segunda-feira, 29 de setembro de 2008

HAKIM BEY


Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.

Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é: o que a InterNet pode fazer por nós?

Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.

Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.

À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios).

Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.

Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.

Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satânicos".

Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.

Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.

Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?

No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.

Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.

Uma imagem adequada para uma ruína romântica…

Hakim Bey NYC 18 de agosto, 1997

retirado de http://catatau.blogsome.com

domingo, 28 de setembro de 2008

GAJAS DA TV


As gajas da TV exibem-se na TV. Até que não me importava de ser entrevistado por uma gaja dessas. O meu anarquismo permite esses desvios. Deixei de ser rígido nas minhas convicções. Até simpatizo mais com o Dali. Para lá da pintura, que é genial. Mas esse mundo "avida dollars" também é o mundo que eu combato. Como posso querer dinheiro se quero queimar o dinheiro? Com as minhas ideias tenho que me manter à margem. Mas se fosse convidado para ir à televisão não recusaria o convite. Diria para lá, quando menos se esperasse, umas das boas. Umas das boazonas. Quando começo a falar das boazonas o pessoal ri-se. Nada tenho a ver com a guerra entre televisões. A minha guerra é outra. Sou da guerrilha. Sou do Che e de Sade. Quero uma revolução que seja mundial. QUero acender o rastilho. Quero pegar fogo a esta merda. Às gajas boas, não. Sou o poeta que recomeça. Sou o poeta que tropeça e se levanta. Sou o poeta que tu queres apanhar. Sou o poeta à beira do mar. Sou o poeta que olha para as gajas e fica á espera. Sou o poeta que desespera. Sou o poeta em pé de guerra. Sou o poeta que fica. Sou o poeta que arde. Sou o poeta que queima e teima. Sou o poeta que te rodeia.

UHF


UHF no regresso à Faculdade de Letras. "Jorge Morreu", "Já Não Me Interessa", "Um Copo Contigo", "Rua do Carmo", "Cavalos de Corrida", "Sonhos na estrada de Sintra", "Juro Que Tentei", "Matas-me Com o Teu Olhar", "A Lágrima Caiu", "Os Putos Vieram Divertir-se". António Manuel Ribeiro no papel do xamã. A dizer aos putos que nesta vida ninguém lhes dá nada, é só malandragem. Tentar ser feliz, mesmo assim, em cada dia que passa. Um grande concerto.

sábado, 27 de setembro de 2008

O ANARCA PÓS-MODERNO


O ANARCA PÓS-MODERNO

O Anarquista Pós-Moderno convocou pela Internet uma reunião de anarquistas. O ajuntamento ocorreu no passado dia 21, sob alta vigilância policial, num barracão colocado à disposição por Flamínio Dados Errados - conhecido elemento da Organização dos Anarcas Unidos, radicado em Venda das Pulgas. A agitação era evidente, disfarçada, aqui e acolá, com cumprimentos enrugados e desabafos lastimosos. Tomou a palavra Florentino Riço Concórdia, de Bagaceira, Calheta, num discurso empolgado e empolgante que teve o mérito de não só quebrar o gelo como também de atear o fogueiro das massas. Bufando ódios, cuspindo bílis sobre a ordem vigente, avivando a memória dos mais esquecidos sobre saques, vilipêndios, vitupérios, atentados contra a liberdade individual, Florentino Riço Concórdia rematou a sua intervenção citando os mestres Bakunin e Kropotkin, segundo os quais o anarquismo não vingaria sem o empenho de todos numa causa que fosse de todos. Para tal, o eriçado Florentino Riço Concórdia sugeriu que se lançassem os camaradas numa investida o mais violenta possível contra os poderes instalados, a qual deveria passar por acções tão comprometedoras quanto indisfarçáveis tais como: atear fogo a igrejas e catedrais, pendurar os padres pelas próprias tripas (ideia decalcada do padre Jean Meslier), atentados à bomba contra bancos, seguradoras e afins, disparos certeiros na direcção de tudo o que fosse político instalado e subserviente. Nuno Brigeiro e Luís Pandarrinha, respectivamente de Crucifixo e Endiabrada, concordaram imediatamente, mas apenas avançariam se Alguém tomasse a iniciativa. Alguém solicitou a palavra para lembrar que era dotado de uma memória feliz. Outros podiam ter esquecido, mas ele ainda trazia bem vivas as críticas que lhe haviam sido arremessadas, na última convenção dos Anarcas Unidos, quando propusera exactamente as mesmas medidas com o aval de Ninguém, seu camarada de sempre. Não estava, por isso, em condições de negar ou sequer minorar as propostas vindas a lume, pois ele mesmo as havia proposto anteriormente. No entanto, outros teriam de dar agora o primeiro passo na direcção do abismo. Ao falar em outros, Alguém e Ninguém olharam de viés os camaradas Buzaglo Sargaço e Estther Caturna. Estther, ex-companheira de Arquimedes Catre e de Alzino Zaguzy, fora recentemente promovida a presidenta da Associação Unida de Mulheres Anarcas Separadas. Coube-lhe a palavra, a qual podemos resumir nos seguintes termos: as mulheres anarcas estão preparadas para a luta, assim os homens anarcas tomem a iniciativa de lutar. Não obstante encontrarem-se todos de acordo quanto a causas comuns e metodologias a adoptar na defesa dessas mesmas causas, ninguém parecia estar disposto a dar aquilo a que na gíria popular se chama o primeiro passo. Mostraram-se todos mais que empenhados no segundo passo, embora o primeiro passo parecesse uma miragem. Eis senão quando Jesus Camelo puxou da palavra e, num rompante algo inusitado, se arrogou no direito de eleger um grupo composto por Nanete Bezerra, Deolina Caxias, Donzília Confusa, Duartina Ratanji, Umbelina Trindade, Peixe Courelas, Florivaldo Prozil, Júlio Trabulo, Pascal Zabumba e Bernardino Biverlo, como sendo aquele que ficaria incumbido de oferecer o primeiro passo à causa anarca. Os elementos do grupo eleito por Jesus Camelo, oriundos todos eles de Catraia do Buraco, entreolharam-se indignados. Pareciam prever naquele gesto impetuoso a arrogância do poder, assim como uma conspiração contra a povoação de onde eram naturais e à qual deviam a maior das indiferenças. No entanto, como diz o povo, tudo pelos nossos, nada contra os nossos. O Grupo Eleito apontou Jesus Camelo como um falso anarca, um biltre, um miserável traidor da liberdade individual, uma mente aburguesada pela ânsia de poder, um arrivista mendicante que procurava por todos os meios ocupar um lugar de destaque que lhe conferisse o estatuto de dispor sobre os outros sem critério nem resposta. Tomados por um ódio que diríamos mais racional que a própria razão, os elementos do Grupo Eleito lançaram-se sobre Jesus Camelo montando-o e crucificando-o em nome de todos os humilhados e ofendidos. Estava dado o primeiro passo.

retirado de http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

JORNAIS


Esta merda de aparecer nos jornais, sabes, ficamos convencidos de que somos umas estrelas mas depois passa um mês ou dois e já toda a gente se esqueceu de nós ou então a coisa começa a subir e armamo-nos em vedetas em primas donas e queremos o mundo a nossos pés e queremos todas as gajas boas e bonitas e depois acabamos por perder tudo esta merda de aparecer nos jornais, sabes, já vi o filme e já tenho visto tantos filmes que já nem sei onde me devo situar, sabes, um gajo começa a sentir-se em cima, realmente em cima convencido de que é capaz de tudo convencido de que vai amar os amigos e derrotar os inimigos convencido de que de agora em diante vai ser o paraíso e depois a coisa cai-nos em cima, sabes, cai-nos realmente em cima e não sabemos onde vamos parar, sabes, esta merda de aparecer nos jornais e de pensar que os jornalistas nos adoram e que andam sempre atrás de nós e que toda a gente nos adora, admira e respeita e que as pessoas olham para nós, sabes, é tudo uma ilusão, sabes, quando há alguém que se preocupa connosco e que diz para não ir por aí esse alguém tem alguma razão esta merda de aparecer nos jornais e de te sentires absolutamente livre e de seres o artista que faz tudo o que quer, sabes, isso é muito bonito isso é tão puro e bonito como a mulher que amas que realmente amas e que espera por ti estejas onde estiveres, sabes, quando começas a ver o mundo com outros olhos quando começas a ver a beleza que há nos olhos delas isso é muito bonito e tens razão em te sentires tão em cima e já não pensas só nas mamas nem dás tanta importância ao que sai nos jornais.

Pátio, 26.9.2008

LIBERDADE


Sabes, essa merda das caralhadas que um gajo vai dizendo e escrevendo eh, pá! é mais fácil fazê-lo assim para mim do que adoptar uma linguagem rebuscada encher tudo de flores agradar às meninas aprendi a ser rude nos bares nas tascas já não há volta a dar-lhe não posso ser sempre simpático há inimigos a abater não me peçam que embarque no nacional-cançonetismo afinal de contas um gajo passa tanto tempo fodido que é um alívio sentir-se em cima estou a ficar como o Lou Reed: "adoro mulheres penso que elas são o máximo são uma benção para os olhos um bálsamo para a alma que pesadelo seria o mundo sem mulheres" eh, pá um gajo não pode dar os trunfos todos dizer tudo o que elas querem senão elas controlam-nos, sabes, e aí perdes a tua liberdade a tua preciosa liberdade, sabes, essa merda que tanto amas essa merda que te faz correr a liberdade a liberdade essa merda ninguém a controlar-te ninguém acima de ti só a tua consciência essa coisa que a tua mãe não compreende essa merda que pouca gente compreende essa merda que está nos gajos que admiras essa merda essa merda essa merda.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

AS GAJAS, AS MAMAS


As gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que saem
que saltam
que te põem
cheio de tesão
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que balançam
que tremem
à frente
dos teus olhos
que te põem doido
completamente doido
fora de controle
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
no metro
na rua
em todo o lado
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
coisa divina
absolutamente divina
apetece chupá-las
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
fico sem controle
vou ter um ataque
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
supremo deleite
viva o criador!

Vila do Conde, Pátio, 26.9.2008

FUTEBOL

Mais do que os gajos que só falam de futebol detesto gajas que percebem de futebol. Será que as gajas não podem gostar de roupas, de ler revistas de moda e de ter actividades culturais como a Gotucha? Falar de futebol. Que desperdício! Ainda por cima jogos da distrital que não interessam a ninguém.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

APENAS TRAIÇÕES?

Teses ao XVIII Congresso
PCP fala em “traição de dirigentes” na derrota da URSS
25.09.2008 - 11h07 São José Almeida
A “traição de altos responsáveis do partido e do Estado” é um dos motivos apontados para a “derrota” do socialismo na União Soviética de acordo com as Teses ao XVIII Congresso do PCP que hoje são divulgadas com o jornal partidário “Avante!”.

Em fase de discussão, para posterior aprovação pelo congresso, e susceptíveis de sofrer alterações, as Teses afirmam a necessidade e a certeza de que o futuro passa pelo socialismo e pelo comunismo. É nesse âmbito que é abordada a análise do que se passou nas décadas de 80 e 90 na União Soviética e nos países de Leste, que levou ao que a direcção do PCP caracteriza como “derrota” do socialismo.

Assim, no ponto O socialismo, alternativa necessária e possível pode ler-se, na página 15: “Perante os complexos problemas que se manifestaram na construção do socialismo na URSS, assim como noutros países do Leste da Europa, o PCP expressou compreensão e solidariedade para com os esforços e orientações que proclamavam visar a sua superação, alertando simultaneamente para o desenvolvimento de forças anti-socialistas e para a escalada de ingerências imperialistas, confiando em que existiam forças capazes de defender o poder e as conquistas dos trabalhadores e promover a necessária renovação socialista da sociedade. Mas certas medidas tomadas agravaram os problemas ao ponto de provocar uma crise geral. O abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo, a penetração em profundidade da ideologia social-democrata, a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, a traição de altos responsáveis do partido e do Estado, desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo”.

Considerando “a caminhada da humanidade para o socialismo e o comunismo sofreu profundos reveses no findar do século com a destruição da URSS e as derrotas do socialismo no Leste da Europa”, a direcção do PCP garante que o que foi derrotado não foram os ideais e o projecto comunistas, mas um 'modelo' historicamente configurado, que se afastou, e entrou mesmo em contradição com características fundamentais de uma sociedade socialista”.

Refira-se que, na análise da situação internacional, as Teses dizem que “importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e RDP da Coreia”.

E sublinham que entre os partidos comunistas “continuam a desenvolver-se tendências revisionistas e reformistas envolvendo processos de degenerescência, autoliquidação e diluição em frentismos de 'esquerda', com o abandono das referências ideológicas e objectivos revolucionários que definem os comunistas como corrente revolucionária”.

Garantido que “o Partido da Esquerda Europeia, que o PCP não integrou pela sua lógica supranacional e natureza ideológica, não só se confirmou como uma falsa resposta ao reconhecidamente do necessário reforço da cooperação das forças de esquerda anticapitalistas na Europa, como introduziu factores de divisão, afastamento e preconceito, que se manifestaram nomeadamente no Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu.”

www.publico.clix.pt

E O CAPITALISMO A ARDER, A ARDER


Um dia antes da votação do plano de saneamento da banca
Bush adverte Congresso para actual situação de “perigo” da economia dos EUA
25.09.2008 - 09h33
Por AFP, PÚBLICO
Yuri Gripas/Reuters

Bush pediu urgência e a combinação de vontades no Congresso para fazer aprovar o pacote de emergência rapidamente
George W. Bush advertiu ontem à noite, num raro discurso televisivo consagrado à actual crise financeira, “que toda a economia está em perigo” caso o Congresso norte-americano não aprove rapidamente o pacote de saneamento da banca proposto por Washington.

“Estamos no meio de uma crise financeira grave”, insistiu o Presidente dos EUA, numa declaração solene e com um tom dramático, realizada a partir da Casa Branca.

Dirigindo-se aos norte-americanos, mas com um claro intuito de pressionar o Congresso, Bush anunciou que chamou hoje à Casa Branca os dois candidatos que se encontram na corrida presidencial, o democrata Barack Obama e republicano John McCain, que se “irão juntar aos responsáveis parlamentares dos dois partidos (...) a fim de ajudarem a acelerar as discussões sobre uma lei sem espírito partidário”.

O Presidente dos EUA testemunhou o espírito de “cooperação entre democratas e republicanos e entre o Congresso e a sua administração” para fazer passar a lei que irá permitir a criação de um megafundo destinado a acolher activos problemáticos que se encontram nos balanços de bancos e outras instituições financeiras e que lhes impede de assegurar a liquidez necessária para sobreviveram.

Evocando o secretário norte-americano do Tesouro, Henry Paulson, responsável pelo plano que foi submetido ao Congresso, Bush considerou o pacote de 700 mil milhões de dólares (475 mil milhões de euros) “bastante ambicioso para resolver um problema grave”, acrescentando ainda que “este esforço de salvamento não visa preservar as empresas ou as indústrias de certos indivíduos. Visa preservar a economia norte-americana em geral”.

Bush apresentou-se como um “fervoroso adepto da livre iniciativa empresarial”. “Daí, que o meu instituto natural é de me opor a uma intervenção do governo”, afirmou, sublinhando logo de seguida que “se deve deixar as empresas pagar pelos erros que cometem”.

“Em circunstâncias normais teria seguido esse princípio. Mas não estamos nessas circunstâncias normais”, reconheceu George W. Bush, que termina o seu mandato daqui a dois meses e que, sempre que pode, tem vindo a dar a mão ao seu colega de partido, o candidato John McCain.

Bush voltou a insistir na acção rápida do Congresso como o último passo indispensável para evitar a ruína de grande parte da indústria e do empresariado do país. “Sem a acção imediata do Congresso, a América poderá cair num pânico financeiro e num cenário doloroso”, concluiu o Presidente norte-americano.

www.publico.clix.pt

LOUCURAS


Eh, pá! Apetece-me cometer loucuras
insultar o público
berrar para toda a gente

Eh, pá! Estou farto da razão
e das coisas alinhadinhas
porque raio terei de explicar tudo?

Eh, pá! Quando era puto portava-me bem
agora apetece-me portar-me mal
esta merda parece um quartel
ou uma prisão
toda a gente a fechar-se no grupo
a falar só para o grupo
faz falta um profeta que fale
para toda a gente

Eh, pá! A minha liberdade é sagrada
não venhas com normas
não me venhas foder a cabeça
com aquilo que devo fazer

Eh, pá! Apetece-me cometer loucuras.

Porto, Piolho, 24.9.2008

MANIFESTO DA CRIAÇÃO


Fino após fino vou bebendo. Os estudantes fardados celebram. Sinto saudades do meu tempo de estudante. Essa coisa de não estudar ou estudar muito pouco e ir beber copos com os amigos. As merdas culturais e políticas em que me meti. As noitadas. Houve muitos projectos por concluir, merdas quiméricas. O amor que ficou. A santa loucura como diz o AMR que vou ver amanhã. O regresso à Faculdade de Letras. O regresso em triunfo. Essas coisas todas. E o divino Ulisses. Ítaca que nunca mais vem. Os praxistas gritam lá fora. E os empresários da bola esfregam as mãos.
Eu deveria ser pago à letra. Olha o que te digo, deveria ser pago à letra. Qual a diferença entre fazer um verso e fazer uma finta? E as coisas grandes, realmente grandes, àparte as gajas boas, vêm do espírito, da alma. E as coisas realmente grandes, àparte as gajas boas, são criações do Poeta, do Artista. Quem foi o artista que criou as gajas boas? O Poeta é um privilegiado porque é um criador. Na sociedade do dinheiro deveria ser pago a peso de ouro. Deveria ser adorado como na Grécia e em Roma. Deveria ostentar a coroa de louros. Mas também deve gritar no meio da multidão, cantar a sua canção. O seu papel é agitar, provocar, mostrar o novo mundo. Não deve temer a loucura. Deve segui-la, amá-la até ao fim. Deve estar em pé de guerra, com intervalos para descansar. Deve ser imoderado em busca da sabedoria. Deve estar para lá dos bens materiais. Nunca deve mendigar. O único deus que respeita é o seu irmão Dionisos. Os outros são ficções. Deve dizer e fazer coisas incongruentes, non sense, para baralhar amigos e inimigos. Deve ter uma atitude de gozo perante a realidade. Deve situar-se além do bem e do mal e para lá de todos os preconceitos, como defendia Nietzsche. Deve cantar o caos. Deve amar loucamente a mulher amada, como preconizava Breton. Pode até divinizá-la , seja ela a empregada de mesa ou a "porno-star". Deve encarnecer, gozar com a sociedade-espectáculo, tanto com os produtores do espectáculo como com os batedores de palmas. Deve explorar todas as potencialidades da net e das Zonas Autónomas, à boa maneira de Hakim Bey. Deve ser um xamã, um profeta, um pirata, um filósofo, um provocador, um criador, um Homem Superior.

Porto, 24.9.2008

EUROMILHÕES


Ah! Se as coisas fossem de borla é que era bom. Não precisar da merda do dinheiro, não andar atrás da merda do dinheiro. Comer de borla. Beber de borla. Ter livros de borla. Esquecer que as gajas não comparecem aos encontros. Assim é que não dá. Até cheguei ao ponto de jogar no "Euromilhões".

A DOENÇA


Regresso à praia
os gajos do lado
não páram de falar de futebol
têm bolas de futebol no cérebro
tudo se resume ao futebol
às bolas que entram e que saem
às traçadelas
aos jogos da 3ª distrital
toda a semana a falar de futebol
todo o mês a falar de futebol
todo o ano a falar de futebol
puta de doença!

E o gajo que dá gosto ver jogar
e o gajo que não pára de falar
e o gajo que mete bolas pelo cu acima
e o gajo que corre sem parar
e o gajo que foi expulso
e o àrbitro gatuno
e o cementador que analisa
e disseca e defeca
e a merda que prossegue
puta de doença

Labruge, 24.9.2008

MÁXIME DU CAMP, 1850

Literariamente falando: nada, calma platitude; em todo o lugar o tédio dominante, indiferença por todas as coisas que não tocam directamente ao interesse material; está bugremente morto o tempo dos entusiasmos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

MAIAKOVSKI


Maiakovski (1893-1930)

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme
fiel
e verdadeiramente.


Tradução de E. Carrera Guerra

terça-feira, 23 de setembro de 2008

RIR A VALER


Detesto gajos sérios. Detesto moralistas. Detesto racionalistas. Fazem-me impressão aquelas caras afectadas na televisão. Detesto o ar sério e ponderado dos apresentadores do Telejornal e a gravata dos jornalistas. Quero rir! Desatar às gargalhadas. Gozar com esta merda toda. Quero rir como ria na infância. Não me venham com notícias! Não me venham com polícias! Não me venham com depressões. Afastem de mim o espectro repressivo da razão! Não quero ter razão! Não quero ser o coitadinho que tinha razão. Não me venham com conselhos. Não me venham com funerais. Não quero ser determinado por nada, nem pelos relógios. Quero rir como um homem livre, como um Super-Homem. Quero exterminar o Governo, o primeiro-ministro, o Presidente e todos os filhos da puta que nos vêm dizer o que devemos fazer, todos os profetas da eficácia, do empreendorismo, do realismo, do rumo certo para o país. Não quero gajos cinzentos! Quero rir a valer como na infância.

GÉNIO

Ao génio está reservado o sofrimento "de se sentir par dos deuses sendo homem, par dos homens sendo deus."
(Jacinto do Prado Coelho, "Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa")

IDADE DO OURO


Afinal há quem se lembre de mim. Do meu nome, da minha obra. Queimemos o dinheiro! Queimemos o dinheiro porque o dinheiro e o mercado dão cabo de nós. À sociedade-espectáculo demos espectáculo. Ao caos demos o caos. E celebremos o eu. Nada está acima de mim, da minha liberdade. Não temos de ser materialistas nem meros batedores de palmas. E gritemos! Gritemos como loucos. Demos cabo dos ouvidos ao público. Um mundo novo. Um mundo novo que se abre. A Idade do Ouro. És livre. Faz o que quiseres. Parte vidros. Assalta comboios. Caga na ignorância. Já não tens de viver reprimido nem deprimido. Já não tens de obedecer a nada. Já não tens de andar direitinho como o teu vizinho. És um homem livre. Ninguém te pode tirar isso. Ninguém te prende. Não dependes de ninguém. Já não há rebanho. Cantas o que queres. Estás na Idade do Ouro.

PABLO NERUDA


Cultura


A poesia ainda é uma arma política?
Nos 35 anos da morte de Pablo Neruda, poetasreconhecem o declínio actual da literatura de intervenção
00h30m
SÉRGIO ALMEIDA
O que resta hoje da poesia de contornos políticos, de que Pablo Neruda foi um dos maiores cultores? Três poetas ouvidos pelo JN (Manuel Alegre, Humberto Rocha e António Pedro Ribeiro) realçam a sua importância mas advertem para os riscos.

"Arma carregada de futuro", conforme definição do espanhol Gabriel Celaya, a poesia sempre reforçou a sua importância nas grandes crises morais da Humanidade, altura em que a voz dos poetas adquiria uma ressonância mais forte e clara. Os tempos, todavia, não correm de feição para estes "legisladores sem lei do universo", de que falava Novalis, confrontados com uma sociedade- espectáculo cujos valores parecem estar nos antípodas morais dos seus.

A guetização crescente da poesia (circunscrita a tiragens que raras vezes ultrapassam as poucas centenas de exemplares) e a transferência da discussão para outros espaços, mais imediatos mas também mais voláteis, são alguns dos motivos que tornam improvável, hoje, o aparecimento de um poeta que desempenhe o papel de guardião moral do seu tempo, como aconteceu com Pablo Neruda, afirmam os autores ouvidos pelo JN.

Mesmo discordando do conceito - "toda a poesia, em última instância, é ideológica, porque não há neutralidade na poesia", diz -, Manuel Alegre admite que nos escritos das novas gerações de poetas os sinais de intervenção pública estão muito mais diluídos do que acontecia ainda há três décadas.

No entanto, recusa-se a ver no facto uma certidão de óbito antecipada da poesia que se coloca ao serviço de valores. "São ciclos. As circunstâncias também são diferentes, mas a nossa poesia é rica em autores com um elevado sentido cívico e político nos seus textos, como Sá de Miranda, Almeida Garrett, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner", explica o autor de "Praça da canção", para quem "são precisamente os escritos de Neruda centrados na discussão ideológica aqueles que o tempo se encarregou de arrumar, em contraste com os poemas de amor, por exemplo".

Estará, então, a poesia que se empenha nas causas do presente, como aconteceu com a do poeta chileno, condenada a um rápido esquecimento? A questão está longe de gerar consenso. António Pedro Ribeiro, cuja obra inclui escritos tão mordazes como "Declaração de amor ao primeiro-ministro" ou "Queimemos o dinheiro", não tem dúvidas de que a poesia de cariz militante "faz hoje mais sentido do que nunca", citando como exemplo "as recentes crises da alta finança", que apenas vêm mostrar, afinal, que "o capitalismo desumano continua a ser o mesmo dos tempos de Pablo Neruda".

Autor de "Pão e circo", romance agora lançado pela Afrontamento, o poeta Humberto Rocha vê no cunho estritamente pessoal que caracteriza boa parte da poesia actual - em que a narração estrita do quotidiano substitui o questionamento moral e político - um sintoma "do vazio ideológico reinante". "Há uma vacilação entre a ficção e a representação do Eu como núcleo fundamental da estória dentro da História, conduzindo a uma vacuidade por exaustão do narcisismo decorrente", afirma o autor de "Esqueletos leiloados", convicto de que a poesia actual não pode ter um sentido vago ou impreciso, pois "uma das funções de quem escreve não é apresentar modelos, mas unificar a dispersão do humano enquanto ser singular mergulhado no caos que advém da sua própria condição humana."

Se a função do poeta se mantém, ainda que em novos moldes, exige-se, contudo, um "upgrade" do discurso, defende António Pedro Ribeiro: "Não podemos ler apenas Marx e ouvir Zeca Afonso, como alguns poetas ainda fazem".

Da lição de vida de Neruda - " o último gigante da liberdade total e impossível da poesia do século XX", define Humberto Rocha -, há a reter, sobretudo, "o poeta que cantou o amor como ninguém, mas também o seu exemplo revolucionária e a vida intensamente solidária", acrescenta António Pedro Ribeiro.

www.jn.pt
Jornal de Notícias, 23.9.2008
Eh! Vocês, filhos-da-puta, materialistas,
comedores de pão, comedores de carne,
vegetarianos,
professores, aprendizes de carniceiro,
chulos!
Corja de vagabundos!

(George Grosz)

O Dada dá-vos pontapés no cu e vocês gostam!

NOITE DADAÍSTA

14 de Julho de 1916- Pela primeira vez em qualquer lugar. Waag Hall: Primeira Noite Dadaísta (música, danças, teorias, manifestos, poemas, pinturas, figurinos, máscaras).
Diante de uma multidão compacta, Tzara demonstra, "nós exigimos, nós exigimos o direito de mijar em cores diferentes!", Huelsenbeck demonstra, Ball demonstra, Arp "declaração", Janco "os meus quadros", Heusser "composições originais", os cães baía e dissecação do Panamá ao piano ao piano e caos- poema gritado- gritando e lutando no pavilhão, primeira fila aprova, segunda fila declara-se incompetente para julgar o resto grita, "quem é o mais forte", trazem o grande tambor, Huelsenbeck contra 200, Hoosenlatz acentuado pelo tambor muito grande e sininhos ao seu pé esquerdo- as pessoas protestam gritam quebram vidros matam-se umas às outras matam-se umas às outras demolição luta aí vem a polícia interrupção

(Tristan Tzara)

WEDEKIND

O vagabundo diz: vou ter relações sexuais contigo, vadia.
A vadia responde: vou infectar-te com tantas doenças venéreas que jamais te esquecerás de mim.
É evidente que naquele momento ela não estava interessada em ter relações sexuais.
(Frank Wedekind)

domingo, 21 de setembro de 2008

TEORIA DO CAOS


Comunicado Especial

A AAO Anuncia Expurgos no Movimento do Caos

A Teoria do Caos deve, é claro, fluir impuramente. ``O roceiro preguiçoso ara sulcos tortos.'' Qualquer tentativa de precipitar a formação de um cristal ideológico iria gerar uma rigidez desconjuntada, fossilizações, o uso de armaduras e uma aspereza a que preferíamos então renunciar, junto com toda a ``pureza''. Sim, o Caos regozija-se numa certa falta de forma desleixada semelhante à erótica desordem daqueles que amamos por sua capacidade de destruir hábitos e revelar mutabilidades.
No entanto, essa flexibilidade não significa que a Teoria do Caos deva aceitar todo sanguessuga que procura se prender às nossas membranas sagradas. Certas definições ou deformações do Caos merecem ser denunciadas e nossa dedicação para com a desordem divina não pode nos deter em desbancar os traidores e artistas oportunistas e vampiros psíquicos que agora zumbem ao redor do Caos sob a impressão de que esta é a tendência da moda. Não propomos uma Inquisição em nome de nossas definições, mas sim um duelo, uma disputa, uma ato de violência ou de repúdio emocional, um exorcismo. Primeiro, gostaríamos de definir e mesmo nomear nossos inimigos.


Todos estes artistas, com fixação na morte e mutilação que associam o Caos exclusivamente com miséria, negatividade e uma pseudolibertinagem sem alegria - aqueles que pensam que ``além do bem e do mal'' significa fazer o mal - os intelectuais sadomasoquistas, seresteiros do apocalipse - os novos gnósticos dualistas, gente que odeia o mundo e niilistas atrozes.
Todos esses cientistas que vendem o Caos tanto como uma força destruidora (por exemplo, armas com raios de partículas) quanto como um mecanismo para impor a Ordem, como no caso do uso da matemática do Caos para estatísticas sociológicas e controle das massas.
Todos aqueles que se apropriam do Caos em nome de algum esquema New Age. Claro, nós não faremos nenhuma objeção se você quiser nos dar todo o seu dinheiro, mas vamos deixar bem claro: vamos gastá-lo comprando maconha ou viajando para o Marrocos.
Você não consegue vender água na beira do rio; o Caos é a matéria sobre a qual os alquimistas falaram, que os tolos consideram mais valiosa do que o ouro, embora possa ser encontrada em qualquer pilha de lixo. O maior inimigo nesta categoria é Werner Erhardt, fundador do EST, que agora está engarrafando ``Caos'' e tentando vender franquias para yuppóides.

Segundo, listaremos alguns dos nossos amigos, para dar uma idéia das tendências díspares que desfrutamos dentro da Teoria do caos: Caótica, a zona autônoma imaginária descoberta por Feral Faun (também conhecido por Feral Ranter); a Academia de Artes Caóticas de Tundra Wind; a revista KAOS, de Joel Birnoco; Chaos Inc., um boletim informativo associado ao trabalho de Ralph Abraham, um proeminente cientista do Caos; a Igreja de Eris; o Zen da Discórdia; a Igreja Ortodoxa Islâmica; certas facções da Igreja dos Subgênios; a Sagrada Cruzada de Nossa Senhora dos Caos Perpétuo; os escritores associados com o ``anarquismo tipo-3'' e periódicos como o Popular Reality, etc. Os Postos estão tomados. Caos não é entropia, Caos não é morte, Caos não é uma mercadoria. Caos é a criação contínua. O Caos nunca morreu.
Posted by Timóteo Pinto at 3:50 PM 0 comments

http://hakimbey.blogspot.com

DIÁRIO


Hoje não estou com o pedal de ontem. Venho ao "Piolho" e não conheço ninguém. Estou à espera de uma gaja mas não sei se ela vem. Ontem ligaram-me do "Jornal de Notícias" mas eu não levei o telemóvel. Uma oportunidade perdida, talvez. De agora em diante vou andar sempre com a merda do telemóvel.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

EOSM

EOSM

E os bancos? Bem… não vamos nem falar sobre eles. Basta dizer que num futuro distante, quem sabe, as pessoas olhem para o passado e para as antigas intituições financeiras que eram chamadas de bancos e tenham tanta aversão (e porque não dizer, asco) à idéia de que um dia as pessoas depositaram suas vidas nas mãos de tais entidades, da mesma forma que as pessoas de hoje acham um absurdo que um dia tenha existido um Santo Tribunal Inquisitorial que controlasse o que as pessoas deviam ou não acreditar.

Aliás, o próprio conceito de dinheiro é o mais puro nonsense. Senão vejamos: existe um minério amarelo no planeta chamado Terra (o terceiro planeta que orbita uma estrelinha de quinta categoria, na periferia da Via Láctea. Digamos que se o centro da galáxia fosse Nova York, o nosso sol seria a Ilha de Páscoa). Como é difícil de encontrar esse mineral amarelo, os macacos-pelados que habitam a Terra passam a procurar por ele como loucos pelo simples fato de ser bonito. Porém, este mineral (que é um tipo de metal) não serve para nada, não se pode fazer nada de muito útil com ele. Mas mesmo assim os macacos-pelados o adoram. Ele é amarelo, e brilha… e brilha, e é amarelo, e brilha… e… bom, já deu para entender!

Ai, os macacos-pelados, num surto de loucura, passam a falar que o tal metal é “valioso” (os outros macacos, com pêlos, acham que água e bananas são bem mais valiosas. É, gosto não se discute!), e passam a dizer que uma certa quantidade de metal amarelo que brilha vale duas galinhas. Uma quantidade maior, um boi, dois bois, seis cabras, uma casa, uma esposa, o silencio de outro macaco-pelado que sabe demais e por ai vai. Mas como os macacos-pelados acham que o tal metal é tão valioso assim, outros macacos-pelados que tem preguiça de ir até onde existe o metal, resolvem roubar o metal dos outros que tem. Logo, para não correr o risco de andar por ai com um monte metal amarelo brilhante, os macacos-pelados inventam uma coisa chamada dinheiro. O dinheiro seria como o metal amarelo brilhante, mas não é. Assim, quem tivesse uma quantidade do tal dinheiro, teoricamente teria um equivalente daquilo em metal amarelo brilhante. Primeiro foram as moedas.

Até ai tudo bem, porque elas podiam ser feitas de metal amarelo brilhante. Mas ai os macacos inventaram o “papel moeda”: um pedaço de papel colorido, escrito com um valor equivalente em metal amarelo brilhante. Seria mais ou menos como um “este papel vale 1, 2 ou 10 porções de metal amarelo brilhante”. Entretanto, a essa altura da história, os macacos-pelados já não viam o tal metal amarelo brilhante há muito tempo. Mas ai eles foram mais criativos! Pegaram um pedaço de papel onde podiam escrever um certo valor equivalente a quantidade do, agora sumido, metal amarelo brilhante e os entregavam a outros macacos-pelados que acreditavam que aquele papel que o outro tinha rabiscado alguns numeros valia alguma coisa. Mas ai os nossos macacos se superaram! Eles pegaram um pedaço de plástico e disseram que ele teria o valor de várias porções de metal amarelo brilhante. Porém, metal amarelo que é bom, ninguém vê já faz um bom tempo. Mas isso não impede que os macacos-pelados continuem acreditando que toda essa maluquice que eles inventaram faz algum sentido! Ou seja, o tal metal amarelo brilhante e o dinheiro só valem alguma coisa porque toda a comunidade mundial dos macacos-pelados, em um grande delírio coletivo, dizem que eles valem alguma coisa de fato. E o pior é que dizem que os outros macacos, os peludos, é que são irracionais! Bom, vocês pegaram a idéia do que queremos dizer? Assim esperamos.

Talvez seja por isso que, maluquice por maluquice, as figuras dos piratas sempre nos pareceram atraentes (macacos-pelados boiando em conchas de madeira e roubando metal amarelo brilhante de outros macacos-pelados que achavam que era digno morrer para defender o metal amarelo brilhante que na maioria das vezes nem era deles, e que as vezes nem era mesmo metal amarelo brilhante).

EOSM

EOSM

EOSM

E os bancos? Bem… não vamos nem falar sobre eles. Basta dizer que num futuro distante, quem sabe, as pessoas olhem para o passado e para as antigas intituições financeiras que eram chamadas de bancos e tenham tanta aversão (e porque não dizer, asco) à idéia de que um dia as pessoas depositaram suas vidas nas mãos de tais entidades, da mesma forma que as pessoas de hoje acham um absurdo que um dia tenha existido um Santo Tribunal Inquisitorial que controlasse o que as pessoas deviam ou não acreditar.

Aliás, o próprio conceito de dinheiro é o mais puro nonsense. Senão vejamos: existe um minério amarelo no planeta chamado Terra (o terceiro planeta que orbita uma estrelinha de quinta categoria, na periferia da Via Láctea. Digamos que se o centro da galáxia fosse Nova York, o nosso sol seria a Ilha de Páscoa). Como é difícil de encontrar esse mineral amarelo, os macacos-pelados que habitam a Terra passam a procurar por ele como loucos pelo simples fato de ser bonito. Porém, este mineral (que é um tipo de metal) não serve para nada, não se pode fazer nada de muito útil com ele. Mas mesmo assim os macacos-pelados o adoram. Ele é amarelo, e brilha… e brilha, e é amarelo, e brilha… e… bom, já deu para entender!

Ai, os macacos-pelados, num surto de loucura, passam a falar que o tal metal é “valioso” (os outros macacos, com pêlos, acham que água e bananas são bem mais valiosas. É, gosto não se discute!), e passam a dizer que uma certa quantidade de metal amarelo que brilha vale duas galinhas. Uma quantidade maior, um boi, dois bois, seis cabras, uma casa, uma esposa, o silencio de outro macaco-pelado que sabe demais e por ai vai. Mas como os macacos-pelados acham que o tal metal é tão valioso assim, outros macacos-pelados que tem preguiça de ir até onde existe o metal, resolvem roubar o metal dos outros que tem. Logo, para não correr o risco de andar por ai com um monte metal amarelo brilhante, os macacos-pelados inventam uma coisa chamada dinheiro. O dinheiro seria como o metal amarelo brilhante, mas não é. Assim, quem tivesse uma quantidade do tal dinheiro, teoricamente teria um equivalente daquilo em metal amarelo brilhante. Primeiro foram as moedas.

Até ai tudo bem, porque elas podiam ser feitas de metal amarelo brilhante. Mas ai os macacos inventaram o “papel moeda”: um pedaço de papel colorido, escrito com um valor equivalente em metal amarelo brilhante. Seria mais ou menos como um “este papel vale 1, 2 ou 10 porções de metal amarelo brilhante”. Entretanto, a essa altura da história, os macacos-pelados já não viam o tal metal amarelo brilhante há muito tempo. Mas ai eles foram mais criativos! Pegaram um pedaço de papel onde podiam escrever um certo valor equivalente a quantidade do, agora sumido, metal amarelo brilhante e os entregavam a outros macacos-pelados que acreditavam que aquele papel que o outro tinha rabiscado alguns numeros valia alguma coisa. Mas ai os nossos macacos se superaram! Eles pegaram um pedaço de plástico e disseram que ele teria o valor de várias porções de metal amarelo brilhante. Porém, metal amarelo que é bom, ninguém vê já faz um bom tempo. Mas isso não impede que os macacos-pelados continuem acreditando que toda essa maluquice que eles inventaram faz algum sentido! Ou seja, o tal metal amarelo brilhante e o dinheiro só valem alguma coisa porque toda a comunidade mundial dos macacos-pelados, em um grande delírio coletivo, dizem que eles valem alguma coisa de fato. E o pior é que dizem que os outros macacos, os peludos, é que são irracionais! Bom, vocês pegaram a idéia do que queremos dizer? Assim esperamos.

Talvez seja por isso que, maluquice por maluquice, as figuras dos piratas sempre nos pareceram atraentes (macacos-pelados boiando em conchas de madeira e roubando metal amarelo brilhante de outros macacos-pelados que achavam que era digno morrer para defender o metal amarelo brilhante que na maioria das vezes nem era deles, e que as vezes nem era mesmo metal amarelo brilhante).

EOSM

PERFORMER


Depois de ler acerca das performances de Alfred Jarry e dos futuristas só me apetece chocar o público. Não sou um diseur tradicional. Sou um performer. Vou começar a levar tomates para distribuir pelo público. Só não gostarem de mim que os atirem. Aquele público estático que bate ou não bate palmas já me cansa. Só aquelas grandes ovações é que valem a pena. Estou a pensar levar uns objectos para o palco. Isto de toda a gente se dar com toda a gente é de desconfiar numa sociedade como esta. Há bocado o caralho do homem do café ia fodendo o poema com a merda da conversa. E o bêbado foi buscar mais uma garrafa ao supermercado. Antes beber...

NADA A PERDER


Não vim ao mundo
para agradar a toda a gente
não vim ao mundo
para receber as palmas
e as honras desta corte
nem venho com palavras conciliadoras
embora às vezes as use
para não ficar sempre em guerra
não vim ao mundo
para ganhar dinheiro
não faço amor com notas de cinco
e acho essa estória do trabalho
e do sacrifício uma grande treta

Não vim ao mundo
para falar dos vizinhos
nem de automóveis nem de assaltos
nem de polícias
não vim ao mundo
para olhar para a TV
fartei-me de imbecilidades
sou o gajo que abandonou o jogo
de livre vontade
por achar que o jogo era absurdo
que foi vaiado pelo estádio inteiro
e pelos próprios colegas de equipa
que se fartou de ser espectador
eu sou o gajo que nada tem a perder.

Vilar do Pinheiro, 19.9.2088

DA MERDA


Esta merda de se passar a vida a pensar na merda do dinheiro faz-me confusão. Esta merda da troca, da venda, de tudo se trocar por dinheiro, este império do mercado, da mercadoria fode-me a cabeça. E fode-me ainda mais essa merda da acumulação de capital, dos PSI's-20, das bolsas, dos mercados. Já Platão considerava o ganhar dinheiro uma actividade secundária, desprezível. Como é possível aceitar um sistema que condena milhões e milhões à fome, à pobreza, à miséria e que arrasta muitos outros para a depressão, para a esquizofrenia, para a merda. Merda, é essa a palavra. Vivemos num sistema de merda que nos atira a merda toda para cima.

WE WANT THE WORLD AND WE WANT IT NOW


"O capitalismo sempre foi uma extraordinária máquina inventiva. O pior agora é que queremos salvar o capitalismo do capitalismo."
(Pedro Lomba, Jornal de Notícias, 19/9/2008)

Salvar o capitalismo do capitalismo? O capitalismo contra o capitalismo? Os capitalistas a foder outros capitalistas. Estão aqui os tempos negros. Mas está aqui também o caos. O caos de Morrison, de Hakim Bey e de Dionisos. É tempo de cantar o caos, de ir para a rua celebrar o caos. Nada há a perder, a não ser...o capitalismo. Finalmente a merda do caos! E, quem sabe, a revolução. Façam-se fogueiras. Incendeiem-se automóveis! Vamos todos dançar numa rave. WE WANT THE WORLD AND WE WANT IT NOW! Camarada, não ligues ao discurso obreirista, não ouças essa patranha que diz que o trabalho dignifica o homem. O trabalho é sacrifício e exploração. Não te sacrifiques! Não trabalhes! Sacrifica-te apenas para a revolução. Não ouças os profetas da morte. Não ouças os que te falam em concórdia, em empreendorismo, na competividade, no mercado sacrossanto. Manda foder o mercado! Queimemos o dinheiro! Organizemos uma grande festa, uma grande orgia e queimemos o dinheiro. Acabemos com os podres todos desta merda. Construamos um novo mundo. Um mundo novo nascerá dos escombros. Um mundo de paz e amor. Sim, e aí falaremos do amor, do amor, do amor, da merda do amor.

CAOS


voltei a interessar-me pelos jornais
por causa da grande crise financeira
confesso que me dá um gozo tremendo
ver os bancos a fechar
a bolsa a arder
o capital a saque
é o caos,
meu caro Hakim Bey,
grande profeta anarquista,
é o caos
que tenho de cantar.

BAUDELAIRE


PERDA DE AURÉOLA

«Eia! quê! tu aqui, meu caro? Tu, num lugar reles! tu, o bebedor de quintas-essências! tu, o saboreador da ambrósia! Na verdade, há nisto qualquer coisa que me surpreende.
— Meu caro, conheces o meu pavor dos cavalos e das viaturas. Há pouco, ao atravessar o boulevard a toda a pressa, e ao saltar na lama através desse caos movimentado onde a morte avança a galope de todos os lados ao mesmo tempo, a minha auréola, num movimento brusco, caiu-me da cabeça no lodo do macadame. Não tive coragem para a apanhar. Julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que partir os ossos. E depois, disse comigo mesmo, há males que vêm por bem. Agora posso passear incógnito, fazer más acções, e entregar-me à crápula, como os simples mortais. E eis-me aqui, semelhante a ti, como vês!
— Devias ao menos mandar anunciar essa auréola, ou fazê-la reclamar pelo comissário.
— Por coisa alguma! Acho-me bem aqui. Só tu me reconheceste. Para mais, a dignidade aborrece-me. E também penso com satisfação que algum poetastro a vai apanhar e cobrir-se com ela impudentemente. Fazer alguém feliz, que alegria! e sobretudo um feliz que me fará rir! Ora pensa em X ou em Z! como será divertido!»

Charles Baudelaire, in O Spleen de Paris (Pequenos Poemas em Prosa), trad. António Pinheiro Guimarães, pp. 131-132, Relógio D’Água, 1991.

Fonte: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

AMOR LOUCO


Amor Louco (AL)
O amor louco não é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo - seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.

Naturalmente, ele caga para os professores e para a polícia. Mas também despreza os liberais e os ideólogos - não é um quarto limpo e bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores e e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos e vermelhos maníacos membranosos.

Cada um de nós possui metade do mapa - como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos - as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.

O anarquismo antológico nunca retornou de sua última viagem de pecas. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o Caos não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente - seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.

Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (``Amplie o seu Eu'', ``Toda pessoas é um Faraó'') - Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - e na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.

As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo - a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, e nisso foram seguidores de Sade (que queria ``liberdade'' apenas para que homens brancos e adultos pudessem estripar mulheres e crianças).

O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.

O amor louco pede uma sexualidade incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade e divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos e ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota e nunca paga impostos.

O AL gostaria de ver todo bastardo (``filho natural'') chagar ao fim de sua gestão e nascer - o AL vive de aparelhos antientrópicos - o AL adora ser molestado por crianças - o AL é melhor que sensimilla1.3 - o AL leva para onde for sua próprias palmeiras e sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla e Majnun1.4, o cheiro de pólvora e de esperma.

O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros - sempre embriagados do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose - não é o resultados da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.

HAKIM BEY

CAOS


Se estamos no caos tenho de cantar o caos.

TERRORISMO POÉTICO?


Estudantes defecam e vomitam para protestar


Enviado por Jornalismo em Qui, 04/08/2005 - 01:56.

Um protesto atípico de estudantes encerrou de forma inesperada a audiência do reitor da Unesp, Marcos Macari, no final da manhã de ontem, no salão nobre do câmpus de Franca.

Durante o evento que reuniu o reitor, o diretor da unidade de Franca, Hélio Borgui, professores e alunos para discutir aspectos administrativos da universidade, alunos, supostamente do curso de História, que não quiseram se identificar, aproximaram-se da mesa em que estavam o reitor e o diretor para protestar contra a presença de Macari.

A manifestação abreviou a passagem do reitor por Franca e irritou alunos e professores. A causa da irritação estava na forma como o confronto ocorreu.

Por volta das 11h, um aluno sem camisa e com uma meia fina na cabeça, no estilo “punk”, invadiu o salão com um balde na mão. No mesmo instante, dois outros alunos que estavam na platéia, levantaram-se e se aproximaram da mesa. Uma aluna colocou garrafas com urina muito perto do reitor e do diretor. Um segundo aluno estendeu folhas de jornal no chão, baixou as calças e defecou sobre elas. Em seguida, enrolou-as e as colocou sobre a mesa. O terceiro, o “punk”, vomitou dentro de um balde, que também foi colocado sobre a mesa.

Aos poucos, perto de dez estudantes foram se levantando, enquanto diziam que não agüentavam mais “essa palhaçada”. Visivelmente irritado, Marcos Macari saiu do plenário sem falar com ninguém.

Enquanto diretores e professores procuravam identificar os alunos, uma parte destes seguiu a reportagem para perguntar se as imagens seriam usadas no jornal. Apesar de reiterar que haviam promovido um ato de “terrorismo poético”, os estudantes estavam preocupados com as punições que poderão sofrer.

E pela disposição e rapidez da diretoria, eles devem mesmo ficar preocupados. Ontem à tarde, quando o grupo já estava parcialmente identificado, a congregação, reunida, decidiu registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil e instaurar um processo administrativo que pode determinar até a expulsão dos estudantes.

À reportagem, os alunos disseram que a manifestação foi promovida para que a direção do câmpus e a reitoria não mais os vissem como idiotas. “Queremos ser vistos de outra forma, não assim”, falou um deles, sem muito sentido. A princípio, não aconteceu nem uma coisa nem outra.



Novo câmpus não tem data para sair

do papel

O projeto de construção do câmpus da Unesp em Franca poderá atrasar mais uma vez. A afirmação é do diretor da unidade, professor Hélio Borghi, e confronta outra, dada pelo vice-reitor Hermann Voorwald ao Comércio no mês passado, esfriando as expectativas da comunidade local em relação ao início das obras, anunciadas para outubro.

Na dependência de uma lei que deve ser votada pela Assembléia Legislativa de São Paulo, a Unesp não sabe quando poderá começar a construção do câmpus, orçada em R$ 14,3 milhões. Segundo Borghi, o atraso é inevitável e tem a ver com a demora da votação na Assembléia.

Durante o evento da manhã de ontem, um dos assuntos mais recorrentes foi a situação financeira da Unesp, que não consegue equalizar receita e despesa. A instituição deverá fechar 2005 no vermelho com um déficit de mais de R$ 68 milhões. “A situação não é das mais favoráveis”, respondeu Macari quando foi questionado sobre investimentos em Franca e em outros campi.

Segundo o reitor, algumas unidades estão passando por readequações visando diminuir os gastos com seu custeio. A crise financeira da universidade já ameaça o pagamento do décimo-terceiro salário de professores e funcionários.

NADA MAIS

Macari não falou com a imprensa. Ao final do encontro em Franca, saiu sem dar declarações, após a manifestação contra ele realizada por alunos do curso de História. A escritura de doação da área de 200.250 metros quadrados, e não 10 mil metros como afirmou a Unesp, foi feita à universidade em 1981 pela Infacape, Instituição Família Cavalheiro Caetano Petráglia.

Pelo termo, a Unesp teria cinco anos para começar as obras, caso contrário a área seria devolvida. “Para evitar a devolução do terreno, foi construída uma casa para caseiro e o terreno cercado com alambrado”, disse o médico Reinaldo Sérgio Afonso, 60, presidente da Infacape. “Com isso, justificava-se a existência de obras no local, mas hoje, mais de vinte anos depois, a casa está destruída e o cercado foi quase todo furtado”.

O administrador disse que a entidade não tem competência para exigir a devolução do terreno doado à Unesp, nem mesmo judicialmente. “Quem teria que fazer isso, agora, é a Prefeitura de Franca”.



Fonte: Paulo Godoy




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NERO


É noite e escrevo. Não tenho sono. Dois dias consecutivos a dizer poesia levam-me a concluir que devo continuar a dizer essencialmente as minhas coisas. Há coisas que resultam melhor aqui, outras que resultam melhor ali, mas concluo que estou mais virado para a juventude.



Os bancos fecham. O capitalismo está a arder. Não deixo de estar contente. Bebo a isso. A minha revolução é caótica, morrisoniana. Não tenho de ser racional. Dinamitemos a bolsa!- os velhos slogans estão de volta. De qualquer modo, não tenho nada a perder. Não sou obrigado a gramar com o capitalismo todos os dias. Há que fazer a guerrilha. Mostrar o desprezo pelo dinheiro e pelo mercado. Há que ser um terrorista poético.


Agora chove lá fora. As ideias do bem e do mal guerreiam no meu cérebro. Tenho medo de me deixar levar pelas ideias demoníacas. Pareço um Nero. Roma arde. Já não sei quem ateou o fogo. Agarro-me aos poemas e canto. As pessoas correm desesperadas, tentando por-se a salvo. É o caos. Roma em chamas. O fogo consome tudo. E eu danço com a minha amada. É a imagem que vem. Tenho medo.

PABLO NERUDA



Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Pablo Neruda

Imagem retirada do Google

Fonte: http://wind9.blogspot.com/2008/09/ode-poesia.html
http://agostinhodasilva.blogtok.com

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

JIM MORRISON


Depois destes anos todos chego à conclusão que é com o Jim Morrison que me identifico mais. Sucessor e leitor dos beatnicks, Morrison já dizia que "se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que sentem". Jim foi um revolucionário mas não um revolucionário tradicional. O poeta dos Doors apelou para o caos, não tinha uma cartilha pré-definida, não tinha de estar sempre lúcido nem de se portar sempre bem. Apelou para o caos porque entendia que era esse o caminho para a luz, para a liberdade. Deu ao rock a dimensão teatral. Era um xamã, aquele que entrava em contacto com os deuses e com a loucura. Não se contentava em cantar a paz e o amor como os hippies. Achava-os ingénuos. Queria chegar lá mas achava que tínhamos de atravessar o caos, "atravessar para o outro lado". Percorreu a estrada do excesso para alcançar a sabedoria, como indicou William Blake. Quis ultrapassar os limites. Entendia que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível, ao ganhar dinheiro. Revoltou-se contra a autoridade, contra a polícia. Foi um espírito livre, um menino e um bailarino no sentido nietzscheano.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

E O MERCADO SEM CONTROLE


Ministro das Finanças comenta falência da Lehman Brothers
Teixeira dos Santos surpreendido com duração da instabilidade nos mercados financeiros
15.09.2008 - 18h53
Por Lusa
Pedro Cunha (arquivo)

Teixeira dos Santos diz que a evolução da falência do Lehman Brothers deve ser acompanhada atentamente
O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, manifestou-se surpreendido com a duração da instabilidade que tem afectado os mercados financeiros, hoje agravada com o anúncio da falência do Lehman Brothers, o quarto maior banco norte-americano, reconhecendo o impacto negativo que esta crise tem nos agentes económicos.

"Creio que há uma ano atrás todos esperávamos que esta situação e a incerteza que daí decorria se pudesse desvanecer mais rapidamente", declarou Teixeira dos Santos à margem do fórum dos empresários e gestores portugueses e luso descendentes de França, em Paris, quando confrontado com as consequências da falência do Lehman Brothers.

O ministro português afirma que a crise "está a ter uma duração que está a surpreender todos". "Ninguém há um ano atrás esperaria que se demorasse tanto tempo a ultrapassar esta situação nos mercados financeiros", acrescentou.

Teixeira Santos defendeu que é "importante" que as autoridades europeias e nacionais, incluindo as portuguesas, "sigam atentamente" a evolução da situação em consequência da falência do Lehman Brothers, "preservando a solidez e a estabilidade das suas instituições financeiras".

O membro do Governo sublinhou que "o próprio Banco Central Europeu já teve o cuidado de intervir no mercado, injectando liquidez, concertando-se com as autoridades nacionais, com outras autoridades de outras regiões, como os EUA, procurando manter a normalidade do funcionamento dos nossos mercados monetários, que é fundamental".

O ministro das Finanças reafirmou que, apesar da revisão em baixa das previsões de crescimento económico na Zona Euro, só irá divulgar o novo quadro macroeconómico quando apresentar o Orçamento do Estado para 2009 em meados de Outubro.

in PÚBLICO.

DIÁRIO


Já sou conhecido por estas bandas. Já sabem que por aqui eu tomo sempre café. Mas o que eu realmente queria era escrever poesia automática à boa maneira de Breton. O que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
Prometi a mim próprio que ia escrever todos os dias. Prometi a mim próprio que iria escrever divinamente, que iria aparecer nos jornais e na televisão. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
No entanto, sei que a minha poesia não dá para ganhar prémios e dificilmente aparecerá na televisão. Estou condenado a ser o poeta maldito que, de vez em quando, escreve bem. Estou condenado ao "underground". Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
As amigas falam comigo, dão-me conselhos, gostam de mim. As amigas preocupam-se comigo. As amigas não querem que eu acabe a mendigar. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.
Já li muitos livros. Já conheci muita gente. Já tive visões. Já vi o céu e o inferno. Mas o que eu queria realmente era engatar a loira que tenho à minha frente.

SOU O POETA


Sou o poeta
que não aparece
nas colectâneas
sou o poeta
que não se adapta
à vida prática
que não atina
com as leis do mercado
que se aborrece
com o quotidiano
com a fala fácil
com a piada a propósito
sou o poeta
que não se reduz à mercadoria
que permanece à mesa
que tem os livros na livraria
sou o poeta
que vive como poeta
que ama os surrealistas
que vem ter com a amiga
sou o poeta
que escreve nos cafés
que vai aos bares
e bebe copos
sou o poeta que berra
que insulta
que amaldiçoa
sou o poeta
que traz a magia
que vomita a poesia
sou o poeta
que traz a revolta.

Porto, 14. Set. 2008

MÁRIO CESARINY


Faz-me o favor...
*
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
*
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
*
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
****


Em todas as ruas te encontro
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
*
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
*****
*



voz numa pedra
*
*
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
***
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa
nenhuma
nada está escrito afinal


**
Mário Cesariny

domingo, 14 de setembro de 2008

DIÁRIO


Estou noutro café no Porto. Há poucos cafés abertos ao Domingo. A TV passa filmes de aventuras. Ando a dormir muito. Estes filmes americanos da fala fácil, da piadinha a propósito já enjoam. Sou um poeta! Um poeta que não aparece nas colectâneas de novos poetas. Um poeta que não atina nem se adapta às leis do dinheiro, do trabalho e do mercado. Um poeta que se aborrece com o quotidiano mas que ainda assim escreve sobre o quotidiano. Um poeta que ama os surrealistas e os situacionistas. Um poeta que não se reduz à mercadoria. Um poeta que vem ter com a amiga. Um poeta que está, uma vez mais, à mesa. Um poeta que tem os livros na livraria. Um poeta que vai vivendo como poeta. Um poeta que vai aos bares e bebe copos, que só não bebe mais porque não tem mais cacau. Um poeta que escreve nos cafés.

Quem quer namorar com este pobre diabo? Quem quer namorar com este teso? Quem quer viver com este inábil nas tarefas domésticas? Quem quer viver com um inadaptado ao trabalho? Quem quer namorar com quem não reconhece o primado do dinheiro e do mercado?

DIÁRIO

As pessoas ainda me tratam como a um cidadão respeitável. Nem imaginam as ideias que me passam pela cabeça. Nem imaginam que eu sou quem sou. Nos últimos dias não tenho conseguido escrever poemas. Só me sai esta prosa. Não sei explicar o fenómeno.

ANARQUISMO


O Anarquismo numa só lição - por Normand Baillargeon ( professor de ciências da educação no Quebec)

Eu, Normand Baillargeon, vosso primo afastado do Quebec, eu sou, no meu verde país, professor de anarquia…Ou quase…Lições e anarquia parecem-vos uma contradição? Nem Deus nem Senhor e ainda menos Lições, proclamam os velhos anarquistas. Ok, tudo bem, mas não vos esqueceis daqueles que nada sabem do assunto. Então, para os neófitos, proponho um pequeno e breve curso destinado aos que nunca viram a vida segundo a perspectiva da cor do anarquismo. Para os outros, trata-se apenas de uma ocasião para rever a matéria dada!

Imaginais uma desordem mundial, um caos terrível, uma confusão monstruosa. Será que vocês estariam por lá?
O primeiro jornalista que aparecesse falaria espontaneamente de anarquia para descrever a cena. Neste tipo de situações, a reacção é sempre a mesma.
Mas a verdade é que essa reacção resulta de uma pura atitude de anarcofobia.
Balelas! - dirão, porém, os anarquistas, de que briosamente faço parte.

O anarquismo designa uma tendência própria do pensamento social, político e económico moderno. Defende uma convergência possível e desejável entre o socialismo e o seu princípio de igualdade, e o liberalismo e o seu princípio de liberdade.
O anarquismo procura realizar esta síntese ambiciosa quer na autogestão económica quer na democracia participativa.
Através da primeira ele recusa o lucro e a organização hierárquica do trabalho, preconizando a solidariedade e a igualdade. Partilha das riquezas, mais do que de um leque de opções ( stock-options). Através da segunda, ele rejeita a ideia de delegação e defende a participação directa das pessoas no processo de tomada das decisões.

Os anarquistas distribuem-se por diversas tendências – há os que são individualistas, colectivistas, mutualistas, sindicalistas, e outros mais. Mas todos eles têm a sabedoria de desconfiar dos planos de organização social e económica, demasiadamente rígidos e definitivos, assim como dos conceitos absolutos. Rejeitam admitir um limite aos arranjos sociais e às condições desejáveis da vida humana, uma vez que eles pensam que, em condições de real liberdade, a sua expressão será cada vez melhor.

Os anarquistas pensam então que a liberdade, como nunca deixou de acontecer, inventará constantemente novas soluções para os problemas, e que a sua extensão permitirá cada vez mais a denúncia das formas de dominação, que não deixarão de também de se revestir sob modalidades inéditas à medida que os tempos passam.

Só isso? Quase.
Sim, porque o anarquismo luta também contra tudo aquilo que contribui para impedir que as pessoas assumam elas próprias o seu próprio destino, e, além disso, desafia-nos para que se comece, desde já, a construir a primícias de uma sociedade mais livre e igualitária do amanhã.
O anarquismo significa ainda a rejeição, pela acção directa, daquelas instituições que procuram dominar, sujeitar e matar aquilo que Bakunine chamava «o nosso instinto de liberdade», e que buscam incutir a docilidade, a passividade e a submissão. Como não é difícil de adivinhar, nos tempos que correm, há muito por fazer para quem, como nós, chega às estas conclusões. Por isso, o anarquismo é, na minha opinião, a única alternativa válida face à catástrofe universal para que nos querem empurrar e que significa, ela sim, o autêntico caos que devemos duvidar e combater.


Texto do Normand Baillargeon, professor de ciências de educação, publicado no nº 1 do jornal Siné-Hebdo,


Normand Baillargeon é o autor do livro «Pequeno curso de autodefesa intelectual (« Petit cours d'autodéfense intellectuelle«).

http://pimentanegra.blogspot.com

MIGUEL-MANSO


ÚLTIMO CIGARRO

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia



Miguel-Manso nasceu em Santarém em 1979. Publicou recentemente, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas: Contra a Manhã Burra. Vive em Lisboa.

sábado, 13 de setembro de 2008

DIÁRIO


Aqui junto ao mar escrevo. Tenho andado um bocado chocho. Ontem adormeci a ver "O Grande Ditador" de Chaplin. Não sei explicar o que se passou. Queria tanto ver o filme. Saí com uma amiga e as palavras não saíam. Quase parecia deprimido. Mas deprimido não estou, felizmente. Há quem publique os meus poemas e quem elogie a minha actividade de dizedor. Há gajas que gostam de exibir as mamas. Há coisas belas mas também há coisas muito más. Más demais.