiça', controlando os homens em seus excessos e até mesmo em suas paixões. Porém, o que Hesíodo procura denunciar é a sociedade corrompida, e uma religião que tão-somente resigna o ser humano. O poeta de Ascra é o porta-voz da classe camponesa. Em Os trabalhos e os dias, Hesíodo lamenta a sorte dos fracos e despossuídos, assinalando a única atitude que lhes convém: a submissão.

Não há como negar que Hesíodo foi o mais importante poeta grego depois de Homero, nem tanto pela grandiosidade de seus poemas ou pela dificuldade em romper com a linguagem epopéica, mas, sobretudo pela sua visão dos acontecimentos sociais da época. Para Werner Jaeger, "o seu pensamento estava profundamente enraizado no solo fecundo da existência campesina [o que] lhe outorgava uma personalidade e uma força próprias, [...] concedido pelas musas desvendar os valores próprios da vida do campo e acrescentá-los ao tesouro espiritual da nação inteira".

A consideração acima fica mais evidente em Teogonia, quando Hesíodo analisa as divindades tendo como enfoque principal Mnemósine (memória), que representa a mãe das musas. Esta divindade tem uma função psicossocial das mais fecundas, já que para a civilização grega no período arcaico (séculos VIII a VI a.C.) a escrita era reservada a poucos e a memória - lembrança do passado - denotava a própria divindade. Aí reside toda a riqueza épica deixada por Homero às futuras gerações - e que influenciaria sobremaneira Hesíodo -, já que o aedo (uma espécie de repentista), por valer-se de sua memória, vai criar a literatura oral épica, culminando na épica escrita do aedo Homero. Hesíodo, desta maneira, trata a memória (Mnemósine) como elevada técnica poética, propondo que a divindade dá ao poeta o dom sobrenatural para a busca da verdade e, com isso, a captura do passado como substância do presente.

Assim como os profetas são inspirados pelos deuses, os poetas são inspirados pela Mnemósine. Poetas e adivinhos são agraciados pela clarividência. O poder de saber as coisas que é dado ao poeta, pela mãe das musas, é explicado por Hesíodo como um dom divinatório. Acredita-se que Hesíodo se utilizou dos mitos de povos semíticos para a construção poética de Teogonia.
Independente da influência que estes povos tiveram na obra hesiódica vale ressaltar o aspecto sócio-cultural que o poeta acoberta com uma linguagem sempre dirigida aos deuses, mas que na realidade descortina a repressão dos grandes proprietários rurais.

Para Hesíodo, as idades heróicas do ouro, da prata e do bronze já passaram. Vive-se agora a 'idade do ferro', onde a vida é cruel e dura. Para Baldry, "a sua preocupação incide sobre a necessidade de pelo trabalho e pela poupança, o agricultor encher os seus celeiros e de uma manifestação de amargo descontentamento, quanto aos desonestos julgamentos dos reis locais".
Nesta direção, Hesíodo carrega em sua obra uma universalidade onírica profundamente enraizada no chamado inconsciente coletivo, remontando a figura arquetípica estudada por Jung. Muitos poetas contemporâneos bebem do arquétipo para a composição de suas obras, como é o caso do escritor latino-americano Ernesto Cardenal.

Hesíodo não criou uma linguagem poética nova. A epopéia serviu muito bem ao seu espírito arrebatado e justo e, nem por isso deixou de ser compreendido pelas camadas sociais mais empobrecidas. Homero tinha a verve fluídica, porém sintonizada com os interesses aristocráticos. Entretanto, a intensidade poética de Homero e de Hesíodo se assemelhava. Hesíodo, por ter reservado grande parte de seus escritos às reflexões sobre a justiça, antecipará a poesia lírica de Sólon, que era um legislador reformista e que foi diretamente responsável pelos princípios democráticos na Grécia antiga.
Por fim, o avanço estilístico alcançado por Hesíodo devido ao seu brilhante nível de abstração, inaugurou uma nova fase na poesia grega denominada "pós-épica".

1 Historiador e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador e articulador do Grupo de Estudos do Currículo da Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (FMMC), Florianópolis/SC. Professor Colaborador no Departamento de Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). E-mail:
clioinsone@gmail.com Blog: http://clioinsone.blogspot.com/
http://arteeeducar.blogspot.com

PLATÃO, "ÍON"


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas ou dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas são admiráveis- pois estão fora da sua razão- mas que é própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles.
Os poetas não passam de intérpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração.
Quando te fazem ouvir um canto desse poeta (Homero), animas-te imediatamente, a tua alma agita-se e as ideias chegam-te em catadupa. (...) Não é por uma arte nem por uma ciência que tu falas de Homero como falas, mas por um privilégio divino e por uma possessão divina, tal como os Coribantes que apenas são sensíveis à música do deus que os possui e que encontram com facilidade gestos e palavras para se acomodarem a essa música, enquanto permanecem insensíveis às outras.

A CAIR, A CAIR


Estados europeus ajudam a salvar alguns bancos europeus
Euro cai para 1,40 dólares face à crise financeira que chegou à Europa
30.09.2008 - 17h14 AFP
O euro registou hoje uma forte queda contra o dólar, reagindo à crise financeira que se instalou em definitivo na Europa e fez tombar alguns bancos da região.

A ausência de um acordo sobre o plano da Administração Bush para sanear a banca norte-americana contribui igualmente para a reacção actual do euro. Na abertura, o euro valia 1,4435 dólares e no final da sessão do mercado de divisas o preço era de apenas 1,40 dólares, uma desciam de quatro cêntimos, ou menos 2,9 por cento do que na véspera.

Hoje, uma nova vaga de bancos europeus parece ter caído em desgraça, em particular os belgas ING e KBC, duas instituições que se seguem aos gigantes Fortis e Dexia, salvos ontem por fundos públicos de governos de vários países europeus.

Nos últimos dias, os governos europeus têm estado em alerta devido à queda abrupta de títulos de instituições financeiras e de resgates inesperados que têm dificultado a capacidade de angariação de liquidez a essas instituições.

No Reino Unido, foi o caso do Bradford & Bingley, ajudado por fundos públicos e pela liquidez disponível do espanhol Santander, que garantiu parte dos seus activos.

Na Alemanha, o Hypo Real evitou a falência porque congéneres alemães e o governo local conseguiram angariar 35 mil milhões de euros.